13 de agosto de 2010

Sorte

Marinho ao nascer escorregou da mão do obstetra e caiu no chão. Tudo bem com ele, mas aqui deram a largada à sua sina. Era um bebê saudável e aqueles próximos a ele o consideravam um sortudo: nada de grave se manifestava em conseqüência dos constantes acidentes. Não havia banho em que o bebê Marinho não engasgasse. As papinhas não paravam sobre as colheres tortas ou pratos coloridos. As tintas dos brinquedos de morder sempre lhe pintavam a cara.

Mais crescido, seus pirulitos caíam no chão após algumas lambidas. Empolgava-se com os primeiros pacotess dos álbuns de figurinha que colecionava apenas para imediatamente decepcionar-se com as duplicatas com as quais era premiado. Suas pipocas vinham frias ou insossas no cinema. Às vezes pedia só um refrigerante, invariavelmente sem gás. Suas pizzas chegavam cruas na parte do meio e colecionava vermes de alface num potinho com formol.

As professoras levavam canetas sobressalentes nos dias de prova porque as de Marinho secavam ou vazavam assim que era dado o sinal de início. Lápis nunca mantinham suas pontas e lapiseiras entupiam definitivamente.

Mas também tinha momentos felizes. Deu seu primeiro beijo no mesmo dia em que colocou aparelho – seus dentes acumulavam até mingau. Era uma menina linda de olhos verdes e que também usava aparelho. Ficaram com os rostinhos colados por um longo tempo até que alguém veio desenganchá-los. Foi o beijo mais longo de sua vida.

Os animais também o adoravam. Cães adivinhavam onde seus pés pisariam e passarinhos miravam em seus ombros e acertavam com a destreza de um atirador de elite. Ia pouco à praia, pois sempre chovia.

Mas marinho tinha uma atitude positiva em relação à vida. Nunca xingou os motoristas de ônibus que não paravam quando fazia sinal nem discutiu com taxistas que não tinham troco para suas notas de cinqüenta. Agradecia toda vez que recuperava sua bagagem extraviada no aeroporto e sempre reconhecia a superioridade do adversário quando goleavam seu time aos domingos.

Vocês podem pensar o contrário, mas Marinho era muito organizado. Mantinha tudo em seu lugar tanto em casa como no trabalho. Nunca faltavam velas, band-aids, mertiolate ou remédios para as freqüentes dores de barriga – a comida sempre lhe reservava surpresas.

Era essencialmente um curioso apesar de não ter o hábito de navegar na internet, pois sua operadora fazia manutenção com freqüência em sua região. Suas revistas favoritas esgotavam nas bancas ou eram entregues em outros endereços. Sua correspondência como um todo chegava ao seu apartamento pela boa-vontade do vizinho do 601. Mas o grande mistério que aguçava a curiosidade dele era a eletricidade. Achava mágica a forma como ela fazia o mundo mover-se e o fato de estar em todos os lugares e em todos os momentos, exceto os mais importantes como na sua vez da fila de check-in no aeroporto, ao sentar num restaurante chique, após o apito inicial da final do campeonato que acompanha pela TV ou ao chegar com as compras logo após guardar os congelados.

E era um cara consciente. Só fazia sexo seguro, pois sempre interrompia quando a camisinha estourava. Por ser assim tão humano não tinha dificuldades com as mulheres, apesar de seus relacionamentos não terem sido duradouros. Era tão atencioso que guardava de cabeça as datas importantes e mandava chocolates lascivos e flores exuberantes que suas namoradas recebiam respectivamente mofados e murchas. Uma delas amou tanto a surpresa de receber uma casa de maribondo no meio das orquídeas que decidiu fazer um curso de biologia selvagem no Sri Lanka e pediu que ele não ligasse mais.

A partir daí não ligou mais. Ficava bem sozinho entre seus livros com páginas faltando e DVDs que travavam nos momentos cruciais. Só tinha um que conseguia assistir até o final. Era um clássico da cinematografia tcheca cujas legendas em português vieram defeituosas. E relaxar era para ele uma necessidade, pois seu chefe era exigente e severo, não permitia atrasos, exigia que suas roupas estivessem impecáveis e suas gravatas livres de manchas de café, assim como os relatórios.

Marinho era feliz naquele mundo torto dele que ficou ainda mais completo no dia em que conheceu Clara. Ela era linda, inteligente, bem-sucedida, independente, bem-humorada e tinha interesses parecidos com os dele. Ou seja, tinham muito em comum.

Encontraram-se casualmente quando o carro de Marinho parou sem gasolina no meio do túnel apesar de o mostrador do painel apontar meio tanque. Ela lhe emprestou o celular, pois o dele estava descarregado, se entreolharam e Marinho insistiu num jantar que compensasse o aborrecimento. Clara aceitou o convite galanteador e marcaram naquela mesma noite em um restaurante tailandês.

Clara chegou alguns minutos depois da hora combinada. Queria ver se ele chegaria e aprontaria todo o cenário para ela, mas sua surpresa não foi pequena quando ele apareceu quarenta minutos depois. Vestia um pulôver de lã desproporcional ao frescor daquela noite de outono que compartilhavam. Clara via o rapaz suar por dentro daquela roupa e mesmo assim encantava-se com seu jeito atrapalhado. Esse encanto foi ebulindo em desejo na medida em que o mekong servido lhe atiçava as brasas do coração. Sugeriu então que esticassem a noite em seu apartamento. Marinho gostou da idéia. Lá poderia desfazer-se do casacão e ela poderia trocar a echarpe na qual ele derrubara o molho curry alaranjado.

Os amassos começaram já no elevador que demorou a chegar ao nono andar devido aos esbarrões que Marinho dava nos botões do painel. O apartamento era arejado e amplo, com uma decoração minimalista que diminuía o potencial destrutivo da presença do rapaz. Ele já se despia das peças superiores de sua indumentária e Clara riu ao ver que a camisa que usava por baixo tinha uma enorme mancha de queimadura do ferro de passar. Aqueles deslizes de atenção só aumentavam a luxúria da menina.

Daí em diante tudo correu como vem correndo desde que o mundo é mundo. O amor fluiu entre eles e marcou seus destinos para a eternidade. Apesar de nunca ter duvidado, Marinho se convenceu de que era um cara de sorte.

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