23 de setembro de 2010

O conto que não foi

Esse ano o concurso Contos do Rio promovido pelo caderno Prosa e Verso do jornal O Globo foi aberto para textos baseados na fotografia abaixo. Escrevi e me inscrevi no concurso. Agora que saiu o resultado dos 10 melhores e meu nome (infelizmente) não consta entre eles, posso publicar. Agradeço todos os palpites sinceros, as ajudas desinteressadas, aos cortes e edições em cor-de-rosa e, principalmente, a todos acreditaram que ele poderia ter alguma chance. Obrigado



MILAGRES

O pároco arrumava o altar para a cerimônia prestes a começar. Aos poucos os fiéis chegariam à igreja naquela manhã fria para aquecer suas almas com as palavras do Senhor. Tudo estava a postos: cálice, hóstia e incenso. Fileiras vazias.

O executivo tomava café na esquina do escritório. Alheio ao movimento, sorvia motivação para mais um dia e trabalho. Tudo conforme o previsto: jornal, relógio, maleta. Vida vazia.
O pivete se preparava para dormir. Escolheu uma marquise escura num beco entre Rosário e Buenos Aires, colocou os braços para dentro da camisa surrada e bocejou dando boas-vindas ao sono. Ajeitando-se no chão úmido, retirou do bolso um relógio – seria sua refeição mais tarde. Não resistiu mais: cola, garrafa, papelão. Barriga vazia.

O pároco vestiu a túnica colorida, comeu um pedaço de bolo e tomou o último gole de café na sacristia antes do sermão. Entrou na nave e sentiu uma pontada de desgosto por ter dedicado a vida ao Senhor e não ter sido recompensado com a audiência que gostaria. Respirou fundo, fitou a porta entreaberta da igreja e relutou em começar a missa sozinho.

O executivo entrou no elevador lotado e apertou o 7. Reviu mentalmente a agenda do dia e se sentiu orgulhoso ao se lembrar das quatro reuniões nas quais sua presença era indispensável. Ao sair do elevador, no entanto, seu coração parou ao ver como estava linda a recepcionista de olhos de mar por trás do balcão da recepção.

O pivete mergulhava no período R.E.M do sono. Agora não havia Cristo que conseguisse acordá-lo. Via o irmão soltando pipa no alto da laje. Ela tremulava perto das nuvens e a rabiola colorida apontava para ele como que convocando-o a voar. Seus pés aos poucos deixaram o chão poeirento e levitaram em direção ao céu.

O pároco, antes da primeira oração, ainda foi até a porta para abri-la totalmente. Do alto da escadaria, viu o movimento do Centro, pululante de almas a serem preenchidas por suas palavras. Olhou para o céu onde havia uma grande nuvem branca e redonda acima da igreja. Decidiu que era Deus e fez-lhe uma prece: “Senhor, tu pediste minha vida e cá estou sem nada pedir em troca. Encaminha, Pai, Teus filhos para ouvirem a Tua palavra através da minha voz.”

O executivo abaixou os olhos e decidiu cumprim
entar a recepcionista apenas com um balbucio, como fazia na maioria das vezes. Apertou o passo e sentou pesado em sua baia, já ressentido de sua covardia. Enquanto os pensamentos fugiam dela, o coração buscava-a aflito. E seu corpo inteiro tremia, massacrado e ferido do conflito. Foi até a janela tomar café. Olhou para o dia que começava e viu uma grande nuvem branca e redonda tomando quase todo o Centro. A nuvem parecia engolir a cidade como a paixão pela recepcionista engolia-o. Abriu a janela, sentiu a brisa fria do 7º céu e confessou: “Tenho uma enorme vontade de voar. Só me falta para onde ir.”

O pivete abraçou-se à rabiola da pipa do sonho e foi conduzido por entre fotografias da recente infância perdida. Sua mãe então surgiu como um imenso monolito negro com um pano branco a cobrir-lhe os cabelos. Na parede da memória, esse quadro era o que mais lhe doía. Acordou de barriga para cima, suado apesar do vento frio que corria encanado pelas ruelas do Centro. Ergueu-se ainda sonolento e foi até o chafariz com olhos entreabertos contra os borrifos sem conseguir esconder as lágrimas. Mergulhou e ao levantar, viu o padre no alto da escadaria da igreja, braços ao céu azul que, agora longe das sombras duras dos prédios, o pivete conseguia ver. E esse azul estava sendo tomado por uma grande nuvem branca e redonda. Nela, reviu sua mãe e pediu em seu íntimo: “Perdoa, mãe. É tudo culpa minha”.

O pároco, atônito, observou a figura esquálida do pivete até sentar-se na primeira fileira da nave. Viu-o ajoelhar-se e concentrar-se com fervor numa prece sibilada por entre os vazios de sua dentição. Deixou o sermão de lado e levou o pobre pivete para comer bolo na sacristia.

O executivo, enchendo-se de coragem, respirou fundo uma última vez, ajeitou a gravata e voltou para sua baia. Sem pensar, abriu o e-mail e digitou um convite para a recepcionista: almoço ao meio-dia, naquele restaurante entre Rosário e Buenos Aires. Na hora marcada, sob da grande nuvem branca e redonda que cobria o Centro, encontraram-se. Ela vinha com um sorriso nos lábios e ele um sorriso no peito. Seus olhos se abraçaram e, apesar de o tempo prometer muitos beijos apaixonados, apenas entrelaçaram as mãos e entraram no restaurante.

Algumas horas depois, a grande nuvem branca e redonda que cobria o Centro se desfez. Naquela noite, não haveria fileiras, almas ou barrigas vazias.

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