11 de outubro de 2010

Calmaria

Os barcos boiavam na enseada de mar liso. Naquela hora da manhã nem os peixes estavam acordados, mas já havia fogo aceso e pão na mesa das casas dos pescadores. As mãos grossas rematando os últimos ajustes das tarrafas para que nem uma pequena manjuba pudesse escapar, não vacilavam com o fio tenso e forte entre os nós que só eles conseguiam fazer e desfazer, mais firmes que os nós de seus próprios dedos.


As redes eram como extensão de seus corpos, seguiam cardumes para num abraço trazer para si a fartura que o mar lhes reserva. A cada um sua parte, ao peixe a certeza de cumprir sua predestinação submissa ao anzol. Os magros pescadores, espíritos naquela manhã ainda sem luz, cambaleavam seus passos sonolentos até a praia carregando nas costas o branco fardo de malha que lhes alimentaria o ventre e a esperança. Um dia no mar era um dia sagrado, uma noite em terra, abençoada.

Em pouco tempo, uma pequena multidão postava-se ao píer, silenciosamente desejando boa ventura aos que saiam. A lua cheia ainda insistia em encontrar o sol, presságio de mar cheio e povoado. Os barcos saiam um a um, sem pressa, jogando pra lá e para cá seus tripulantes e formando uma leve espuma que subia ao ar e voava até os olhos das mulheres, cabeças cobertas por panos, chorando o medo de que o mar lhes tomasse seus maridos. Lágrimas apreensivas de uma saudade antecipada ou possível ausência permanente.

E elas seguiam acompanhando a partida até não verem mais do que pontos negros contra o laranja da manhã. O sol emergia do mar no horizonte e por alguns instantes, o próprio mar era luz. Uma estrada dourada ligava o píer e os barcos e, por trás destes, no céu livre de nuvens como pano de fundo, as gaivotas iam alto guiando os pescadores na direção correta.

Sob a coreografia das aves estacionadas no ar, os barcos jogavam seu véu branco sobre aquele azul reluzente. Havia um ritual a ser cumprido, como um código de ética passado de geração em geração: os primeiros peixes eram das gaivotas, como uma oferenda pela eterna ajuda. Banqueteavam-se e diminuíam os cardumes, facilitando ação das tarrafas. Pescar era uma liturgia que, se encenada de forma correta respeitando as deidades, elas lhes garantiriam as dádivas.

E enfim os pescadores desenrolavam a seda sobre a água. Num movimento de ossos aparentes sobre as peles fustigadas por tempo e sol, eles a atiravam como suas próprias bocas a engolir do mar o necessário. Com as redes baixando sobre os cardumes, os barcos davam meia-volta devagar em retorno á praia e, na areia agora deserta, amarravam numa única todas as cordas de todas as redes, como uma goela por onde todo esperado peixe passaria rumo à saciedade daquela gente.

A corda então ficava tensa a meio metro do chão, uma luta entre elementais. De um lado, esquálidos e numerosos, os homens tentavam trazer o mar. Do outro, o mar egoísta lutava para manter dentro de si o que lá nasceu. E a disputa era desigual. As crianças perguntavam sobre o tamanho do peixe que viria imaginando grandes baleias e monstros enrolados na praia.

Invariavelmente a persistência dos homens vencia a teimosia do mar. As redes repletas chegavam à praia com prejerebas e robalos. Peixes simples para barrigas simples. De vez em quando, um xaréu ou um tarpão sobressaía entre a espicha menor e era dado ao pescador mais velho.

Excitados e famintos ao redor do frenesi dos peixes na água rasa, os pescadores dividiam a pilhagem marítima e levavam suas partes de volta para casa, lareiras acesas aguardando a segunda e última refeição. Os barcos descansavam ancorados à margem enquanto os corpos procuravam ancorar-se uns aos outros, voltando, o mar e as vidas, à lisa calmaria do final da tarde.

Nenhum comentário: