7 de outubro de 2010

Última lista de afazeres

Ao encarregado dos preparativos para velório e sepultamento de meus restos mortais.


Fenecerei à noite para garantir oportunidade a todos de rezarem por minha alma e, quem sabe, me encontrarem em sonho para as últimas mensagens. O horário ainda está em aberto, logo peço que acompanhe de perto o desenvolvimento dos acontecimentos e dispare, o quanto antes, e-mails, twitters, posts do Facebook e scraps do Orkut para todos na lista anexa.

Providencie caixão de madeira simples com três alças de cada lado e pouco resistente pois há casos em que um é dado como morto e acorda sepultado. Quero morrer de minha própria morte, qualquer que seja, não por sufocamento causado por alguma idiotice. Dentro, prefiro as flores sem perfume pois, caso acorde, não as quero estimulando minha alergia. Odeio coriza. O revestimento deve ser branco e confortável e não esqueça o pé-de-cabra, o megafone, a lanterna, três pacotes de barra de cereal sabor morango com chocolate, uma garrafa de energético, uma caixa de suco de laranja light, quatro guardanapos e meu iPhone. Certifique-se do alinhamento das mangas do terno para que as abotoaduras não apareçam sobre meu peito e que os sapatos pretos estejam encerados.

Na cerimônia quero músicas clássicas em som ambiente, preferencialmente Schübert e Rachmaninov. Concertos para piano e violoncelo. As faixas estão no meu laptop na pasta denominada “Para quando eu for”. Devem ser executadas na ordem que lá estão. As coroas e as lembranças devem ser recebidas sem alarde e sem lágrimas. Quero-as, as lágrimas, todas para o momento do sepultamento o qual descreverei à frente com detalhes.

O velório deverá ocorrer à tarde em sala aberta e arejada, pois não sei quais serão as condições do meu corpo e não desejo provocar nos presentes sensação de náusea. Caso esteja de alguma forma desfigurado, favor contatar o escultor cujo telefone encontra-se no cartão afixado no alto da folha em anexo. Ele tem em sua posse um molde de minha face em louça que deverá ser maquilada conforme o aspecto do meu rosto na foto também afixada junto ao cartão, essa onde apareço na praia.

As pessoas que seguirão o cortejo devem estar posicionadas em ordem de altura do menor para o maior, exceção para os seis encarregados de levar meu caixão. Para esses, o anexo II deve ser disponibilizado com quatro horas de antecedência ao início do velório para que possam ensaiar os movimentos, velocidade e distância entre cada passo. O cortejo deve durar exatamente oito minutos e dois segundos coincidindo com a execução da música Stairway to Heaven, na versão que se encontra na pasta “Cortejo” e deve ser iniciada ao primeiro passo comigo aos ombros, terminando ao colocarem-me sobre os cavaletes ante o padre.

O padre já deve estar no local antes da minha chegada e deve recitar em latim os quatro primeiros capítulos do Levítico antes da descida do caixão. A água-benta deve ser aspergida no compasso das batidas do coração do Taco, meu furão de estimação. Quero-o tosado e alimentado antes do sepultamento. As cordas que sustentarão minha descida devem ser de crina de cavalos árabes e quero que parem por dois segundos a cada zero vírgula setenta e cinco palmo e, em uníssono, os presentes entoem Marcos capítulo onze, versículo nove.

E, quando eu chegar ao fundo, quero um silêncio de um segundo para cada ano de vida. A primeira pá de terra deve conter, além de terra, arroz, sal, açúcar, farinha, aveia, cicuta, sucrilhos e sementes de girassol. Neste momento, pode autorizar as lágrimas. Autorize também a jogarem as flores. Ao final, toque um apito sem bilha por quatro segundos e libere a todos. Em quatro dias enviarei, via psicografia, as orientações para a missa de sétimo dia.

Um comentário:

Dri disse...

Deus permita que essa criatura viva uns 100 anos pra não dar trabalho pra ninguém!!