23 de novembro de 2010

50.000 cacos

 A porta se fechou com um estrondo e a fruteira de vidro rachou pela violência com que o molho de chaves caiu sobre ela. Bernardo mal se agüentava de ansiedade, rasgando o pacote que acabara de receber do correio. Teve alguma dificuldade para retirar a fita adesiva que trancava as dobraduras do papel pardo, mas tanta era sua vontade que arrancou-lhe à unha.

Deu um suspiro ofegante quando retirou o último pedaço do embrulho e não conseguiu segurar, dentro do azul dos olhos, sequer uma lágrima ao ver-se diante do que esperava há tanto tempo. Na caixa lia-se em enormes letras coloridas “50.000 peças”. Não importava se era uma paisagem polar, uma nave de igreja barroca ou um aposento gregoriano. Alguns segundos depois, aqueles suficientes para arrancar os últimos plásticos protetores, lá estava o rapaz debruçado sobre um emaranhado de pequenos pedaços de cartão recortado, um quebra-cabeças.

Antes de começar a liturgia que lhe consumiria alguns dias, quiçá semanas conforme era sua esperança, pois tanto melhor quanto mais intrincado, olhou nas paredes da sala como troféus os vários desafios previamente superados. Na parede maior, sobre a tevê, deixou-se por alguns contemplativos segundos a relembrar os últimos momentos daquele Baco de Caravaggio em tamanho original.

Tomou fôlego e voltou atenção ao monte de peças que o encarava. Uma a uma elas iam e vinham diante dos seus olhos, um milhão de detalhes, cores, concavidades e reentrâncias cujo balé de possibilidades era a paz, encontrar sentido naquele caos, ordem naquela desordem.

Aos poucos pequenas metades se fundiam em proto-imagens, noções, que iam formando novas metades a se fundiam com outras peças. Viam-se, agora, dois olhos, uma orelha, um queixo barbado e proeminente. Era sem dúvida um rosto, um retrato.

Não dormiu. O dia seguinte passou e mais um e mais um. Também não comeu durante esse período, o que dava-lhe, hoje, uma aparência destratada e entregue. As olheiras eram toneladas sobre as maçãs-do-rosto e Bernardo seguia montando: face, pescoço, ombros. Mais do que um retrato, era um busto.

Mais três dias se passaram e Bernardo seguia febrilmente o processo de escolha, verificação, raciocínio e encaixe. Escolha, verificação, raciocínio e encaixe. Escolha, verificação, raciocínio e encaixe.

Enfim, no sétimo dia, restava-lhe pouco mais do que algumas dezenas de peças. Com o nariz arrastando na figura, preocupado apenas com os detalhes, ainda não havia reparado na imagem que ia completando. Quando as luzes pediram para serem acesas, Bernardo tinha somente uma peça na mão. Era uma peça escura com dois lados retos, pressupondo o ângulo do canto inferior esquerdo do painel.

Vagarosamente aproximou a peça do vazio que clamava por ela e encaixou, mas em vez de sentir aquela mesma antiga sensação de plenitude das outras conquistas, um calafrio foi o que lhe subiu pelas costas secas de cansaço. Trôpego e descrente viu um buraco, uma mancha clara da cor do chão onde deveria estar uma peça na altura do coração do personagem retratado.

Ficou de pé. Fitou panorâmicamente toda a imagem e viu a si mesmo, mesmos olhos azuis, mesmo cabelo jogado, mesmas olheiras de cansaço. E mesmo vazio no peito. Estremecendo, correu para o banheiro e viu-se mais uma vez com o mesmo aspecto no espelho e socou-lhe com tanta força que levou o sangue a respingar no teto. Procurou dentre estilhaços aquele mais apropriado para substituir a peça faltante. Trêmulo como quem está prestes a chegar onde é esperado, revirou a poça vermelha que se formava no chão até resgatar dela o pedaço de vidro que lhe serviria.

Levantou-se devagar para que o escuro que já chegava à sua visão periférica não a engolisse por completo. Cambaleou apoiando-se nos portais até deixar-se cair ao lado do auto-retrato-quebra-cabeça. Tentou limpar o sangue do pedaço de espelho que trazia do banheiro, quebrou-lhe uma pequena aresta para garantir o encaixe perfeito e pousou o dedo ensangüentado completando a obra.

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