29 de novembro de 2010

Conte um Conto da ABL

Como já saiu o resultado do concurso Conte um Conto, da ABL, que tinha como proposta escrever um novo final para o conto A Cartomante, de Machado de Assis, agora posso publicar o final que eu escrevi. Para quem não conhece o conto, sugiro lê-lo AQUI. A idéia era partir do momento em que Camilo sai da casa da cartomante e vai para a casa do amigo.


Chegando, apeou e avançou pelo pátio até a soleira, onde fitou as carrancas que guardavam a pequena varanda e anunciou-se batendo à porta.

Villela estava febril. No escritório, serviu licor de jenipapo, acendeu o cachimbo e sentou-se ajeitando os óculos de cristal. Sob intensas baforadas, Camilo percebeu que as cartas anônimas deixadas com Rita repousavam na mesa entre eles e estremeceu, cogitando um erro nas previsões da cartomante.

Quanta ingenuidade, pensou. A anciã dissera-lhe só o que queria ouvir e lhe encheu de esperança, assim como antes o fizera com Rita. Como era fraco, vergando ao sabor dos que o influenciavam. Apaixonou-se quando compelido, traiu uma longeva amizade quando incitado, criou e destruiu uma vida inteira de filosofia ao bel-prazer do que sopravam em seu ouvido. Sua infantilidade destoava da figura adulta do amigo, altivo, bem-sucedido, fumando o cachimbo da maturidade. Resignado, decidiu tomar rédeas do próprio destino.

- Caro amigo, antes de tudo, quero confessar-te um erro pelo qual estou deveras arrependido. Venho encontrando-me em pecado com Rita. Estive distante a pensar como contar-te tal afã – mentiu.

Grave como de costume, Villela interrompeu.

- Camilo, acalma-te. Saibas que descobri Rita planejando meu assassínio e posterior fuga. De tonta a víbora nada tinha pois que deu-se ao trabalho de letrar um escravo que lhe emprestasse a caligrafia nessas cartas anônimas – disse apontando as cartas na mesa – com o motivo de chantagear-te. Chamei-te para desmascará-los juntos, mas como demoraste, tomei sozinho as providências para o exílio de ambos. Portanto, não desculpe-se – sentenciou o ex-magistrado – A traidora é ela.

Lívido, Camilo recostou-se novamente e sossegou num gole quente de licor de jenipapo.

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