10 de novembro de 2010

Incontinência

Na primeira vez eu tinha seis anos. Era meu primeiro dia na escola nova onde cursaria o CA. Não sei ao certo como aconteceu, mas, na altura da hora do recreio, já estava diferente. A professora foi quem percebeu a minha mudança, comentou com a diretora e depois com minha mãe assim que ela chegou para me buscar. Vi as três conversando com alguma gravidade no semblante.

A segunda vez foi durante as férias, muito tempo depois. Já era vaga a lembrança do incidente anterior. Foi num fliperama com os bolsos cheios de fichas. De repente, tudo parou e só meus olhos se moviam como acompanhando um movimento cadenciado, para lá e para cá. Mergulhado no transe, senti que devia lutar contra ele para me manter consciente. Balancei a cabeça, ergui-a e respirei fundo. Mas era tarde, o estrago já estava feito e durou por toda a minha adolescência.

A partir de então os episódios se tornaram mais freqüentes. Na rua, na praia, duas ou três vezes durante as festas. Cada vez mais intensos, me demandavam esforço cada vez maior de camuflagem.

O mundo muda quando se faz dezesseis anos. Não acreditei nas palavras de meu avô quando, ao entregar-me o envelope com dinheiro, me felicitava pelo aniversário. Mas o velho era cascudo e sabia das coisas, pois foi com essa idade que me tornei consciente da minha condição.

Foi um grande ano: dirigi pela primeira vez, tatuei uma águia nas costas e o Brasil foi campeão mundial de futebol. Foi durante essa comemoração o episódio mais dolorido. Imaginem-se no meio de uma multidão convulsiva de alegria. O clima era totalmente favorável para um final feliz de filme americano.

No meio daquela confusão um sorriso especial, que já vinha acompanhando há tempos, me lançava uma flecha afiada de sedução. Minha incontinência se manifestou com força total e fui ao encontro daquele sorriso. Felicitamos-nos pela conquista esportiva como se fosse nossa mesmo e sugeri um beijo que fosse ao mesmo tempo medalha e troféu eterno daquele momento. Mas a existência de um namorado desconhecido aguou os planos e tornou-se crônica também minha desilusão.

Depois disso acabei aprendendo a conviver com essa necessidade especial. Agora, toda vez que sinto a aproximação da crise aguda, volto a me sentir com seis anos e cruzo os braços sobre o peito tentando evitar a incontinência do meu coração.

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