25 de novembro de 2010

W Brasil

O exercício era fazer um conto utilizando a letra de uma música. Eu escolhi W Brasil do Jorge Ben Jor. Ficou mais longo do que o normal, mas os especialistas que leram acharam muito bom. Tá com tempo?

W Brasil


            Antes de a favela carioca ter essa imagem pejorativa de violência e descaso social que hoje tem, antes de ser reduto de tráfico de drogas e milícias, era um lugar de esperança. Um lugar onde famílias vindas do interior, de onde quer que fosse, poderiam se estabelecer livremente e sonhar com dias melhores para si e suas famílias ao som de radinhos de pilha sintonizados na hoje extinta BKW Brasil, cento e cinqüenta megahertz. Aos domingos a favela ressoava o chiado do velho radialista a chamar “Alô, alô – shhhhhhhh – WBrasil! Alô, alô – shhhhhhhh – WBrasil!”

            E foi nesse ambiente que floresceu a amizade de três garotos: Jacarezinho, filho de retirantes alagoanos, apelidado dessa forma por seu porte esguio, na verdade quase esquelético, e sua dentição exageradamente proeminente; Avião, menino meio avoado, motivo do apelido, tinha perdido o pai para a bebida quando ainda era bebê num município do interior do Rio do qual ele não lembrava o nome; e Disco Voador, moleque cabra-da-peste como lhe chamava a própria mãe na hora de acabar a correria pelos becos e tomar banho, processo demorado que acontecia nos dias em que havia água suficiente na caixa para a higiene de sua grande cabeça paraibana, motivo pelo qual foi apelidado dessa forma. Era comum ouvir as mães aos berros quando o carro-pipa chegava: “Jacarezinho!” “Avião!” E uma das mães, ciente da propensão para o desastre que tinha seu filho, vociferava com os vizinhos que estavam sempre levantando um puxadinho aqui ou ali: “Cuidado com o Disco Voador”, dizia já conformada com o apelido, “Tira essa escada daí! Essa escada é pra ficar aqui fora e não no meio do corredor”.

            Como não havia ali uma convenção formal, não havia a quem recorrer quando o menino espatifava-se não só contra escadas, mas contra carrinhos-de-mão, baldes de tinta e poças de cimento. Não poderiam, enfim, sentenciar algo do tipo “Vou chamar o síndico” e nem podiam contar com a polícia para manter esse tipo de ordem. Por isso, um código de ética velado sustentava as relações sociais. E eram exatamente essas relações que esses três meninos, cheios de sonhos e planos, se esforçavam para transgredir.

            As pessoas viviam chegando e partindo da favela. Uns voltavam para seus lugares de origem enquanto outros vinham buscando a tal da esperança. Um belo dia mudou-se para as redondezas uma senhora mulata com seu neto. A família toda havia ficado no Nordeste e a avó viera para o Rio para tratar a doença rara do neto – um tal de hipotireoidismo – que já manifestava no menino um quadro de obesidade. Mas alheios a todas essas complicações adultas demais, Jacarezinho, Avião e Disco Voador, receberam o novo amigo com a maior das honrarias, um apelido: Tim Maia. E, quanto mais o novo integrante demonstrava seu desagrado, tanto mais os meninos reforçavam-no: Tim Maia! Tim Maia! Tim Maia! Tim Maia!

            Os quatro, agora adolescentes, eram inseparáveis. Jogavam no mesmo time contra os meninos da rua de baixo e pegavam as menininhas das outras favelas nos pagodes. Mas o esporte preferido deles não era nem futebol nem beijo na boca, era o surf ferroviário. O trem corre nos trilhos da Central do Brasil e leva em seu cachaço os quatro moleques se desviando dos fios de alta tensão em alta velocidade. E eram bons nisso, o que lhes dava um status de heróis, aumentando tanto suas chances de ganhar os jogos de bola, devido à maior torcida que reuniam, quanto suas chances com as menininhas das favelas.

            Um dia, numa tarde de sol, os quatro entraram num dos vagões mais lotados. Idosos em pé, crianças de colo aos berros, mendigos esmolando, enfim, tinha de tudo dentro do vagão, incluindo paixão antiga de Avião. Ela havia mudado há muito para a casa de uma tia, Léia, que morava em melhores condições em Acari. Desde então, o contato tornou-se esparso, mas o sentimento, pelo menos por parte dele, maior. Quem lhes havia apresentado foi o Tim Maia que disse “Avião, essa é a Rita, irmã do Fernando, o belo, e prima do falecido Cabral 2, lembra dele, filho do portugês da venda, o Cabral 1?” No mesmo instante, Avião soube que havia algo diferente na menina, mas não chegou a dizer nada, ainda mais quando viu Jacarezinho aos beijos com ela num canto do baile. Até hoje, de sacanagem, o magricela relembrava o dia dizendo “E aquele beijo quente que eu ganhei da sua amiga?” ao que o próprio Avião respondia menosprezando: “E o que é que deu? E daí? Não tenho nada com ela mesmo”. E Jacarezinho, galhofeiro, completava “Funk na cabeçaaaaaa...” e ria junto com o resto da turma da cara amarrada de Avião.

            Nesse dia do trem lotado, talvez tenha sido o calor ou a distância prolongada entre os dois, o encontro inesperado levou Avião a deixar os amigos de lado e, se acotovelando pelo vagão, chegar perto de Rita. Ela o viu e o reconheceu. Cumprimentaram-se com dois beijos no rosto e, percebendo que o rapaz não iniciaria qualquer assunto, disse: “Você já viu o último Niu iorque taime?”, referindo-se ao informativo marginal que era impresso em mimeógrafo e distribuído na Central falando dos eventos jovens, próximas festas, etc. “Não” respondeu sincero e despreparado o rapaz. “Deu no niu iorque taime que o Fernando –  o Belo, meu irmão, lembra? – não sabe se vai participar do próximo campeonato de surf ferroviário”. Avião arregalou os olhos e, num movimento quase involuntário, natural à sua dureza e falta de noção, arrancou o papel da mão da menina. Se havia um campeonato disso, a gente tinha que saber! Passou os olhos pelo papel pensando “surfista de trem...surfista de trem” e, depois, vagou sua atenção deficitária por outros textos como o que dizia “A feira de Acari é um sucesso” sobre o que refletiu em sua ingenuidade, “é verdade...tem de tudo lá. É um mistério”.

             Despediram-se com mais dois beijos na bochecha e, sem mais palavras, levou consigo o papel meio amassado. Reencontrou os amigos quando desembarcaram em Japeri, estação que preferiam para subir às costas do trem. Avião nem deu tempo de os meninos perguntarem o porquê daquela cara de quem viu fantasma e foi logo lhes entregando o papel. Enquanto os outros três liam sobre o campeonato, Avião dizia “Deu no niu iorque taime! E a gente não sabia!”

            Levantando os olhos do papel mimeografado, Jacarezinho olhou para o nada como se percebesse o desafio no ar. “Ouvi falar dessa parada...começou já tem um tempo. Dizem que o Cabral 1 descobriu a filial, começou a parada faz mais de dez anos. O cara era fera, fazia até acrobacia nas costas da cobra de ferro. Mas aí a idade chegou e o maluco aposentou. Dizem que o Cabral 2 tentou e se deu mal. O filhote de cruz-credo foi tentar pular um fio, tropeçou e virou churrasco”. Todos se olharam esperando a conclusão, mas Avião não deixou: “Vambora mostrar pra todo mundo então o que a gente faz, cambada!”. E num uníssono, os quatro se abraçaram e subiram o poste para esperar o trem chegar.

Os quatro perambularam pelas favelas para descobrir quem estava organizando o campeonato, pois Avião não queria pedir a Rita perguntar para seu irmão Fernando, o belo, aparentemente uma referência no assunto, já que foi entrevistado pelo famoso panfleto, como fazia para se inscrever. No fundo, Avião queria ser campeão do torneio e mostrar para Rita que era melhor que o Jacarezinho mirrado que ela havia preferido. Amor! Dor! Dor! Era o máximo que seu intelecto reduzido conseguia resumir.

            Acharam o barraco que concentrava as inscrições num beco na Vila do João. Duas pessoas estranhas guardavam a entrada do barraco e perguntaram: “É aqui que faz inscrição pro campeonato de surf?”. Um dos mal-encarados virou para o outro e disse “Deixa passar. Lá da rampa mandaram avisar que os moleque são tranqüilo”, se permitindo o erro de concordância. A taxa era cara e, prevenidos, os rapazes antes de pagar ainda perguntaram como conseguiriam o dinheiro de volta caso a polícia desse o ar da graça no dia do evento. “Todo dinheiro será devolvido...” disse o suposto tesoureiro do evento que recolhia as notas amassadas dos garotos. Cada um recebeu um envelope e saíram tão felizes com a ousadia que nem perceberam o que o tesoureiro dizia num tom debochado e sorriso maléfico “...quando setembro chegar”.

Num pedaço de papel também mimeografado dentro de cada envelope de azul índigo que haviam recebido se lia data e local onde deveriam estar para o início da competição. Durante os sete dias que o separavam da data, Avião, em treinamento, passou percorrendo diversas vezes as linhas do trem da Central passando pela Mangueira, dando uma volta na Pavuna e chegando em Madureira, dentro e em cima do trem, tentando esbarrar não com os fios de alta tensão, mas novamente com Rita para lhe contar as novidades.

Mas o destino também tinha um envelope de azul índigo reservado para o rapaz. Dois dias antes da competição, Disco Voador chegou dizendo que haveria um “pagode nervoso” lá em Marechal Hermes e que, segundo suas fontes, Rita estaria lá com Fernando, o belo, seu irmão. “É lá” rematou Avião. “É lá o que?” perguntou o amigo cabeçudo, mas, desconversando, Avião completou “Ahn...que o samba rola de primeira”. Disco Voador desconfiou da apreensão do amigo e comentou mais tarde com Jacarezinho, “Cara, o Avião tá estranho. Tá motivadaço pro campeonato”. “Tá é com dor de corno porque eu peguei a mulezinha dele. Tá querendo se amostrar pra ela no campeonato pra ver se pega. Prego”. “Então fica ligado, Jacaré, porque o cara vai brigar pra ganhar”, completou Disco Voador com a eloqüência que a vida achou por bem lhe presentear.

No pagode, os olhos de Avião varriam a multidão. Com a ansiedade lhe aflorando à pele, não conseguia disfarçar a vontade de encontrar com Rita, o que só veio a acontecer lá pelo final da noite. Levemente embriagado, avistou a menina sozinha e aproximou-se. Dois beijinhos e a pergunta “Está sozinha?” “Não, o Fernando foi ao banheiro”. Num esforço sobre-humano, Avião, descontrolado, disse o que, mais tarde, se arrependeria “Sabe Rita, daqui a dois dias você vai conhecer o homem da tua vida. Um cara que pode até não ser bonito nem magro nem morar bem lá em Acari que nem você, mas que não esconde que tem origem humilde, que não troca seus ideais por uma vida confortável. Você vai conhecer um cara corajoso que leva a vida se arriscando por aquilo que gosta. Nesse dia, tu vai ligar pra tua tia rica e vai dizer ‘alô, alô, Tia Leia. Encontrei o homem da minha vida. Vem pra cá, rápido, mas se tiver ventando muito não venha de helicóptero, vem de Kadett mesmo.”

Avião, de olhos rasos e vermelhos, encarou uma Rita incrédula e surpresa. Ela não sabia como reagir e ele não sabia como expressar o que sentia por ela. Amor! Dor! Dor! Deu um passo atrás e depois as costas e foi-se deixando a menina sem resposta para a pergunta que lhe fez Fernando, o belo, quando voltou do banheiro “Quem era?”

No dia seguinte os quatro amigos inseparáveis não se encontraram. Jacarezinho ficou em casa concentrado. Disco Voador estava de castigo por ter destruído a churrasqueira em construção. Avião estava de ressaca e Tim Maia passou o dia tomando água de vinte em vinte minutos para um exame que faria de manhã bem cedo antes do campeonato, “Alô, telefonista, me desperte ás 7:15, por favor” disse sua avó ao orelhão antes de ir dormir. Enquanto isso, em Acari, toca o telefone da casa da Tia Leia. “Oi, mãe, é o Fernando. A Rita está por aí?” No minuto seguinte, atende a garota “Oi, Fernando”. “Oi, Rita. Vou ficar na casa da Laura hoje, mas não esqueci de amanhã, não. Você vai querer rádio táxi?” A menina sorriu e disse “Nove e meia. Manda um beijo pra Laura e vê se cuida dela direito aí, senão o bicho pega. Se vacilar com amiga minha vai ter que prestar contas comigo”. “Tá bom, Rita, pode deixar. Não vou fazer nada que ela não queira!”. “Bobo. Até amanhã”. “Até”.

Lá pelas onze horas quando Rita e Fernando chegaram à estação de Cascadura o já povo se aglomerava para ver o início da competição. Contrariando as expectativas iniciais, a polícia que lá estava não ameaçou os procedimentos da comissão organizadora. Eram de alguma forma ligados aos competidores e estavam ali apenas para garantir a segurança do evento. Mesmo tendo feito o exame de manhã, Tim Maia não foi o último a chegar. Avião em silêncio, se aproximou dos três amigos com olheiras cavadas e escuras. Dava para perceber que não havia dormido. Disco Voador, comovido com a imagem sugeriu “Avião, você tem certeza que quer se equilibrar hoje? O sol tá forte, neguinho vai com tudo”. “É pra isso que eu tô aqui, Disco. Hoje vou com tudo”. Dessa vez, até Jacarezinho, normalmente alheio aos sofrimentos dos outros, ficou chocado com a atitude do amigo e tentou atabalhoadamente amenizar, “Que isso, cara. Isso tudo por causa de xereca? Quer que eu coloque a Rita na sua fita?”. Avião cerrou os olhos como que para conter a raiva que deles escorria, mas evitou o conflito e disse apenas “Não precisa”. Queria mostrar para todo mundo do que era capaz em cima do trem. Se arrumasse uma briga agora o máximo que conseguiria era ser expulso e deixar outro brilhar aos olhos de sua Rita. Não, ele não permitiria. Seria um ninja hoje em cima do trem, um gato driblando os fios, um bailarino se contorcendo sobre o ferro quente e sob as passarelas, o balanço do trem seria seu diapazão a quem ele clamaria “Eu também quero graves, médios e agudos” se soubesse alguma coisa de construção musical.

O percurso começava em Cascadura onde uma escada improvisada ajudava os competidores a subirem no trem sem percalços, e terminava em Anchieta. Lá, sentados numa bancada haveria uma comissão julgadora que apuraria os votos dos juízes instalados nos vagões que, de alguma forma, tinham a responsabilidade de observar a performance in loco e dar-lhes nota. Em Cascadura alguém da organização gritava “Eu vou chamar” e um suspense se instalava no ar enquanto a audiência aguardava o nome do próximo competidor. E, um a um, os amigos foram chamados. “Jacarezinho”. Nota oito lá em Anchieta. “Avião” Nota nove e meio em Anchieta. “Disco Voador”. E ele veio cheio de si “Cuidado comigo! Cuidado com o Disco Voador. Tira essa escada aí que eu vou subir sozinho! Essa escada é pra ficar aqui fora!”. Mas algo aconteceu no meio do caminho, pois não chegaram a vê-lo em Anchieta. E, por último, “Tim Maia”. Nota dez em Anchieta, foi ovacionado com aplausos dos fãs que lá estavam e o coro “Tim Maia, Tim Maia, Tim Maia, Tim Maia!”

Avião ficou desesperado e quis partir para cima do balofo, mas Jacarezinho não deixou. Via na alegria do amigo mais recente a tristeza que levaria para o resto de sua vida por não ter conseguido conquistar o campeonato e, por conseguinte, segundo o distorcido raciocínio do rapaz, o amor de sua querida Rita. Ela, por sua vez, vendo-o desolado nos braços do amigo raquítico tomou a iniciativa e agachou-se ao seu lado. Quando a viu, nem tentou enxugar as lágrimas e, transtornado, só pode pronunciar “Eu te amo, Rita”. Como resposta orgânica a um estímulo externo, os olhos da menina encheram-se d’água e por todos os demorados segundos que durou aquele primeiro beijo nenhuma palavra foi dita. E não era necessário, pois a platéia já tinha se esquecido do Tim Maia e agora ovacionava em coro o outro amigo “Avião. Avião. Avião. Avião.”

Um comentário:

ethel disse...

o que você está fazendo aí? bem, você deve se fazer essa pergunta todos os dias úteis. só quero saber de uma coisa: na noite de autógrafo, o meu tá garantido, certo?