2 de dezembro de 2010

As brumas de Albano

Nem aquele intenso nevoeiro causado pela água quente do banho escondia a ansiedade no rosto de Albano. Separado em cima da cama, seu melhor jeans presenciava silencioso o vai-e-vem do rapaz aprontando-se para o grande encontro. A camisa havia sido passada na semana anterior, quando nem imaginava que a colocaria em circunstância tão importante.

Enquanto fazia a barba, antecipava a conversa que teria dentro de algumas horas. Já havia compartilhado emoções suficientes e antecipava algumas respostas às perguntas que não parava de inventar.

Não que isso fosse fácil para ele. Acostumado a uma vida de muito amar e pouco ser amado, conformara-se como um Francisco de Assis. E isso de amar os outros em silêncio era de uma dor contumaz, pois com freqüência suplantava dentro de si a vontade de tornar público o sentimento. Tanto que para aplacar esse vazio, Albano pintava, esculpia e se dedicava a outras atividades manuais. Perdeu a conta de maddonas e sfumatos guardados nos porões de sua casa e de sua alma, homenagens a outras doçuras e singelezas.

Mas hoje parecia diferente. Tudo havia ido até então no sentido contrário que previra. A primeira admiração virou afeto, que virou romance, que virou paixão e foi correspondida. Esta noite daria um próximo passo.

Sentou-se onde ela estava, linda, após beijá-la com a simplicidade de quem tem certeza. Suas pernas se acariciando sob a mesa antecipando um momento que, dessa vez, significaria muito mais do que tudo que viveram. Dos lábios dela e de Albano jorravam palavras que só faziam sentido para eles, provocando rubores nas bochechas da menina e um brilho intenso nos olhos do rapaz. Quando o silêncio pousou entre eles, Albano tomou um gole do vinho para estimular sua coragem e enfim levantar o assunto que motivara o encontro em si.

Ainda inspirava o começo da frase quando percebeu que, ao fundo e dos lados, as paredes a meia-luz do restaurante bambeavam. Como tapumes de um cenário sendo desfeito, elas caíram ruidosamente levantando uma poeira branca de pó-de-arroz. Aos poucos, na medida em que o pó levantava, tudo ia desaparecendo sob a bruma: pratos, talheres, candelabro e mesa, deixando apenas suas cadeiras frente a frente. E logo não havia mais cenário, nem luz, nem ela. Apenas ele, sentado no centro do seu próprio vazio abraçando-se ao branco e espesso véu que se desprendia da água quente do banho.

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