16 de dezembro de 2010

O Prado Azul

O sol nem amanhecera e Nestor já estava de pé, barba feita e cabelo untado, preparando o café-da-manhã da família. O açougueiro havia deixado a carne seca e o toucinho na noite anterior e Nestor adicionava os ovos que acabara de pegar na granja. Em pouco tempo o cheiro suculento da gordura queimando chamaria de volta do sono as sete pessoas que habitavam o pequeno casebre no baixio da encosta fervida sob a inclemência do verão.

Nestor pôs à mesa pão preto, azeitonas, mel e o preparado de carnes e ovos. Aos poucos chegavam, comiam, se banhavam e se vestiam para o início dos trabalhos daquela manhã. No alto da encosta, uma imensidão de grãos aguardava para ser colhida antes que viessem as pragas. Gafanhotos, lagartas e até as aparentemente inofensivas joaninhas poderiam comprometer o inverno daquela família isolada. Com todos devidamente alimentados, Nestor partiu levando consigo quatro dos sete filhos com quem compartilhara a refeição. Aos demais, ainda pequeno e frágeis para a tarefa, caberia funções mais de acordo com seus respectivos desenvolvimentos.

Ancinhos e enxadas à mão, o grupo subia não sem dificuldade a íngreme encosta que levava à plantação. O humilde desjejum mal dava-lhes a energia necessária para vencerem o percurso. Chegando, já sonhavam com o momento da pausa e do almoço; todos menos Nestor, a quem cabia a responsabilidade de descer todo o caminho e subir novamente com mais substanciosa refeição. Ele não reclamava. Ao contrário, agradecia aos céus por ter o suficiente para todos. Neste dia, porém, Nestor não estava preparado para a surpresa que lhe aguardava lá no alto. Seu último passo na árdua pirambeira descortinou à sua frente um cenário que o fez congelar mesmo sob o calor daquele dia abafado de nuvens. Sua vontade era cobrir os olhos dos que vinham atrás para poupar-lhes o açoite do destino.

O infinito verde que esperavam encontrar virara um grande mar inundado pelas bátegas de chuva da noite anterior. Engoliu seco, apesar da água abundante a sua frente. Todos largaram as ferramentas e seguraram os corações dentro do peito, apertados. Nestor deu as costas ao seu submerso futuro e correu os olhos sobre seus acompanhantes: lábios contritos, testas franzidas, olhos arregalados, incrédulos. Uma lágrima tentou surgir sob as pálpebras de Nestor que se esforçou em retê-la como uma vingança contra aquele excesso de água.

Mantinha-se à distância da beira num temor de que fosse ele também engolido e ensaiou alguns passos hesitantes de volta para casa, pois não sabia o que dizer aos que lá ficaram. Como explicaria a ausência de esperança? A possibilidade de fome, frio e dor? Baixou os olhos, derrotado. Seus velhos ombros já não agüentavam mais o simples fardo de manter vivos seus entes queridos. Voltou-se aos céus novamente, dessa vez com certa raiva, exigindo em seu íntimo uma reparação divina ou um sinal que pudesse seguir como alternativa ao seu abatido porvir. Mas os céus estavam peculiarmente sarcásticos naquele dia e choveu mais água sobre a vida do pobre. Os olhos profundos de Nestor não tinham mais forças para conter as lágrimas que agora escorriam livres camufladas de chuva.

De tudo que passava pela cabeça de Nestor, o que menos entendia era o escárnio divino feito em chuva. Sem emitir um som sequer, amaldiçoou seu passado, seus pais, os pais de seus pais, e os antes deles e, ainda olhando aquele mar, foi amaldiçoando os grandes navegadores que descobriram essa terra e fizeram dela chão empobrecido; e odiou os ventos que sopravam suas caravelas, os índios que se vendiam por espelhos e os peixes que cumpriam sem questionar seu destino de forrar-lhes as barrigas. Até os peixes. Os peixes.

No meio do desespero, um estalo. Tirou os olhos do mar e partiu correndo ribanceira abaixo. Correu como nunca até a casa onde catou uma vassoura, uns nacos de carne e uma velha camisa de lã grossa. Voltou ofegante ao topo onde encontrou seus filhos ainda imóveis, observando seus rápidos movimentos na transmutação de uma ferramenta em outra. Em minutos, a antiga enxada virou uma vara de pesca. Nestor levantou-a aos céus como um troféu e, num milagre, a chuva parou. Agradeceu silenciosamente e voltou à calma constância. Arregaçou as bainhas das calças e sentou-se à beira com os pés dentro d’água. Deu um nó forte com um longo fio da lã pendurando em sua ponta um pedaço de carne, lançou-o n’água e suspirou.

O grupo inteiro levou algum tempo até perceber o alívio de Nestor e estremeceu de alegria ao vê-lo parir das entranhas do desespero um belo, grande e gordo peixe. E depois outro e mais outro. No fim da manhã, na hora de descer para pegar o almoço, Nestor já havia pescado o correspondente a um dia inteiro de colheita em sua realidade anterior. Satisfeito, levantou-se, descabelou carinhosamente os filhos um por um e olhou pela última vez a água, certo de que não importa se seu sustento venha de dentro da terra ou de dentro d’água, era de dentro de si mesmo que colheria esperança.

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