7 de fevereiro de 2011

Leblon às sete e meia

São sete e meia da noite quando estaciono na orla do Leblon. O Sol já ameaça seu declínio e todos os espectadores se assentam sob seu último abraço. O céu sem nuvens tão plácido como o mar sem ondas começa sua transformação do azul para o inusitado laranja e não há como descrever a quantidade de outras cores que passam entre elas. A platéia acha tudo muito natural, o azul virar laranja, como se o inverso fosse possível e no dia seguinte tomássemos ácidos sucos azuis no café da manhã.

Cumprindo um ritual de respeito e humildade, os banhistas saem da água, os vendedores de mate se calam e os casais sossegam seus beijos, todos elevam olhos e pensamentos para oeste, mirando a grade pedra da Gávea que se esforça em vãos por milênios para conter a luz púrpura do Sol em despedida.

Namorados entrelaçam os dedos e por alguns momentos se entrelaçam também as almas de todos na praia que acompanham o balé eterno do Sol a driblar a pedra. E ele vai caindo, trocando a ofuscante claridade que derrama lá do alto, como um grande adulto a observar seus filhos, nós, por uma luz cálida, faiscante e compreensiva que nos olha frente à frente, na mesma altura, como um pai a repreender-nos amorosamente. O olho do Sol poente torna-se então vermelho como se prestes a chorar, antecipando a saudade que a noite lhe impõe.

Escorregando pelo contorno da pedra, ele mergulha com um suspiro no mar que o engole para cuspi-lo no outro dia, renascido, renovado. Uma segunda chance para o mundo se redimir do que fez no escuro e desamparo da noite.

Todos deveriam observar esse fenômeno pelo menos uma vez por semana. Deixar os últimos minutos do dia rastejarem para seu fim. Olhar nos olhos do Sol e entender que eles nos protegem durante o dia e nos repreendem vermelhos antes de a noite chegar, como a dizer “tendes cuidado daqui para frente”. Todo dia o Sol desce e se vai numa apoteose de cor e movimento que, fechados em nossos mundos mesquinhos, esquecemos de ver. Mas, uma vez por semana, deveríamos ir ao Leblon, andar pela praia e nos despedir do dia. E aqueles que não forem, sempre deveriam ter uma segunda chance.

Um comentário:

Casa de Mãe joana disse...

A naturalidade como você descreve o nada, é mais estonteante que tomar um suco natural azulado no café da manhã.