14 de junho de 2011

Anãs Brancas

Era inverno quando nos descobrimos. Você vinha de um outono árido e eu de minha eterna e onírica primavera. Nossas estações não condiziam. Seria necessário tempo para que nossas órbitas se alinhassem.


Como dois astrônomos, estudamos nossas luzes, nossas distâncias e os átomos de nossas emoções enquanto minha luz ficava mais clara para mim e para você.

Certo de que haveria vida em ti, construí minha nave e me lancei a conquistá-la. Deixei meu planeta sozinho para explorar sua ácida atmosfera. Mas nem cheguei a aterrisar. Nossas polaridades me mantinham a um raio seguro, longínquo, de onde só conseguia imaginar como seria, como seria.

Fui e voltei mil vezes sempre pronto a colonizá-la. Esqueci de minhas águas e minhas fontes. Minhas árvores não poderiam mais crescer sem ti. Meus mares se transformaram em charcos e meu mundo se cansava sozinho longe de mim. Mas eu queria só o teu. Sabia que o meu teria a ganhar. Juntos seríamos uma constelação visível a olho nu de qualquer parte do cosmo.

E quando já se esvaiam as últimas energias, quando já se exauria minha última combustão, tua inclinação alterou-se.

Deixei meu planeta e minha luz e fui morar na sua que agora me atraía magneticamente, como se nossos negativos e positivos finalmente se entendessem. E pousei. Abri o compartimento onde trazia os segredos de meu mundo e revelei-os ao teu.

Embebi-me das tuas novidades. Tua física me surpreendia e nossa química era cada vez mais covalente. Com o tempo, plantei sorrisos nos teus campos e colhi esperanças no teu horizonte. Fiz barragens nas nascentes dos teus rios de lágrima e voei nas magias do teu céu castanho. Me afoguei nas marés do teu humor e me salvava ancorado nas pedras fincadas no chão das tuas idéias.

Amei tanto teu mundo e tão desprendidamente que só voltei a dar-me conta do meu quando recebi dele aquele chamado de socorro. De repente, parei de perseguir o teu horizonte e voltei-me ao meu. Tanto havia deixado de crescer em meu planeta. Tanto ainda havia eu de regar meus próprios jardins. Quantas flores ainda poderia trazer de mim a ti e lá estava eu: refém de meus próprios sonhos deixando apagar a luz da minha própria casa.

Voltei tão desesperadamente para o seio de minha estrela que a propulsão te causou queimaduras. Fiz alguns desertos onde havia grandes planícies. Teu planeta se ressentiu de minha abrupta ausência e, novamente, voltou a seu antigo prumo.

Agora, tendo encontrado a basicidade de minha atmosfera e recolhido os sargaços de meu mar, acompanho de longe sua translação e espero sua gravidade mudar para que possa me aproximar novamente.

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