8 de junho de 2011

Contagem regressiva

Às nove da manhã em ponto abriam-se as portas do posto da previdência onde o Sr. Praxedes recebia sua pensão. Desde cedo o Sr. Praxedes esperava na porta invariavelmente vestido com seu melhor terno, relógio e sapato engraxado. Todos na agência já o conheciam e o tratavam com o carinho dispensado ao fofo yorkshire do vizinho.


Ordeiro, seu Praxedes, como era chamado, sempre retirava sua senha que, hoje, reflexo do movimento na agência do dia anterior, era a de número 99. No avançado de seus noventa anos, seu Praxedes não deu atenção àquela pequena coincidência. Não até ser chamado pelo guichê 09. Desconfiado, olhou para a senha e depois para o brilho vermelho no painel que indicava onde deveria retirar seu dinheiro. Hesitou e, já com alguma coisa atrás da orelha, foi contando um a um os nove passos que dera até o guichê. Não amassou o papel como mensalmente fazia, mas guardou-o no bolso e pediu, cavalheiro, seu soldo à atendente, apresentando seu holerite e identidade como comprovação.

Vinha acompanhando as discussões sobre reajuste nos salários dos aposentados e esperava 7% para sua categoria. Porém, bom contador que era, viu logo que a diferença era de 9% e não sete. Não comentou nada, bom brasileiro que era, e saiu do posto intrigado, mas feliz.

Chegando a casa, calculou em números absolutos o quanto representava aquela diferença percentual e pasmou-se: nove reais. Retirou os óculos devagar planejando o que faria: jogaria na dezena, na centena, no milhar e na cabeça aquele número que vinha se repetindo obsessivamente. Para tirar a prova dos nove, foi contando tudo que via no caminho até o ponto do bicho. Em seus novecentos passos conseguiu contar dezenove lixeiras, nove vira-latas e oitenta e uma árvores.

Convencido, tirou dez reais do bolso e sentenciou: “Manéu, cerca essa dezena.” – disse mostrando o papel da senha do posto da previdência e recebendo em troca o comprovante da sua aposta.

Voltou para casa e esperou até ás vinte e uma horas, quando saía o resultado. Até lá, suou, tremeu e sonhou com o prêmio que já contava como seu. Ansioso, adiantou o jantar para as dezenove horas e as oito e cinqüenta e nove da noite ainda estava vestido, sentado ao lado do telefone aguardando a ligação do Manéu. Esperou, esperou e esperou até às vinte e uma horas e nove minutos quando resolveu ir pessoalmente ao ponto. Queria retirar logo o dinheiro que sabia que lhe pertencia.

Recontou todas as dezenove lixeiras e as oitenta e uma árvores quando avistou o Manéu já saindo do ponto. Correu para alcançá-lo e, atravessando a rua, não viu o avanço da van em sua direção, atingindo-o em cheio.

O corpo de seu Praxedes deu nove cambalhotas antes de cair inerte no chão. Dos nove passageiros da van, oito o conheciam e correram para ajudá-lo. Mas já era tarde. Sangue escorria por todos os nove orifícios do seu corpo.

O nono passageiro nunca tinha visto o morto na vida, mas reconheceu logo o papel do bicho amassado na mão endurecida em rigor mortis. Simulando preocupação, aproximou-se também do corpo e, com habilidade, surrupiou o papelote sem ser percebido.

Polícia chegou, bombeiro recolheu o corpo, a CONLURB limpou o sangue e, quando não havia mais vestígios do acidente, o nono passageiro foi tranqüilo conferir o resultado do bicho na esquina seguinte.

Cheio de esperança, conferiu os númerozinhos mimeografados de cima a baixo e nem sinal da dezena que procurava. Arrependido por ter perdido seu precioso tempo ali, amassou o papel manchado de sangue e, bom brasileiro que era, jogou no chão mesmo, nem se dando conta das dezenove lixeiras que o cercavam e foi embora praguejando contra aquele número azarento. Podia ao menos ser o número cinco.

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