22 de junho de 2011

O Outro Lado

Rubens acordou na casa de sua nova namorada. Ainda escuro, tateou por entre as roupas jogadas pelo chão à procura do celular. Queria ver quanto tempo lhe restava para não chegar atrasado ao trabalho. Virou-se sem sair da cama e como não sentiu o toque das roupas, desistiu e voltou sua atenção ao que mais lhe interessava. Ela estava exausta da noite que compartilharam.

Deitada de lado, repousava o rosto de perfeita simetria virado para ele sobre o travesseiro. Os cílios espetavam negros sobre as bochechas enquanto alguns fios de cabelo emolduravam aquela obra de arte escorrendo por sobre o rosto adormecido. Rubens quis recolocá-los no lugar. Estendeu a mão em palma como um carinho, mas seus dedos não tocaram nada. Ao contrário, superaram a superfície epitelial.

Ficou assustado. Tentou novamente, agora mais firme, com o intuito de acordá-la. Mas foi em vão. Concentrou-se por um momento e voltou à posição anterior, deitado olhando para o teto, colocou as mãos ante os olhos para certificar-se de suas formas e consistência. Seus dedos, unhas e pêlos continuavam lá.

Sua nova namorada balbuciou lânguida seu nome e esticou um braço sonolento para alcançá-lo. Rubens fechou os olhos ansioso para que o toque suave das mãos da menina o despertasse daquela aflição. Mas ele nada sentiu. Ela, que contava com o volume de Rubens ao seu lado para um despertar confortável e seguro, levantou irritada e sentou-se na cama. Rubens sentou-se também e aproximou seu rosto do dela como prestes a beijá-la.

Ela passeou seus olhos ainda dormentes sobre a cama e ao redor enquanto ele se aproximava de olhos fechados quando, no momento em que achou que seus lábios se tocariam, ouviu um grito.

Rubens abriu os olhos e viu o rosto assustado da menina que gritava alta e desesperadamente mirando um ponto além dos olhos dele. Ele acompanhou a direção do olhar da menina e surpreso achou um corpo nu, inerte estendido no chão ao lado da cama.

Instintivamente, buscou o corpo da nova namorada para protegê-la, mas seu corpo passou através do dela, causando nela um calafrio que a fez pular da cama e trancar-se no banheiro.

Tonto e sozinho no quarto, Rubens aproximou-se devagar daquele corpo. Aos poucos percebia as semelhanças com o seu: aquela pinta na nádega direita, a cicatriz da cirurgia no menisco, a tatuagem do ideograma que significava vida. O mundo fechou ao seu redor no momento que ele cogitou a própria morte. No instante que se tornou consciente de sua partida, tudo perdeu o sentido. Tantos sonhos, planos e projetos. Aquele amor recente, a carreira esportiva que ganharia novas perspectivas após a cirurgia, tudo fazia parte de um horizonte que se descortinava promissor à sua frente. E, de cotovelos altos, a morte impunha espaço e jogava a vida e toda a sua suposta relevância para debaixo do tapete, ou da cama, neste caso específico.

Rubens viu em câmera lenta sua nova namorada sair do banheiro com o celular no ouvido e lágrimas nos olhos. Deixou o apartamento fechando a porta num estrondo que o despertou do torpor filosófico e jogou-lhe nos braços a dura conclusão de que para morrermos basta estarmos vivos e para que as coisas acabem, basta que elas comecem.

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