20 de julho de 2011

Concepção

O atelier repousava sob a penumbra trazida pela lua recém chegada. Vagarosamente o artista abriu a porta e calculou suas possibilidades. A luz lá de fora afagava as telas vazias e as paletas ressecadas. Acendeu algumas velas. Fechou a porta. Concentrava-se. Seus movimentos eram de aproximação, flertava com os pincéis e as tintas. Tentava perceber o que tudo aquilo implorava por transformar-se.

Num abraço pegou uma das telas no colo e, carinhosamente, colocou-a sobre o cavalete roçando-lhe a face como se contasse a ela um segredo. De longe, andou em volta do cavalete ponderando a forma de abordá-la. Como a preparar-lhe um drink, foi misturando as tintas com o verniz enquanto pitava com um dos pincéis à boca.

Aproximando-se da tela, decidido, ruborizou-lhe o lado num afago. Aos poucos ela lhe dizia o que queria enquanto ele descobria seus pontos de fuga confundindo como dela os seus próprios suspiros.

E num momento as preliminares não bastaram. O artista agora ofegante espalhava suas idéias vigorosamente sobre a tela que acolhia submissa toda aquela paixão. O atelier reverberava com os movimentos frenéticos do artista e algumas velas mais pudicas apagavam-se diante do erotismo que artista e obra compartilhavam.

Por fim, suado, novamente distanciou-se o artista e, a cada passo, sentia os sussurros da tela que chorava uma lágrima azul turquesa sobre a paragem expressionista. Satisfeito, perguntou com os olhos a opinião da tela que silenciosamente compartilhava o êxtase.

Guardou seus materiais e tomou novamente sua obra nos braços. Deitou-a sob a luz da noite olhando-a fixamente, admirando seus traços e contornos. Abriu a janela permitindo que o odor que preenchia o atelier se renovasse e ela adormecesse ali, entregue à companhia da lua.

Artista e obra, então, se entrolharam uma última vez sabendo que, à partir de agora, deixavam e levavam, cada um, uma parte do outro.

Um comentário:

Anônimo disse...

Sensacional! Conseguiu transmitir em metáfora o que mais acontece em relacionamentos entre pessoas. Isso só leva a crer que o momento pode ter fim, mas para a memória ele é eterno, inclusive suas sensações! Ficou Show!