13 de julho de 2011

Guatemala, 1492

Era difícil dormir com o barulho da chuva caindo sobre as folhas secas que cobriam o telhado. As crianças choravam cada vez mais alto assustadas pelo ribombar dos trovões lá fora cada vez mais perto. Cauatemacotl não era mais uma dessas crianças, sua responsabilidade agora era cuidar delas. Ainda tinha as mãos enegrecidas pelas mordidas de formigas que faziam parte do ritual de iniciação à vida adulta. Ao mesmo tempo, ainda corria atrás das borboletas azuis nas escadarias do grande altar ao entardecer.

O vento trazia as finas navalhas da chuva para dentro da casa e por mais grossos que fossem os cobertores de pele de guanaco, não evitavam o tremer de pernas e a dor nos maxilares. Os pés das crianças eram cobertos com cinzas mornas e envoltos em pequenas bolas de látex para isolar o frio. Tema, como era chamado, tinha a importante missão de não deixar o fogo apagar-se, o que era difícil com as goteiras e a tempestade entrando pelas janelas cansadas de bater. Em alguns momentos, agarrava-se ao pingente de penas de quetzal e fechava os olhos em oração pedindo proteção e coragem para enfrentar o clima. Havia visto adultos fazerem isso no passado e, agora que era um deles, poderia pleitear boa-ventura aos deuses.

À medida que a manhã se aproximava, a tempestade arrefecia. Como empurradas para longe pela força do Sol, as enormes nuvens prenhas descobriam um céu de azul incomum. Aos poucos o povo foi deixando suas casas avaliando os estragos da noite. Muito trabalho seria necessário para reconstruir o que caíra e os adultos já se agrupavam junto aos degraus sagrados para dividirem as tarefas.

Tema correu para agregar-se a eles. Ouviu atentamente as palavras dos anciões e aceitou de bom grado a ordem de recolher os frutos caídos pela floresta. Retornou a casa e, puçá aos ombros e faca na cinta, beijou sua mãe deixando-a com as crianças rumo à floresta. Havia cumprido sua obrigação para com elas.

Tomou a trilha descoberta, pois queria aquecer-se com o novo sol. Apertava os olhos contra o brilhante caleidoscópio de cores frescas que margeava o caminho. Seu coração apertou-se pelas flores despedaçadas a boiar nas poças de lama, mas lembrou-se da história de Centeotl, que deu sua vida para que, de sua pele e seu sangue, pudesse ser feita a variedade de plantas no mundo. Também não entendia como outras tão delicadas sobreviviam à violência das freqüentes tormentas e comparou-as com as mulheres da tribo que se mantinham de fronte erguida enquanto seus maridos as deixavam para a caça ou a guerra.

Deixando o puçá cheio de graviolas e carambolas no chão, Tema quis ver o mar revolto antes de voltar. Sentia um misto de medo e admiração quando via as enormes ondas como grandes bocas d’água gritando angustiosamente ao morder a praia com seus dentes de espuma. O mar mexido alterava a imutável linha reta do horizonte, deixando-a mais parecida com a caligrafia torta dos deuses. E lá, no momento em que mar e céu se encontram num abraço azul, pequenos pontos negros chamaram a atenção do jovem senhor.

Pôs as mãos em concha sobre os olhos e apertou-os para concentrar o foco. Não tinha certeza do que via, pareciam grandes palmas brotando das águas com suas pequenas copas desproporcionais tremulando ao vento. Um arrepio percorreu-lhe as costas, sabia que estava diante de algo novo, talvez trazido pela renovação da chuva da noite anterior.

Acompanhou por horas a aproximação da novidade que vinha do mar. O sol já postava-se oblíquo à terra quando pode divisar a grande barriga marrom que boiava agora bem perto da margem. Lá dentro, pontos brilhantes cegavam sua vista, obrigando-o a desviar o olhar de volta à grande barriga ou acima, no alto das palmas fincadas nela. Num momento, aquele monstro parou e dele saíram dois outros menores trazendo dentro de si mais luzes. Movia-se lento com longos braços batendo no feroz espelho d`água que era o mar ressacado. Aos poucos, contornos físicos puderam ser vistos contra a forte luminosidade que Tema não conseguia explicar. Pareciam homens. Eram homens. Cinco homens dentro de uma embarcação que agora apeavam no raso da praia.

Tema parou de respirar quando entendeu que a luz que o cegava desde o longe era um manto rígido sobre o corpo e a cabeça daqueles homens que refletia a luz do próprio sol, como fazia a adaga de obsidiana antes de sangrar a oferenda nos dias de sacrifício. Suas pernas fraquejaram e seus joelhos fincaram-se no macio da areia. Boquiaberto, viu o homem aproximar-se dele e seu coração congelou ao sentir o peso daquela mão alienígena sobre sua cabeça. Não conseguia reagir. A angústia que sentiu o fez lembrar das mordidas das formigas durante o ritual de iniciação, resignando-se pelo fim de sua infância.

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