3 de novembro de 2011

Acerto de Contas


A luz vermelha do semáforo ainda longe acendeu a dúvida na mente de Cristóvão. Já era tarde, estava levemente alcoolizado, nada que lhe obscurecesse os reflexos , mas o suficiente para deixar seus movimentos lânguidos e sua língua frouxa, certeza tão absoluta que ainda trazia vivas as lembranças dos beijos longos e corpo satisfeito de sua parceira cujo nome, sim, se esvaíra aos primeiros contatos do álcool com as profundezas de seu organismo. Suspirou esticando a boca num leve sorriso que foi voltando à sua natural posição na medida em que o carro aproximava-se da luz vermelha, diminuindo a velocidade e calculando suas chances de ser multado por não parar ou ser assaltado ao fazê-lo.

A mistura de álcool, mesmo na pouca quantidade que precisamos para nos desatarmos dos nossos medos, e sexo, mesmo na pouca qualidade que é suficiente, aos homens pelo menos, para que se sintam onipotentes, estado este encarado por Cristóvão neste momento, afetou sua capacidade de julgamento, o que resultou em achar-se justamente poderoso e corajoso, o que acontece com rara freqüência, para se submeter à lei e parar ao sinal vermelho, coisa também rara àquela hora da noite.  Como bobo não era e, mesmo naquelas condições, não se encontrava totalmente desprovido de senso e lucidez, lembrou-se de abaixar o pino da porta, trancando-se no que, para ele, era o seguro cadinho de seu banco do motorista.

Alguns poucos segundos se passaram até que a ausência total de movimento ao redor, seja de alma viva ou penada, motorizada, ambulante ou volante, lhe trouxesse a tão ridícula imagem que fazia ele ali parado sozinho sob a luz pálida da lua e a vermelha do semáforo. Menos por medo e mais por vergonha da própria idiotice, o álcool também nos leva a reflexões e conclusões dessa natureza, Cristóvão já pousava a mão no câmbio quando ouviu o leve barulho que fez o metal pesado contra o vidro fechado de sua janela. 

Do lado de fora, alguém com capuz preto e olhos profundos apontava uma arma em sua direção e ordenava através de gestos muito convincentes que destrancasse a porta. A primeiríssima reação, de duração máxima de alguns milionésimos de segundo, foi a de Cristóvão maldizendo não só sua conduta imbecil mas também todos os santos e mártires que lhe chegavam à memória, sem deixar de fora o próprio Senhor, no ateísmo agudo do qual todos sofremos no instante inicial da nossa iminente desgraça. A reação seguinte foi de simples docilidade para com o marginal, totalmente compreensível pois sabido já o é que animal, seja de qual natureza for, se verga humildemente e bandeia para o lado do animal em condições de superioridade quando sua integridade física é posta à prova. Abrindo a porta, Cristóvão polidamente adiantou que lhe podia levar tudo mas que procurasse não fazer-lhe mal pois ao bem de ninguém isso serviria. O bandido, bem acomodado no banco traseiro e consciente da superioridade natural que lhe garantia a arma em punho, somente indicou o caminho para o mais próximo caixa eletrônico vinte e quatro horas.

A essa altura, como um passe de mágica, pois mágicos mesmo são os processos que acontecem sob a penumbra que existe debaixo de nossas peles, as partículas do álcool previamente ingerido transformavam-se todas em partículas de adrenalina, devolvendo a Cristóvão o controle total de seus movimentos somados a um calor que o fazia suar até nas pontas dos dedos. Que maravilha seria se nosso corpo também assim se comportasse ao lermos um livro ou o jornal todas as manhãs, evitaríamos a tão anti-higiênica necessidades de levarmos nossos dedos à boca ao fim da leitura de uma página de um ou matéria do outro.  No caso de Cristóvão o suadouro nas falanges distais era inútil, uma vez que só conseguia, no momento, ler as placas ao longo da via enquanto tentava virar a página dos olhos do ladrão. 

E sem dizer mais palavras seguiram ambos, pistola e volante às mãos, até uma esquina escura onde obviamente estava instalado um caixa vinte e quatro horas já que, ao banco, só importa que as cédulas lhe saiam, desde que da forma lícita, não importando se quem as saca é correntista ou condenado, por vontade espontânea, necessidade emergencial ou coação momentânea. Parando o carro sob um poste cuja lâmpada encontrava-se apagada, Cristóvão foi instruído a apagar também as luzes do carro e entregar a chave ao meliante, coisa que fez sem titubear. Já se imaginava sendo destituído das parcas posses que carregava, incluindo relógio e rezando para que não fizesse questão do celular pois seria um parto sair daquele fim de mundo sozinho e sem ouvir uma musiquinha sequer, e se preparava emocionalmente para mendigar ao ladrão um trocado para o ônibus e outro para um pão, pois que a inevitável aurora daqui a pouco chegaria, mas tal foi sua surpresa quando, ao estarem sozinhos no cubículo do caixa eletrônico, a tela fria iluminou não apenas a arma que seu algoz levava à mão mas também uma pequena pilha de papel. O bandido então deu as novas instruções sem perceber que elas já estavam na tela. Cristóvão, obediente a ambos, cumpriu os passos: inseriu o cartão, colocou a senha primária, respondeu à pergunta secreta, digitou por extenso o mês de seu nascimento assim como o número do seu documento de identificação social e encaixou seus olhos no leitor de retinas para que a máquina tivesse certeza de que ele era realmente quem afirmava ser. Sistemas bancários devem ser ambientes extremamente inseguros ou esquecidos tal é a dificuldade de se lembrarem de seus nós clientes, mesmo os mais habituais, e tão íntimos que não hesitamos em pedir-lhes dinheiro seja para nossas necessidades, seja para nossos caprichos, e ele, em seu Alzheimer, nos empresta sem saber quem somos, desde que cumpramos a liturgia da identificação, pois somos todos mentirosos às máquinas, até que provemos o contrário.

Os olhos pasmos de Cristóvão estavam fixos nos do ladrão após ouvir as novíssimas instruções sobre o que deveria fazer adiante. Clique na opção pagamentos e, depois, contas de consumo. As folhas que levava nas mãos detalhavam o quanto de água, energia, tevê por assinatura e telefone celular ele, e provavelmente sua família, consumiram no último mês e foi dando-as uma a uma a Cristóvão para que fizesse o pagamento. Duvidando, Cristóvão passou os olhos pela conta e, como fazia com as suas próprias, tentou identificar alguma cobrança indevida que arrefecesse o prejuízo, mas foi em vão. Por outro lado, descobriu algumas coisas peculiares sobre seu captor, o que os deixava de certa forma mais íntimos do que nunca. Ele devia ter ar-condicionado pois o consumo saltava nos meses do verão. Adivinhava o seu gosto por cinema pela lista interminável de clássicos em pay per view assim como seu apetite por sexo, pelas múltiplas assinaturas de canais adultos. Além disso, era rubro-negro pois seu plano dava direito de assistir os jogos do Urubu no campeonato regional, mas isso não precisaria da fatura para adivinhar, uma vez que seu capuz trazia a insígnia CRF bordada em branco destacando-se sobre o preto profundo. Profundo e intrincado era também seu hábito de fazer ligações de seu celular para telefones fixos enquanto todos sabem que a tarifa é bem menor de fixo para fixo ou de celular para celular. Havia uma infinidade de curtíssimas ligações, provavelmente uma manobra contra o rastreamento, dada a sua condição de seqüestrador, pelo menos relâmpago, com certeza. A cada pagamento efetuado, Cristóvão cumpria a coação e entregava de volta ao meliante a fatura e o comprovante os quais eram cuidadosamente afixados cada um a seu respectivo par, com um clip de metal. 

Agora sem qualquer sintoma do consumo de álcool, exceto talvez o permanente bafo e olor proveniente do suor que é por onde esse tipo de impureza é expelida, e com o corpo cansado pelo efeito da adrenalina, Cristóvão pagou a última conta e a devolveu junto com o último comprovante, mas não sem antes sugerir alguns filmes que, para ele, seriam indispensáveis a qualquer cinéfilo que se preze e, organizado como era, ou talvez de memória fraca, vá lá saber que efeitos o excesso de tevê tem sobre os nossos cérebros, o ladrão logo tirou do bolso seu smartphone de última geração e, agradecendo, desandou a dedilhar na tela touchscreen. Por fim agradeceu as dicas e deixou Cristóvão com um sorriso e o alívio de ter permanecido ileso durante o tempo que compartilharam o carro e o cubículo, experiência bem diferente mas tão exaustiva quanto o compartilhamento de cama e corpo que havia tido com a parceira sem nome horas atrás.

Acompanhou o ladrão com os olhos até que virasse a esquina e saísse definitivamente de sua visão e sua vida, olhou o relógio e descobriu que a manhã não tardaria e que, daqui a algumas horas pagaria suas próprias contas, passando mais uma vez pela experiência zen de desapego ao vil metal que, assim como o ladrão, trabalhou dura e organizadamente para acumular, cada um em seu ofício.

Um comentário:

xico_skywalker disse...

Oi .. achei seu blog muito interessante de uma literatura deliciosíssima .... coisa rara de ser ver na internet .. aproveitei e linkei você no meu blog ..

Abraços !