13 de dezembro de 2011

NecRomance Parte I


Imagine um lugar quente, onde se trabalha coberto da cabeça aos pés, inclusive com luvas de borracha arrochadas, máscara, touca, botas e jaleco por cima das suas roupas. Agora, imagine que neste lugar não funciona o ar-condicionado e, para piorar, há uma grande quantidade de corpos em decomposição ao seu redor, dentro de gavetas de metal ou simplesmente deitados em macas e cobertos com lençóis cujas cores variam entre o encardido e o encarnado.

Foi neste lugar, mais ou menos na hora do almoço de uma segunda-feira de calor sufocante, que chegou o corpo levando pendurada no dedão do pé uma etiqueta de número 89634. A princípio parecia comum, marcas da violência cotidiana, sem nada superficialmente apavorante. Por isso, ficou na fila. Teria sua vez de passar pela autópsia lá pelo final da tarde. De quinta ou sexta-feira.

Porém, no final da terça, o cheiro começou a chamar muita atenção. Aquela carcaça fedia além do normal. A solução para o problema era uma só: tirar outra carcaça da gaveta e meter ali a fedorenta onde federia menos, ou tanto quanto, porém restrita a um ambiente menor não chegaria a afetar tanto nossas narinas. Desgraçado o papa defunto que teria a sorte de fazer-lhe a autópsia após dias de confinamento. Abrir aquela gaveta seria encarar uma explosão flatulenta de mil megatons. Haja máscara.

E foi mais ou menos isso que aconteceu. Na sexta-feira, o estagiário foi escalado para fazer a autópsia deste corpo que era, provavelmente, de algum mendigo ou outro tipo qualquer de degradado, adivinhavam todos pelo cheiro. Sem saber do que se tratava, o estagiário cumpriu normalmente sua rotina. Saiu da faculdade, onde planejava laurear-se na especialidade de medicina legal e prestar um concurso para algum lugar melhor o mais longe possível daquele, se é que existem lugares melhores onde se pratiquem esse tipo de ofício, e chegou no final da tarde para cumprir seu turno que iria até as seis horas da manhã do dia seguinte. Pela listagem do dia, o 89634 seria o sétimo a ser autopsiado, lá pelas três ou quatro da manhã, pensou o rapaz que, por incrível que pareça, estava extático com o trabalho, pior do que um estagiário, é um estagiário empolgado. Apesar das condições das instalações, sentia-se como o próprio Miguel Ângelo, a dissecar cadáveres longe dos olhos da Igreja Católica. A única diferença entre eles era o que faziam com o conhecimento adquirido, mas não há de ser nada, pensava o rapaz, o mundo verá a perfeição das minhas notas no concurso, cogitava.


Menos à luz de velas e mais à dicróica, o estagiário puxou a gaveta do 89643. Nauseou-se um pouco mais do que o de costume quando inalou a espessa fumaça verde que envolvia o corpo coberto pelo lençol. Comprometido, comprara há alguns dias um ventilador desses portáteis e colocou ao lado, contrariando todas as normas técnicas aprendidas na faculdade. Conseguindo dissipar o cheiro e aproveitando para arejar o pescoço e as axilas, não do morto mas as suas próprias que sofriam com a falta do condicionador de ar, puxou cuidadosamente o lençol de sobre o corpo, iniciando uma observação minunciosa.

Ia anotando enquanto examinava. Homem, caucasiano, olhos verdes, estatura mediana, entre vinte e cinco e trinta anos, dez dedos nas mãos, dez dedos nos pés, cabelos loiros cortados a militar. Inexistência de hematomas, cortes ou fraturas tanto dorsais quanto nos membros inferiores ou superiores. Já aliviado do mau cheiro, o estagiário tomou bisturi à mão e descreveu os cortes necessários para a observação da estrutura interna do cadáver. Uma nova onda de fedor tomou-lhe as narinas logo na primeira incisão mas, na medida em que corria a lâmina, o cheiro amenizava-se encorajando-o a seguir adiante. Toda aquela trabalheira não prometia nenhuma novidade, pensava, quando, examinando a caixa torácica, percebeu que o corpo havia tido as grandes artérias coronarianas cortadas a dentadas, o coração havia sido retirado e atado de volta no lugar com nós de marinheiro. O estagiário achou aquilo tudo muito estranho e olhou em volta na esperança de encontrar algum dos superiores rindo-se da galhofa. Em vão. Não havia ninguém na sala àquela hora da madrugada. Tornou a olhar o coração cercados de trempes e escotas, aproximando-se um pouco por vez até estar a alguns dedos de distância quando a luz, por algum motivo que nunca saberemos, apagou-se e voltou alguns segundos depois. Tentando refazer-se do susto, pois mesmo acostumado ninguém nunca ficará totalmente à vontade numa madrugada remexendo o bucho de um cadáver, o estagiário decidiu fechar o corpo e deixar para pedir orientações no dia seguinte. Pegou a linha de nylon e, quando já se preparava para arrematar a costura, a mão nodosa e inchada do morto tomou a sua com uma força impressionante.

O rosto do estagiário era o que havia de mais branco na sala de autópsia. O morto, para seu espanto, levantava-se da maca e estraçalhava os ossos de seu punho. Seus berros abafados pelas paredes do lugar, não faziam mais do que deixá-lo rouco e surdo. O morto aproximava seu rosto, olhos esbugalhados e sangue a escorrer das narinas, do rosto do estagiário e abria a boca na direção da dele, mostrando seus dentes, todos perfeitos, numa mordida fatal encobrindo boca e nariz e asfixiando o pobre estagiário até sua morte.

Ao perceber o fim da luta, 89643 largou mão e cabeça da vítima e refestelou-se em seus órgãos ainda mornos de vida. Era uma fome nova que sentia, tão natural quanto o ato de respirar e tão renovadora quanto um suco de melancia gelado após um passeio pelo deserto. Chupava o fígado como uma manga recém colhida do pé, estraçalhou o cérebro na tentativa de abrir a caixa craniana no chão de azulejos e degustou os pedaços como pequenos mexilhões a vinagrete. O banquete durou algum tempo e, apesar de morto, o cadáver mostrou ser bem vivo pois, consciente de sua condição atual e, contra todas as expectativas, movido por algum tipo distorcido de instinto de sobrevivência, ou sobremortência, catou os papéis que comprovavam a sua morte de cima da mesa de operação e engoliu-os como a sobremesa deste jantar bizarro e voltou a deitar na gaveta onde o tinham colocado antes que tudo isso tivesse acontecido.
O primeiro a deparar-se com a cena foi o faxineiro. Não conseguindo evitar a reviravolta de seu estômago, largou o café-da-manhã junto com os poucos restos mortais do estagiário que, não fosse a arcada dentária, não teria posterior reconhecimento. Tenso e nauseado, o faxineiro correu a chamar todos que pudesse para verem a cena e disso constitui-se um grande circo. Primeiro os médicos locais, depois enfermeiros, atendentes e as pragas dos repórteres que, tendo suas antenas tão longas, percebem o cheiro de matéria nova onde quer que ela nasça, ou neste caso, morra.

Mas tudo, em seu devido tempo, voltou ao que era antes. Quando se retirou o último cone e quando se expulsou o último vendedor de mate, a vida retomou sua normalidade e o incidente não passou de algumas notas no jornal e diversas seções de terapia para o faxineiro que, após ter sido acusado como responsável pelo indigesto assassinato, pôs-se em defesa alegando insanidade mental, o que não uma inverdade, tamanho foi o efeito da visão horrenda que presenciara. Assim, ficaram todos satisfeitos. Repórteres com suas matérias, polícia com seu culpado, o faxineiro em sua cela especial e redução de pena e o instituto médico legal que angariara alguns fundos a mais após tamanha exposição na mídia.

De todos, o único que não estava bem era 89634, com o estômago ainda embrulhado de tanta papelada que deglutira em sua fuga. Aquela fome estranha voltou com ainda maior força e a claustrofobia que lhe causava a permanência excessiva dentro da gaveta lhe davam uma ansiedade incontrolável de matar novamente, mas só se aventurou a mexer-se quando toda a confusão passou. Meteu os dedos inchados nas frestas da gaveta e já ia forçando-a sobre a corrediça quando escutou o barulho da maca esmurrando as portas de plástico pesado que fechavam a sala. Um novo corpo havia sido deixado e, com ele, um médico já vinha para examiná-lo.

O cadáver era de uma dançarina de seus vinte e poucos anos, coxas grossas, seios firmes e cintura fina. Dessa vez, em vez de o estagiário, todo o corpo médico do instituto se prontificou a examiná-la, o que não deveria causar estranheza sendo o amor, como dizem, universal e a necrofilia um mapeado fenômeno patológico da humanidade.


89634, ou simplesmente Zumbi, chamemo-lo assim daqui para frente, Zumbi aguardou até que ouvisse o barulho da outra gaveta fechando com o novo corpo e saiu quando já não ouvia mais passos no recinto. Tão logo saiu, um novo barulho ecoava abafado, ritmado e metálico. Como se alguém batesse com as mãos naquelas placas de metal de que eram feitas as gavetas. Limpando um resto de sangue e cera que lhe obstruía a orelha carcomida, Zumbi aproximou-se do local de onde vinha e puxou a gaveta. Lá estava a bela bailarina recém autopsiada, só Deus sabe o que mais sofrera aquele corpo nas mãos, língua e, quiçá pênis, do legista, deitada com um grande hematoma na testa, provavelmente causado pelas tentativas de levantar-se dentro da gaveta, explicando assim o barulho que chamara a atenção de Zumbi.

Inexplicável foi a atração que aqueles dois corpos sem alma experimentaram um pelo outro. Talvez tivesse sido a grande fome que ambos sentiam e que, pelo menos Zumbi, sabia como satisfazer. Porém, sabia também que não era aquela fome propriamente dita pois, mesmo com vontade de refazer os caminhos percorridos há pouco pelo legista tarado, não suportaria esquartejá-lo e degluti-lo como fizera ao estagiário. Algum renegado senso de beleza havia permanecido vivo naquela montanha de morte que eram os dois juntos pois, por maior que fosse a ânsia por carne humana, maior ainda era o sentido de preservação da integridade física, ainda que parcial, a integridade e não o sentido de preservação, que tinham um pelo outro. Por falta de termo que explique com maior clareza, uma vez que somos todos ignorantes nas matérias do pós-vida e do pós-morte, chamemos o que aconteceu entre eles de paixão. Como se diz vulgarmente, e nem por isso menos sublimemente, acharam-se. Se passassem mais alguns dias decompondo, poderiamos até se dizer que acharam as suas caras-metade. Mas mesmo um tanto quanto fora de suas órbitas, seus olhos brilharam e suas pernas bambearam, um pouco pela secura dos músculos e pela falta de elasticidade dos tendões, mas certamente era paixão.

Continua AQUI

Nenhum comentário: