20 de dezembro de 2011

NecRomance Parte II


Um corpo sem alma volta à vida durante autópsia num necrotério e é atraído pelo cadáver de uma recém-chegada Bailarina.

Parte II

Zumbi ajudou Bailarina a levantar-se da gaveta sentindo todos os centímetros daquele belo corpo esculpido à disciplina da dança indo de encontro ao seu. Seus pés pesaram com a quantidade edemaciada que se desprendia do corpo dela e caía na medida em que roçavam um no outro. A exposição daqueles músculos perfeitos secretos quando em vida, só aumentava a ansiedade de ambos e a vontade possuírem-se mutuamente, seja lá como fariam, vontade não faltava, e uma vez que estavam já nus e havia a maca da autópsia livre, Zumbi deitou ali sobre a bailarina que, num único sinal de aprovação, passou-lhe os braços sobre os ombros e deixou-se levar pelo necrocoito iminente.

O que aconteceu em seguida, para sermos práticos, aconteceria se fossem humanos, símios, marsupiais ou cetáceos. Mas como são zumbis, vale uma descrição mais apurada nem que seja para o exercício da observação e catalogação científica. Não é todo dia que vemos zumbis reproduzindo, ou reproduzindo o ato humano de reproduzir. Chamem a National Geographic. Continuando, o que aconteceu em seguida começou com o estímulo de glândulas, algumas já expostas ao ar de tanto estímulo, outras mesmo ainda secretas, de difícil acesso, tendo Zumbi que jogar de lado algum rim ou pulmão para alcançar. Mãos que corriam ao longo dos corpos de muito, muito pouca pele e apenas alguns tufos de pêlo e cabelo aqui e ali. E, nas mãos, já se viam os ossos das falanges distais e a intrincada combinação de osso e tendões. Felizmente ainda havia línguas, mesmo que enegrecidas e secas, mas suficientemente ágeis para travar aquela guerra de movimentos dentro ou fora da boca e, às vezes, dentro e fora ao mesmo tempo.

Porém, não satisfeita em tê-los deixado, a vida interrompeu-lhes também o coito que sucederia não fosse o barulho de outros passos na direção da sala onde estavam. Pode parecer até que a morte de Zumbi tivesse sido de tuberculose, tamanha era ainda a sensibilidade daqueles tímpanos apodrecidos. O mais rápido que seus membros decrépitos permitiam, saíram os dois de cima da maca, não sem deixar ali pele, sangue, pus e outros humores, restos do encontro de ambos, isso sim uma verdadeira troca de fluidos corporais, e meteram-se cada um em sua respectiva gaveta. Quem entrou na sala não foi o faxineiro, nem aquele há pouco condenado ao hospício, nem o infeliz que o substituíra, mas sim o legista tarado que, dessa vez, não trazia consigo nenhum novo corpo para análise, mas um papel carimbado, um atestado de óbito.

Zumbi apenas acompanhava o movimento com seu ouvido zumbiônico e deu-se à liberdade após uma seqüência de barulhos que identificou como um abrir e fechar de gaveta, um baque metálico de corpo caindo na maca, o som das rodinhas desaparecendo ao longe e o fim do flapflap da porta de plástico grosso. Foi direto até a gaveta onde Bailarina deveria estar e, para sua surpresa, que só olhos bem treinados na identificação de expressividade de zumbis podem perceber, tinha sido justamente ela a ser levada pelo legista. Um surto de raiva tomou o que lhe restava do corpo. Balbuciou impropérios na linguagem gutural que é própria aos mortos-vivos e só não destruiu toda a sala com sua ira com medo de chamar atenção demais. Infelizmente, em seu estado avançado de putrefação, apenas alguns centímetros cúbicos de seu cérebro lhe serviam, e foram justamente os mais aventureiros que foram ativados naquele acesso. Cambaleou até um cabide onde ficavam alguns jalecos e meteu-se num. Achou máscaras, luvas, botas e tudo o mais com o que pudesse ocultar seu real estado e decidiu ir atrás de sua amada Bailarina. E, quando metia a touca por sobre a cabeça meio pelada, seu olho escorreu definitivamente da órbita, indo parar debaixo da mesa do legista. Nós, acostumados com a leveza e fluidez de nossas articulações, não fazemos idéia do esforço que fez Zumbi para recuperar seu globo ocular. Porém, a natureza o faz e recompensou-o, boa que é, com a visão do dedão esquerdo do pé de sua amada onde ainda dependurado num toco de osso, estava a etiqueta com seus dados de entrada e, segundo uma nova norma que sucedera aos acontecimentos trágicos narrados anteriormente, a forma e o local de deposição dos restos mortais, no caso dela, cremação e Cemitério do Caju, respectivamente.

Zumbi arregalou o olho vermelho e inchado que ainda se prendia ao crânio e, agora sabendo exatamente aonde ir, pôs-se em carreira, ou simplesmente em movimento, pois rapidez nenhuma, tampouco agilidade, podemos esperar de alguém em suas condições. Porém, a vontade, a fome e aquilo que há pouco concluímos ser algum tipo de paixão, movia-o mais lepidamente do que faria um defunto comum. Por falar em fome, os tecidos ressequidos precisavam de alguma reidratação e, aproveitando-se de uma distração do, agora sim, novo faxineiro, Zumbi trancou-se com ele no almoxarifado e fez dele sua nova refeição. Não teria sido uma refeição completa, com uma entrada de olhos e língua, seguidos de sopa de rins e fígado e salada de cabelos; o coração como prato principal, o cérebro esfacelado como tira-gosto e um suco de bile para rematar; mas um lanche rápido, cujo tempo levado para deglutir era inversamente proporcional à urgência de reencontrar sua Bailarina.

Saiu do almoxarifado ainda a tempo de ver o rabecão que a levava e, louco de ansiedade, nem se deu conta da figura horrenda que era com aquele jaleco andando pelos corredores, digamos, sociais do instituto. Não demorou muito para que irrompessem os gritos de pavor dos vivos que ali estavam trabalhando ou não, ao depararem-se com Zumbi coxeando pelo saguão principal deixando atrás de si um rastro de sangue e pedaços do seu corpo e do faxineiro.  Abriu as grandes portas de vidro da entrada sem dificuldades e, por algum resquício de humanidade, fez sinal a um taxi que passava na hora. Mas, pela velocidade com que passou, podemos adivinhar que o motorista não tinha condições psicológicas de levar tão inusitado passageiro.

É impressionante a volatilidade das atitudes humanas que levam as pessoas a se aglomerarem curiosos em torno de alguém morto em virtude de algum acidente em via pública e a saírem em disparada ao encararem o mesmo morto, talvez, reanimado. Que curiosidade mórbida nos aproxima dos recém partidos e nos afugenta dos partidos já há algum tempo, como se tempo fosse o grande vilão que transforma a desconhecida vítima em parceira da Morte no ofício de nos levar para o outro lado. Coitado, pensamos do morto que vai e, vade retro para o morto que volta. Mas, contrariando as expectativas, toda a multidão de dentro do prédio e do entorno saiu a acompanhar aquele morto que retornara. Ninguém se atrevia a se aproximar, melhor para ele, mas se quisesse chegar ao Cemitério do Caju a tempo de preservar sua amada da fornalha, teria que conseguir um jeito mais rápido de se locomover pois o rabecão já ia longe.

Seria um exagero dizer que Zumbi estivesse olhando em volta, pois seu olho já perdera o frescor funcional que lhe seria peculiar em vida, mas podemos dizer que, avaliando sua situação e percebendo de alguma forma as coisas que se encontravam ao seu redor, Zumbi arrastou-se como pode até uma funerária ao lado do instituto, fenômeno comum em qualquer cadeia de serviço que se preze, veja se não existem oficinas bem à frente de quebra-molas. Entrou esmurrando a porta e causando grande furor entre os funcionários que, mesmo acostumados a lidar com os trâmites que circundam a morte, nunca estiveram preparados vê-la assim ao vivo, de carne e osso. Uma família que resolvia os últimos detalhes do enterro de um ente querido, não criou empecilhos em ceder o esquife comprado e rabecão alugado para Zumbi que de alguma estranha maneira conseguiu expor claramente através de grunhidos e berros assombrosos as suas intenções.

Preservando sua imagem grotesca da atenção alheia, Zumbi arrastou um dos atendentes em estado de choque da funerária para dirigir enquanto ia escondido dentro do caixão no enorme porta-malas do carro. Com a etiqueta da Bailarina tremulando no espelho retrovisor e defecando-se de medo do conteúdo que levava, o motorista iniciou, ainda que trêmulo, o longo caminho até o cemitério do Caju. Na altura da Avenida Perimetral, o motorista que já estava se acostumando com a missão, quase morreu de susto ao ouvir as sirenes dos inúmeros carros de polícia que vinham acelerados em sua direção. Imediatamente, não com a intenção de fugir dos policiais, mas mais por reflexo, pegou a primeira agulha de saída, em direção à Copacabana, na intenção de despistar a lei que o seguia. O rabecão, mesmo sem sirene, conseguia o respeito dos outros motoristas que, ao verem o reflexo daquele imenso carro preto quase descontrolado, o carro da própria morte, imediatamente abriam caminho para que passasse sem que os levasse consigo.

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