29 de dezembro de 2011

NecRomance Parte III - Final


Bailarina e levada para o Caju e, em fuga desesperada, o morto-vivo Zumbi corta as ruas do Rio de Janeiro tentando evitar a triste cremação de sua amada.

Parte III - Final
A única coisa que podia deter um motorista em pânico dirigindo um carro assustador era o trânsito e trânsito melhor não há senão o dos arredores do hotel Copacabana Palace onde o motorista acabou por meter-se. Zumbi, preso no caixão, não fazia idéia de onde estavam e, apesar de ouvir as sirenes lá fora, não adivinhava que seriam a causa de tão potentes manobras no motorista que o jogavam para lá e para cá dentro do porta-malas. Mas a ausência de movimentos bruscos de repente chamou sua sobrenatural atenção. O anda-e-pára do engarrafamento, além de deixá-lo enjoado, fazia-o desconfiar que, ou estariam chegando, ou estariam perdendo tempo. Saiu do caixão com tanta dramaticidade, quebrando e destruindo toda a madeira, que fez desfalecer o pobre motorista cujo coração não agüentou mais tanta emoção. Sem motorista que o guiasse às escondidas, Zumbi decidiu continuar a pé até seu destino, sem saber que estava agora ainda mais longe dele do que quando começou a jornada. O barulho ensurdecedor da buzina do rabecão, ritmada com as tentativas de Zumbi quebrar os ossos do crânio do motorista para comer seu cérebro, não foi sequer notada entre a multidão de outros motoristas que, por quaisquer outros motivos, também buzinavam em frenesi.

De energias renovadas, Zumbi saiu do carro e equilibrou-se como pode nas entranhas do engarrafamento. Ouviu novamente as sirenes e, olhando para trás, viu que a polícia também ficara entupida no meio dos outros carros. Achando que não era a razão pela qual tanta polícia se reunia, Zumbi chegou à calçada onde, por seu aspecto funesto, abriria caminho mais facilmente do que no meio da dureza dos automóveis, como ele, sem alma. Porém, aos sons agudos das sirenes e buzinas, somaram-se os secos estampidos das armas que atiravam em sua direção e explodiam as vitrines das lojas por onde Zumbi passava. Os estilhaços voavam até o corpo dobrado do morto-vivo e os mais pontiagudos varavam sua carne fazendo sangrar o sangue do motorista que corria em suas veias. Não podia ser pego pelos policiais, eles não entenderiam sua condição, não essa de defunto acordado perambulando pelas ruas assustando as pessoas, o que poderia já ser classificado como crime de perturbação à ordem pública, mas aquela de verdadeiramente apaixonado pois, mesmo entre a morte e a vida conforme estava, ainda buscava a eternidade ao lado de sua amada à beira não da morte, pois que até por essa já haviam passado, mas digamos à beira da decomposição definitiva pelas brasas rituais da cremação. Fugiu, então, por uma rua transversal até chegar à praia quando foi surpreendido pela sensação da própria surpresa, que nem ele mesmo achou que fosse capaz de sentir, morto que estava, causada pela chocante concentração de outros mortos-vivos justamente em frente ao referido hotel. Suas figuras desfiguradas, trapos em volta do corpo, sangue escorrendo pelos membros e chagas reluzentes nos rostos, tudo isso muito familiar e, ao mesmo tempo, muito estranho para Zumbi. Mas seu objetivo continuava o mesmo e, valendo-se da boa sorte de ter deparado com uma passeata de zumbis, misturou-se à turba lavada de sangue artificial e perdeu-se da vista dos policiais que o seguiam até ali.

Despertava reações diferentes enquanto passava empurrando os outros com a urgência que levava dentro de si, além dos miolos do motorista. Alguns o parabenizavam pelo realismo, outros pelo cheiro repugnante que exalava. Outros, mesmo vomitando nauseados ainda assim batiam palmas enquanto Zumbi passava tentando alcançar outra rua mais vazia por onde pudesse voltar ao caminho para o Caju. Ignorando todo aquele cortejo, passou por baixo de uma grande faixa branca onde se lia “Zombie Walk RJ” e entrou numa pequena ruela onde um taxi estava parado esperando que um casal caracterizado para a passeata entrasse. Chegou ao carro, abriu a porta da frente e aboletou-se no banco do carona ignorando os insultos que tanto o motorista quanto o homem que ia atrás esbravejavam em sua direção. Tentando manter seu único olho no lugar, encarou a menina que ia atrás em silêncio. Aos poucos, a vivacidade dos tecidos mortos escorrendo pelo seu rosto de Zumbi, a baba negra ressecada nos cantos da boca e aquele odor insuportável convenceram-na de que o que estava ali era além de um homem, sensibilidade que só uma mulher fantasiada de presunto poderia ter. Calmamente ela acariciou o braço rijo de seu acompanhante ultrajado e, numa voz angelical, disse “vamos com ele”, sentenciando o destino de todos. Alguns podem pensar que acontecera aqui um episódio de hipnose ou algo parecido, porém, o que ocorreu foi apenas efeito de uma grande sensibilidade, não aos horrorosos aspectos superficiais que Zumbi representava, mas à brilhante aura de amor que guiava os passos vacilantes daquele morto percebido no coração daquela menina. Vida e morte conversam assim, por detalhes. São irmãs que, ao cruzarem um olhar se entendem. O que conhecemos como morte nada mais é do que o abraço fraterno entre vida e pós-vida, separadas por um gigante de sombras que nós mesmos criamos. Com essas palavras, “vamos com ele”, a menina serenou a tensão que pairava no taxi e até o bruto motorista, de alguma forma impactado por aquela doçura, desligou o taxímetro e pôs pé na tábua na direção do endereço que, por mais amassado, ensangüentado e sujo, permanecia legível na etiqueta de Bailarina.
O taxi seguiu sem percalços até a porta do cemitério. Zumbi já movimentava os ossos aparentes de seus joelhos no movimento para deixar o carro quando o motorista, sem medo ou nojo, tocou seu ombro e, entregando-lhe uma nota de dez reais, disse “compra uma flor e diga a minha Eleonora que sinto saudades”. Sem lágrimas ou emoção para chorar aquele momento, Zumbi deixou o carro e, tropeçando na banca de flores e, catando algumas delas, jogou o dinheiro no chão ainda ouvindo, ao longe, a doce voz da menina que repetia “boa morte, boa sorte” ritmadamente como uma autista. Seguiu pela aléia principal que levava às capelas segurando com dificuldade a montoeira de flores que usava também para disfarçar-se. Viu o rabecão que levou Bailarina parado ao pé das escadas que subiam à ante-sala de onde se chegava às capelas de velório. Sem saber onde encontrar sua amada, perpassou todas até um corredor ao fundo que levava para a capela específica de cremação.
Seu murcho e imóvel coração se contorceu de ansiedade quando viu Bailarina plena do frescor da juventude estampada em um grande pôster circundado por uma guirlanda de flores ao lado da última porta do corredor. Mesmo preferindo a imagem de Bailarina que carregava na podre memória, aquela do encontro arrebatador no necrotério, uma ternura traspassou-lhe a carne putrefata fazendo-o ciente de que não poderia evitar o cruel destino a ela reservado. Parou alguns passos antes de entrar na capela ouvindo os gemidos chorosos da família ou quem mais que lá estivesse sentindo saudades pela passagem prematura da linda moça. Apoiou-se na maçaneta de uma porta ao lado preparando o fôlego da qual não precisaria nunca mais, exceto para encarar este momento, quando viu a placa pregada à porta que indicava ali o caminho para o forno.

Entrou e encontrou lá dentro o caixão aberto e sua amada coberta por um leve filó branco toda pronta para ser posta na esteira que levava ao forno já em chamas. Bailarina, fingindo-se de morta, ou melhor, fingindo não ter dentro de si a fagulha que nos anima à qual chamamos vida, permaneceu imóvel durante os longos segundos que Zumbi levou para aproximar-se dela. Seus olhos haviam sido cobertos por um véu mais espesso para que seus globos oculares não explodissem no processo de cozimento da cremação, nada viu até que a mão esquelética de Zumbi passou livrando-a venda. Como se sentisse não só o cheiro que se fazia quase sólido na sala, Bailarina abriu os olhos a tempo de ver o rosto degradado de seu amado aproximando-se para o beijo que a reanimaria. E ela se deixou beijar, estalando as duras articulações mandibulares e tilintando os dentes aparentes num êxtase de vida e morte, misturando as excrescências de nosso corpo ao fim da vida com a pureza de nosso ser, única coisa que levamos conosco em nossa morte. Deuses e mártires somos todos pois esquecem-se de nossos pecados todos aqueles que permanecem a chorar a nossa falta. A morte é a apoteose de nossa vida e, assim sendo, selado com um beijo escorrido de pus e bile, Zumbi e Bailarina finalmente se reencontraram para morrerem em paz na vida eterna.

Retirando Bailarina do caixão com o pouco cuidado que o corpo endurecido poderia fornecer, Zumbi pegou a mão da morta e saiu da sala. Mas logo voltou para pegar o resto e guiá-la até onde já sabia que poderiam descansar. Bailarina, vestida num branco reluzente que nos faria acreditar que um dos tantos anjos esculpidos expostos no cemitério havia ganhado vida para vingar-nos do pecado original, ainda sentiu um aperto ao ouvir os lamurios vertidos em sua homenagem na capela, mas o futuro à sua frente foi mais forte e decidiu finalmente deixar a vida para trás, apegando-se à morte perfeita para qual Zumbi a levava. Este, ainda levando algumas rosas no bolso do jaleco, desviou o caminho e achou o mausoléu onde repousava Eleonora. Abrindo com facilidade as grades de ferro achou lá dentro, uma sepultura vazia e outra ocupada. Retirou o que restava de ossos, jogou-os com o máximo de solenidade possível para um canto e colocou uma rosa. Cavalheiro, devolveu a mão à Bailarina e, pegando-a com toda a fidalguia, fê-la entrar na cova e com ela entrou, cobrindo-se para todo o sempre com a enorme pedra lápide onde se lia “Quando nasce, o homem é fraco e flexível. Quando morre, o home é forte e rígido. A firmeza e a resistência são sinais de morte. A fraqueza e a flexibilidade, manifestações de vida.”

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