23 de janeiro de 2012

Conto de Fraldas

Nunca uma madrugada na maternidade foi tão atarefada. Parecia que todas as devotas de Santo Antônio haviam cumprido suas promessas e lá estava o resultado, quase meia centena de crianças recém-nascidas esperneando e chorando aquele choro agudíssimo a ponto de sacudir as janelas. Do outro lado delas, uma multidão de tios, tias, madrinhas, padrinhos se acotovelavam para ter o prazer de ver a trouxinha de panos brancos gemendo. Todos iguais. Quase cinqüenta bebês. Iguais. Mas todos sabiam para onde olhar e, mesmo adultos, gemiam entre si “que belezinha”, “tão gorduchinha”, “mas como é cabeludo” e outras interjeições do gênero, muito mais do que cinqüenta e, também, todas iguais.

Entre aqueles bebês estava Larissa. Pequenininha, coradinha e rechonchudinha como bem deve ser toda criança dessa idade mas não tão chorona quanto as outras que ali estavam. Era tanto o trabalho naquela madrugada insólita que a pobre Larissa, por seu temperamento, quietinha e comportada, acabou sendo esquecida e deixada para o final. Foi a última a chegar à mãe, a mamar e a ter a fralda trocada. Mas era uma belezinha.

Do outro lado da cidade nascia Otto. Sozinho na imensa sala das incubadoras, Otto se mexia sonolento e, vez por outra, abria os olhinhos machucados por causa da luz. Por que será que essas salas de incubação são tão iluminadas? Será por causa da platéia que deveria estar do outro lado da janela esperando a estréia dos pequerruchos? Com certeza não eram as salas pensadas para o conforto dos bebês que acabavam de sair de grossa penumbra e a ela estavam acostumados. Enfim, já cedo Otto pensava nessas coisas e nem havia amanhecido ainda.

Larissa cresceu aparentemente sem traumas do acontecido e, apesar de seus pais terem estranhado a longa demora para que ela os fosse entregue, nada disseram a ela nem a ninguém. Detalhe desimportante diante da importância que era a saúde da menina, essa sim propagada orgulhosamente aos sete ventos. Saúde abundava em seu corpinho de moça na escola e, somado ao gosto pelos esportes e convívio social, dava-lhe a energia necessária para brincar e disputar com todas as outras meninas de igual para igual. Mas por algum motivo, Larissa era sempre a última a ser escolhida na divisão dos times de vôlei, seu esporte preferido.

Otto, no entanto, preferia ficar longe das quadras, fossem quais fossem. Era o mais novo da turma. Não era franzino nem gorducho nem bonito nem feio. Apenas estava ali. Onde quer que estivesse, estava apenas. Não fazia muita diferença. Não se chateava ao não ser escolhido para fazer parte dos grupos de trabalho e, quando escolhido, preferia fazê-los sozinho. Não se importava com as horas perdidas de lazer ou com as altas notas indevidas que seus amigos tiravam como resultado seu esforço. Estava feliz por estar. E estar apenas.

Por uma ironia do destino, personalidades tão distintas escolheram ser a mesma coisa: administradores de empresas. Muito provavelmente no mesmo instante, tanto Larissa quanto Otto marcaram a primeira opção no caderno de inscrição daquela conceituada instituição de ensino superior. Ambos foram aprovados e selecionados a compor a mesma turma. Lá entravam o dois. Larissa fácil, risonha, querida, pelo menos superficialmente, pois quando faltou no dia em que foram definidos os grupos para o trabalho final, ninguém se lembrou de inseri-la em um. Os meninos até gostavam da companhia de Larissa, mas não foi o suficiente para que namorasse durante os quatro anos do curso. Já Otto, imaginava-se namorando várias meninas em seu exílio interior. Sonhava os beijos das colegas durante as apresentações no auditório mas sua imaginação não foi suficiente para que nenhum deles se consumasse em fato e relato. Sonhava apenas.

Mas tudo que parecia o mesmo mudou naquela festa. Larissa estava ansiosa e ligou para várias amigas a combinar a hora de chegar, a roupa a vestir e o objetivo a conquistar. Mas os números estavam sempre ocupados e as caixas postais cheias com outras mensagens que a própria Larissa havia deixado. Ah, Otto também foi. Dava para vê-lo encostado no bar bebericando alguma coisa azul a observar a guerra de olhares, afagos e sussurros que tomava conta do lugar, estando fora e dentro de todas elas.

Quando o barman entregou a terceira dose a Otto, Larissa aterrisou ao seu lado, olhos borrados, pedindo alguma coisa bem forte. Otto reconheceu a colega como uma das quais sonhava com freqüência e cujos beijos, mesmo idílicos, eram os melhores. A menina havia certamente chorado, mas isso não despertava a menor curiosidade em Otto, cujo interesse jazia naquela fragilidade trêmula derramando o drink no balcão. Otto olhava apenas. Larissa percebeu o olhar e concedeu-lhe os olhos em troca. Que diferença de olhos os dois tinham. Os dela azuis borrados de negro escorrido, os dele escorridos e negros com halos azuis.

Dizer que trocaram palavras seria uma inverdade, já que as de Larissa jorravam incontidas e as deles mediam-se, flechas certeiras. Não que tivesse alguma habilidade, mas por algum motivo eram exatamente as palavras que a jovem naquele momento gostaria de ouvir. Não que qualquer menina naquele lugar tivesse algum interesse nele naquele momento, mas os olhos de Larissa mantinham-se fixos, permitindo-se uns pulinhos a acompanhar os movimentos dos lábios discretamente, isso era verdade.

Larissa sentiu que Otto estaria com ela até o fim dos tempos quando tocou-lhe a face e aproximaram vagarosamente os lábios. Ela demorou a fechar os olhos vendo os dele fecharem-se entregues. No beijo, Otto apagou os sonhos e as imagens dos quatro anos de curso enquanto Larissa imaginou-o com ela pelos anos eternos à frente. Entregando-se ambos finalmente à guerra que ocorria no lugar, o último estalo dos lábios selou o fim daquela batalha exclusiva deles e, como nunca acontecera em batalhas anteriores, os dois lados saíram vencedores.

Num segundo, a maternidade de Otto enchia-se de Larissas atenciosas, a escola animava-se com Larissas brincalhonas e os sonhos molhados da faculdade finalmente se tornavam reais. Não mais temia ficar sozinho. Noutro, a maternidade de Larissa passava da algazarra ao profundo silêncio de Otto que a escolhia para ele, como não fizeram as colegas do vôlei. Otto a teria na lembrança, a primeira namorada, o primeiro beijo e a primeira vez. Não haveria mais rejeições ou rímel escorrido pelo rosto. Ambos agarravam a chance de evitar um futuro de solidão e exclusão com unhas, dentes e amassos. E viveram feliz para sempre.

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