23 de fevereiro de 2012

Estalinhos


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Todo Carnaval era a mesma coisa. A família se juntava novamente como se fizesse séculos desde a última reunião. No Natal, lembra? Menos de dois meses. Mas tinha gente que não lembrava mesmo. Uns de propósito, como aquelas tias cujos dedos não desgrudavam das bochechas e que ficavam repetindo a mesma ladainha sobre crescimento, a rapidez do tempo e a própria velhice escancarada na maturidade das crianças; e outras mesmo sem querer, como as tias-avós que sofriam de moléstias a cujo desfecho precede um longo enrolar de vivências, memórias e saudades formando um novelo caótico entre passado, presente e, quem sabe, até futuro.

E o recanto de veraneio era sempre o mesmo apesar de o endereço mudar de tempos em tempos. Todos iam à praia e se fotografavam anualmente na mesma posição usando mesmas indumentárias marítimas dos anos passados, maiôs listrados horizontalmente, azuis e brancos, variando muito pouco das fotos em sépia das antigas paragens das praias de Rimini, reminiscências da italianice da família.

As crianças tinham pouca voz no meio desse turbilhão que sempre é uma família numerosa reunida e a única saída era estar presente à mesa durante as refeições e ao alcance da vista durante o banho de mar ou de sol ou, mais comum, de sombra sob uma grossa camada de pasta d'água sobre nariz e maçãs-do-rosto. Os menorezinhos não tinham escapatória e jactavam-se nos proeminentes colos à mostra e indiferente aos borrachudos do entardecer e os beliscões das tias, sanguíneas ou agregadas. Os maiores arrumavam suas escapadas. Andavam em grupo por prescrição dos mais velhos e separavam-se assim que estavam longe o suficiente de qualquer supervisão. Uns iam para o clube, outros para a praça onde havia sempre uma atração, os mais ousados andavam até a outra praia do outro lado da baía onde dava para ver os grandes prédios do progresso se chegando à distância de alguns anos.

Eu ia para o fliperama. De bolsos cheios de fichas, pois se havia alguma utilidade de estar perto de tanto avós, tias-avós e, principalmente, avôs e tios-avôs era a abundância de moedas que tilintavam dos fundos bolsos para o raso das nossas mãos. E delas tirávamos todo o proveito possível, de doces, refrigerante e sorvete, a um estoque inexaurível de fichas. Mesmo que, na época, eu não soubesse o que significava "inexaurível". Eram tantas que tinha de segurar a bermuda para que ela não escorregasse sobre as pernas até o chão revelando algum personagem estampado na sunga. Mas, por maior que fosse a quantidade, o tempo passava como um raio no fliperama. Era um tempo jogado fora com orgulho, fazendo amigos, xingando alto, contando vantagens e simplesmente sendo criança. Quanto melhor o passatempo, mais rápido o tempo passa.

Mais cedo ou mais tarde, quando acabavam-se as fichas ou escasseava a luz do sol ou a barriga roncava a ponto de atrapalhar a trilha sonora do jogo, a atenção saía das telas coloridas e voltava à vida real sempre com alguma diligência. Entre o fim das fichas e a despedida do fliperama existe um momento de descompressão em que deixamo-nos vagar de máquina em máquina, relembrando as conquistas, refazendo as memórias e estabelecendo na cabeça a história a ser contada aos primos e primas na hora do jantar. São alguns minutos em que, ainda longe do mundo real, a cabeça tenta estabelecer algum vínculo do lá com o cá, enganado-se de mil formas para tentar entender como a virtualidade daquele prazer um tanto obtuso reverberava tão real nas mãos, nos olhos e na cabeça. E foi nesse lusco-fusco de consciência que ela entrou no fliperama. 

Difícil dizer se, no primeiro momento, confundi-a com uma personagem saída das telas e tomando vida ou se já havia me dado conta do irreal que era a sua própria presença. Nem sei se reparou em mim parado no meio do estabelecimento, mente e bolsos  vazios, ou se passou direto mirando o caixa com uma nota de dez reais à mão. Fiquei olhando ela passear escolhendo o que ia fazer enquanto meu corpo se recuperava do torpor pós-jogatina. Voltei realmente a mim quando a vi empurrando o primeiro par de fichas em uma das máquinas e só então pude ter uma idéia de como ela realmente era aos meus olhos já recuperados. E ela não era comum apesar de comum tudo ter. Movia-se de modo comum, fazia caretas diante da tela, jogava o corpo na direção em que queria que fosse a personagem controlada pelo manche enquanto surrava com as pontas dos dedos de unhas roídas os botões azuis e vermelhos, nem tocava nos verdes, será que sabia de sua imprescindível utilidade?

Por perto fiquei, observando de longe, até que as máquinas engolissem seus dez reais. Quando ela saiu, o fliperama perdeu um pouco de sua luz. Não sei se por causa de sua ausência ou pelo grande relâmpago que cruzara o céu e agora atroava lá fora. Uma forte chuva de verão se debruçava no campanário das nuvens e eu, lá dentro, me peguei sem saber para onde ela ia. Saí correndo, as nuvens ao alcance das mãos se alguém pudesse pular tão alto, lembrei do Sergey Bubka que, numa hora dessas, espantaria com os pés todo aquele pretume que já começava a pingar. Olhei em volta e, na rua, as pessoas corriam para se abrigar. Uma movimentação grande na pequena rua principal, um formigueiro nesse tempo de férias. Não a vi, mas começou a chover. E como sei que só chove assim quando alguma coisa muito importante acontece na vida, tive certeza de que a veria novamente. Deixei-me então lamber pela tromba d'água e fui sem camisa resignado ao encontro das broncas que me esperavam pelo sumiço, pela demora e pelo ensopamento.

Dia seguinte, mesmo horário, estava eu no mesmo local. Dessa vez usava camisa, uma bermuda do meu tamanho e bolsos bem mais cheios e as bochechas doloridas, prêmios pelo sacrifício feito aos colos das tias. Mesmo horário ela também chegou, como se tivéssemos marcado em sonho na noite anterior. Rapidamente me posicionei na máquina que ontem mais engolira das suas moedas e comecei a manejar fingindo-me alheio a ela. Ela se aproximou, me observou, julgava meu desempenho que, distraído e disposto a impressionar, era pior do que nunca. Ela perguntou se podia se juntar a mim e eu quase não escutei, ou não acreditei, envolto que estava pela algazarra do jogo e do bloco carnavalesco locar que passava lá fora. Mesmo não tendo certeza da pergunta, a resposta a qualquer uma delas deveria ser a mesma: "Claro!" enfatizando o ponto de exclamação. Ela chegou mais perto, resvalamos quando ela inseriu sua ficha e por uns mágicos minutos, fizemos caretas juntos para a tela, balouçamos nossos corpos reais no controle do que se mexia por trás da tela, ensinei-a a usar os botões verdes enquanto ela me ensinava que a infância estava para acabar.

Ao fim do jogo, nos olhamos, nos apresentamos. E sorrimos um sorriso que, apesar de quieto, era pleno de significado. Ela hoje tinha poucas fichas, menos de cinco reais, o que antecipou a despedida. Sem sair do lugar, vi-a deixando o fliperama enquanto lá fora o bloco passava. Uma chuva de confetes cobriu-a e um punhado de estalinhos estrilaram no chão bem na hora em que ela virou-se uma última vez olhando para mim. Senti uma imensa vontade de sair correndo atrás dela, chama-la para ver o que acontecia na praça, ou visitar a outra praia ou passar o resto do Carnaval juntos, mas meus bolsos pesaram com tantas fichas que fiquei ali parado, imóvel diante do cair dos últimos grãos de infância da ampulheta.

Desde então, todo Carnaval é a mesma coisa. Na cabeça uma caixa cheia de lembranças e no peito uma caixa cheia de estalinhos.

Um comentário:

Bruno Moreira Lima disse...

De Rimini a Saquarema, com o quilate de um Pirandello... Hehehe Muito bom, cara! Meus parabéns! Meu caso foi em Araruama. Seguido, logo após do fim da infância, do primeiro porre (tu sabe que eu sempre fui precoce em fazer merda... Huahuahuhauhauha). Muito bom, Minerva! Muito bom...