7 de março de 2012

O Alpinista


O telefone tocou estridente tirando Marcos do torpor mental ao qual se entregava diante da televisão. Espreguiçando, esticou o braço e atendeu a funcionária de sua operadora de celular tentando vender-lhe um pacote qualquer de um serviço qualquer do qual ele não precisava. Com olhos fixos no alpinista que escalava um íngreme pedregulho vermelho na tela da tevê, Marcos não deu muita atenção à oferta que lhe era feita ao pé do ouvido e repetindo laconicamente algumas negativas, livrou-se da distração.

Já era mais de oito da noite e em breve sua namorada chegaria do trabalho. Aumentou o volume da TV para que pudesse escutar a narração da grande aventura de qualquer lugar da casa, pois começava a acender as velas e os incensos que preparara para recebê-la e dar os últimos toques de sabor ao curso completo que cozinhara para o jantar. Enquanto ia e vinha pela casa, dava uma olhada no alpinista, cada vez mais alto, subindo por caminhos cada vez mais perigosos entre as fendas daquela pedra avermelhada em algum lugar da África ou América Central, não tinha certeza, seu inglês era sofrível. Só tinha certeza de uma coisa: pediria finalmente a mão de Amanda em casamento.

Preparou o mesmo coq au vin que haviam degustado na noite do primeiro beijo, naquele restaurante francês caríssimo que mordera mais da metade de seu salário na época enquanto ambos mordiscavam asinhas e coxinhas enegrecidas, mas saborosas.  Havia resgatado o anel de casamento de sua bisavó, herança da família, que daria a Amanda junto com um ramalhete de lindas tulipas que encomendara especialmente para a ocasião de um exportador de Holambra, o qual havia deixado o dia inteiro dentro do quarto à temperatura de dezessete graus para que as delicadas pétalas não se despedaçassem com o calor infernal do verão carioca.

A casa estava envolta sob a penumbra da noite, iluminada apenas pelas luzes bruxuleantes das velas e da TV que transmitia a epopéia heróica do alpinista rumo ao topo dependurado por cordas coloridas sobre falésias quando Marcos ouviu o tilintar das chaves na porta. Rapidamente desligou a TV, não sem manter-se curioso pelo final da aventura do alpinista, mas concentrado em seu exemplo destemido e em parecer bonito a sua futura esposa, ajeitando-se dentro do terno preto sob a gravata. 

Quando Amanda entrou, maravilhou-se com o que viu. Tanta dedicação, tanto cuidado, tanto trabalho, tanto carinho. Marcos, recolheu-lhe os pertences que carregava, bolsa, pasta, casaco, mochila, pois viera da academia, e depois a aconchegou à mesa, posta com o conjunto polonês que herdara da avó e os talheres do faqueiro alemão que pedira emprestado à mãe do melhor amigo. Amanda não conseguia esconder o sorriso. E nem queria. Estava realmente feliz pela surpresa e disse isso logo que Marcos sentou-se ao seu lado, já tendo servido a salada e o prato principal, ao que o rapaz respondeu que ela ainda não vira nada.

Conversaram muito, riram, relembraram os bons momentos em que se deram as mãos e os maus momentos em que se deram abraços reconfortantes até terminarem a última gota da terceira garrafa de vinho. Nesse momento, Marcos levantou-se e foi até o quarto. De lá trouxe o ramalhete de tulipas nos braços arrepiados de frio e, no bolso do paletó, a caixinha de madrepérola que guardava o anel.

Dessa vez não se sentou e fez seu discurso apaixonado de joelhos, aos pés da amada que, emocionada, apertava as flores no colo como se abraçasse o próprio futuro noivo em seu coração. Por fim, Marcos tirou a caixinha do bolso, abriu-a e fez a derradeira pergunta, à qual Amanda respondeu, entre lágrimas de alegria:

- Depende.

Marcos não soube o que sentir, tão preparado estava para o terceiro ato do espetáculo que produzira. E notando-o sem reação, Amanda continuou.

- Marcos, eu amo muito você, mas preciso saber se, mesmo depois de casados, você continuará me tratando com todo esse carinho. Você vai?

Sem pensar duas vezes e ávido pelo gran finale que tinha na cabeça, respondeu, Claro, amor!

- E você vai continuar preparando jantares assim?

- Claro, Amanda, claro!

- E você vai deixar de ir na casa do Almir jogar poker toda semana.

- Claro! - disse com algum desconforto, mas genuinamente topando.

- E você vai deixar de ir nos jogos do Botafogo para ficar comigo?

Podendo ver pela TV, tudo bem - pensou Marcos consigo e respondeu - Sim, meu amor!

- E você vai comigo nas tardes de chá na casa da Tia Creuza?

- Tia Creuza, Amanda, sério? Tá bom, eu vou - concordou Marcos uma vez que já havia decidido pelo compromisso.

- Ai, que bom! - disse Amanda empolgada e continuou - E você vai finalmente provar a dobradinha que eu aprendi a fazer com a minha avó?

- Nossa, Amanda, mas você sabe que eu odeio dobradinha.

- Mas você nunca provou a que a minha vó fazia. É importante para mim...

- Está bem, eu como.

- E você vai dormir sem ventilador e sem ar condicionado no verão?

- O que é isso, Amanda? Terrorismo? 

- Você sabe que eu morro de frio!

- Então por que você não se cobre?

- Ah, não é a mesma coisa?

- Está bem - concordou mais uma vez Marcos que já não sentia as pontas dos dedos dos pés devido à incômoda posição em que se encontrava - Mas não tem mais nada não, né?

- Só mais uma coisa - disse Amanda deixando um suspense no ar - vamos vender o video-game e você vai passar o mesmo tempo que hoje você gasta com ele vendo filmes que eu vou escolher. 

Os olhos de Marcos se arregalaram. Com toda parte inferior do corpo dormente, agora, um frio precorreu-lhe a espinha parando na altura do plexo constrangindo-o. A morte não era pior do que o que Amanda pedia, pelo menos a morte era instantânea. Pá, pum. Aceitar isso implicaria numa eternidade de sofrimento e tédio. Convencendo-se que seria realmente um esforço, lembrou daquele alpinista pendurado pelas pontas dos dedos brancos de cal sobre a imensidão sem fundo na TV. Ambos tomaram uma decisão que os exporia a grandes perigos e, uma vez tomada e pendurados do jeito que estavam sob risco de morte iminente, não poderiam voltar atrás.

E foi com esse pensamento que Marcos respirou fundo, levantou a cabeça que estava pendendo sobre o pescoço, abriu bem os olhos e numa resposta firme, forte e decidida, respondeu "Sim, meu amor. Eu largo o video-game por você!"

Amanda era só alegria. Jogou as frescas tulipas para o alto e rolou com Marcos no chão. Tentaram fazer amor ali mesmo, mas ter ficado aquele longo tempo de joelhos não ajudou a performance de Marcos e contentando-se em constatar a presença da chama da paixão que claramente chamuscava ali, apesar de não ter queimado na hora, Amanda levantou-se foi tomar banho.

Marcos, ajeitou-se novamente no sofá e ligou a TV que, sintonizada no mesmo canal, exibia o corajoso alpinista suado e desgastado do empreendimento. Marcos sentiu-se um vencedor como ele, não arredara o pé de sua decisão. Custasse o que custasse, havia decidido e por mais que saísse ferido e sangrando, completaria a façanha. Porém, como seu inglês não era lá essas coisas, se surpreendeu ao ler nas legendas que, na última hora, o alpinista deu-se conta que o caminho estava negativo demais, escorregadio demais e exigiria demais de sua capacidade para ser completado e, por isso, decidira abandonar a empreitada com a mesma certeza que decidira iniciá-la. Vinheta, créditos e fim.

Marcos desligou a televisão e, pela primeira vez, refletiu sobre as condições do matrimônio e assim ficou devaneando um longo tempo até que o telefone tocou e ele ouviu lá de dentro Amanda gritando

- Ah! E também atender o telefone!

2 comentários:

Bruno Moreira Lima disse...

Tá frito! Huahuahuahuahuah
Muito bom, Minerva!

Anônimo disse...

Pelo menos n teve avalanche pra já matar enterrando o alpinista, né não Minerva? Já pensou como se sentiria o noivo nessa hipótese? Muito bom. Keep writing! Ulisses.