16 de maio de 2012

Um Milhão

Assim que o relório ressoou a décima-primeira badalada sob a luz da lua, Dona Camila correu ao telefone e discou o número de Seu Dario. A conexão foi estabelecida mas quem atendia era a secretária eletrônica. Estava exasperada pois não era costume de Seu Dario atrasar-se assim em plena terça-feira. O jantar manteve-se quente sobre a mesa da mesma forma que a esperança da idosa de que o atraso fosse somente o trânsito, o chefe ou algo semelhantemente desimportante.

Após a oitava tentativa frustrada, Dona Camila desistiu do telefone de Seu Dario e percorreu a caderneta de telefones, amigos e conhecidos, prováveis conhecedores do paradeiro do sumido, mas nenhum deles sabia responder às perguntas trêmulas formuladas apressadamente por Dona Camila.

Enquanto errava entre um Rodrigo e um Rolando, o telefone tocou. Dona Camila deixou tocar novamente e atendeu ansiosa já chamando "Dario, Dario", porém a voz rouca do outro lado não era a dele e muito menos eram dele as duras palavras que ouviria a seguir. O interlocutor não tardou a definir o sequestro, o que fez Dona Camila gelar-se toda enquanto ouvia as condições do acordo propostas pelo meliante do outro lado da linha.

- Queremos dois mil - precificou o sequestrador a vida do sequestrado.

- Dois mil?! - respondeu Dona Camila - É um absurdo!

- Madame, é só não criar problema que teu fulano fica bem.

- Não estou falando isso. Digo que dois mil por Dario é um absurdo! Ele vale muito mais do que isso. Ele é a minha vida. Tudo pra mim

Um silêncio pairou no fone do lado de lá enquanto Dona Camila assoava o nariz e limpava as lágrimas do rosto. Sem entender muito bem o que estava acontecendo mas vislumbrando, empreendedor que era em sua natureza, uma oportunidade de aumentar seus ganhos, o sequestrador fez uma nova proposta.

- Ah, é? - disse com o máximo da diplomacia que conseguiu - Então vamos querer dez mil! Senão a gente esfola o teu querido!

Aquelas palavras esfolaram, sim, a alma da pobre velhinha que não teve  mais o que dizer do que - Mas, dez mil?! O que está aí com você é uma pessoa querida. Não é um relógio ou um objeto qualquer! Você acha que meu Dario vale só isso?! - e não conteve um berro desesperado como o daquelas muçulmanas de corpo coberto que vivem perdendo seus filhos nos bombardeios tão noticiados na tevê - Não...não...meu Dario vale muito mais que isso. Ele vale minha vida. Ele vale um milhão!

"Opa!" pensou involuntariamente o sequestrador do outro lado, não tanto influenciado pelo valor em si, pois que era marginal de pouca rodagem e nunca tinha posto as mãos em butins dessa grandeza, e mais pelo som que se acostumara a ouvir nos filmes e que, de alguma forma, sabia que era alto. Ainda assim, desconfiado, ameaçou - A senhora tá achando que a gente tá de brincadeira, Dona? Nós vamos matar o teu boneco sem dó e mandar os pedacinhos dele pra você montar igual quebra-cabeça!

Palavras que apenas fizeram Dona Camila emitir mais alguns urros guturais e, depois de alguns segundos que levou para retomar o fôlego e a razão, dizer - Pela sua voz, você me parece um rapaz inteligente - mentiu - e sabe que uma coisa inteira vale mais do que uma coisa pela metade. O preço está combinado. Se vier faltando pedaço eu diminuo o pagamento. O que você prefere?

Parecia uma boa oferta. O sequestrador entregaria o fardo que era esse velho sob sua custódia, pegaria a grana e, se tudo corresse bem, ainda tomaria um cafezinho sossegado na casa da Dona Camila.

- Tudo bem. Entrego o velho amanhã - finalizou o sequestrador definindo a situação .

- Amanhã?! Onde você acha que eu vou conseguir um milhão a essa hora da madrugada? Preciso de uma semana.

- E o que eu faço com esse traste durante uma semana?

- Problema seu. Foi você que sequestrou ele. Você quer seu dinheiro ou não quer?

- Dona, a senhora não sabe com quem a senhora está falando. Somos bandidos perigosos e especializados!

- E sem um tostão, pelo visto. Meu filho, liga na terça que vem pra gente marcar a hora da entrega. Aproveita e passa pro Dario que eu quero falar com ele.

- Que isso, Dona?! Tá me achando com cara de otário? Tu só vai ver o teu velho no dia que a gente marcar - berrou o sequestrador, desligando o telefone.

Na sexta às sete da manhã Dona Camila foi acordada pelo toque estridente do antigo telefone.

- Alô?

- Sou eu, Dona. Cadê o dinheiro?

- Calma, calma. Eu pedi uma semana e ainda não passou uma semana.

- Passou sim! Tá de sacanagem com a minha cara? De terça a trerça é uma semana!

- Mas só completa uma semana hoje às vinte e três horas. Me liga nesse horário, tá?

- Mas, Dona, a senhora é uma...

- Ah! Aproveita e passa pro Dario que eu quero falar com ele.

- Tá maluca! Nada disso. Te ligo às onze! - e desligou.

Dez e cinquenta e oito da noite, o telefone voltou a tocar.

- Alô? - atendeu Dona Camila.

- Dona, sem gracinha. Dia e hora da entrega.

- Calma, calma - Dona Camila não podia esconder o nervosismo - Só recapitulando. Você me traz o Dario inteiro e eu te dou o seu milhão. Correto?

- Dona, a senhora tá se arriscando. Quero um milhão em notas pequenas e não sequenciais - disse o sequestrador parafraseando o vilão do filme exibido na noite anterior - Somos especialistas!

- Já tenho o dinheiro. O Dario está inteiro?

- Está, mas...

- Então passa pra ele que eu quero falar com ele.

- Data e hora primeiro.

- Pode passar amanhã de manhã aqui em casa - e deu o endereço em seguida, mas o pilantra do outro lado desligou o telefone.

No dia seguinte pela manhã Dona Camila preparou um desjejum reforçado para a chegada de Dario. Imaginava que estivesse fraco e atordoado pela experiência e queria cuidar dele, que boa mulher. O sequestrador, experiente, pelo menos segundo sua própria opinião, passou pelo endereço ainda na noite anterior e novamente logo de manhãzinha e nada notou de estranho na vizinhança. Nenhuma delegacia, nenhuma unidade móvel de polícia, sequer Cosme e Damião ou polícia montada. Ganhou confiança e, às onze da manhã, tocou a campainha. Dona Camila abriu a pequena janelinha corrediça da porta e perguntou lá de dentro, apertando os olhos por detrás das grossas lentes dos óculos, se era o sequestrador e onde estava seu Dario. O meliante confirmou a primeira pergunta e à segunda respondeu que estava bem.

- Quero vê-lo antes.

- Quero ver a grana.

Imediatamente um pacote escorregou pela portinhola do cachorro ao pé da porta. O sequestrador abriu e conferiu por alto o valor das notas de cinquenta que ali estavam.

- Falta dinheiro, Dona. Cadê o resto?

- Cadê o Dario?

O sequestrador apitou o rádio e mandou alguém trazê-lo.  Um carro preto insulfilmado parou na porta e Dario saiu ajeitando as calças que lhe caiam da cintura. Dona Camila destrancou a porta e jogou na soleira uma bolsa de uma popular loja de artigos femininos que continha o restante do valor combinado. Dario passou pelo sequestrador arrumando os óculos no nariz e entrou em casa enquanto, agachado, o sequestrador conferia as notas displiscentemente.

Tão discpliscentemente que nem se deu conta do pequeno aparelhinho jogado entre as cédulas a mandar sinal para os radares da polícia que Dona Camila mantivera avisada desde a semana passada.

Um comentário:

Renato disse...

Sensacional o texto...Pra te falar a verdade foi tão bem escrito e cheio de suspense que os olhos chegam a estar ardendo por não piscar ao ler o texto... Acho que você poderia se arriscar num livro, mais páginas, com uma história maior... potencial você tem... grande abraço!