25 de julho de 2012

Efeitos do Silêncio

O sol entrou pela fresta da cortina dissipando a escuridão que envolvia Plínio no sono em que estava desde cedo da noite anterior. Aos poucos a nesga arrastou-se dos pés à cabeceira da cama demorando-se cruelmente sobre as pálpebras fechadas. No sonho, a tradução era um flash idílico de um momento inesquecível que se eternizava em fotografia, despertando-o no momento do clique.
Acordado, virou-se de lado ainda sem abrir os olhos preferindo feri-los não com a natural luz solar mas com a de led de seu aparelho celular pousado na mesa de cabeceira onde checou as horas. Era cedo ainda. Procurou mensagens, e-mails e outras tantas formas de interação possíveis daquele dispositivo e não achou nenhuma.

Levantou-se enfim e, passando pela sala, tocou de leve o botão da secretária eletrônica que nada lhe respondera. Suspirou continuando em frente até a cozinha onde aproveitaria o tempo de que ainda dispunha para um café-da-manhã tranquilo, coisa que não fazia há tempos. Tirou algumas frutas da geladeira e preparou-as para batê-las no liquidificador. Hesitou por um segundo antes de ligar o aparelho, como era cedo ainda, não gostaria de acordar todos os vizinhos que estariam certamente dormindo àquela hora, mas passado o breve lapso de humanidade e esfomeado pelo longo período de jejum, Plínio largou o dedo no nível máximo chegando a fechar os olhos antecipando a dor que o barulho indesejável causaria aos seus ouvidos. Foi abrindo os olhos devagar surpreso ao sentir o aparelho entrar em funcionamento apenas pela forma como vibrava nas suas mãos sem barulho algum. Chegou a bater com força para ver se o aparelho gritava como era de se esperar, mas ele continuava apenas a tremer, talvez de medo de apanhar mais, enquanto transformava as frutas na vitamina matinal de Plínio.

Como a sonolência e a fome superavam naquele momento a curiosidade e a surpresa, Plínio desligou o motor convencido de que deveria comprar outro, afinal liquidificador que não faz barulho não funciona adequadamente. Com o copo alto cheio até a boca da grossa vitamina, preferiu não ligar a TV e, em vez disso, sentou-se na confortável poltrona de vime que tinha na varanda onde leria as notícias do jornal do dia. Em dias calmos, Plínio ali relaxava observando os passarinhos sob as copas das árvores que filtravam a manhã no chão do promontório. Aquela natural algazarra, junto com uma ou outra freada brusca ou buzina estridente, ônus de se morar em qualquer cidade grande, contribuía para dar a tranquilidade procurada por Plínio nesses momentos.

Sentou-se e descansou o copo sobre a mesa auxiliar enquanto desdobrava o jornal até sua coluna preferida quando estranhou todo aquele silêncio. Onde estavam os pássaros neste dia ensolarado? Seria feriado? Onde estavam os sons do trânsito? Nem a vassoura do porteiro a varrer as folhas na calçada ele ouvia.

Levantou-se e se debruçou sobre a grade da varanda para ver se a rua estava mesmo deserta como esperava pela ausência dos peculiares ruídos, mas teve outra surpresa. Estava tudo lá: o engarrafamento, o motorista com metade do corpo para fora da janela gesticulando feroz, o vendedor de balas no sinal abrindo e fechando a boca e, prestes a voltar à poltrona, ainda viu aquele carro vermelho bater na traseira do ônibus parado no ponto.

Arregalou os olhos menos para compensar a percepção sonora que acabava de descobrir perdida e mais pelo espanto de que era acometido por perdê-la e, antes de voltar a sentar-se, correu de volta para dentro e ligou a TV. A TV lhe salvaria. Atrapalhando-se com o controle remoto acabou colocando num canal sem sinal e com chuviscos. Tentou ouvir algum chiado mas era comum a TV não emitir som algum naquelas sintonias. Apertou então na sequencia correta os botões e chegou a um programa que não assitia há anos, impressionado por redescobri-lo ainda no ar. Na tela, uma grande plantação de soja sacolejava ao vento sem emitir nenhum som.

Plínio olhou no controle o botão do volume. Olhou a TV e mirou o controle em sua direção. Seria o derradeiro teste. Devagar, correu o dedo até o lado do botão que exibia o sinal de + e, de olhos cerrados, apertou. O som permaneceu ausente enquanto o rapaz abria os seus incrédulos olhos vendo a barra azul que significava o nível do volume chegar ao limite na tela.

Entrou em pânico. Ligou o chuveiro e não ouviu o espargir da água. Amassou o jornal e não ouviu seu ruído seco, espatifou o copo cheio de vitamina na parede branca da varanda e não ouviu nem estalido do vidro nem o tilintar de seus cacos sobre o chão de cerâmica amarela.

Deixou-se cair sobre o sofá em desespero, mãos à cabeça e, berrando, sentia a garganta arder. Tossiu de tanto berrar, quase vomitou e não ouviu sequer um gorgolejo disso tudo. Descabelado e de olhos vermelhos afundou o rosto entre as almofadas coloridas quando sentiu um toque suave sobre seus ombros.

Virou-se e, sob a cortina de lágrimas, viu Marta que entrara propositalmente em silêncio pois, pela hora, adivinhava Plínio ainda na cama, preguiçoso que era, sempre demorando alguns minutos antes de deixá-la pelo banho. As mãos de Marta deixaram suas costas e agora seguravam seu rosto como quem segura um cálice, ambas as mãos sob os maxilares. Ela então entreabriu os lábios prestes a pronunciar alguma coisa.

Plínio tremeu pela possibilidade de também deixar de ouvi-la. Sentiu-se à beira da morte quando, em câmera lenta, via os pulmões de Marta encherem-se em sua inspiração preparando-se para falar. Como de costume, Plínio fechou os olhos e encolheu-se.

- Calma, eu estou aqui. Vou cuidar de você - disse Marta e escutou Plínio abrindo os olhos feliz, curado por milagre da inusitada surdez. Ouviu tudo então: os pássaros, os carros, os gritos lá fora e os da TV, o chuveiro e o liquidificador do vizinho. E, mesmo tendo todos esses sons disponíveis aos seus ouvidos ressucitados, preferiu encostá-los no colo de Marta e ouvir o reconfortante bater de seu coração. O calor do abraço e o conforto do colo o fizeram dormir novamente, exausto que estava, e assim ficou até mais tarde. Até o meio-dia porque era mesmo feriado.

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