9 de agosto de 2012

Indios

Todos os dias a tribo se reunia em volta da fogueira ao início da queda do sol por trás da grande montanha. As mulheres chegavam primeiro e alimentavam seus filhos com o que havia de melhor, era deles a prioridade. Antes que terminassem chegavam os homens da tribo com seus melhores cocares e pinturas,  adereços coloridos e chocalhos para a distração final dos pequenos cujas barrigas arredondadas de vermes e comida fresca reluziam ante o crepitar do fogo.

Em pouco tempo dormiam e as mulheres os aconchegavam nas pequenas redes rentes ao chão dentro das ocas, infinitos galpões com teto de palha e enormes vigas de madeira que sabe-se lá que entidade ancestral os pusera de pé. Aquecidos sobre as mantas de pele de jaguatirica, elas os deixavam para acompanharem seus homens sob o calor das enormes achas que agora queimavam violentamente no centro da aldeia.

Terminada a refeição o grande pajé levantava-se não sem dificuldade, ajudado pelos mais próximos e, pronunciando palavras estranhas, atirava ao fogo folhas e sementes sagradas que desapareciam instantaneamente na fogueira exalando inconcebível perfume, como se o cheiro da chuva pudesse misturar-se ao aroma de um beijo. Dessa fumaça, dizia o pajé em língua incompreensível, viriam as melhores sortes e os mais augustos sonhos que cada um da tribo pudesse imaginar.

Em pouco tempo, a negra fumaça dava lugar a uma outra, branca e cintilante, quase tão reluzente quanto a profundeza das chamas de onde vinham, e traziam consigo pequenas cinzas ainda em brasa que grudavam nas pontas dos narizes e cílios dos índios mais friorentos. Gesticulando ainda e cada vez mais febril, o pajé ia de rosto em rosto indagando o que cada um, de olhos fechados, via.

Kalita via somente Aielo correndo no prado, arma à mão e cabelo ao vento, atrás da caça. Aielo via somente Kalita banhando-se no regato. E ambos já não sabiam se o calor que sentiam era da fogueira real ou da imaginária que consumia seus pensamentos entrelaçados pela fumaça. Kalita via Aielo em sonho e em sonho compartilhavam-se. Aielo tinha Kalita em sonho como ela o tinha em seu próprio. 

Aproximados pelo grande fogo, em seu calor se consumiam, corpos trementes, suados, malhados pelas chamas que iluminavam a aldeia sob o céu recém pintado de escuro. Nenhum olho se abria e, ainda assim, via-se cada vez mais enquanto o pajé conduzia a cerimônia entre os índios entregues a seus devaneios. Kalita e Aielo, no prado ou no regato, ambos sonhavam-se vívidos, semi-despertos, e mantinham-se fielmente a cada final de dia, a cada inspiração e a cada expiração.

A voz do pajé diminuía. O grande fogo arrefecia. A luz do dia evanescia substituída pela mão negra da noite salpicada de estrelas. O transe desacelerava. As respirações se acalmavam. Alguns deixavam-se cair ao chão exaustos. Kalita abria os olhos e do outro lado da fogueira encontrava os de Aielo em sua direção. O suor e a fumaça irritavam olhos e gargantas enquanto aqueles peitos ainda ardiam.

Quando a fogueira se apagava por completo, os índios davam as mãos e agradeciam o repasto e o sonho, como se tivessem satisfeito corpo e mente naquele banquete e retiravam-se de volta à infinita oca, sob o zumbido dos moscardos e o ronronar das crianças enquanto os vaga-lumes se confundiam com as últimas cinzas ainda acesas levadas pelo vento para longe dali.

Kalita tirava de si a fuligem negra num demorado banho no regato, enquanto Aielo alcançava suas armas e corria até o prado a garantir que os pequenos tivessem o que comer no dia seguinte. De longe, ele a via banhar-se enquanto ela o via correr e ambos esperavam que a cerimônia da noite seguinte entregasse um ao outro novamente sob o calor das mesmas chamas, o travo da mesma fumaça e o incompreensível das mesmas palavras.

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