25 de novembro de 2012

Ipê amarelo

As costas de D. Alba estalaram quando ela levantou-se depois de tanto tempo agachada plantando aquela muda de ipê. O verão ainda não estava no auge e mesmo próximo do meio-dia o calor não sufocava e uma brisa vinda do jardim do outro lado da rua amenizava o sacrifício daquela senhora meticulosa ao pé do canteiro.

Era um ipê, não se sabia de que cor. Um dia ele seria frondoso e debaixo da sua sombra brincariam seus bisnetos que ainda não haviam nascido mas que, ela tinha certeza, estavam a caminho. E a notícia do casamento da primeira neta só aumentava a sua esperança.

Naquele mesmo lugar um outro ipê já vivera por muito tempo e D. Alba, muito antes de seus cabelos tornarem-se plúmbeos, ali descansava e lia suas histórias enquanto seus irmãos brincavam rua acima. Mas os tempos mudaram e a rua foi asfaltada. Os vizinhos se mudaram e os novos não ligavam para a sombra da árvore. Para eles, ela apenas ocupava uma vaga de carro. E mais carros viriam. E com o tempo e com os carros, veio também a gasolina que os vizinhos usaram para regar o grande ipê amarelo e causar-lhe uma dolorosa morte. Dolorosa não mais para a planta do que para Albinha que tanto gostava dela.

A árvore foi rapidamente encolhendo enquanto Alba crescia e as pessoas deixavam para trás o diminutivo de seu nome e ela era então só Alba, o que já era muito. Seus pais já haviam partido e o tronco enegrecido da árvore afogada em gasolina fora enfim retirado por seus filhos que tiveram todo o cuidado em manter um canteiro no lugar, provavelmente a vingança velada ao vizinho e sua pretensão estacionar ali.

Os filhos mesmos gostariam de estacionar seus carros em frente a casa de D. Alba. Isso facilitaria muito o trânsito dos carrinhos de bebê e bolsas de fraldas que agora pululavam pela casa antiga e davam novo ar à vida daquela senhora. Enquanto os netos cresciam, ela mostrava fotos do antigo ipê à frente da casa com uma nostalgia que impressionava as crianças. Ela sempre fora boa em contar histórias e, principalmente, piadas. Era a avó que as crianças mais gostavam e era-lhe natural esse carinho. Não fazia grandes festas nem comprava-lhes com doces ou mimos superficiais.

A primeira neta cresceu e aprendeu com ela a coser, tricotar e cozinhar, cultivando um carinho mútuo e uma confiança com a mesma diligência que tirava as ervas daninhas e as formigas do canteiro. E, no dia do seu casamento, o carro deixou a ela e seu marido, à frente desse canteiro onde a pequena muda de ipê havia sido recém plantada. A casa de D. Alba sempre fora o centro gravitacional da família e incorporava os corpos, celestes ou não, que entravam e saíam dela. Uns rápidos como cometas enquanto outros em órbitas milenares.

A árvore crescia na mesma medida da ansiedade de descobrir a cor de suas flores que D. Alba mantinha dentro de si. Desenvolvia-se saudável, seu caule deixara de ser de um verde frágil e agora ja tinha a casca maleável que precede os grandes troncos. Suas folhas mínimas já dava lugar a línguas largas a pender pesadamente da ponta dos galhinhos mais audaciosos que buscavam o sol.

Por longos anos D. Alba assistiu esperançosa o surgimento dos botões que não se abriam. O clima, quente demais, frio demais, vento demais, sempre explicavam o fato de até agora nenhum botão ter brotado. Até que, num outro verão, o nascimento da primeira bisneta acalentou ainda mais o sonho de ver a cor do ipê, finalmente. Já era hora de crianças voltarem a correr e berrar pelos corredores da casa e  pelas calçadas da rua. Só assim o ipê teria a energia que precisava para enfrentar o clima cruel que matava, ano a ano, suas flores.

Mas, algum tempo depois, o ipê como que parou de crescer, estacionou. Era comum ver cair as folhas verdes, saudáveis de seus curtos galhos. Estava da altura de D. Alba agora e ela podia conversar com ele olho no olho e era com uma reverência que ela se agachava todo dia para regar-lhe as raízes e arear-lhe o solo. Um dia, a situação se agravou e D. Alba viu a casca do tronco do ipê encher-se de um branco não natural, como um pó a cobrir suas rasas reentrâncias de planta jovem.

Foi quando ela soube que o casamento da primeira neta não estava indo bem e a separação era inevitável. D. Alba temeu nunca descobrir de que cor seria o ipê. Gostava de pensar que o redondo do mundo devolveria a ela o ipê amarelo de sua infância e que, daquele passado, reviveria as alegrias sob o frescor de sua sombra com os bisnetos nos braços, ensinando a coser e contando histórias.

O sal de tantas lágrimas fizeram o ipê secar e secar e nem o empenho de D. Alba nem seus inúmeros artifícios fizeram voltar a saúde à planta. Desenganou-se. A desilusão foi como a gasolina e tirou-lhe a vida e D. Alba mesmo foi perdendo o viço. Deixou-se abraçar pelo sofá e a televisão. A correria dos netos e a gritaria dos churrascos não aplacavam a grande perda de seu ipê e, com ela, a certeza de que o passado não volveria e se perderia num olvido gradual e lancinante. Acompanharia a morte da esperança pela janela, folha a folha.

Mas sua rotina de UTI botânica mantinha-se. Não optou por nenhuma ortotanásia e continuou a adubar a terra, regar e retirar as ervas mesmo não cultivando mais sonhos de recuperação. E, neste processo, surpreendeu-lhe um pequeno broto num dia, bem cedo, camuflado por gotículas de orvalho ou da chuva que caíra na noite anterior.

Aproximou-se bem para ver se aquilo era realmente o que pensava ser e teve que entrar em casa para buscar os óculos de perto no intuito de certificar-se. De pertinho, achou que a chuva tinha lavado embora o pó que cobria o tronco e não restava sinal deve na terra aos seus pés. Uma nova faísca incendiou-lhe o peito e veio à superfície traduzido num breve sorriso.

Entrou novamente buscando o telefone mas enquanto ainda procurava no caderninho o número da primeira neta, ele tocou. Era ela própria e queria lhe contar novidades em primeira mão. D. Alba soube, então, que as flores seriam mesmo amarelas.

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