7 de dezembro de 2012

O Encontro de Clotilde

Clotilde pediu para sair mais cedo, inventou que precisava levar sua irmão ao médico. A patroa desconfiou da existência de irmã mais misteriosa e não menos misteriosa doença que acometia subitamente requerendo atenção prestativa da ama de tantos anos e confiança.

Clotilde não podia revelar mas tinha planos para aquela noite. Dias atrás renovara o quartilho do perfume favorito, mimo ao qual se reservava apenas no Natal ou, atualmente, no velório de alguma amiga mais próxima cujos quase oitenta nos de vida vinham subtraindo com cada vez mais frequência de seu convívio.

As tantas conduções que tomava até sua casa nem a eternidade do trajeto eram suficientes para esmorecer Clotilde de seu plano. Chegando, calmamente preparou a si e a casa para a ocasião. No banheiro, abriu um sabonete novo e atirou o velho, craquelado de saudade, no lixo. Seu vestido já estava passado desde a noite anterior, assim como a anágua rendada e o lenço de cetim que manteria à mão para o caso de alguma emoção maior derramar-se pelos olhos.

Desistiu das luvas, coisa antiga, pois queria parecer mais jovem e era Dezembro. As várias camadas de roupa lhe dariam calor suficiente para preocupá-la com um possível suadouro incontrolável na hipótese de as coisas realmente esquentarem. Mesmo com oitenta anos experimentava calores súbitos que não eram efeito da menopausa.

Então, antes de rechear todos aqueles panos, Clotilde preparou o jantar. Era uma especialista em agradar e, hoje, queria ser agradável mais do que nunca. Hábil que era na instrumentação cirúrgica da culinária, não tardou para que a carne assasse e ficar pronta ao mesmo tempo que o arroz, o feijão, tudo cronometrado pelos anos de experiência.

Do armário resgatou a toalha de mesa que um dia esteve sob seu bolo de casamento e, noutro, sobre o rosto de seu finado marido. Agora, depois de tanto tempo, não importava mais aquele passado, por mais brilhante que tivesse sido, como também não importava a apagada vida solitária que vivia já há trinta anos. A toalha, uns cinquenta. Talvez mais. Se tivesse tido filhos provavelmente teria mais facilidade, ou vontade, de medir o tempo com maior precisão pois não há relógio tao acurado quanto o que palpita num peito de mãe, dizem.

Toalha à mesa. Louça branca e os melhores talheres. Guardou no fundo da despensa os copos de geléia de mocotó acumulados ao longo dos anos de regozijo com a sobremesa e substitui-os na mesa por duas taças de vinho. Nunca tomara vinho mas sabia que para a ocasião deveria servi-lo. Não era fã de bebidas de qualquer genero, ainda mais tendo elas levado o dito marido com um fígado mais inchado e espumoso do que o normal. Ainda hoje, quando bebia, nenhum gosto era mais forte do que o do finado beijo. A garganta ardia menos que o peito de saudade. Chegou a pensar em abrir uma sidra mas seria espalhafatoso demais e, afinal, não havia ainda o que comemorar. Por isso deixou-a de lado até que o Reveillon chegasse. Não estava longe.

Tudo pronto na cozinha, retirou-se para o banho que poderia ser demorado, minuncioso e relaxante. À falta de um secador em casa, havia passado ante no salão e armado o cabelo num penteado que lhe agradava e que preservou dentro de uma touca sob o chuveiro fraco. Sentou-se à penteadeira enrolada na toalha mais felpuda e sorriu para si mesma no espelho. Tateou sem tirar os olhos do reflexo e levou às orelhas os brincos herdados da avó. Duas pequenas argolas douradas. Simples, mas que contrastavam tão bem com a pele morena de Clotilde que se ela não tivesse olhos brilhantes, chamariam mais atenção.

A noite caía vagarosamente lá fora enquanto Clotilde calçava seus sapatos de salto alto. Certificou-se mais uma vez no espelho se tudo estava no lugar e ajeitou um cílio revolto com a pequena escovinha da máscara. Correu a mão pelos lados do corpo sobre o vestido e se sentiu preparada.

Na sala, faltava um toque final. Pegou a lista telefônica e pôs na cadeira à sua frente do outro lado da mesa. Em cima dela pôs o pequeno televisor e sintonizou o canal da novela, que ainda não tinha começado.

Clotilde teve tempo de servir o seu prato e um prato à frente da TV com quem partilharia, finalmente aquele romântico jantar. Encheu as duas taças de vinho a tempo de brindar um sonoro "tim tim"e suspirou assim que o Tarcísio apareceu na tela.

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