18 de março de 2011

Abraços Luminosos

A mesma idéia em duas versões. Vote na que mais lhe agrada. 


Caros,

Peço desculpas por ter ocupado sem aviso prévio a agenda de todos no dia de meu velório. Apesar de ter ficado muito emocionado com a presença de cada um, não pude agradecer apropriadamente e, agora, venho informar que todo aquele sofrimento, lágrimas e soluços foram em vão.

Sei o quão sincero foi o pesar concentrado ao redor de meu caixão. Posso comprovar que a dor de quem fica supera em muito a de quem vai e não duvido de nenhuma afirmação feita sobre mim pelo padre ou pelos mais próximos nos momentos que antecederam a descida final de meu corpo.

Porém, ao chegar do outro lado, fui informado da precocidade de meu desencarne e da necessidade da revogação de minha morte nos infinitos autos dos alfarrábios divinos. Não obstante à minha insistente argumentação, não tive como discordar da confusão que seria caso permanecesse, sem consentimento, no Além e do precedente que abriria para cada potencial suicida da Terra.

Então, sem querer essa responsabilidade sobre minhas costas, resolvi acatar a decisão astral e voltar ao convívio dos meus, mesmo sabendo da decepção que causarei a todos que choraram minha supostamente definitiva despedida.

Estarei no mesmo endereço à partir dos primeiros raios de sol do próximo sábado.

Abraços luminosos.

***


Caros amigos,


É com prazer que comunico a minha ressurreição. Peço doloridas desculpas pelas lágrimas e por ter ocupado sem prévio aviso a agenda de todos no dia de meu velório. Aproveito para agradecer a presença, coisa que, por motivos óbvios, não consegui fazer na oportunidade.

Estive por alguns dias do outro lado tentando convencer os responsáveis pelo Além de que meu desencarne havia sido precoce e, depois de muito debater e argumentar, fui premiado com uma audiência paciente e aberta às minhas idéias, confesso, um tanto quanto destruidoras de paradigmas, mesmo aqueles seculares que sustentavam as suas opiniões. Não fui autorizado, porém, a dar publicidade a esses argumentos, exigência com a qual concordei menos pelo motivo da confusão causada pelo precedente acontecido há mais dois mil anos e mais pela minha pressa em voltar e encontrar vocês.

Portanto, gostaria de convidar a todos para o café-da-manhã de boas-vindas que acontecerá no próximo sábado aos primeiros raios de sol. Concordo que uma manhã de domingo seria mais simbólica, mas quero estar em vida e com a consciência tranqüila por ter matado saudades de todos antes do jogo no Maracanã.

Abraços luminosos.

17 de março de 2011

Poesia 12

Canto meu coração neste poema
e não sem dor contraio a palma
papel picado, o risco e o destrato
enquanto me maltrato, reciclo minha alma

Simulo um belo conceito
e o escondo em palavras sem jeito
onde foi parar o sujeito
tão bom nas coisas da alma?

Seguro do mal neste escafandro
mergulho ereto na fenda abissal
Tateando como um cristo, cego e braços abertos
procurando as flores entre sarça e coral

De lá trarei o caule da ficção
dos poemas e versos que me escorrem com calma
E se todo esforço for vão
e as mudas não vingam e morrem
Poderei descer novamente
seguro ao escuro
onde mora minha alma