30 de novembro de 2010

Flor de vaso

Quem te colhe, flor de vaso
que não sangre em teus espinhos
disponíveis, caso a caso
desabrochando-se em carinhos

Sob a nesga do primeiro fogo
colore sonhos de aurora
Estica-se na janela, em gozo
quem preso a ti, devora

És tudo e nada ao mesmo tempo
de verve e obviedade
adula em seiva rubra o ressentimento
das mais belas crueldades

Fez luz nova brilhar no prado
que expôs em cor e som
aquele velho arroio questionado
sem marcas de mordida ou batom

Uma vez doce e singela
inocula teu veneno em borbotões
teus espinhos, caninos em assalto
vens do alto, vampira de emoções

Era óbvio o destino
Teu e meu em paralelos
dos beijos que sacudiram sinos
restam os golpes dos martelos

29 de novembro de 2010

Conte um Conto da ABL

Como já saiu o resultado do concurso Conte um Conto, da ABL, que tinha como proposta escrever um novo final para o conto A Cartomante, de Machado de Assis, agora posso publicar o final que eu escrevi. Para quem não conhece o conto, sugiro lê-lo AQUI. A idéia era partir do momento em que Camilo sai da casa da cartomante e vai para a casa do amigo.


Chegando, apeou e avançou pelo pátio até a soleira, onde fitou as carrancas que guardavam a pequena varanda e anunciou-se batendo à porta.

Villela estava febril. No escritório, serviu licor de jenipapo, acendeu o cachimbo e sentou-se ajeitando os óculos de cristal. Sob intensas baforadas, Camilo percebeu que as cartas anônimas deixadas com Rita repousavam na mesa entre eles e estremeceu, cogitando um erro nas previsões da cartomante.

Quanta ingenuidade, pensou. A anciã dissera-lhe só o que queria ouvir e lhe encheu de esperança, assim como antes o fizera com Rita. Como era fraco, vergando ao sabor dos que o influenciavam. Apaixonou-se quando compelido, traiu uma longeva amizade quando incitado, criou e destruiu uma vida inteira de filosofia ao bel-prazer do que sopravam em seu ouvido. Sua infantilidade destoava da figura adulta do amigo, altivo, bem-sucedido, fumando o cachimbo da maturidade. Resignado, decidiu tomar rédeas do próprio destino.

- Caro amigo, antes de tudo, quero confessar-te um erro pelo qual estou deveras arrependido. Venho encontrando-me em pecado com Rita. Estive distante a pensar como contar-te tal afã – mentiu.

Grave como de costume, Villela interrompeu.

- Camilo, acalma-te. Saibas que descobri Rita planejando meu assassínio e posterior fuga. De tonta a víbora nada tinha pois que deu-se ao trabalho de letrar um escravo que lhe emprestasse a caligrafia nessas cartas anônimas – disse apontando as cartas na mesa – com o motivo de chantagear-te. Chamei-te para desmascará-los juntos, mas como demoraste, tomei sozinho as providências para o exílio de ambos. Portanto, não desculpe-se – sentenciou o ex-magistrado – A traidora é ela.

Lívido, Camilo recostou-se novamente e sossegou num gole quente de licor de jenipapo.

25 de novembro de 2010

W Brasil

O exercício era fazer um conto utilizando a letra de uma música. Eu escolhi W Brasil do Jorge Ben Jor. Ficou mais longo do que o normal, mas os especialistas que leram acharam muito bom. Tá com tempo?

W Brasil


            Antes de a favela carioca ter essa imagem pejorativa de violência e descaso social que hoje tem, antes de ser reduto de tráfico de drogas e milícias, era um lugar de esperança. Um lugar onde famílias vindas do interior, de onde quer que fosse, poderiam se estabelecer livremente e sonhar com dias melhores para si e suas famílias ao som de radinhos de pilha sintonizados na hoje extinta BKW Brasil, cento e cinqüenta megahertz. Aos domingos a favela ressoava o chiado do velho radialista a chamar “Alô, alô – shhhhhhhh – WBrasil! Alô, alô – shhhhhhhh – WBrasil!”

            E foi nesse ambiente que floresceu a amizade de três garotos: Jacarezinho, filho de retirantes alagoanos, apelidado dessa forma por seu porte esguio, na verdade quase esquelético, e sua dentição exageradamente proeminente; Avião, menino meio avoado, motivo do apelido, tinha perdido o pai para a bebida quando ainda era bebê num município do interior do Rio do qual ele não lembrava o nome; e Disco Voador, moleque cabra-da-peste como lhe chamava a própria mãe na hora de acabar a correria pelos becos e tomar banho, processo demorado que acontecia nos dias em que havia água suficiente na caixa para a higiene de sua grande cabeça paraibana, motivo pelo qual foi apelidado dessa forma. Era comum ouvir as mães aos berros quando o carro-pipa chegava: “Jacarezinho!” “Avião!” E uma das mães, ciente da propensão para o desastre que tinha seu filho, vociferava com os vizinhos que estavam sempre levantando um puxadinho aqui ou ali: “Cuidado com o Disco Voador”, dizia já conformada com o apelido, “Tira essa escada daí! Essa escada é pra ficar aqui fora e não no meio do corredor”.

            Como não havia ali uma convenção formal, não havia a quem recorrer quando o menino espatifava-se não só contra escadas, mas contra carrinhos-de-mão, baldes de tinta e poças de cimento. Não poderiam, enfim, sentenciar algo do tipo “Vou chamar o síndico” e nem podiam contar com a polícia para manter esse tipo de ordem. Por isso, um código de ética velado sustentava as relações sociais. E eram exatamente essas relações que esses três meninos, cheios de sonhos e planos, se esforçavam para transgredir.

            As pessoas viviam chegando e partindo da favela. Uns voltavam para seus lugares de origem enquanto outros vinham buscando a tal da esperança. Um belo dia mudou-se para as redondezas uma senhora mulata com seu neto. A família toda havia ficado no Nordeste e a avó viera para o Rio para tratar a doença rara do neto – um tal de hipotireoidismo – que já manifestava no menino um quadro de obesidade. Mas alheios a todas essas complicações adultas demais, Jacarezinho, Avião e Disco Voador, receberam o novo amigo com a maior das honrarias, um apelido: Tim Maia. E, quanto mais o novo integrante demonstrava seu desagrado, tanto mais os meninos reforçavam-no: Tim Maia! Tim Maia! Tim Maia! Tim Maia!

            Os quatro, agora adolescentes, eram inseparáveis. Jogavam no mesmo time contra os meninos da rua de baixo e pegavam as menininhas das outras favelas nos pagodes. Mas o esporte preferido deles não era nem futebol nem beijo na boca, era o surf ferroviário. O trem corre nos trilhos da Central do Brasil e leva em seu cachaço os quatro moleques se desviando dos fios de alta tensão em alta velocidade. E eram bons nisso, o que lhes dava um status de heróis, aumentando tanto suas chances de ganhar os jogos de bola, devido à maior torcida que reuniam, quanto suas chances com as menininhas das favelas.

            Um dia, numa tarde de sol, os quatro entraram num dos vagões mais lotados. Idosos em pé, crianças de colo aos berros, mendigos esmolando, enfim, tinha de tudo dentro do vagão, incluindo paixão antiga de Avião. Ela havia mudado há muito para a casa de uma tia, Léia, que morava em melhores condições em Acari. Desde então, o contato tornou-se esparso, mas o sentimento, pelo menos por parte dele, maior. Quem lhes havia apresentado foi o Tim Maia que disse “Avião, essa é a Rita, irmã do Fernando, o belo, e prima do falecido Cabral 2, lembra dele, filho do portugês da venda, o Cabral 1?” No mesmo instante, Avião soube que havia algo diferente na menina, mas não chegou a dizer nada, ainda mais quando viu Jacarezinho aos beijos com ela num canto do baile. Até hoje, de sacanagem, o magricela relembrava o dia dizendo “E aquele beijo quente que eu ganhei da sua amiga?” ao que o próprio Avião respondia menosprezando: “E o que é que deu? E daí? Não tenho nada com ela mesmo”. E Jacarezinho, galhofeiro, completava “Funk na cabeçaaaaaa...” e ria junto com o resto da turma da cara amarrada de Avião.

            Nesse dia do trem lotado, talvez tenha sido o calor ou a distância prolongada entre os dois, o encontro inesperado levou Avião a deixar os amigos de lado e, se acotovelando pelo vagão, chegar perto de Rita. Ela o viu e o reconheceu. Cumprimentaram-se com dois beijos no rosto e, percebendo que o rapaz não iniciaria qualquer assunto, disse: “Você já viu o último Niu iorque taime?”, referindo-se ao informativo marginal que era impresso em mimeógrafo e distribuído na Central falando dos eventos jovens, próximas festas, etc. “Não” respondeu sincero e despreparado o rapaz. “Deu no niu iorque taime que o Fernando –  o Belo, meu irmão, lembra? – não sabe se vai participar do próximo campeonato de surf ferroviário”. Avião arregalou os olhos e, num movimento quase involuntário, natural à sua dureza e falta de noção, arrancou o papel da mão da menina. Se havia um campeonato disso, a gente tinha que saber! Passou os olhos pelo papel pensando “surfista de trem...surfista de trem” e, depois, vagou sua atenção deficitária por outros textos como o que dizia “A feira de Acari é um sucesso” sobre o que refletiu em sua ingenuidade, “é verdade...tem de tudo lá. É um mistério”.

             Despediram-se com mais dois beijos na bochecha e, sem mais palavras, levou consigo o papel meio amassado. Reencontrou os amigos quando desembarcaram em Japeri, estação que preferiam para subir às costas do trem. Avião nem deu tempo de os meninos perguntarem o porquê daquela cara de quem viu fantasma e foi logo lhes entregando o papel. Enquanto os outros três liam sobre o campeonato, Avião dizia “Deu no niu iorque taime! E a gente não sabia!”

            Levantando os olhos do papel mimeografado, Jacarezinho olhou para o nada como se percebesse o desafio no ar. “Ouvi falar dessa parada...começou já tem um tempo. Dizem que o Cabral 1 descobriu a filial, começou a parada faz mais de dez anos. O cara era fera, fazia até acrobacia nas costas da cobra de ferro. Mas aí a idade chegou e o maluco aposentou. Dizem que o Cabral 2 tentou e se deu mal. O filhote de cruz-credo foi tentar pular um fio, tropeçou e virou churrasco”. Todos se olharam esperando a conclusão, mas Avião não deixou: “Vambora mostrar pra todo mundo então o que a gente faz, cambada!”. E num uníssono, os quatro se abraçaram e subiram o poste para esperar o trem chegar.

Os quatro perambularam pelas favelas para descobrir quem estava organizando o campeonato, pois Avião não queria pedir a Rita perguntar para seu irmão Fernando, o belo, aparentemente uma referência no assunto, já que foi entrevistado pelo famoso panfleto, como fazia para se inscrever. No fundo, Avião queria ser campeão do torneio e mostrar para Rita que era melhor que o Jacarezinho mirrado que ela havia preferido. Amor! Dor! Dor! Era o máximo que seu intelecto reduzido conseguia resumir.

            Acharam o barraco que concentrava as inscrições num beco na Vila do João. Duas pessoas estranhas guardavam a entrada do barraco e perguntaram: “É aqui que faz inscrição pro campeonato de surf?”. Um dos mal-encarados virou para o outro e disse “Deixa passar. Lá da rampa mandaram avisar que os moleque são tranqüilo”, se permitindo o erro de concordância. A taxa era cara e, prevenidos, os rapazes antes de pagar ainda perguntaram como conseguiriam o dinheiro de volta caso a polícia desse o ar da graça no dia do evento. “Todo dinheiro será devolvido...” disse o suposto tesoureiro do evento que recolhia as notas amassadas dos garotos. Cada um recebeu um envelope e saíram tão felizes com a ousadia que nem perceberam o que o tesoureiro dizia num tom debochado e sorriso maléfico “...quando setembro chegar”.

Num pedaço de papel também mimeografado dentro de cada envelope de azul índigo que haviam recebido se lia data e local onde deveriam estar para o início da competição. Durante os sete dias que o separavam da data, Avião, em treinamento, passou percorrendo diversas vezes as linhas do trem da Central passando pela Mangueira, dando uma volta na Pavuna e chegando em Madureira, dentro e em cima do trem, tentando esbarrar não com os fios de alta tensão, mas novamente com Rita para lhe contar as novidades.

Mas o destino também tinha um envelope de azul índigo reservado para o rapaz. Dois dias antes da competição, Disco Voador chegou dizendo que haveria um “pagode nervoso” lá em Marechal Hermes e que, segundo suas fontes, Rita estaria lá com Fernando, o belo, seu irmão. “É lá” rematou Avião. “É lá o que?” perguntou o amigo cabeçudo, mas, desconversando, Avião completou “Ahn...que o samba rola de primeira”. Disco Voador desconfiou da apreensão do amigo e comentou mais tarde com Jacarezinho, “Cara, o Avião tá estranho. Tá motivadaço pro campeonato”. “Tá é com dor de corno porque eu peguei a mulezinha dele. Tá querendo se amostrar pra ela no campeonato pra ver se pega. Prego”. “Então fica ligado, Jacaré, porque o cara vai brigar pra ganhar”, completou Disco Voador com a eloqüência que a vida achou por bem lhe presentear.

No pagode, os olhos de Avião varriam a multidão. Com a ansiedade lhe aflorando à pele, não conseguia disfarçar a vontade de encontrar com Rita, o que só veio a acontecer lá pelo final da noite. Levemente embriagado, avistou a menina sozinha e aproximou-se. Dois beijinhos e a pergunta “Está sozinha?” “Não, o Fernando foi ao banheiro”. Num esforço sobre-humano, Avião, descontrolado, disse o que, mais tarde, se arrependeria “Sabe Rita, daqui a dois dias você vai conhecer o homem da tua vida. Um cara que pode até não ser bonito nem magro nem morar bem lá em Acari que nem você, mas que não esconde que tem origem humilde, que não troca seus ideais por uma vida confortável. Você vai conhecer um cara corajoso que leva a vida se arriscando por aquilo que gosta. Nesse dia, tu vai ligar pra tua tia rica e vai dizer ‘alô, alô, Tia Leia. Encontrei o homem da minha vida. Vem pra cá, rápido, mas se tiver ventando muito não venha de helicóptero, vem de Kadett mesmo.”

Avião, de olhos rasos e vermelhos, encarou uma Rita incrédula e surpresa. Ela não sabia como reagir e ele não sabia como expressar o que sentia por ela. Amor! Dor! Dor! Deu um passo atrás e depois as costas e foi-se deixando a menina sem resposta para a pergunta que lhe fez Fernando, o belo, quando voltou do banheiro “Quem era?”

No dia seguinte os quatro amigos inseparáveis não se encontraram. Jacarezinho ficou em casa concentrado. Disco Voador estava de castigo por ter destruído a churrasqueira em construção. Avião estava de ressaca e Tim Maia passou o dia tomando água de vinte em vinte minutos para um exame que faria de manhã bem cedo antes do campeonato, “Alô, telefonista, me desperte ás 7:15, por favor” disse sua avó ao orelhão antes de ir dormir. Enquanto isso, em Acari, toca o telefone da casa da Tia Leia. “Oi, mãe, é o Fernando. A Rita está por aí?” No minuto seguinte, atende a garota “Oi, Fernando”. “Oi, Rita. Vou ficar na casa da Laura hoje, mas não esqueci de amanhã, não. Você vai querer rádio táxi?” A menina sorriu e disse “Nove e meia. Manda um beijo pra Laura e vê se cuida dela direito aí, senão o bicho pega. Se vacilar com amiga minha vai ter que prestar contas comigo”. “Tá bom, Rita, pode deixar. Não vou fazer nada que ela não queira!”. “Bobo. Até amanhã”. “Até”.

Lá pelas onze horas quando Rita e Fernando chegaram à estação de Cascadura o já povo se aglomerava para ver o início da competição. Contrariando as expectativas iniciais, a polícia que lá estava não ameaçou os procedimentos da comissão organizadora. Eram de alguma forma ligados aos competidores e estavam ali apenas para garantir a segurança do evento. Mesmo tendo feito o exame de manhã, Tim Maia não foi o último a chegar. Avião em silêncio, se aproximou dos três amigos com olheiras cavadas e escuras. Dava para perceber que não havia dormido. Disco Voador, comovido com a imagem sugeriu “Avião, você tem certeza que quer se equilibrar hoje? O sol tá forte, neguinho vai com tudo”. “É pra isso que eu tô aqui, Disco. Hoje vou com tudo”. Dessa vez, até Jacarezinho, normalmente alheio aos sofrimentos dos outros, ficou chocado com a atitude do amigo e tentou atabalhoadamente amenizar, “Que isso, cara. Isso tudo por causa de xereca? Quer que eu coloque a Rita na sua fita?”. Avião cerrou os olhos como que para conter a raiva que deles escorria, mas evitou o conflito e disse apenas “Não precisa”. Queria mostrar para todo mundo do que era capaz em cima do trem. Se arrumasse uma briga agora o máximo que conseguiria era ser expulso e deixar outro brilhar aos olhos de sua Rita. Não, ele não permitiria. Seria um ninja hoje em cima do trem, um gato driblando os fios, um bailarino se contorcendo sobre o ferro quente e sob as passarelas, o balanço do trem seria seu diapazão a quem ele clamaria “Eu também quero graves, médios e agudos” se soubesse alguma coisa de construção musical.

O percurso começava em Cascadura onde uma escada improvisada ajudava os competidores a subirem no trem sem percalços, e terminava em Anchieta. Lá, sentados numa bancada haveria uma comissão julgadora que apuraria os votos dos juízes instalados nos vagões que, de alguma forma, tinham a responsabilidade de observar a performance in loco e dar-lhes nota. Em Cascadura alguém da organização gritava “Eu vou chamar” e um suspense se instalava no ar enquanto a audiência aguardava o nome do próximo competidor. E, um a um, os amigos foram chamados. “Jacarezinho”. Nota oito lá em Anchieta. “Avião” Nota nove e meio em Anchieta. “Disco Voador”. E ele veio cheio de si “Cuidado comigo! Cuidado com o Disco Voador. Tira essa escada aí que eu vou subir sozinho! Essa escada é pra ficar aqui fora!”. Mas algo aconteceu no meio do caminho, pois não chegaram a vê-lo em Anchieta. E, por último, “Tim Maia”. Nota dez em Anchieta, foi ovacionado com aplausos dos fãs que lá estavam e o coro “Tim Maia, Tim Maia, Tim Maia, Tim Maia!”

Avião ficou desesperado e quis partir para cima do balofo, mas Jacarezinho não deixou. Via na alegria do amigo mais recente a tristeza que levaria para o resto de sua vida por não ter conseguido conquistar o campeonato e, por conseguinte, segundo o distorcido raciocínio do rapaz, o amor de sua querida Rita. Ela, por sua vez, vendo-o desolado nos braços do amigo raquítico tomou a iniciativa e agachou-se ao seu lado. Quando a viu, nem tentou enxugar as lágrimas e, transtornado, só pode pronunciar “Eu te amo, Rita”. Como resposta orgânica a um estímulo externo, os olhos da menina encheram-se d’água e por todos os demorados segundos que durou aquele primeiro beijo nenhuma palavra foi dita. E não era necessário, pois a platéia já tinha se esquecido do Tim Maia e agora ovacionava em coro o outro amigo “Avião. Avião. Avião. Avião.”

23 de novembro de 2010

50.000 cacos

 A porta se fechou com um estrondo e a fruteira de vidro rachou pela violência com que o molho de chaves caiu sobre ela. Bernardo mal se agüentava de ansiedade, rasgando o pacote que acabara de receber do correio. Teve alguma dificuldade para retirar a fita adesiva que trancava as dobraduras do papel pardo, mas tanta era sua vontade que arrancou-lhe à unha.

Deu um suspiro ofegante quando retirou o último pedaço do embrulho e não conseguiu segurar, dentro do azul dos olhos, sequer uma lágrima ao ver-se diante do que esperava há tanto tempo. Na caixa lia-se em enormes letras coloridas “50.000 peças”. Não importava se era uma paisagem polar, uma nave de igreja barroca ou um aposento gregoriano. Alguns segundos depois, aqueles suficientes para arrancar os últimos plásticos protetores, lá estava o rapaz debruçado sobre um emaranhado de pequenos pedaços de cartão recortado, um quebra-cabeças.

Antes de começar a liturgia que lhe consumiria alguns dias, quiçá semanas conforme era sua esperança, pois tanto melhor quanto mais intrincado, olhou nas paredes da sala como troféus os vários desafios previamente superados. Na parede maior, sobre a tevê, deixou-se por alguns contemplativos segundos a relembrar os últimos momentos daquele Baco de Caravaggio em tamanho original.

Tomou fôlego e voltou atenção ao monte de peças que o encarava. Uma a uma elas iam e vinham diante dos seus olhos, um milhão de detalhes, cores, concavidades e reentrâncias cujo balé de possibilidades era a paz, encontrar sentido naquele caos, ordem naquela desordem.

Aos poucos pequenas metades se fundiam em proto-imagens, noções, que iam formando novas metades a se fundiam com outras peças. Viam-se, agora, dois olhos, uma orelha, um queixo barbado e proeminente. Era sem dúvida um rosto, um retrato.

Não dormiu. O dia seguinte passou e mais um e mais um. Também não comeu durante esse período, o que dava-lhe, hoje, uma aparência destratada e entregue. As olheiras eram toneladas sobre as maçãs-do-rosto e Bernardo seguia montando: face, pescoço, ombros. Mais do que um retrato, era um busto.

Mais três dias se passaram e Bernardo seguia febrilmente o processo de escolha, verificação, raciocínio e encaixe. Escolha, verificação, raciocínio e encaixe. Escolha, verificação, raciocínio e encaixe.

Enfim, no sétimo dia, restava-lhe pouco mais do que algumas dezenas de peças. Com o nariz arrastando na figura, preocupado apenas com os detalhes, ainda não havia reparado na imagem que ia completando. Quando as luzes pediram para serem acesas, Bernardo tinha somente uma peça na mão. Era uma peça escura com dois lados retos, pressupondo o ângulo do canto inferior esquerdo do painel.

Vagarosamente aproximou a peça do vazio que clamava por ela e encaixou, mas em vez de sentir aquela mesma antiga sensação de plenitude das outras conquistas, um calafrio foi o que lhe subiu pelas costas secas de cansaço. Trôpego e descrente viu um buraco, uma mancha clara da cor do chão onde deveria estar uma peça na altura do coração do personagem retratado.

Ficou de pé. Fitou panorâmicamente toda a imagem e viu a si mesmo, mesmos olhos azuis, mesmo cabelo jogado, mesmas olheiras de cansaço. E mesmo vazio no peito. Estremecendo, correu para o banheiro e viu-se mais uma vez com o mesmo aspecto no espelho e socou-lhe com tanta força que levou o sangue a respingar no teto. Procurou dentre estilhaços aquele mais apropriado para substituir a peça faltante. Trêmulo como quem está prestes a chegar onde é esperado, revirou a poça vermelha que se formava no chão até resgatar dela o pedaço de vidro que lhe serviria.

Levantou-se devagar para que o escuro que já chegava à sua visão periférica não a engolisse por completo. Cambaleou apoiando-se nos portais até deixar-se cair ao lado do auto-retrato-quebra-cabeça. Tentou limpar o sangue do pedaço de espelho que trazia do banheiro, quebrou-lhe uma pequena aresta para garantir o encaixe perfeito e pousou o dedo ensangüentado completando a obra.

18 de novembro de 2010

Antes da catraca

Este deveria ter sido o primeiro post deste blog. Mas como eu só escrevi ele ontem, fica hoje o registro.

Antes da catraca

Sempre andei de ônibus e sentava antes da catraca, na época que ainda se entrava nos ônibus pela parte de trás, só para ficar observando as pessoas. Tentava imaginar de onde vinham e pra onde iam. Sentia-me um tipo de Sherlock Holmes adivinhando os pontos aonde cada passageiro saltaria.


Mas isso acabou depois que fui assaltado. Os assaltos a ônibus eram comuns, mas, geralmente, os que sentavam antes da catraca eram poupados. Sentar antes da catraca dava às pessoas um ar de marginalidade, de revolta, o trocador achava que a gente ia dar calote. Essa suposta marginalidade nos aproximava dos verdadeiros marginais em ação catando os pertences dos integrados pagadores de passagem lá na frente. Mas, apesar de ter incorporado essa aura marginal à minha atitude, de nada me valeu nesse dia e, graças a deus, consegui, com o tempo, diminuir minha dependência do transporte público.

Viajar antes da catraca também era o fenótipo de uma característica que carrego em meu DNA: a introspecção. Lá de trás conseguia ver tudo sem ser visto e isso me dá outra característica: a possibilidade de ver em perspectiva. Sou bom em me colocar no lugar dos outros e, talvez pelos dois motivos, seja impelido a escrever.

Por muito tempo preferi a poesia que era a realização do “ver sem ser visto”. Mas, aos poucos, a prosa vem me cativando e, através dos contos, ponho em ação essa veia documental destilada nesses pequenos textos cujo estilo, se tiverem paciência e altruísmo suficientes, constatarão nas descrições, às vezes exageradas, foco principal do meu aprimoramento, e nas metáforas inusitadas.

Não domino técnicas nem trago ainda grande bagagem literária nas costas, mas tenho boas intenções. Espero que, um dia, alguma frase que eu venha a escrever ou tenha já escrito provoque uma lágrima ou um sorriso, um susto ou uma reflexão, enjôo ou júbilo. Mas, enquanto isso não acontece, estarei aqui, atrás da catraca, absorvendo e escrevendo até onde esse ônibus me levar.

15 de novembro de 2010

O comprometimento do salmão

Estava pegando no sono. Meu pé esquerdo sentia o fluxo do rio onde estava pela metade, trazendo da ponta dos dedos uma sensação de pura paz. Não havia barulhos senão o murmurar baixo como um sussurro da água desfazendo-se em espuma contra uma pedra maior e o chacoalhar das copas das árvores tão altas que me desafiavam a visão quase desfalecida.

Acompanhava com olhos semicerrados a água em seu ir sem vir, numa única e decidida direção, para o baixo. Sem sucesso tentava carregar meu pé que, preso a mim, opunha uma resistência desleal. Sucesso, sim, tinha ao levar o leito, as pequenas pedras e os peixes que, dispondo da própria correnteza do rio, deixavam-se levar até não sei onde, o lugar onde os peixes preferem viver.

Porém, perto da outra margem havia um que lutava contra a força do rio. Era um salmão grande e vermelho. Via-se que lutava contra a correnteza sem, no entanto, conseguir sair do lugar. Se os tivesse, trincaria dentes e contrairia a fronte, num daqueles sinais humanos de esforço. Mas como peixe era, denotava outros sinais que qualquer observador, seja acostumado com o fenômeno, seja admirado com o inusitado, entenderia e lhe emprestaria um adjetivo humano qualquer para descrever essa luta, convenhamos desumana.

Acompanhei o peixe até o estertor das forças o que, para minha surpresa, não aconteceu uma, mas três ou quatro vezes. Era persistente, o danado. Quando eu achava que o rio havia vencido, varrendo o peixe para detrás de uma pedra, eis que após alguns minutos de descanso, voltava ele a sacolejar sua espinha rio acima.

Já desfeito de minha intenção de dormir e retirando finalmente meu pé de dentro daquele campo de batalha, fiquei acompanhando rio e peixe a se digladiarem refletindo sobre o que levaria o peixe a subir tamanha correnteza e, pior, o que levaria o rio a dificultar-lhe tanto o trabalho.

Rio e peixe são coisas que, diferente da gente, não se sentam à margem das cidades a refletir sobre as desventuras dos humanos em que nela vivem. Se o fizessem, porém, talvez não tivessem a mesma dificuldade que tive para dormir ao observar esta luta que descrevo.

Pois bem, refletia sobre as dificuldades de um e de outro e me vi sobre a pressão de julgar-lhes não as intenções, pois que são irracionais ambos e delas se privam, pelo menos até onde a ciência contemporânea entende, mas os instintos que a natureza põe em conflito. Mas como o rio em si não encerra, exceto em poesia, nem intenção nem instinto, foquemos no peixe a reflexão e deixemos o rio seguir seu curso.

O peixe sabe que sua cria tem mais chance de sobreviver se estiver numa calma lagoa, cercada como um forte-apache, sem predadores. Por isso, recorre a ela todo ano, pelo menos uma vez por ano, para procriar e, nesse período, se mais uma vez compararmos peixes e homens, o que se viria naquela lagoa seria um grande bacanal. Muitos peixes, machos e fêmeas agrupados num espaço fechado com um simples propósito: fazer com que o esperma de uns chegue e fecunde os ovos das outras. Tirando o fato de que agrupamentos humanos com esse específico propósito não existem, pelo menos não para procriação, tomamos pelo bacanal como a situação que parece ser a mais similar para termos de comparação, pois, mais uma vez, peixes são privados tanto de intenções quanto de responsabilidades e, se assim não fosse, com certeza não estariam os peixes por aí a fecundar qualquer peixa que lhe cruzasse o caminho, ou melhor dizendo, a corrente.

Nessa calma lagoa à qual recorrem tantos peixes e peixas acontece uma algazarra. São muitos indivíduos para um espaço diminuto. Chegam a uma conclusão coletiva: a de que, se permanecerem ali para sempre desfrutando da calma e da segurança, logo não haverá espaço, muito menos alimento, para eles e para a prole que está vindo e que é a razão primeira de eles mesmos estarem ali. Pois eis que, chegando a essa conclusão, os peixes, após certificados de que fizeram o que foram ali para fazer, deixam o local e voltam para o mar. Mas nem todos, há alguns que, exaustos da luta contra a correnteza e da ejaculação constante dos últimos dias, morrem ali mesmo e, religiosamente, dão de seu próprio corpo como alimento ao porvir das gerações.

Talvez mais impressionante do que a luta contra o rio seja o fato de que esses peixes, para procriar, voltem exatamente ao mesmo rio em que foram concebidos. Imaginem um diminuto peixe dentro da imensidão do oceano, sem placas que os orientem ou pontos de referência que os localizem, uma vez que, dentro do mar, qualquer coisa que permaneça imóvel por um longo período é consumido pelas algas, corais e outras coisas do gênero que fazem uma atualização constante da orografia e da decoração do lugar, tentando, após muito tempo e muito nado, voltar exatamente para seu ponto de partida. Talvez essa bússola interna, cujo Norte é seu ponto de partida, seja a compensação que a natureza achou por bem dar ao bicho que, não tendo intenção ou responsabilidade, se comprometeu desde os primórdios dos tempos a ser uma metáfora de completação de ciclos.

Ser concebido, nascer, deixar-se ao sabor do rio que vai e posteriormente ao sabor das marés que vão e vem, voltando, enfim, depois de muito nado, para o lugar onde tudo começou. E a volta é hercúlea, pois parece que nada ajuda o pobre peixe. Não havendo rota definida, uma vez chegando ao rio, este lhe barra o caminho com tanta intensidade que, mesmo que no final das contas chegue ao destino, que era primeiramente o lugar de onde nunca deveria ter saído, não lhe resta lá muito mais senão morrer.


Satisfeito com a definição do destino ictíaco, parei de refletir. Sentei-me e tirei a botina para colocar de novo meu pé esquerdo na água, pois minha intenção é estar com pelo menos metade do pé ao sabor do rio enquanto deixo meu corpo ao sabor do sono.

10 de novembro de 2010

Incontinência

Na primeira vez eu tinha seis anos. Era meu primeiro dia na escola nova onde cursaria o CA. Não sei ao certo como aconteceu, mas, na altura da hora do recreio, já estava diferente. A professora foi quem percebeu a minha mudança, comentou com a diretora e depois com minha mãe assim que ela chegou para me buscar. Vi as três conversando com alguma gravidade no semblante.

A segunda vez foi durante as férias, muito tempo depois. Já era vaga a lembrança do incidente anterior. Foi num fliperama com os bolsos cheios de fichas. De repente, tudo parou e só meus olhos se moviam como acompanhando um movimento cadenciado, para lá e para cá. Mergulhado no transe, senti que devia lutar contra ele para me manter consciente. Balancei a cabeça, ergui-a e respirei fundo. Mas era tarde, o estrago já estava feito e durou por toda a minha adolescência.

A partir de então os episódios se tornaram mais freqüentes. Na rua, na praia, duas ou três vezes durante as festas. Cada vez mais intensos, me demandavam esforço cada vez maior de camuflagem.

O mundo muda quando se faz dezesseis anos. Não acreditei nas palavras de meu avô quando, ao entregar-me o envelope com dinheiro, me felicitava pelo aniversário. Mas o velho era cascudo e sabia das coisas, pois foi com essa idade que me tornei consciente da minha condição.

Foi um grande ano: dirigi pela primeira vez, tatuei uma águia nas costas e o Brasil foi campeão mundial de futebol. Foi durante essa comemoração o episódio mais dolorido. Imaginem-se no meio de uma multidão convulsiva de alegria. O clima era totalmente favorável para um final feliz de filme americano.

No meio daquela confusão um sorriso especial, que já vinha acompanhando há tempos, me lançava uma flecha afiada de sedução. Minha incontinência se manifestou com força total e fui ao encontro daquele sorriso. Felicitamos-nos pela conquista esportiva como se fosse nossa mesmo e sugeri um beijo que fosse ao mesmo tempo medalha e troféu eterno daquele momento. Mas a existência de um namorado desconhecido aguou os planos e tornou-se crônica também minha desilusão.

Depois disso acabei aprendendo a conviver com essa necessidade especial. Agora, toda vez que sinto a aproximação da crise aguda, volto a me sentir com seis anos e cruzo os braços sobre o peito tentando evitar a incontinência do meu coração.

5 de novembro de 2010

Comendo, rezando e amando o Capitão Nascimento

Nesse feriado aproveitei para colocar em dia minhas responsabilidades cívicas, aquelas que todos temos que cumprir mesmo sem querer. Então, fiz duas coisas: votei e fui ver os filmes mais comentados do momento – Tropa de Elite 2 e Comer, Rezar e Amar.


Peguei uma seção dupla: mais cedo me alistei no BOPE e fui com o agora Tenente Coronel Nascimento atrás do novo inimigo. Ainda com sangue na lapela e com a vista cheia de realidade, jantei um belo arroz de polvo e depois me deixei levar pelos devaneios yuppies da bem sucedida em crise existencial Liz Gilbert. No fim, não resisti à tentação de imaginar o que aconteceria se os dois protagonistas se conhecessem.

Se a viagem da escritora ao exterior motivada por sua busca interior a trouxesse ao Brasil, poderia, gastando menos dólares ter aprendido tudo que aprendeu em um ano de gastança rodando o mundo. Na Bahia, aprenderia um novo idioma, o baiano, se empanturrando de iguarias tão ou mais calóricas que os diversos macarrões italianos. Poderia aprender a humildade sem lavar o chão dos templos hindus, mas pescando com lanças nua em pêlo nas comunidades indígenas no interior no Pará, seria uma bela cena. E, finalmente, encontrar seu guru no Rio de Janeiro – o Tenente Coronel Nascimento – no cubículo mais alto, do prédio mais alto do comando mais alto da inteligência policial carioca.

Obviamente o Coronel Nascimento não tem o charme desdentado do guru original, mas também tem a mesma rude sabedoria cujos preceitos básicos provavelmente levariam Liz às mesmas conclusões sem precisar de tanto tempo e num único lugar.

Seria ele a fazer com que ela superasse a propensão imperialista de todo americano e trocaria o peru da ceia de Ação de Graças pelas delícias de um churrasquinho de esquina em Padre Miguel sob fios de alta tensão apinhados de pombos com as mais poéticas misantropias. Lá se apaixonaria pela malemolência brejeira dos operários do pagode, não sem antes descobrir, em Mesquita, o porquê de a Chatuba ser o bonde dos careca (sic).

Seria ele a aproximá-la da fé mostrando que a entediante meditação poderia ser substituída pela pragmática seção de descarrego no templo maior em Del Castilho onde descobriria que o voto de verborragia tem mais poder sobre os ignorantes que o voto de silêncio e que num auditório com duas mil cadeiras poderiam ser encontrados mais de dois mil encostos.

Seria ele próprio, o Coronel Nascimento, a apresentar à moça o amor. Não esse amor hollywoodiano da qual ela fugiu por descobri-lo vazio, mas um amor com a singeleza do Méier, que a fará sonhar em ser apresentadora de telejornal. Um amor tijucano que se cultiva nas efervescentes beiras de piscina dos clubes e nas reluzentes praças de alimentação dos shoppings. E pegariam juntos o 607 chacoalhando até o ponto final, onde se matariam de amor no escurinho aconchegante do Largo do Estácio.

E, no final, ela encontraria no discurso dele logo após o incidente entre o Capitão Matias e o Beirada durante a ocupação de Bangu 1, aquelas palavras que a traduzirão por completo: você tem que aproveitar as chances que tem, mas lembrando que tem coisas que fazem um furo pequeno na entrada, mas o buraco de saída é do tamanho de uma tangerina.