23 de fevereiro de 2011

Concurso de Poesia

Descobri que a Sociedade Bíblica Brasileira abriu um concurso de poesia com o tema A Bíblia e a Natureza - Falando de Deus com Arte. Apesar de ser um tema meio distante do meu repertório, encarei o desafio e me inscrevi com o texto abaixo. Como nunca soube o resultado do concurso (sinal claro da qualidade questionável do texto e que confirma minha distância do tema) publico agora sem medo de ser punido no Purgatório pelo sofrimento que venha a causar a você, leitor.


Na penumbra, tinha uma vaga idéia de Ti
Lá fora, a iluminar meus olhos
Mesmo por trás das pálpebras cerradas.
Nossas pegadas lado a lado, leves na areia
Transformaram-se em apenas duas, suas, mais pesadas.

Nos sons da Natureza se fizeram Teu sussurro
E me entreguei submisso à Tua verdade
Como a árvore missionária sustenta em papel Tuas palavras
Serei a concha com água às bocas sedentas de Divindade.

Essa água que é chuva, flocos de vida nova
Reluzentes lágrimas de alegria vindas do alto
Derrama qual cachoeira sobre o regato de minha alma.
Protege com Tua mão invisível meu caminho
E confirma o que em caverna já foi escrito
Convida o coração aflito à calma.

E escavam os rios os sorrisos da Tua glória
A alegria de fazer parte da História
A buscar a paz coletiva de um mar.
Nosso envolvimento gera o compromisso, nossa paixão é nossa entrega
Paciente, nos conduz qual gente cega
Transformando-nos na mudança que queremos perpetrar.

18 de fevereiro de 2011

Cavalos selvagens

Subi a ravina, perscrutei a campo aberto com as mãos sobre os olhos e lá estava ele. Minha vontade era pular no vazio do abismo que nos separava e agarrar-lhe a crina à unha. Mas, ansioso, dei as costas e desci na intenção de finalmente domar o animal. Conhecendo seu comportamento, dirigi-me ao lago onde, sabia, ele estacionaria quando o sol lhe fustigasse suficientemente o lombo. No caminho, apalpava os bolsos conferindo se tinha todas as ferramentas necessárias para o momento do encontro.

Um dia se passou antes que ele aparecesse. Ouvi seus cascos ao amanhecer, vinha levantando poeira atrás de si e mesmo antes que eu pudesse vê-lo, ele já havia me avistado e vinha arisco, marinado numa noite de receios.

Não me movi enquanto ele se aproximava do espelho d’água arruinando o encontro de lua e sol ao matar sua sede. Num dado momento, moviam-se apenas os astros e aquele pescoço sedento e musculoso.

Fiz menção de mover-me apenas quando percebi que ele estava saciado, mas, como se adivinhasse, levantou as orelhas e bufando deu alguns passos atrás. Levantei-me e ele marchou para mais longe e ficou de lá a fitar-me. Depois de tanto tempo observando-o ao largo e me aproximando aos poucos estava acostumando-o a dividir seu espaço comigo. Já o havia visto pastar, nadar e procriar. Dormir com fome e refestelar-se em forragem. Nesse convívio forçado, abri à fórceps um canto em sua vida, uma presença que começou no canto do seu olho e agora via-me todo e de frente. Ainda sim seu instinto mantinha-o afastado.

Não me importei com seu pinote assim que dei o primeiro passo em sua direção. Nem me assustei quando relinchou alto quando entendeu que eu não pararia. Escolhi aquele momento como derradeiro. Não deixaria aquela besta à solta nem mais um dia. Usaria aquela rebeldia e força a meu favor. Montaria sua velocidade, condicionaria sua potência, regozijaria sua liberdade.

Perto o suficiente, vi em seus olhos mistos de curiosidade e medo minha própria face refletida. Por um instante aquelas órbitas negras e profundas tinham alma e personalidade. Como o sol e a lua enamorando-se sobre o espelho d’água, nossos espíritos deram as mãos quando entreolhamo-nos. Suávamos. Eu por temer não conseguir domá-lo e ele por temer perder sua liberdade. Ainda assim avancei mais um pouco e quanto mais próximos maior o magnetismo.

Estendi a mão e senti sua pulsação ao tocar o focinho áspero. Dei-lhe um carinho e ele carinhosamente quis recebê-lo.

Conhecemos-nos durante a manhã e só quando o sol ia alto no céu eu pude oferecer-lhe freio e cela cuja aceitação foi dócil apesar da desconfiança inicial. Consegui montá-lo muito após o mergulho do sol no horizonte. Não foi fácil para ele acostumar-se com meu peso sobre si, com alguém a guiar-lhe o olhar e os passos; nem para mim conter sua força e vontade, aquele ímpeto de correr e sumir, de fazer o que lhe conviesse a qualquer instante.
Vinha a lua na metade de sua descida, já preparando sua despedida às estrelas quando meus braços perderam o tônus e minhas pernas fraquejaram. Num balanço brusco, mas já não tão brusco quanto os anteriores, caí sobre meu corpo exausto. Ferido, olhei-o imponente, esperando sua fuga. Mas ele permaneceu. Desceu o nariz ofegante e cheirou-me como se a certificar-se de minha vida ou minha morte. Sossegou quando levantei e, naquele instante em que nem sol nem lua dominam o céu, mas o compartilham, montei-o pela segunda vez e, dessa vez, acostumamo-nos. Ele mesmo freando suas vontades e eu gentil no direcionamento.

Combinamos, então, tacitamente, respeito mútuo e, em momentos específicos, nos permitimos deixar-se guiar, da parte dele, ou deixar-se seguir, de minha parte, enquanto o céu se permitia ostentar dois astros simultânea e harmoniosamente.

7 de fevereiro de 2011

Leblon às sete e meia

São sete e meia da noite quando estaciono na orla do Leblon. O Sol já ameaça seu declínio e todos os espectadores se assentam sob seu último abraço. O céu sem nuvens tão plácido como o mar sem ondas começa sua transformação do azul para o inusitado laranja e não há como descrever a quantidade de outras cores que passam entre elas. A platéia acha tudo muito natural, o azul virar laranja, como se o inverso fosse possível e no dia seguinte tomássemos ácidos sucos azuis no café da manhã.

Cumprindo um ritual de respeito e humildade, os banhistas saem da água, os vendedores de mate se calam e os casais sossegam seus beijos, todos elevam olhos e pensamentos para oeste, mirando a grade pedra da Gávea que se esforça em vãos por milênios para conter a luz púrpura do Sol em despedida.

Namorados entrelaçam os dedos e por alguns momentos se entrelaçam também as almas de todos na praia que acompanham o balé eterno do Sol a driblar a pedra. E ele vai caindo, trocando a ofuscante claridade que derrama lá do alto, como um grande adulto a observar seus filhos, nós, por uma luz cálida, faiscante e compreensiva que nos olha frente à frente, na mesma altura, como um pai a repreender-nos amorosamente. O olho do Sol poente torna-se então vermelho como se prestes a chorar, antecipando a saudade que a noite lhe impõe.

Escorregando pelo contorno da pedra, ele mergulha com um suspiro no mar que o engole para cuspi-lo no outro dia, renascido, renovado. Uma segunda chance para o mundo se redimir do que fez no escuro e desamparo da noite.

Todos deveriam observar esse fenômeno pelo menos uma vez por semana. Deixar os últimos minutos do dia rastejarem para seu fim. Olhar nos olhos do Sol e entender que eles nos protegem durante o dia e nos repreendem vermelhos antes de a noite chegar, como a dizer “tendes cuidado daqui para frente”. Todo dia o Sol desce e se vai numa apoteose de cor e movimento que, fechados em nossos mundos mesquinhos, esquecemos de ver. Mas, uma vez por semana, deveríamos ir ao Leblon, andar pela praia e nos despedir do dia. E aqueles que não forem, sempre deveriam ter uma segunda chance.