28 de agosto de 2012

Cortina de Fumaça


Ouço teu sussurro mas não sinto
seu hálito, teu sorriso invisível
teus passos, a porta se abrindo
e eu nesse espaço vazio
Tuas doces palavras amargas
o abdome se ressente
enquanto a distância de cura
é a mesma de dor e conflito

Estamos perdidos, procurando explicação
uma nova epifania, um estado de graça
entre tanta simulação,
silhuetas e cortina de fumaça

Então me pergunto o que será no fim
quando todos desligarmos os aparelhos
e olhando dentro de mim
me acostumar com a sala de espelhos

E tudo é lindo quando é novo
e quando novo tudo é tão terno
pode ser um amor proibido
ou um abraço fraterno

Um dia o vento leva toda a purpurina
e perde a fada a asa cristalina
e o vinho não passará de vinagre
sob a cortina de fumaça das velas
que imploram sempre um novo milagre
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Com o fim da luz vem uma outra
e mais uma e mais uma
como um sol transladando a minha volta
e eu contendo a revolta
procurando mundo afora
um lugar que me receba
companhia que me beba
até o raiar da nova aurora

21 de agosto de 2012

Tentativas


Eu que já tentei de tudo
Fiquei cego, surdo e mudo
E de nada adiantou
Me atirei em outros braços
Tirei mil novos retratos
O seu nunca desbotou
Já joguei as roupas fora
E a lembrança ainda aflora
Um broto de erva daninha
Eu renovo o meu canteiro
Me ocupo o dia inteiro
Debruçado à escrivaninha
Inventando tantos jeitos
De lembrar só teus defeitos
Que esqueci de decorar
Lembro a cor da sua unha
E as loucuras que propunha
Só para a gente se encontrar
E quanto mais esforço eu faço
Para sair desse embaraço
Mais me enrolo no novelo
Até a Buda eu hoje clamo
Para me esquecer de que te amo,
teus carinhos, teu desvelo
Mas não há santo que dê conta
Desse amor que ainda desponta
E me tira deste mundo
E eu sufoco, escondo e mato
Mas ele, como um desacato
Vai e volta mais profundo
Se escondendo nessas poucas
Irreconhecíveis bocas
A que me levam tua ausência
E eu tentando não lembrar
Não faço mais que recordar
E ao calar, peço clemência
Por favor, me deixa em paz
Tenha dó desse rapaz
Ó sentimento dolorido
Que não morre ou se desfaz
E que também não volta atrás
A reviver o colorido
Fica nesse lusco-fusco
A se arrastar como um molusco
Ruminando idas e vindas
Queria só por um momento
Um bem breve esquecimento
Que assoprasse essa ferida
Já seria um bom alento
Contra esse grão tormento:
Que é lembrar por toda a vida

13 de agosto de 2012

Ossos


Os ossos quebrados estalavam como bambus vergando sob vento forte. A essa altura não havia mais palavras, sequer os típicos xingamentos. Apenas o som de punhos e unhas violentos encontrando pele, cartilagem e órgãos. Uma pirotecnia de sangue voando pelos ares, pintando pranchas Rorschach pelas paredes.

Ela disse o que tinha que dizer, como sempre, e ele calou-se. Era a estratégia de ambos para opor-se ao sofrimento: atropelamento e fuga, respectivamente. O apartamento ficou pequeno demais para tanta verdade e mágoa contida, a ponto de a ausência causar mais prazer do que dor.

Os olhos azuis dele já não tinham fogo ou paixão e ela tampouco mordia mais os lábios de excitação. Seus toques eram burocráticos, cheios de drible, evitando os pontos que acendiam lembranças e vontades. Seus beijos eram secos e a sede era por uma nascente que não jorrava mais de dentro de nenhum dos dois. Eram desertos no meio de um vasto oásis.

A cotidiana administração da casa tornou-se o alicerce da união e a qualidade do tempo que passavam juntos era um gráfico em queda vertiginosa que daria arrepios a qualquer CEO. Por outro lado, se esquivavam dando asas às suas mais rasas necessidades, compensando a ausência de alma com o excesso de coisas.

Os diálogos rareavam e nem as condições do tempo ajudavam o conteúdo. Cada um nutria sua própria distração independente, cultivando cactos dentro de si. Entorpeciam-se de informação que não trocavam, numa disputa cujo vencedor seria o melhor ator, o que parecesse menos afetado.

Deram um último beijo há algum tempo. Na verdade, desde então se deram vários beijos, mas nenhum deles como esse último, lá atrás. Haviam passado a tarde caminhando pela praia vendo o sol se pôr e tomando água de côco. Pareciam tão felizes com as mãos entrelaçadas contra a brisa úmida que nem imaginavam o potencial destrutivo a fermentar sob os peitos suspirosos e palavras doces.

Aquele mel foi cristalizando na medida em que a brasa da relação esfriava. Quando se encontravam, gaguejavam, tremiam, perdiam o raciocínio no meio das frases, pareciam distraídos um pelo outro. Mesmo com a casa vazia, havia uma aura suave pairando à meia parede, uma atmosfera acolhedora que abraçava a ambos, muito antes de as manchas aparecerem sob suas retinas.

Não se lembravam mais de terem confidenciado amor eterno um ao outro. A primeira vez não tinha mais relevância, não sustentava qualquer sentimento ou memória que levasse sequer à autoindulgência. Quando havia algum sexo, era permeado pelo egoísmo de ambas as partes, pois quando atingiam o êxtase era apenas para se distanciarem ainda mais no instante seguinte. Tomavam banho para tirarem de si qualquer resquício do outro que pudesse incomodar.

Hoje, colhiam os louros de uma escolha apaixonada e precoce. O sangue que escorria na parede e empoçava no chão era o banquete para o qual a vida os convidara e no qual apareceram com os trajes errados. Chegada a hora de despirem-se, souberam que um não tinha fome do outro, ou melhor, jantarem-se não era mais o suficiente.

9 de agosto de 2012

Indios

Todos os dias a tribo se reunia em volta da fogueira ao início da queda do sol por trás da grande montanha. As mulheres chegavam primeiro e alimentavam seus filhos com o que havia de melhor, era deles a prioridade. Antes que terminassem chegavam os homens da tribo com seus melhores cocares e pinturas,  adereços coloridos e chocalhos para a distração final dos pequenos cujas barrigas arredondadas de vermes e comida fresca reluziam ante o crepitar do fogo.

Em pouco tempo dormiam e as mulheres os aconchegavam nas pequenas redes rentes ao chão dentro das ocas, infinitos galpões com teto de palha e enormes vigas de madeira que sabe-se lá que entidade ancestral os pusera de pé. Aquecidos sobre as mantas de pele de jaguatirica, elas os deixavam para acompanharem seus homens sob o calor das enormes achas que agora queimavam violentamente no centro da aldeia.

Terminada a refeição o grande pajé levantava-se não sem dificuldade, ajudado pelos mais próximos e, pronunciando palavras estranhas, atirava ao fogo folhas e sementes sagradas que desapareciam instantaneamente na fogueira exalando inconcebível perfume, como se o cheiro da chuva pudesse misturar-se ao aroma de um beijo. Dessa fumaça, dizia o pajé em língua incompreensível, viriam as melhores sortes e os mais augustos sonhos que cada um da tribo pudesse imaginar.

Em pouco tempo, a negra fumaça dava lugar a uma outra, branca e cintilante, quase tão reluzente quanto a profundeza das chamas de onde vinham, e traziam consigo pequenas cinzas ainda em brasa que grudavam nas pontas dos narizes e cílios dos índios mais friorentos. Gesticulando ainda e cada vez mais febril, o pajé ia de rosto em rosto indagando o que cada um, de olhos fechados, via.

Kalita via somente Aielo correndo no prado, arma à mão e cabelo ao vento, atrás da caça. Aielo via somente Kalita banhando-se no regato. E ambos já não sabiam se o calor que sentiam era da fogueira real ou da imaginária que consumia seus pensamentos entrelaçados pela fumaça. Kalita via Aielo em sonho e em sonho compartilhavam-se. Aielo tinha Kalita em sonho como ela o tinha em seu próprio. 

Aproximados pelo grande fogo, em seu calor se consumiam, corpos trementes, suados, malhados pelas chamas que iluminavam a aldeia sob o céu recém pintado de escuro. Nenhum olho se abria e, ainda assim, via-se cada vez mais enquanto o pajé conduzia a cerimônia entre os índios entregues a seus devaneios. Kalita e Aielo, no prado ou no regato, ambos sonhavam-se vívidos, semi-despertos, e mantinham-se fielmente a cada final de dia, a cada inspiração e a cada expiração.

A voz do pajé diminuía. O grande fogo arrefecia. A luz do dia evanescia substituída pela mão negra da noite salpicada de estrelas. O transe desacelerava. As respirações se acalmavam. Alguns deixavam-se cair ao chão exaustos. Kalita abria os olhos e do outro lado da fogueira encontrava os de Aielo em sua direção. O suor e a fumaça irritavam olhos e gargantas enquanto aqueles peitos ainda ardiam.

Quando a fogueira se apagava por completo, os índios davam as mãos e agradeciam o repasto e o sonho, como se tivessem satisfeito corpo e mente naquele banquete e retiravam-se de volta à infinita oca, sob o zumbido dos moscardos e o ronronar das crianças enquanto os vaga-lumes se confundiam com as últimas cinzas ainda acesas levadas pelo vento para longe dali.

Kalita tirava de si a fuligem negra num demorado banho no regato, enquanto Aielo alcançava suas armas e corria até o prado a garantir que os pequenos tivessem o que comer no dia seguinte. De longe, ele a via banhar-se enquanto ela o via correr e ambos esperavam que a cerimônia da noite seguinte entregasse um ao outro novamente sob o calor das mesmas chamas, o travo da mesma fumaça e o incompreensível das mesmas palavras.