30 de dezembro de 2011

2012

Amanhecer sobre as dunas, anoitecer na praia. Flanar por Paris.
Ler um livro sob uma palmeira.
Sentir o vento no rosto.
Banho de chuva.
Deixar o pé molhar na água do rio.
Pitanga do pé e lambida de cachorro.
Abraço de mãe, de filho e de amigo.
Primeiro beijo.
Último pedaço.
Andar de mão dada.
Barulho de chuva. Cheiro de terra molhada.
Quando uma música diz o que você sempre quis dizer.
Flerte.
Chopp com amigos sem hora para acabar.
Andar descalço.
Acordar com beijo.
Pular muro. Jogar bola no asfalto.
Marcar um golaço. Defender um pênalti.
Fechar um negócio. Lançar um produto.
Dar presente. Botar a mesa.
Uma guitarra aguda. Um solo de violino.
A introdução da sua música preferida.
Ouvi-la de olhos fechados.
Risada de criança.
Ver seu time campeão no estádio.
Rodinha em show de metaleiro.
Ouvir declarações de amizade de seu amigo bêbado.
Cozinhar. Cheiro de refogado.
Jogar buraco bebendo vinho.
Sair do aeroporto numa cidade desconhecida.
Fazer amigos.
Escutas estórias.
Mudar de idéia. Ser genuinamente convencido.
Lua cheia. Lua minguante.
Identificar constelações.
Lareira e frio. Rimar.
Escrever uma carta a mão. Receber a resposta também a mão.
Picolé de uva. Ejetar do balanço.
Receber um elogio sincero. Abraço apertado.
Chorar de alegria.
Ler no ônibus.
Ouvir música no engarrafamento.
Brigadeiro.
Tirar a gravata.

Você entendeu o que eu quis dizer.

Esses são meus votos a você para o ano de 2012.

29 de dezembro de 2011

NecRomance Parte III - Final


Bailarina e levada para o Caju e, em fuga desesperada, o morto-vivo Zumbi corta as ruas do Rio de Janeiro tentando evitar a triste cremação de sua amada.

Parte III - Final
A única coisa que podia deter um motorista em pânico dirigindo um carro assustador era o trânsito e trânsito melhor não há senão o dos arredores do hotel Copacabana Palace onde o motorista acabou por meter-se. Zumbi, preso no caixão, não fazia idéia de onde estavam e, apesar de ouvir as sirenes lá fora, não adivinhava que seriam a causa de tão potentes manobras no motorista que o jogavam para lá e para cá dentro do porta-malas. Mas a ausência de movimentos bruscos de repente chamou sua sobrenatural atenção. O anda-e-pára do engarrafamento, além de deixá-lo enjoado, fazia-o desconfiar que, ou estariam chegando, ou estariam perdendo tempo. Saiu do caixão com tanta dramaticidade, quebrando e destruindo toda a madeira, que fez desfalecer o pobre motorista cujo coração não agüentou mais tanta emoção. Sem motorista que o guiasse às escondidas, Zumbi decidiu continuar a pé até seu destino, sem saber que estava agora ainda mais longe dele do que quando começou a jornada. O barulho ensurdecedor da buzina do rabecão, ritmada com as tentativas de Zumbi quebrar os ossos do crânio do motorista para comer seu cérebro, não foi sequer notada entre a multidão de outros motoristas que, por quaisquer outros motivos, também buzinavam em frenesi.

De energias renovadas, Zumbi saiu do carro e equilibrou-se como pode nas entranhas do engarrafamento. Ouviu novamente as sirenes e, olhando para trás, viu que a polícia também ficara entupida no meio dos outros carros. Achando que não era a razão pela qual tanta polícia se reunia, Zumbi chegou à calçada onde, por seu aspecto funesto, abriria caminho mais facilmente do que no meio da dureza dos automóveis, como ele, sem alma. Porém, aos sons agudos das sirenes e buzinas, somaram-se os secos estampidos das armas que atiravam em sua direção e explodiam as vitrines das lojas por onde Zumbi passava. Os estilhaços voavam até o corpo dobrado do morto-vivo e os mais pontiagudos varavam sua carne fazendo sangrar o sangue do motorista que corria em suas veias. Não podia ser pego pelos policiais, eles não entenderiam sua condição, não essa de defunto acordado perambulando pelas ruas assustando as pessoas, o que poderia já ser classificado como crime de perturbação à ordem pública, mas aquela de verdadeiramente apaixonado pois, mesmo entre a morte e a vida conforme estava, ainda buscava a eternidade ao lado de sua amada à beira não da morte, pois que até por essa já haviam passado, mas digamos à beira da decomposição definitiva pelas brasas rituais da cremação. Fugiu, então, por uma rua transversal até chegar à praia quando foi surpreendido pela sensação da própria surpresa, que nem ele mesmo achou que fosse capaz de sentir, morto que estava, causada pela chocante concentração de outros mortos-vivos justamente em frente ao referido hotel. Suas figuras desfiguradas, trapos em volta do corpo, sangue escorrendo pelos membros e chagas reluzentes nos rostos, tudo isso muito familiar e, ao mesmo tempo, muito estranho para Zumbi. Mas seu objetivo continuava o mesmo e, valendo-se da boa sorte de ter deparado com uma passeata de zumbis, misturou-se à turba lavada de sangue artificial e perdeu-se da vista dos policiais que o seguiam até ali.

Despertava reações diferentes enquanto passava empurrando os outros com a urgência que levava dentro de si, além dos miolos do motorista. Alguns o parabenizavam pelo realismo, outros pelo cheiro repugnante que exalava. Outros, mesmo vomitando nauseados ainda assim batiam palmas enquanto Zumbi passava tentando alcançar outra rua mais vazia por onde pudesse voltar ao caminho para o Caju. Ignorando todo aquele cortejo, passou por baixo de uma grande faixa branca onde se lia “Zombie Walk RJ” e entrou numa pequena ruela onde um taxi estava parado esperando que um casal caracterizado para a passeata entrasse. Chegou ao carro, abriu a porta da frente e aboletou-se no banco do carona ignorando os insultos que tanto o motorista quanto o homem que ia atrás esbravejavam em sua direção. Tentando manter seu único olho no lugar, encarou a menina que ia atrás em silêncio. Aos poucos, a vivacidade dos tecidos mortos escorrendo pelo seu rosto de Zumbi, a baba negra ressecada nos cantos da boca e aquele odor insuportável convenceram-na de que o que estava ali era além de um homem, sensibilidade que só uma mulher fantasiada de presunto poderia ter. Calmamente ela acariciou o braço rijo de seu acompanhante ultrajado e, numa voz angelical, disse “vamos com ele”, sentenciando o destino de todos. Alguns podem pensar que acontecera aqui um episódio de hipnose ou algo parecido, porém, o que ocorreu foi apenas efeito de uma grande sensibilidade, não aos horrorosos aspectos superficiais que Zumbi representava, mas à brilhante aura de amor que guiava os passos vacilantes daquele morto percebido no coração daquela menina. Vida e morte conversam assim, por detalhes. São irmãs que, ao cruzarem um olhar se entendem. O que conhecemos como morte nada mais é do que o abraço fraterno entre vida e pós-vida, separadas por um gigante de sombras que nós mesmos criamos. Com essas palavras, “vamos com ele”, a menina serenou a tensão que pairava no taxi e até o bruto motorista, de alguma forma impactado por aquela doçura, desligou o taxímetro e pôs pé na tábua na direção do endereço que, por mais amassado, ensangüentado e sujo, permanecia legível na etiqueta de Bailarina.
O taxi seguiu sem percalços até a porta do cemitério. Zumbi já movimentava os ossos aparentes de seus joelhos no movimento para deixar o carro quando o motorista, sem medo ou nojo, tocou seu ombro e, entregando-lhe uma nota de dez reais, disse “compra uma flor e diga a minha Eleonora que sinto saudades”. Sem lágrimas ou emoção para chorar aquele momento, Zumbi deixou o carro e, tropeçando na banca de flores e, catando algumas delas, jogou o dinheiro no chão ainda ouvindo, ao longe, a doce voz da menina que repetia “boa morte, boa sorte” ritmadamente como uma autista. Seguiu pela aléia principal que levava às capelas segurando com dificuldade a montoeira de flores que usava também para disfarçar-se. Viu o rabecão que levou Bailarina parado ao pé das escadas que subiam à ante-sala de onde se chegava às capelas de velório. Sem saber onde encontrar sua amada, perpassou todas até um corredor ao fundo que levava para a capela específica de cremação.
Seu murcho e imóvel coração se contorceu de ansiedade quando viu Bailarina plena do frescor da juventude estampada em um grande pôster circundado por uma guirlanda de flores ao lado da última porta do corredor. Mesmo preferindo a imagem de Bailarina que carregava na podre memória, aquela do encontro arrebatador no necrotério, uma ternura traspassou-lhe a carne putrefata fazendo-o ciente de que não poderia evitar o cruel destino a ela reservado. Parou alguns passos antes de entrar na capela ouvindo os gemidos chorosos da família ou quem mais que lá estivesse sentindo saudades pela passagem prematura da linda moça. Apoiou-se na maçaneta de uma porta ao lado preparando o fôlego da qual não precisaria nunca mais, exceto para encarar este momento, quando viu a placa pregada à porta que indicava ali o caminho para o forno.

Entrou e encontrou lá dentro o caixão aberto e sua amada coberta por um leve filó branco toda pronta para ser posta na esteira que levava ao forno já em chamas. Bailarina, fingindo-se de morta, ou melhor, fingindo não ter dentro de si a fagulha que nos anima à qual chamamos vida, permaneceu imóvel durante os longos segundos que Zumbi levou para aproximar-se dela. Seus olhos haviam sido cobertos por um véu mais espesso para que seus globos oculares não explodissem no processo de cozimento da cremação, nada viu até que a mão esquelética de Zumbi passou livrando-a venda. Como se sentisse não só o cheiro que se fazia quase sólido na sala, Bailarina abriu os olhos a tempo de ver o rosto degradado de seu amado aproximando-se para o beijo que a reanimaria. E ela se deixou beijar, estalando as duras articulações mandibulares e tilintando os dentes aparentes num êxtase de vida e morte, misturando as excrescências de nosso corpo ao fim da vida com a pureza de nosso ser, única coisa que levamos conosco em nossa morte. Deuses e mártires somos todos pois esquecem-se de nossos pecados todos aqueles que permanecem a chorar a nossa falta. A morte é a apoteose de nossa vida e, assim sendo, selado com um beijo escorrido de pus e bile, Zumbi e Bailarina finalmente se reencontraram para morrerem em paz na vida eterna.

Retirando Bailarina do caixão com o pouco cuidado que o corpo endurecido poderia fornecer, Zumbi pegou a mão da morta e saiu da sala. Mas logo voltou para pegar o resto e guiá-la até onde já sabia que poderiam descansar. Bailarina, vestida num branco reluzente que nos faria acreditar que um dos tantos anjos esculpidos expostos no cemitério havia ganhado vida para vingar-nos do pecado original, ainda sentiu um aperto ao ouvir os lamurios vertidos em sua homenagem na capela, mas o futuro à sua frente foi mais forte e decidiu finalmente deixar a vida para trás, apegando-se à morte perfeita para qual Zumbi a levava. Este, ainda levando algumas rosas no bolso do jaleco, desviou o caminho e achou o mausoléu onde repousava Eleonora. Abrindo com facilidade as grades de ferro achou lá dentro, uma sepultura vazia e outra ocupada. Retirou o que restava de ossos, jogou-os com o máximo de solenidade possível para um canto e colocou uma rosa. Cavalheiro, devolveu a mão à Bailarina e, pegando-a com toda a fidalguia, fê-la entrar na cova e com ela entrou, cobrindo-se para todo o sempre com a enorme pedra lápide onde se lia “Quando nasce, o homem é fraco e flexível. Quando morre, o home é forte e rígido. A firmeza e a resistência são sinais de morte. A fraqueza e a flexibilidade, manifestações de vida.”

20 de dezembro de 2011

NecRomance Parte II


Um corpo sem alma volta à vida durante autópsia num necrotério e é atraído pelo cadáver de uma recém-chegada Bailarina.

Parte II

Zumbi ajudou Bailarina a levantar-se da gaveta sentindo todos os centímetros daquele belo corpo esculpido à disciplina da dança indo de encontro ao seu. Seus pés pesaram com a quantidade edemaciada que se desprendia do corpo dela e caía na medida em que roçavam um no outro. A exposição daqueles músculos perfeitos secretos quando em vida, só aumentava a ansiedade de ambos e a vontade possuírem-se mutuamente, seja lá como fariam, vontade não faltava, e uma vez que estavam já nus e havia a maca da autópsia livre, Zumbi deitou ali sobre a bailarina que, num único sinal de aprovação, passou-lhe os braços sobre os ombros e deixou-se levar pelo necrocoito iminente.

O que aconteceu em seguida, para sermos práticos, aconteceria se fossem humanos, símios, marsupiais ou cetáceos. Mas como são zumbis, vale uma descrição mais apurada nem que seja para o exercício da observação e catalogação científica. Não é todo dia que vemos zumbis reproduzindo, ou reproduzindo o ato humano de reproduzir. Chamem a National Geographic. Continuando, o que aconteceu em seguida começou com o estímulo de glândulas, algumas já expostas ao ar de tanto estímulo, outras mesmo ainda secretas, de difícil acesso, tendo Zumbi que jogar de lado algum rim ou pulmão para alcançar. Mãos que corriam ao longo dos corpos de muito, muito pouca pele e apenas alguns tufos de pêlo e cabelo aqui e ali. E, nas mãos, já se viam os ossos das falanges distais e a intrincada combinação de osso e tendões. Felizmente ainda havia línguas, mesmo que enegrecidas e secas, mas suficientemente ágeis para travar aquela guerra de movimentos dentro ou fora da boca e, às vezes, dentro e fora ao mesmo tempo.

Porém, não satisfeita em tê-los deixado, a vida interrompeu-lhes também o coito que sucederia não fosse o barulho de outros passos na direção da sala onde estavam. Pode parecer até que a morte de Zumbi tivesse sido de tuberculose, tamanha era ainda a sensibilidade daqueles tímpanos apodrecidos. O mais rápido que seus membros decrépitos permitiam, saíram os dois de cima da maca, não sem deixar ali pele, sangue, pus e outros humores, restos do encontro de ambos, isso sim uma verdadeira troca de fluidos corporais, e meteram-se cada um em sua respectiva gaveta. Quem entrou na sala não foi o faxineiro, nem aquele há pouco condenado ao hospício, nem o infeliz que o substituíra, mas sim o legista tarado que, dessa vez, não trazia consigo nenhum novo corpo para análise, mas um papel carimbado, um atestado de óbito.

Zumbi apenas acompanhava o movimento com seu ouvido zumbiônico e deu-se à liberdade após uma seqüência de barulhos que identificou como um abrir e fechar de gaveta, um baque metálico de corpo caindo na maca, o som das rodinhas desaparecendo ao longe e o fim do flapflap da porta de plástico grosso. Foi direto até a gaveta onde Bailarina deveria estar e, para sua surpresa, que só olhos bem treinados na identificação de expressividade de zumbis podem perceber, tinha sido justamente ela a ser levada pelo legista. Um surto de raiva tomou o que lhe restava do corpo. Balbuciou impropérios na linguagem gutural que é própria aos mortos-vivos e só não destruiu toda a sala com sua ira com medo de chamar atenção demais. Infelizmente, em seu estado avançado de putrefação, apenas alguns centímetros cúbicos de seu cérebro lhe serviam, e foram justamente os mais aventureiros que foram ativados naquele acesso. Cambaleou até um cabide onde ficavam alguns jalecos e meteu-se num. Achou máscaras, luvas, botas e tudo o mais com o que pudesse ocultar seu real estado e decidiu ir atrás de sua amada Bailarina. E, quando metia a touca por sobre a cabeça meio pelada, seu olho escorreu definitivamente da órbita, indo parar debaixo da mesa do legista. Nós, acostumados com a leveza e fluidez de nossas articulações, não fazemos idéia do esforço que fez Zumbi para recuperar seu globo ocular. Porém, a natureza o faz e recompensou-o, boa que é, com a visão do dedão esquerdo do pé de sua amada onde ainda dependurado num toco de osso, estava a etiqueta com seus dados de entrada e, segundo uma nova norma que sucedera aos acontecimentos trágicos narrados anteriormente, a forma e o local de deposição dos restos mortais, no caso dela, cremação e Cemitério do Caju, respectivamente.

Zumbi arregalou o olho vermelho e inchado que ainda se prendia ao crânio e, agora sabendo exatamente aonde ir, pôs-se em carreira, ou simplesmente em movimento, pois rapidez nenhuma, tampouco agilidade, podemos esperar de alguém em suas condições. Porém, a vontade, a fome e aquilo que há pouco concluímos ser algum tipo de paixão, movia-o mais lepidamente do que faria um defunto comum. Por falar em fome, os tecidos ressequidos precisavam de alguma reidratação e, aproveitando-se de uma distração do, agora sim, novo faxineiro, Zumbi trancou-se com ele no almoxarifado e fez dele sua nova refeição. Não teria sido uma refeição completa, com uma entrada de olhos e língua, seguidos de sopa de rins e fígado e salada de cabelos; o coração como prato principal, o cérebro esfacelado como tira-gosto e um suco de bile para rematar; mas um lanche rápido, cujo tempo levado para deglutir era inversamente proporcional à urgência de reencontrar sua Bailarina.

Saiu do almoxarifado ainda a tempo de ver o rabecão que a levava e, louco de ansiedade, nem se deu conta da figura horrenda que era com aquele jaleco andando pelos corredores, digamos, sociais do instituto. Não demorou muito para que irrompessem os gritos de pavor dos vivos que ali estavam trabalhando ou não, ao depararem-se com Zumbi coxeando pelo saguão principal deixando atrás de si um rastro de sangue e pedaços do seu corpo e do faxineiro.  Abriu as grandes portas de vidro da entrada sem dificuldades e, por algum resquício de humanidade, fez sinal a um taxi que passava na hora. Mas, pela velocidade com que passou, podemos adivinhar que o motorista não tinha condições psicológicas de levar tão inusitado passageiro.

É impressionante a volatilidade das atitudes humanas que levam as pessoas a se aglomerarem curiosos em torno de alguém morto em virtude de algum acidente em via pública e a saírem em disparada ao encararem o mesmo morto, talvez, reanimado. Que curiosidade mórbida nos aproxima dos recém partidos e nos afugenta dos partidos já há algum tempo, como se tempo fosse o grande vilão que transforma a desconhecida vítima em parceira da Morte no ofício de nos levar para o outro lado. Coitado, pensamos do morto que vai e, vade retro para o morto que volta. Mas, contrariando as expectativas, toda a multidão de dentro do prédio e do entorno saiu a acompanhar aquele morto que retornara. Ninguém se atrevia a se aproximar, melhor para ele, mas se quisesse chegar ao Cemitério do Caju a tempo de preservar sua amada da fornalha, teria que conseguir um jeito mais rápido de se locomover pois o rabecão já ia longe.

Seria um exagero dizer que Zumbi estivesse olhando em volta, pois seu olho já perdera o frescor funcional que lhe seria peculiar em vida, mas podemos dizer que, avaliando sua situação e percebendo de alguma forma as coisas que se encontravam ao seu redor, Zumbi arrastou-se como pode até uma funerária ao lado do instituto, fenômeno comum em qualquer cadeia de serviço que se preze, veja se não existem oficinas bem à frente de quebra-molas. Entrou esmurrando a porta e causando grande furor entre os funcionários que, mesmo acostumados a lidar com os trâmites que circundam a morte, nunca estiveram preparados vê-la assim ao vivo, de carne e osso. Uma família que resolvia os últimos detalhes do enterro de um ente querido, não criou empecilhos em ceder o esquife comprado e rabecão alugado para Zumbi que de alguma estranha maneira conseguiu expor claramente através de grunhidos e berros assombrosos as suas intenções.

Preservando sua imagem grotesca da atenção alheia, Zumbi arrastou um dos atendentes em estado de choque da funerária para dirigir enquanto ia escondido dentro do caixão no enorme porta-malas do carro. Com a etiqueta da Bailarina tremulando no espelho retrovisor e defecando-se de medo do conteúdo que levava, o motorista iniciou, ainda que trêmulo, o longo caminho até o cemitério do Caju. Na altura da Avenida Perimetral, o motorista que já estava se acostumando com a missão, quase morreu de susto ao ouvir as sirenes dos inúmeros carros de polícia que vinham acelerados em sua direção. Imediatamente, não com a intenção de fugir dos policiais, mas mais por reflexo, pegou a primeira agulha de saída, em direção à Copacabana, na intenção de despistar a lei que o seguia. O rabecão, mesmo sem sirene, conseguia o respeito dos outros motoristas que, ao verem o reflexo daquele imenso carro preto quase descontrolado, o carro da própria morte, imediatamente abriam caminho para que passasse sem que os levasse consigo.

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13 de dezembro de 2011

NecRomance Parte I


Imagine um lugar quente, onde se trabalha coberto da cabeça aos pés, inclusive com luvas de borracha arrochadas, máscara, touca, botas e jaleco por cima das suas roupas. Agora, imagine que neste lugar não funciona o ar-condicionado e, para piorar, há uma grande quantidade de corpos em decomposição ao seu redor, dentro de gavetas de metal ou simplesmente deitados em macas e cobertos com lençóis cujas cores variam entre o encardido e o encarnado.

Foi neste lugar, mais ou menos na hora do almoço de uma segunda-feira de calor sufocante, que chegou o corpo levando pendurada no dedão do pé uma etiqueta de número 89634. A princípio parecia comum, marcas da violência cotidiana, sem nada superficialmente apavorante. Por isso, ficou na fila. Teria sua vez de passar pela autópsia lá pelo final da tarde. De quinta ou sexta-feira.

Porém, no final da terça, o cheiro começou a chamar muita atenção. Aquela carcaça fedia além do normal. A solução para o problema era uma só: tirar outra carcaça da gaveta e meter ali a fedorenta onde federia menos, ou tanto quanto, porém restrita a um ambiente menor não chegaria a afetar tanto nossas narinas. Desgraçado o papa defunto que teria a sorte de fazer-lhe a autópsia após dias de confinamento. Abrir aquela gaveta seria encarar uma explosão flatulenta de mil megatons. Haja máscara.

E foi mais ou menos isso que aconteceu. Na sexta-feira, o estagiário foi escalado para fazer a autópsia deste corpo que era, provavelmente, de algum mendigo ou outro tipo qualquer de degradado, adivinhavam todos pelo cheiro. Sem saber do que se tratava, o estagiário cumpriu normalmente sua rotina. Saiu da faculdade, onde planejava laurear-se na especialidade de medicina legal e prestar um concurso para algum lugar melhor o mais longe possível daquele, se é que existem lugares melhores onde se pratiquem esse tipo de ofício, e chegou no final da tarde para cumprir seu turno que iria até as seis horas da manhã do dia seguinte. Pela listagem do dia, o 89634 seria o sétimo a ser autopsiado, lá pelas três ou quatro da manhã, pensou o rapaz que, por incrível que pareça, estava extático com o trabalho, pior do que um estagiário, é um estagiário empolgado. Apesar das condições das instalações, sentia-se como o próprio Miguel Ângelo, a dissecar cadáveres longe dos olhos da Igreja Católica. A única diferença entre eles era o que faziam com o conhecimento adquirido, mas não há de ser nada, pensava o rapaz, o mundo verá a perfeição das minhas notas no concurso, cogitava.


Menos à luz de velas e mais à dicróica, o estagiário puxou a gaveta do 89643. Nauseou-se um pouco mais do que o de costume quando inalou a espessa fumaça verde que envolvia o corpo coberto pelo lençol. Comprometido, comprara há alguns dias um ventilador desses portáteis e colocou ao lado, contrariando todas as normas técnicas aprendidas na faculdade. Conseguindo dissipar o cheiro e aproveitando para arejar o pescoço e as axilas, não do morto mas as suas próprias que sofriam com a falta do condicionador de ar, puxou cuidadosamente o lençol de sobre o corpo, iniciando uma observação minunciosa.

Ia anotando enquanto examinava. Homem, caucasiano, olhos verdes, estatura mediana, entre vinte e cinco e trinta anos, dez dedos nas mãos, dez dedos nos pés, cabelos loiros cortados a militar. Inexistência de hematomas, cortes ou fraturas tanto dorsais quanto nos membros inferiores ou superiores. Já aliviado do mau cheiro, o estagiário tomou bisturi à mão e descreveu os cortes necessários para a observação da estrutura interna do cadáver. Uma nova onda de fedor tomou-lhe as narinas logo na primeira incisão mas, na medida em que corria a lâmina, o cheiro amenizava-se encorajando-o a seguir adiante. Toda aquela trabalheira não prometia nenhuma novidade, pensava, quando, examinando a caixa torácica, percebeu que o corpo havia tido as grandes artérias coronarianas cortadas a dentadas, o coração havia sido retirado e atado de volta no lugar com nós de marinheiro. O estagiário achou aquilo tudo muito estranho e olhou em volta na esperança de encontrar algum dos superiores rindo-se da galhofa. Em vão. Não havia ninguém na sala àquela hora da madrugada. Tornou a olhar o coração cercados de trempes e escotas, aproximando-se um pouco por vez até estar a alguns dedos de distância quando a luz, por algum motivo que nunca saberemos, apagou-se e voltou alguns segundos depois. Tentando refazer-se do susto, pois mesmo acostumado ninguém nunca ficará totalmente à vontade numa madrugada remexendo o bucho de um cadáver, o estagiário decidiu fechar o corpo e deixar para pedir orientações no dia seguinte. Pegou a linha de nylon e, quando já se preparava para arrematar a costura, a mão nodosa e inchada do morto tomou a sua com uma força impressionante.

O rosto do estagiário era o que havia de mais branco na sala de autópsia. O morto, para seu espanto, levantava-se da maca e estraçalhava os ossos de seu punho. Seus berros abafados pelas paredes do lugar, não faziam mais do que deixá-lo rouco e surdo. O morto aproximava seu rosto, olhos esbugalhados e sangue a escorrer das narinas, do rosto do estagiário e abria a boca na direção da dele, mostrando seus dentes, todos perfeitos, numa mordida fatal encobrindo boca e nariz e asfixiando o pobre estagiário até sua morte.

Ao perceber o fim da luta, 89643 largou mão e cabeça da vítima e refestelou-se em seus órgãos ainda mornos de vida. Era uma fome nova que sentia, tão natural quanto o ato de respirar e tão renovadora quanto um suco de melancia gelado após um passeio pelo deserto. Chupava o fígado como uma manga recém colhida do pé, estraçalhou o cérebro na tentativa de abrir a caixa craniana no chão de azulejos e degustou os pedaços como pequenos mexilhões a vinagrete. O banquete durou algum tempo e, apesar de morto, o cadáver mostrou ser bem vivo pois, consciente de sua condição atual e, contra todas as expectativas, movido por algum tipo distorcido de instinto de sobrevivência, ou sobremortência, catou os papéis que comprovavam a sua morte de cima da mesa de operação e engoliu-os como a sobremesa deste jantar bizarro e voltou a deitar na gaveta onde o tinham colocado antes que tudo isso tivesse acontecido.
O primeiro a deparar-se com a cena foi o faxineiro. Não conseguindo evitar a reviravolta de seu estômago, largou o café-da-manhã junto com os poucos restos mortais do estagiário que, não fosse a arcada dentária, não teria posterior reconhecimento. Tenso e nauseado, o faxineiro correu a chamar todos que pudesse para verem a cena e disso constitui-se um grande circo. Primeiro os médicos locais, depois enfermeiros, atendentes e as pragas dos repórteres que, tendo suas antenas tão longas, percebem o cheiro de matéria nova onde quer que ela nasça, ou neste caso, morra.

Mas tudo, em seu devido tempo, voltou ao que era antes. Quando se retirou o último cone e quando se expulsou o último vendedor de mate, a vida retomou sua normalidade e o incidente não passou de algumas notas no jornal e diversas seções de terapia para o faxineiro que, após ter sido acusado como responsável pelo indigesto assassinato, pôs-se em defesa alegando insanidade mental, o que não uma inverdade, tamanho foi o efeito da visão horrenda que presenciara. Assim, ficaram todos satisfeitos. Repórteres com suas matérias, polícia com seu culpado, o faxineiro em sua cela especial e redução de pena e o instituto médico legal que angariara alguns fundos a mais após tamanha exposição na mídia.

De todos, o único que não estava bem era 89634, com o estômago ainda embrulhado de tanta papelada que deglutira em sua fuga. Aquela fome estranha voltou com ainda maior força e a claustrofobia que lhe causava a permanência excessiva dentro da gaveta lhe davam uma ansiedade incontrolável de matar novamente, mas só se aventurou a mexer-se quando toda a confusão passou. Meteu os dedos inchados nas frestas da gaveta e já ia forçando-a sobre a corrediça quando escutou o barulho da maca esmurrando as portas de plástico pesado que fechavam a sala. Um novo corpo havia sido deixado e, com ele, um médico já vinha para examiná-lo.

O cadáver era de uma dançarina de seus vinte e poucos anos, coxas grossas, seios firmes e cintura fina. Dessa vez, em vez de o estagiário, todo o corpo médico do instituto se prontificou a examiná-la, o que não deveria causar estranheza sendo o amor, como dizem, universal e a necrofilia um mapeado fenômeno patológico da humanidade.


89634, ou simplesmente Zumbi, chamemo-lo assim daqui para frente, Zumbi aguardou até que ouvisse o barulho da outra gaveta fechando com o novo corpo e saiu quando já não ouvia mais passos no recinto. Tão logo saiu, um novo barulho ecoava abafado, ritmado e metálico. Como se alguém batesse com as mãos naquelas placas de metal de que eram feitas as gavetas. Limpando um resto de sangue e cera que lhe obstruía a orelha carcomida, Zumbi aproximou-se do local de onde vinha e puxou a gaveta. Lá estava a bela bailarina recém autopsiada, só Deus sabe o que mais sofrera aquele corpo nas mãos, língua e, quiçá pênis, do legista, deitada com um grande hematoma na testa, provavelmente causado pelas tentativas de levantar-se dentro da gaveta, explicando assim o barulho que chamara a atenção de Zumbi.

Inexplicável foi a atração que aqueles dois corpos sem alma experimentaram um pelo outro. Talvez tivesse sido a grande fome que ambos sentiam e que, pelo menos Zumbi, sabia como satisfazer. Porém, sabia também que não era aquela fome propriamente dita pois, mesmo com vontade de refazer os caminhos percorridos há pouco pelo legista tarado, não suportaria esquartejá-lo e degluti-lo como fizera ao estagiário. Algum renegado senso de beleza havia permanecido vivo naquela montanha de morte que eram os dois juntos pois, por maior que fosse a ânsia por carne humana, maior ainda era o sentido de preservação da integridade física, ainda que parcial, a integridade e não o sentido de preservação, que tinham um pelo outro. Por falta de termo que explique com maior clareza, uma vez que somos todos ignorantes nas matérias do pós-vida e do pós-morte, chamemos o que aconteceu entre eles de paixão. Como se diz vulgarmente, e nem por isso menos sublimemente, acharam-se. Se passassem mais alguns dias decompondo, poderiamos até se dizer que acharam as suas caras-metade. Mas mesmo um tanto quanto fora de suas órbitas, seus olhos brilharam e suas pernas bambearam, um pouco pela secura dos músculos e pela falta de elasticidade dos tendões, mas certamente era paixão.

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6 de dezembro de 2011

Sopa de passas

Na beira do prato, arrisca-se a mosca
Já sentia no ar o calor. O gosto, imaginava.
Sabia somente que hoje era sopa.

A aba era larga e mesmo em seis patas
suspirava de dor
a mosca, arriscada, a barriga roncava
ansiosa que estava para sentir-lhe o sabor

Seus olhos brilhavam e o nariz palpitante
adivinhava os temperos boiando ali
curcuma, cebola, coentro e passas,
um toque de trufas, seria trés chic

E a mosca abusava da sorte e do dono
que  não despertara ainda do sono
na beira da sopa planejou o pulo
Zumbiu de emoção e deu o mergulho

Nadou sobre o caldo, feliz e contente
e afundou-se no meio da piscina escaldante
submersa entre arroz comeu quanto quis
deixando essa vida contente e feliz 

mas agora, tarde demais, foi-se a mosca ao céu das moscas
ser precisar bater asas, afundou-se sem pressa
fantasiando-se passa, no fundo do prato, no fundo da boca
na boca do estômago do dono da sopa

28 de novembro de 2011

Fundo de mim


Um prado verde, uma campina
o vento e seu olhar de menina
cabelos em trança para não embaraçar

Corre, liberta, vestindo carmim
babados de renda
colar de jasmim

Fizeste um presente
e me deste sorrindo
suas mãos que tocaram no fundo de mim

Fita vermelha, papel colorido
caixinha com seda, anel de rubi
Abre um sorriso e foge do beijo
olhos que viram no fundo de mim

Me pede um abraço, caindo no chão
confusa em meus braços, o sim e o não
suspira baixinho, me dá um carinho
descobre um cadinho no fundo de mim

22 de novembro de 2011

Uma Grande Surpresa

A barriga vazia retorcia-se sob a camisa de Jairo. A tentação do furto era cada vez mais sufocante. Com frequência se deixava convencer da facilidade dessa escolha e da insensibilidade da vítima de dar-se conta da perda. Afinal, espírito virtuoso que sempre fora, escolheria algum lugar de extrema abundância para praticar o delito, justificando-se  no fato de que em lugar que muito há, o pouco que falta não se fará notar.

Protegida a alma sob o escudo da auto-sugestão, lá se foi Jairo emboscar sua presa. Perambulou pela cidade por algumas horas dando uma última chance à caridade humana, ainda lutando intimamente para não sucumbir à sua condição de faminto e, por conseguinte, desesperado, o que só lhe traria confusão ao raciocínio e risco às suas já fragilizadas integridades física e moral.

Como sempre, rumou para o bairro rico repetindo seu lema como um mantra, adepto que era desse tipo de prática zen. Era hora do almoço e o ar recendia à mistura de temperos, carnes e cozidos. Foi um duro golpe à pétrea força de vontade de Jairo que decidiu, então, entocar-se ao lado de uma reluzente garagem e, como uma serpente, esperar a hora certa do bote. Agachado na relva milimetricamente podada, Jairo escutou até que o tilintar dos talheres e o gorgolejar dos refrescos terminasse, sinal claro de que os moradores já se haviam satisfeito. Movendo-se silenciosamente, entrou por um basculante e encontrou-se no banheiro social da casa. Aproveitou para tirar de si a sujeira, pelo menos aquela que levava às mãos, já que, além da confissão seguida de prece, ainda não inventaram canos e muito menos água, seja ela qual for, e não se deixem enganar pela benta, que leve consigo a sujeira da alma.

Com a confiança e espírito renovados como só um borrifo de água gelada o faz, saiu do banheiro e andou pelo térreo agora vazio. Era comum naquele bairro que as famílias tirassem a sesta, ainda mais àquela época do ano. Portanto, foi Jairo até a cozinha e fez-se um prato com a comida que ainda emanava fumaça de dentro dos potes de servir. Por sorte eram todos de plástico, o que minimizava os ruídos dos movimentos e das batidas que poderiam fazer os encontros da grande colher, proporcional a sua fome, com as laterais dos potes.

Satisfeito, lavou educadamente a louça e começou a perambular pela casa vazia. Mexeu nos porta-retratos, cogitou ligar a TV, mas apenas experimentou o poder de ter os controles-remotos nas mãos, folheou as revitas e desmarcou a Bíblia recostada no altar. Era hora de partir, pensou. O ajuste entre excesso e falta havia sido consumado, vingou-se intimamente da sociedade. Voltou então ao banheiro para completar o processo e escovar os dentes com o dentifrício que prometia brancos absolutos, mas, como um leão que se joga à savana após encher de zebra ou gazela o bucho, entregando-se a uma indolência que só o poder de seu urro lhe confirma, Jairo aboletou-se ao trono que havia no pequeno banheiro e reinou, não como citado rei dos animais, mas como um homem no máximo de sua própria auto-proclamada majestade.

E ser rei nessas situações requer muito cuidado pois mesmo os órgãos internos podem amotinar-se. E foi o que aconteceu a Jairo, uma vez que ao ver-se naquela situação pretensamente segura mas, no fundo, imensamente delicada ouviu a sirene da revolução soando alto de dentro de seu ventre. E tão fortes retumbavam que despertou a família lá no andar de cima que, prevenida na arte de manter o que lhes era posse, reuniu-se ao topo da escada com as melhores armas que puderam escolher entre as roupas de cama e as meias entre as gavetas. O menino, pela sua própria natureza, era o mais bem equipado levando aberta consigo a lâmina do canivete suíço. Pé ante pé, a família pôs-se escada abaixo numa proximidade corporal só comparável aos abraços de Natal e a contagem regressiva de cada final de ano, todos ouvindo o gorgolejo gutural que vinha do banheiro de baixo.

Jairo não ouviu nada, preocupado que estava com o próprio estalar de tripas, e nem viu quando a família abria inadvertidamente a porta do banheiro onde, agora, além de ruídos, cheiros indesejáveis também ajudavam a gravar para sempre na memória o espetáculo dantesco de Jairo, calças aos joelhos, meio corpo para fora, tentando fugir, do banheiro e da vergonha, pelo basculante.

14 de novembro de 2011

Centésimo post

O céu estava encoberto há dias, porém num abafamento digno de microondas. Até que numa quinta-feira, depois da novela, choveu.

Choveu como não chovia há tempos. Quando nos acostumamos às coisas de um jeito, fica difícil imaginar como precederíamos se fossem diferentes. Foi exatamente por isso que, por anos, meus pais postergavam a limpeza da calha de chuva da casa. Tudo bem, não os culpo, tarefa chata que é e que só percebemos bem sua importância no momento em que não podemos mais contar com ela. E não somos assim mesmo com tudo?

Pois bem, nessa chuvosa quinta-feira os céus decidiram mandar água além da conta da já comprometida capacidade da tal calha, o que levou a um transbordamento e, por fim, lagoas dentro dos cômodos da casa. No meu quarto o estrago foi grande. Móveis, carpete e roupas. Porém o maior dano e talvez o único irreparável tenha sido a pasta onde eu guardava o que escrevera até então ainda nos originais à mão em papel.

Comecei a escrever bem jovem como uma válvula de escape e um porto seguro, inseguro e ansioso que era (era?). E ali, naquela pasta, estavam relatos, rimas e estórias que não só mostravam a evolução de meu estilo (estilo?) mas (e muito mais) a minha própria.

Senti um aperto no peito ao ver as páginas - caderno, folhas sem pauta e guardanapos - chorando azul e borrando idéias, sentimentos e paisagens tão importantes para mim quanto a própria memória delas mesmas. Salvando o que podia, meti tudo num lugar seco e decidi que não perderia mais nada que escrevesse, por mais duvidosa que fosse a sua qualidade.

E foi então que surgiu a necessidade de guardar tudo fora do papel. Primeiro num lugar que fosse só meu, como merecem as coisas muito pessoais. Mas, aos poucos fui vencendo o pior dos críticos, eu mesmo, e abri acesso a quem quisesse poder navegar não por tudo, mas por onde o tempo já houvesse consolidado e pouca diferença faria a opinião dos outros.

Numa primavera há sete anos incluí os primeiros textos (textos?) - não sem um imenso crivo - e para comemorar o centésimo post deste espaço, tiro-lhes o pó e reapresento-os como os pioneiros e desbravadores deste Império das Letras.

Boa leitura.



3 de novembro de 2011

Acerto de Contas


A luz vermelha do semáforo ainda longe acendeu a dúvida na mente de Cristóvão. Já era tarde, estava levemente alcoolizado, nada que lhe obscurecesse os reflexos , mas o suficiente para deixar seus movimentos lânguidos e sua língua frouxa, certeza tão absoluta que ainda trazia vivas as lembranças dos beijos longos e corpo satisfeito de sua parceira cujo nome, sim, se esvaíra aos primeiros contatos do álcool com as profundezas de seu organismo. Suspirou esticando a boca num leve sorriso que foi voltando à sua natural posição na medida em que o carro aproximava-se da luz vermelha, diminuindo a velocidade e calculando suas chances de ser multado por não parar ou ser assaltado ao fazê-lo.

A mistura de álcool, mesmo na pouca quantidade que precisamos para nos desatarmos dos nossos medos, e sexo, mesmo na pouca qualidade que é suficiente, aos homens pelo menos, para que se sintam onipotentes, estado este encarado por Cristóvão neste momento, afetou sua capacidade de julgamento, o que resultou em achar-se justamente poderoso e corajoso, o que acontece com rara freqüência, para se submeter à lei e parar ao sinal vermelho, coisa também rara àquela hora da noite.  Como bobo não era e, mesmo naquelas condições, não se encontrava totalmente desprovido de senso e lucidez, lembrou-se de abaixar o pino da porta, trancando-se no que, para ele, era o seguro cadinho de seu banco do motorista.

Alguns poucos segundos se passaram até que a ausência total de movimento ao redor, seja de alma viva ou penada, motorizada, ambulante ou volante, lhe trouxesse a tão ridícula imagem que fazia ele ali parado sozinho sob a luz pálida da lua e a vermelha do semáforo. Menos por medo e mais por vergonha da própria idiotice, o álcool também nos leva a reflexões e conclusões dessa natureza, Cristóvão já pousava a mão no câmbio quando ouviu o leve barulho que fez o metal pesado contra o vidro fechado de sua janela. 

Do lado de fora, alguém com capuz preto e olhos profundos apontava uma arma em sua direção e ordenava através de gestos muito convincentes que destrancasse a porta. A primeiríssima reação, de duração máxima de alguns milionésimos de segundo, foi a de Cristóvão maldizendo não só sua conduta imbecil mas também todos os santos e mártires que lhe chegavam à memória, sem deixar de fora o próprio Senhor, no ateísmo agudo do qual todos sofremos no instante inicial da nossa iminente desgraça. A reação seguinte foi de simples docilidade para com o marginal, totalmente compreensível pois sabido já o é que animal, seja de qual natureza for, se verga humildemente e bandeia para o lado do animal em condições de superioridade quando sua integridade física é posta à prova. Abrindo a porta, Cristóvão polidamente adiantou que lhe podia levar tudo mas que procurasse não fazer-lhe mal pois ao bem de ninguém isso serviria. O bandido, bem acomodado no banco traseiro e consciente da superioridade natural que lhe garantia a arma em punho, somente indicou o caminho para o mais próximo caixa eletrônico vinte e quatro horas.

A essa altura, como um passe de mágica, pois mágicos mesmo são os processos que acontecem sob a penumbra que existe debaixo de nossas peles, as partículas do álcool previamente ingerido transformavam-se todas em partículas de adrenalina, devolvendo a Cristóvão o controle total de seus movimentos somados a um calor que o fazia suar até nas pontas dos dedos. Que maravilha seria se nosso corpo também assim se comportasse ao lermos um livro ou o jornal todas as manhãs, evitaríamos a tão anti-higiênica necessidades de levarmos nossos dedos à boca ao fim da leitura de uma página de um ou matéria do outro.  No caso de Cristóvão o suadouro nas falanges distais era inútil, uma vez que só conseguia, no momento, ler as placas ao longo da via enquanto tentava virar a página dos olhos do ladrão. 

E sem dizer mais palavras seguiram ambos, pistola e volante às mãos, até uma esquina escura onde obviamente estava instalado um caixa vinte e quatro horas já que, ao banco, só importa que as cédulas lhe saiam, desde que da forma lícita, não importando se quem as saca é correntista ou condenado, por vontade espontânea, necessidade emergencial ou coação momentânea. Parando o carro sob um poste cuja lâmpada encontrava-se apagada, Cristóvão foi instruído a apagar também as luzes do carro e entregar a chave ao meliante, coisa que fez sem titubear. Já se imaginava sendo destituído das parcas posses que carregava, incluindo relógio e rezando para que não fizesse questão do celular pois seria um parto sair daquele fim de mundo sozinho e sem ouvir uma musiquinha sequer, e se preparava emocionalmente para mendigar ao ladrão um trocado para o ônibus e outro para um pão, pois que a inevitável aurora daqui a pouco chegaria, mas tal foi sua surpresa quando, ao estarem sozinhos no cubículo do caixa eletrônico, a tela fria iluminou não apenas a arma que seu algoz levava à mão mas também uma pequena pilha de papel. O bandido então deu as novas instruções sem perceber que elas já estavam na tela. Cristóvão, obediente a ambos, cumpriu os passos: inseriu o cartão, colocou a senha primária, respondeu à pergunta secreta, digitou por extenso o mês de seu nascimento assim como o número do seu documento de identificação social e encaixou seus olhos no leitor de retinas para que a máquina tivesse certeza de que ele era realmente quem afirmava ser. Sistemas bancários devem ser ambientes extremamente inseguros ou esquecidos tal é a dificuldade de se lembrarem de seus nós clientes, mesmo os mais habituais, e tão íntimos que não hesitamos em pedir-lhes dinheiro seja para nossas necessidades, seja para nossos caprichos, e ele, em seu Alzheimer, nos empresta sem saber quem somos, desde que cumpramos a liturgia da identificação, pois somos todos mentirosos às máquinas, até que provemos o contrário.

Os olhos pasmos de Cristóvão estavam fixos nos do ladrão após ouvir as novíssimas instruções sobre o que deveria fazer adiante. Clique na opção pagamentos e, depois, contas de consumo. As folhas que levava nas mãos detalhavam o quanto de água, energia, tevê por assinatura e telefone celular ele, e provavelmente sua família, consumiram no último mês e foi dando-as uma a uma a Cristóvão para que fizesse o pagamento. Duvidando, Cristóvão passou os olhos pela conta e, como fazia com as suas próprias, tentou identificar alguma cobrança indevida que arrefecesse o prejuízo, mas foi em vão. Por outro lado, descobriu algumas coisas peculiares sobre seu captor, o que os deixava de certa forma mais íntimos do que nunca. Ele devia ter ar-condicionado pois o consumo saltava nos meses do verão. Adivinhava o seu gosto por cinema pela lista interminável de clássicos em pay per view assim como seu apetite por sexo, pelas múltiplas assinaturas de canais adultos. Além disso, era rubro-negro pois seu plano dava direito de assistir os jogos do Urubu no campeonato regional, mas isso não precisaria da fatura para adivinhar, uma vez que seu capuz trazia a insígnia CRF bordada em branco destacando-se sobre o preto profundo. Profundo e intrincado era também seu hábito de fazer ligações de seu celular para telefones fixos enquanto todos sabem que a tarifa é bem menor de fixo para fixo ou de celular para celular. Havia uma infinidade de curtíssimas ligações, provavelmente uma manobra contra o rastreamento, dada a sua condição de seqüestrador, pelo menos relâmpago, com certeza. A cada pagamento efetuado, Cristóvão cumpria a coação e entregava de volta ao meliante a fatura e o comprovante os quais eram cuidadosamente afixados cada um a seu respectivo par, com um clip de metal. 

Agora sem qualquer sintoma do consumo de álcool, exceto talvez o permanente bafo e olor proveniente do suor que é por onde esse tipo de impureza é expelida, e com o corpo cansado pelo efeito da adrenalina, Cristóvão pagou a última conta e a devolveu junto com o último comprovante, mas não sem antes sugerir alguns filmes que, para ele, seriam indispensáveis a qualquer cinéfilo que se preze e, organizado como era, ou talvez de memória fraca, vá lá saber que efeitos o excesso de tevê tem sobre os nossos cérebros, o ladrão logo tirou do bolso seu smartphone de última geração e, agradecendo, desandou a dedilhar na tela touchscreen. Por fim agradeceu as dicas e deixou Cristóvão com um sorriso e o alívio de ter permanecido ileso durante o tempo que compartilharam o carro e o cubículo, experiência bem diferente mas tão exaustiva quanto o compartilhamento de cama e corpo que havia tido com a parceira sem nome horas atrás.

Acompanhou o ladrão com os olhos até que virasse a esquina e saísse definitivamente de sua visão e sua vida, olhou o relógio e descobriu que a manhã não tardaria e que, daqui a algumas horas pagaria suas próprias contas, passando mais uma vez pela experiência zen de desapego ao vil metal que, assim como o ladrão, trabalhou dura e organizadamente para acumular, cada um em seu ofício.

18 de outubro de 2011

Os bêbados da destilaria

A destilaria ficava fechada com cadeado durante a noite para evitar que os bêbados da região a tomassem de assalto. O mestre-cachaceiro fora segurança de boate e levava ao coldre uma colt .45 com balas suficientes para escrever seu nome e sobrenome numa parede.


Propositalmente localizada no alto de uma montanha de difícil acesso, a destilaria funcionava a pleno vapor, enquanto brilhasse a luz do sol, compensando, numa produção acelerada, a falta do turno da noite. Como o almirante de um transatlântico, o mestre dava ordens e mexia manivelas controlando os fluxos e afluxos dos líquidos que perambulavam pelos tubos de cobre e vidro por todo o galpão como uma cama-de-gato.

O mestre-cachaceiro era o único que arriscava a pele passando a madrugada dentro da fábrica. Cansado sob o fuzil que levava às costas, fazia tudo com a atenção redobrada, pois àquelas horas podia ouvir ao longe o movimento dos bêbados sob a colina vomitando, maldizendo a vida e declamando poesias. Aqueles barulhos lhe causavam arrepios mesmo depois das dezenas de anos à frente da destilaria.

Na medida em que o sol subia os ajudantes se anunciavam batendo com a pesada aldrava de ferro nas grossas portas de madeira que o mestre abria remotamente com um clique no porteiro-eletrônico. Assim que chegavam, vestiam seus aventais. Só ali tinham coragem suficiente para envergá-los. Se fossem vistos em qualquer outro lugar, despertariam inveja e cobiça. Ali estavam seguros, suas identidades mantidas em segredo e seu trabalho minucioso muito bem recompensado.

Perto do final do expediente a tensão invariavelmente tomava conta do estabelecimento. Desligavam as máquinas e só se ouvia o leve borbulhar do suco nos latões. Lavavam o chão para que o odor não atraísse a praga trôpega e, antes de liberar os ajudantes, o mestre-cachaceiro reunia a todos em sua sala de troféus e dava as instruções da saída: lavar os aventais e os instrumentos de trabalho, jurar confidencialidade sobre o ofício que praticavam e nunca trocarem palavras ou olhares sequer entre si fora da fábrica. Era lei.

A sala era decorada com as carcaças empalhadas dos bêbados que haviam atentado contra a integridade da destilaria e do próprio mestre-cachaceiro. Sua colt e seu fuzil haviam abatido mais de duzentos bêbados e, naquela sala, alguns davam um silencioso testemunho dessa bravura.

Quando o sol se punha a um palmo do horizonte, os ajudantes eram liberados um a um. Cada qual tomava seu rumo de volta para casa e para suas mentiras: um era padeiro, o outro marceneiro. Evitavam colocar suas famílias em risco poupando seus queridos da preocupação e a si próprios da possibilidade de darem com a língua nos dentes. O destino de um ajudante descoberto poderia ser fatal.

Ao deixar o último ajudante sair, o mestre-cachaceiro fazia a ronda pela planta baixa verificando cada válvula e conta-gotas. Depois ia com seu armamento para a gávea no alto da torre de onde monitorava os bêbados que subiam a colina.

Mesmo parecendo inofensivos, os bêbados babavam por todo o pátio da destilaria e urravam cada vez mais forte ao verem o velho mestre longe do alcance. Juntando-se em grupos de cinco ou seis, os bêbados cheiravam o vão por baixo da porta e lambiam o tapete onde se via escrito “Bem-vindo”, obviamente não para eles. Não raro tentavam remover o pesado cadeado usando força bruta, seus dentes ou suas roupas. Batiam-se contra as paredes de pedra e amaldiçoavam o velho que permanecia inabalável por trás de seu pequeno arsenal.

Aos poucos, os bêbados que não ficavam por ali mesmo em coma alcoólico, desciam pela estrada íngreme de volta ao pé da colina e à difícil ressaca e amnésia do dia seguinte. O mestre, do alto da gávea e de sua sabedoria, não fazia juízos das pobres almas possuídas que se dispersavam. Apenas aguardava o movimento cessar para poder descansar. Um cochilo breve o bastava.

Ao primeiro canto de galo, o mestre despertava e recomeçava, com uma longa talagada do manjar não obsequiado aos bêbados na noite anterior, o dia ainda escuro.

9 de setembro de 2011

Não estava de férias

Queridos oito leitores.
Parece que foi em Agosto. Teias de aranha e estalactites nos posts desse blog. Porém, contra todas as percepções, entro de férias somente agora em Setembro.
Será mais doloroso para mim deixá-los órfãos do que para vocês deixarem-me não-lido.
E é exatamente por causa disso que eu saio prometendo voltar com a verve ficcionista que vocês querem ver (informação sem relevância estatística) ainda mais presente. Para que a saudade, combustível do reencontro, supere a dor da separação.

Até breve.

29 de julho de 2011

Je suis né il ya 10.000 ans

“Como alguém com mais de trinta, pretenso admirador da cultura dos anos 60 e 70 nunca tinha ouvido falar de Serge Gainsbourg!?”

“Como alguém cujos ídolos sempre foram figuras conturbadas, ambíguas e malditas nunca ouviu falar de Serge Gainsbourg!?”

“Como alguém que gosta de música, cinema e animação nunca tinha ouvido falar do filme Serge Gainsbourg – Vie Heroique (2010)!?”

Estas frases flanavam (para usar o termo francês) na minha cabeça enquanto saía do cinema. Minha ignorância sobre o protagonista teve a ajuda dos subtítulos um tanto quanto mercadológicos do filme tanto na versão em francês (“vida heróica”), que se apropria da infância do cantor na Paris ocupada pelos nazistas, apenas cerca de dez ou doze dos primeiros minutos; como na versão em português (“o homem que amava as mulheres”), talvez numa tentativa de surfar uma onda de um outro filme baseado numa trilogia editorial de sucesso. Confesso que imaginei uma ficção sobre um pianista maldito, numa Paris noir com pitadas daquele humor ácido francês e acabamento de quadrinhos em cores pastel, outra especialidade francesa. Enfim, me preparei para cento e vinte minutos de clichês.

E tal não foi minha surpresa ao deparar-me com a biografia de uma pessoa impressionante. Uma alma contorcida. Um artista fervoroso, de verve e presença inusitada. De postura agitadora, crítica e vanguardista, ansioso de rompimento com óbvio, do estático e do comum. Enfim, um provocador. Enquanto Jim Morrison agitava Los Angeles e morria em 1971, Serge Gainsbourg agitava a França e seguiu agitando até bem depois da década de 70, tendo deixado esta vida em 1981. E como as semelhanças não são apenas coincidências, ambos jazem eternamente no Pére Lachaise, em Paris.

O filme inicia-se mesmo com a infância, a iniciação na música através do pai, sua relação com as irmãs e o aspecto provocador que já dava o ar da graça, exemplificado na conversa dele, aos dez anos, com o chefe da polícia nazista que distribuía as estrelas amarelas aos judeus. Um pequeno manipulador. Impagável. Além de sua veia artística expressada pela pintura e a criação de personagens que, aliás, perfazem sua existência, inclinando-o uma hora para a vida reta e outra para a torta. Menção honrosa aqui para as animações e suas versões “reais” que o acompanham nos momentos-chave da sua vida/filme.

Afora os aspectos técnicos, Serge é interpretado por um efetivo sósia: Eric Elmosnino. Perfeito no papel. Feio, bruto, machista e ao mesmo tempo frágil, encantador e apaixonado. Consegue transparecer aquele ar blasé e constantemente irritado com seus olhos esbugalhados e orelhas de abano.

Brigitte Bardot também é bem representada por Laetitia Casta, mas não empolga. Quem empolga é Lucy Gordon e sua interpretação de Jane Birkin. Contundente em sua beleza frágil. Firme e doce ao mesmo tempo. Não fosse seu falecimento precoce (Lucy foi encontrada morta em seu apartamento em 2009), ela poderia estar figurando suas feições élficas outras estrelas de grande magnitude.

Por fim, Serge é como um Raul Seixas francês. Precursor de um estilo de vida rock’n’roll, easy rider sem sair do lugar, levando as relações e as sensações ao limite, mas com o atenuante de não estar envolvido com nenhuma seita oculta ou irmandade secreta: seus demônios eram seus próprios e sua salvação era a música, o excesso e os amores.

Numa França não muito amiga de filmes biográficos de suas grandes personalidades, Vie Heroique vem para juntar-se a outro clássico biográfico, Piaf, e continuar a formação da constelação francesa nesse universo essencialmente hollywoodiano.

20 de julho de 2011

Concepção

O atelier repousava sob a penumbra trazida pela lua recém chegada. Vagarosamente o artista abriu a porta e calculou suas possibilidades. A luz lá de fora afagava as telas vazias e as paletas ressecadas. Acendeu algumas velas. Fechou a porta. Concentrava-se. Seus movimentos eram de aproximação, flertava com os pincéis e as tintas. Tentava perceber o que tudo aquilo implorava por transformar-se.

Num abraço pegou uma das telas no colo e, carinhosamente, colocou-a sobre o cavalete roçando-lhe a face como se contasse a ela um segredo. De longe, andou em volta do cavalete ponderando a forma de abordá-la. Como a preparar-lhe um drink, foi misturando as tintas com o verniz enquanto pitava com um dos pincéis à boca.

Aproximando-se da tela, decidido, ruborizou-lhe o lado num afago. Aos poucos ela lhe dizia o que queria enquanto ele descobria seus pontos de fuga confundindo como dela os seus próprios suspiros.

E num momento as preliminares não bastaram. O artista agora ofegante espalhava suas idéias vigorosamente sobre a tela que acolhia submissa toda aquela paixão. O atelier reverberava com os movimentos frenéticos do artista e algumas velas mais pudicas apagavam-se diante do erotismo que artista e obra compartilhavam.

Por fim, suado, novamente distanciou-se o artista e, a cada passo, sentia os sussurros da tela que chorava uma lágrima azul turquesa sobre a paragem expressionista. Satisfeito, perguntou com os olhos a opinião da tela que silenciosamente compartilhava o êxtase.

Guardou seus materiais e tomou novamente sua obra nos braços. Deitou-a sob a luz da noite olhando-a fixamente, admirando seus traços e contornos. Abriu a janela permitindo que o odor que preenchia o atelier se renovasse e ela adormecesse ali, entregue à companhia da lua.

Artista e obra, então, se entrolharam uma última vez sabendo que, à partir de agora, deixavam e levavam, cada um, uma parte do outro.

13 de julho de 2011

Guatemala, 1492

Era difícil dormir com o barulho da chuva caindo sobre as folhas secas que cobriam o telhado. As crianças choravam cada vez mais alto assustadas pelo ribombar dos trovões lá fora cada vez mais perto. Cauatemacotl não era mais uma dessas crianças, sua responsabilidade agora era cuidar delas. Ainda tinha as mãos enegrecidas pelas mordidas de formigas que faziam parte do ritual de iniciação à vida adulta. Ao mesmo tempo, ainda corria atrás das borboletas azuis nas escadarias do grande altar ao entardecer.

O vento trazia as finas navalhas da chuva para dentro da casa e por mais grossos que fossem os cobertores de pele de guanaco, não evitavam o tremer de pernas e a dor nos maxilares. Os pés das crianças eram cobertos com cinzas mornas e envoltos em pequenas bolas de látex para isolar o frio. Tema, como era chamado, tinha a importante missão de não deixar o fogo apagar-se, o que era difícil com as goteiras e a tempestade entrando pelas janelas cansadas de bater. Em alguns momentos, agarrava-se ao pingente de penas de quetzal e fechava os olhos em oração pedindo proteção e coragem para enfrentar o clima. Havia visto adultos fazerem isso no passado e, agora que era um deles, poderia pleitear boa-ventura aos deuses.

À medida que a manhã se aproximava, a tempestade arrefecia. Como empurradas para longe pela força do Sol, as enormes nuvens prenhas descobriam um céu de azul incomum. Aos poucos o povo foi deixando suas casas avaliando os estragos da noite. Muito trabalho seria necessário para reconstruir o que caíra e os adultos já se agrupavam junto aos degraus sagrados para dividirem as tarefas.

Tema correu para agregar-se a eles. Ouviu atentamente as palavras dos anciões e aceitou de bom grado a ordem de recolher os frutos caídos pela floresta. Retornou a casa e, puçá aos ombros e faca na cinta, beijou sua mãe deixando-a com as crianças rumo à floresta. Havia cumprido sua obrigação para com elas.

Tomou a trilha descoberta, pois queria aquecer-se com o novo sol. Apertava os olhos contra o brilhante caleidoscópio de cores frescas que margeava o caminho. Seu coração apertou-se pelas flores despedaçadas a boiar nas poças de lama, mas lembrou-se da história de Centeotl, que deu sua vida para que, de sua pele e seu sangue, pudesse ser feita a variedade de plantas no mundo. Também não entendia como outras tão delicadas sobreviviam à violência das freqüentes tormentas e comparou-as com as mulheres da tribo que se mantinham de fronte erguida enquanto seus maridos as deixavam para a caça ou a guerra.

Deixando o puçá cheio de graviolas e carambolas no chão, Tema quis ver o mar revolto antes de voltar. Sentia um misto de medo e admiração quando via as enormes ondas como grandes bocas d’água gritando angustiosamente ao morder a praia com seus dentes de espuma. O mar mexido alterava a imutável linha reta do horizonte, deixando-a mais parecida com a caligrafia torta dos deuses. E lá, no momento em que mar e céu se encontram num abraço azul, pequenos pontos negros chamaram a atenção do jovem senhor.

Pôs as mãos em concha sobre os olhos e apertou-os para concentrar o foco. Não tinha certeza do que via, pareciam grandes palmas brotando das águas com suas pequenas copas desproporcionais tremulando ao vento. Um arrepio percorreu-lhe as costas, sabia que estava diante de algo novo, talvez trazido pela renovação da chuva da noite anterior.

Acompanhou por horas a aproximação da novidade que vinha do mar. O sol já postava-se oblíquo à terra quando pode divisar a grande barriga marrom que boiava agora bem perto da margem. Lá dentro, pontos brilhantes cegavam sua vista, obrigando-o a desviar o olhar de volta à grande barriga ou acima, no alto das palmas fincadas nela. Num momento, aquele monstro parou e dele saíram dois outros menores trazendo dentro de si mais luzes. Movia-se lento com longos braços batendo no feroz espelho d`água que era o mar ressacado. Aos poucos, contornos físicos puderam ser vistos contra a forte luminosidade que Tema não conseguia explicar. Pareciam homens. Eram homens. Cinco homens dentro de uma embarcação que agora apeavam no raso da praia.

Tema parou de respirar quando entendeu que a luz que o cegava desde o longe era um manto rígido sobre o corpo e a cabeça daqueles homens que refletia a luz do próprio sol, como fazia a adaga de obsidiana antes de sangrar a oferenda nos dias de sacrifício. Suas pernas fraquejaram e seus joelhos fincaram-se no macio da areia. Boquiaberto, viu o homem aproximar-se dele e seu coração congelou ao sentir o peso daquela mão alienígena sobre sua cabeça. Não conseguia reagir. A angústia que sentiu o fez lembrar das mordidas das formigas durante o ritual de iniciação, resignando-se pelo fim de sua infância.

6 de julho de 2011

Textos soltos

Às vezes uma idéia sorrateira passa tão rápido que a gente sente o cheiro, mas não consegue achar o rastro. Abaixo seguem os cheiros de algumas cujo rastro eu nunca mais achei.

***

Ela era uma bomba de efeito retardado. Suas palavras eram o pavio incendiário que percorria a distância que os separava. Quando estavam juntos, tudo explodia. Ela era fogo e ele pólvora.


***

Ele era tão bom com as metáforas que transformou sua própria vida em uma. Enxertava sonho nas situações reais como se romanceando fatos históricos. Deixava que a força das personagens tomasse conta da narrativa de sua vida pintando cútis pérsicas de sonho sobre as rugas e cicatrizes da realidade. Enganava-se de todas as maneiras possíveis.

***

Minguante ou crescente
o importante
é essa lua sorrindo pra gente

***

Imolo em liturgia minhas asas
Este sangue que escorre é para ti
Abro a boca e o sânscrito fala
Encapsulada, minha alma é para ti
Terás minha carne e minha presença
Por certo tema não esteja ali
Estarei divagando em eterno poema
À deriva em palavras que não são para ti

22 de junho de 2011

O Outro Lado

Rubens acordou na casa de sua nova namorada. Ainda escuro, tateou por entre as roupas jogadas pelo chão à procura do celular. Queria ver quanto tempo lhe restava para não chegar atrasado ao trabalho. Virou-se sem sair da cama e como não sentiu o toque das roupas, desistiu e voltou sua atenção ao que mais lhe interessava. Ela estava exausta da noite que compartilharam.

Deitada de lado, repousava o rosto de perfeita simetria virado para ele sobre o travesseiro. Os cílios espetavam negros sobre as bochechas enquanto alguns fios de cabelo emolduravam aquela obra de arte escorrendo por sobre o rosto adormecido. Rubens quis recolocá-los no lugar. Estendeu a mão em palma como um carinho, mas seus dedos não tocaram nada. Ao contrário, superaram a superfície epitelial.

Ficou assustado. Tentou novamente, agora mais firme, com o intuito de acordá-la. Mas foi em vão. Concentrou-se por um momento e voltou à posição anterior, deitado olhando para o teto, colocou as mãos ante os olhos para certificar-se de suas formas e consistência. Seus dedos, unhas e pêlos continuavam lá.

Sua nova namorada balbuciou lânguida seu nome e esticou um braço sonolento para alcançá-lo. Rubens fechou os olhos ansioso para que o toque suave das mãos da menina o despertasse daquela aflição. Mas ele nada sentiu. Ela, que contava com o volume de Rubens ao seu lado para um despertar confortável e seguro, levantou irritada e sentou-se na cama. Rubens sentou-se também e aproximou seu rosto do dela como prestes a beijá-la.

Ela passeou seus olhos ainda dormentes sobre a cama e ao redor enquanto ele se aproximava de olhos fechados quando, no momento em que achou que seus lábios se tocariam, ouviu um grito.

Rubens abriu os olhos e viu o rosto assustado da menina que gritava alta e desesperadamente mirando um ponto além dos olhos dele. Ele acompanhou a direção do olhar da menina e surpreso achou um corpo nu, inerte estendido no chão ao lado da cama.

Instintivamente, buscou o corpo da nova namorada para protegê-la, mas seu corpo passou através do dela, causando nela um calafrio que a fez pular da cama e trancar-se no banheiro.

Tonto e sozinho no quarto, Rubens aproximou-se devagar daquele corpo. Aos poucos percebia as semelhanças com o seu: aquela pinta na nádega direita, a cicatriz da cirurgia no menisco, a tatuagem do ideograma que significava vida. O mundo fechou ao seu redor no momento que ele cogitou a própria morte. No instante que se tornou consciente de sua partida, tudo perdeu o sentido. Tantos sonhos, planos e projetos. Aquele amor recente, a carreira esportiva que ganharia novas perspectivas após a cirurgia, tudo fazia parte de um horizonte que se descortinava promissor à sua frente. E, de cotovelos altos, a morte impunha espaço e jogava a vida e toda a sua suposta relevância para debaixo do tapete, ou da cama, neste caso específico.

Rubens viu em câmera lenta sua nova namorada sair do banheiro com o celular no ouvido e lágrimas nos olhos. Deixou o apartamento fechando a porta num estrondo que o despertou do torpor filosófico e jogou-lhe nos braços a dura conclusão de que para morrermos basta estarmos vivos e para que as coisas acabem, basta que elas comecem.

14 de junho de 2011

Anãs Brancas

Era inverno quando nos descobrimos. Você vinha de um outono árido e eu de minha eterna e onírica primavera. Nossas estações não condiziam. Seria necessário tempo para que nossas órbitas se alinhassem.


Como dois astrônomos, estudamos nossas luzes, nossas distâncias e os átomos de nossas emoções enquanto minha luz ficava mais clara para mim e para você.

Certo de que haveria vida em ti, construí minha nave e me lancei a conquistá-la. Deixei meu planeta sozinho para explorar sua ácida atmosfera. Mas nem cheguei a aterrisar. Nossas polaridades me mantinham a um raio seguro, longínquo, de onde só conseguia imaginar como seria, como seria.

Fui e voltei mil vezes sempre pronto a colonizá-la. Esqueci de minhas águas e minhas fontes. Minhas árvores não poderiam mais crescer sem ti. Meus mares se transformaram em charcos e meu mundo se cansava sozinho longe de mim. Mas eu queria só o teu. Sabia que o meu teria a ganhar. Juntos seríamos uma constelação visível a olho nu de qualquer parte do cosmo.

E quando já se esvaiam as últimas energias, quando já se exauria minha última combustão, tua inclinação alterou-se.

Deixei meu planeta e minha luz e fui morar na sua que agora me atraía magneticamente, como se nossos negativos e positivos finalmente se entendessem. E pousei. Abri o compartimento onde trazia os segredos de meu mundo e revelei-os ao teu.

Embebi-me das tuas novidades. Tua física me surpreendia e nossa química era cada vez mais covalente. Com o tempo, plantei sorrisos nos teus campos e colhi esperanças no teu horizonte. Fiz barragens nas nascentes dos teus rios de lágrima e voei nas magias do teu céu castanho. Me afoguei nas marés do teu humor e me salvava ancorado nas pedras fincadas no chão das tuas idéias.

Amei tanto teu mundo e tão desprendidamente que só voltei a dar-me conta do meu quando recebi dele aquele chamado de socorro. De repente, parei de perseguir o teu horizonte e voltei-me ao meu. Tanto havia deixado de crescer em meu planeta. Tanto ainda havia eu de regar meus próprios jardins. Quantas flores ainda poderia trazer de mim a ti e lá estava eu: refém de meus próprios sonhos deixando apagar a luz da minha própria casa.

Voltei tão desesperadamente para o seio de minha estrela que a propulsão te causou queimaduras. Fiz alguns desertos onde havia grandes planícies. Teu planeta se ressentiu de minha abrupta ausência e, novamente, voltou a seu antigo prumo.

Agora, tendo encontrado a basicidade de minha atmosfera e recolhido os sargaços de meu mar, acompanho de longe sua translação e espero sua gravidade mudar para que possa me aproximar novamente.

8 de junho de 2011

Contagem regressiva

Às nove da manhã em ponto abriam-se as portas do posto da previdência onde o Sr. Praxedes recebia sua pensão. Desde cedo o Sr. Praxedes esperava na porta invariavelmente vestido com seu melhor terno, relógio e sapato engraxado. Todos na agência já o conheciam e o tratavam com o carinho dispensado ao fofo yorkshire do vizinho.


Ordeiro, seu Praxedes, como era chamado, sempre retirava sua senha que, hoje, reflexo do movimento na agência do dia anterior, era a de número 99. No avançado de seus noventa anos, seu Praxedes não deu atenção àquela pequena coincidência. Não até ser chamado pelo guichê 09. Desconfiado, olhou para a senha e depois para o brilho vermelho no painel que indicava onde deveria retirar seu dinheiro. Hesitou e, já com alguma coisa atrás da orelha, foi contando um a um os nove passos que dera até o guichê. Não amassou o papel como mensalmente fazia, mas guardou-o no bolso e pediu, cavalheiro, seu soldo à atendente, apresentando seu holerite e identidade como comprovação.

Vinha acompanhando as discussões sobre reajuste nos salários dos aposentados e esperava 7% para sua categoria. Porém, bom contador que era, viu logo que a diferença era de 9% e não sete. Não comentou nada, bom brasileiro que era, e saiu do posto intrigado, mas feliz.

Chegando a casa, calculou em números absolutos o quanto representava aquela diferença percentual e pasmou-se: nove reais. Retirou os óculos devagar planejando o que faria: jogaria na dezena, na centena, no milhar e na cabeça aquele número que vinha se repetindo obsessivamente. Para tirar a prova dos nove, foi contando tudo que via no caminho até o ponto do bicho. Em seus novecentos passos conseguiu contar dezenove lixeiras, nove vira-latas e oitenta e uma árvores.

Convencido, tirou dez reais do bolso e sentenciou: “Manéu, cerca essa dezena.” – disse mostrando o papel da senha do posto da previdência e recebendo em troca o comprovante da sua aposta.

Voltou para casa e esperou até ás vinte e uma horas, quando saía o resultado. Até lá, suou, tremeu e sonhou com o prêmio que já contava como seu. Ansioso, adiantou o jantar para as dezenove horas e as oito e cinqüenta e nove da noite ainda estava vestido, sentado ao lado do telefone aguardando a ligação do Manéu. Esperou, esperou e esperou até às vinte e uma horas e nove minutos quando resolveu ir pessoalmente ao ponto. Queria retirar logo o dinheiro que sabia que lhe pertencia.

Recontou todas as dezenove lixeiras e as oitenta e uma árvores quando avistou o Manéu já saindo do ponto. Correu para alcançá-lo e, atravessando a rua, não viu o avanço da van em sua direção, atingindo-o em cheio.

O corpo de seu Praxedes deu nove cambalhotas antes de cair inerte no chão. Dos nove passageiros da van, oito o conheciam e correram para ajudá-lo. Mas já era tarde. Sangue escorria por todos os nove orifícios do seu corpo.

O nono passageiro nunca tinha visto o morto na vida, mas reconheceu logo o papel do bicho amassado na mão endurecida em rigor mortis. Simulando preocupação, aproximou-se também do corpo e, com habilidade, surrupiou o papelote sem ser percebido.

Polícia chegou, bombeiro recolheu o corpo, a CONLURB limpou o sangue e, quando não havia mais vestígios do acidente, o nono passageiro foi tranqüilo conferir o resultado do bicho na esquina seguinte.

Cheio de esperança, conferiu os númerozinhos mimeografados de cima a baixo e nem sinal da dezena que procurava. Arrependido por ter perdido seu precioso tempo ali, amassou o papel manchado de sangue e, bom brasileiro que era, jogou no chão mesmo, nem se dando conta das dezenove lixeiras que o cercavam e foi embora praguejando contra aquele número azarento. Podia ao menos ser o número cinco.

7 de junho de 2011

Poesia 14

Se matar é não morrer
e manter-se sob o malho
a alma incandescente
cospe faíscas no assoalho

Ao fazer de mim espada
na moldagem dura e seca
a vida que assopra o fogo
me obriga a amolecer

Deus é um ferreiro
dando fio a armas de guerra
cada anjo nos leva na aljava
e prende o Diabo debaixo da terra.