29 de outubro de 2012

O Vestido

A costureira espetou-se com a agulha enquanto pespontava a última prega bordada do vestido. Sem saber, batizava-o com sangue e iniciava-o para o cumprimento de seu destino.  Afastou-se com o dedo magoado à boca exclamando pelos olhos algo como o "parla" daquele outro grande artista porém mais como uma feiticeira a imputar-lhe propriedades sobrenaturais.

Fora o vestido concebido para gala, seu corte sóbrio desenhado para não chamar nem tanta nem pouca atenção para si mas, sim, para esmeraldas expostas nos colos ou dependuradas nas orelhas de suas futuras donas.

Seu toque era macio e sua cintura drapeada marcando-a conforme a moda. Sua cor neutra era a cúmplice do bem que fazia aos aspectos naturais de quem o usasse. Não havia olhos de quaisquer cor ou cabelos por mais armados ou soltos que fossem que não se dispusessem perfeitamente sobre a cobertura dos ombros e colo expondo a público o que deveria ser mostrado apenas a dois enquanto escondia aspectos mais promissores debaixo de si.

Ele vestia até pouco abaixo dos joelhos com discretos cortes laterais porém tão reveladores durante o movimento que mal se notava a falta de decote. Para compensar essa falta, marcava o volume dos seios com linhas estrategicamente cerzidas a sustentar-lhes sobre a afinação da cintura. O resultado era um glamour pin-up, refinado e espevitado.

Mangas curtíssimas revelavam braços esguios e toques gentis. Fechava-se às costas num longo e lânguido fecho eclair até o coccix apenas torneando a silhueta da curva mais bela de qualquer mulher.

Vesti-lo era uma obrigação, pensou ela naquela noite. O vestido que havia passado de geração a geração insinuou-se de dentro do armário. Tanto tempo após sua concepção. Tantas paixões, ciúmes e suicídios. Ciente de seu poder, ela dispensou as jóias, perfumes, maquiagens e exageros. Seria apenas ela, seu corpo, a ser o foco da mágica. Sua própria beleza a emancipar-se, como se despida de tudo porém sob uma armadura de luz e sombras a mexer com a imaginação de todos, principalmente daquele que a esperava.

E o efeito foi fulminante ao vê-la caminhar a curta distância que os separavam. Ela parecia saltitar, flutuar. Examinar as dobras perfeitas do vestido dançando a cada passo, provocantes em toda a complexa simplicidade com qual uma obra de arte vive e vibra.

Quando se encontraram, o vestido performou sua mágica. Um ímã, uma pederneira a atirar faíscas a cada toque, carinho e beijo até o fecho deslizar por completo e sublimar-se, o vestido, sobre as costas de uma cadeira, a observar sua obra completa, seu dever cumprido. Mais uma paixão cultivada e consumada, sem superfluos, só beleza e mais nada.

19 de outubro de 2012

Mesmos

Mesmo se o céu, mesmo se o mar
Mesmo se um dia tudo mudar
Mesmo se a noite nunca acabar
Mesmo se o sol parar de brilhar
Mesmo se a distância nos separar
E o olho secar e o peito apertar
Mesmo que a vida me force a lutar
Mesmo se a lua não iluminar
E pelas ruas eu continuar
E sentado na esquina eu tiver que esperar
E durante as festas eu me maltratar
Mesmo se palavras eu não encontrar
E mesmo se a música parar de tocar
Mesmo se a lembrança se embaralhar
Mesmo se o mundo parar de girar
Mesmo que as ondas tentem me afogar
Mesmo se a mistura nunca funcionar
Se a cadeira quebrar e a corda arrebentar
Mesmo que não tenha quem me consolar
Ou um copo gelado a me confortar
Mesmo sem colo onde repousar
Mesmo se tudo me condenar
Mesmo se a chuva parar de molhar
Ou se em fogo eu me incinerar
Mesmo se um dia eu esquecer seu olhar
Mesmo se nunca mais voltar
Jogado num canto escuro do bar
Ou ajoelhado na nave a orar
Mesmo que já não sobre lugar
Mesmo que eu tenha que me apertar
Mesmo se a brisa parar de soprar
E o sétimo inferno vier me buscar
Se o paraíso me rechassar
Se meu mais caro amigo me abandonar
Mesmo se um dia eu sofrer sem chorar
Ou mesmo viver sem ninguém magoar
Mesmo se tudo ficar como está
Mesmo se o afeto não impressionar
Se no fundo já esteja farto de esperar
Não se engane, querida, não vou descansar
Enquanto em meus braços não te embalar
E de olhos fechados me ouvir sussurrar
O quanto de amor eu lhe tenho para dar.