23 de dezembro de 2010

Próspero Natal e Feliz Ano Novo

Nunca entendi por que só o Natal, que dura algumas horas, deveria ser feliz enquanto o Ano Novo, 365 dias, deveria ser próspero. Não que desejasse o contrário, ou seja, um Natal infeliz e um Ano Novo de cinto apertado. Mas gostaria que me desejassem ao inverso.

Por isso, faço dessas linhas meu desejo para você, leitor, esperando que, ato-contínuo, possa me desejar tudo de volta.

Desejo a você um próspero Natal. Uma mesa farta, repleta de pessoas que você ama alegres pelo fato simples fato de estarem juntas e pelo consumo leve de bebidas alcoólicas, pois, se bem me lembro, o primeiro milagre daquele cujo nascimento comemoramos no Natal, foi exatamente transformar água em vinho (e, como diz um amigo meu, “ainda bem que transformou em vinho porque se tivesse transformado em vodka, ninguém lembraria do milagre”).

Desejo que você possa presentear aqueles que você acha que merecem um reconhecimento pela proximidade, mesmo que esse presente seja um abraço, um beijo ou um aperto de mão vigoroso. Desejo que não lhe faltem recursos para que, nesta data, você possa demonstrar a sua afeição por todos que, de alguma forma, contribuem ou contribuíram para que você seja uma pessoa melhor ou diferente.

Quanto ao Ano Novo, desejo-o, sim, feliz. Mesmo que não seja um ano de prosperidade, mesmo sem aquele carro novo ou o apartamento de três quartos. Mesmo sem aquele aumento de salário ou mudança de emprego. Mas que a cada dia as angústias diminuam, as ansiedades abrandem, as preocupações atenuem enquanto as possibilidades aumentam, as vontades aqueçam, os amores floresçam e as certezas fortaleçam.

Desejo a você um ano feliz, o que é uma coisa muito pessoal. Desejo a você que o ano aconteça sem sustos, mas se os houver que sejam aqueles em que se grita “surpresa” e acaba com você cheio de presentes. Desejo a você uma mão firme na qual você segure quando sentir medo ou solidão. Desejo que você tenha um ano de bons sentimentos e não de boas coisas, pois as coisas, mesmo as melhores, apodrecem, quebram ou enferrujam enquanto os sentimentos ficam dourados com o passar do tempo.

Desejo, por fim, que no Natal do ano que vem você releia essas linhas e que elas sejam tão atuais quanto são hoje, pois, tenho certeza, serão tão ou mais sinceras.

21 de dezembro de 2010

Reminiscências do Ano Velho - 2010

Mantendo a jovem tradição das Reminiscências do Ano Velho, primeiramente publicada AQUI no final de 2009, volto à prancheta para desenhar com palavras o perfil de 2010 através dos fatos que nos tiraram o sono, do sério e da cadeira.

O ano de 2010 começou com o trágico prenúncio de que o planeta começaria a segunda década do terceiro milênio cobrando as faturas dos últimos duzentos mil anos de presença humana a detonar a Terra e, provando que não faz distinção de nossas classes sociais em sua ira, resolveu dar exemplo em Angra dos Reis, balneário carioca reduto de veraneio dos cheios da grana, e no Morro do Bumba, comunidade carente de Niterói que só conseguiu ver água encanada quando as águas do dilúvio correram por entre suas vielas. Mas a desforra natural não privilegiou do Brasil. A Terra sacudiu-se toda no Chile, no Haiti e em um monte de outros lugares como se quisesse se livrar de nós, suas eternas pulgas, como um cão que já cansou de se coçar.

Nossa sorte foi que achamos outro cão para sugar, ou melhor, outro planeja onde morar. Trata-se de uma descoberta fenomenal: um planeta com as condições muito similares às da Terra na constelação de Libra, logo ali a 20,3 anos-luz, com vista para um sol vermelho, a Gliese 581. O planeta é perfeito: tem água nos três estados, ciclos freqüentes de calor e frio e, o melhor, não tem nenhum ser humano lá e levaria mais ou menos 780 anos para um ônibus espacial chegar lá saindo de Cabo Canaveral, mais tranqüilo do que sair da Barra da Tijuca em direção ao Centro. Nesse prazo dá até tempo de a esperança morrer.

Mas enquanto a esperança definha, testemunhamos o processo eleitoral mais desacreditado da história do Brasil. Como diria nosso presidente, nunca na história desse país votamos tanto em pessoas tão despudoradamente despreparadas. Aliás, tornou-se um diferencial eleitoral a imbecilidade.

E para não falarem que não falei do Tiririca, permanecerei em silêncio de oração.

Eleições em ano de Copa tem dessas coisas, o eleitor acaba esquecendo o que tem que fazer e elege para o Congresso e para a Câmara aqueles que gostariam de enviar para disputar o título mundial de futebol. E o resultado é que conseguimos eleger, com uma votação recorde, um plantel de dar inveja: Romário, Bebeto, Danrlei (ele mesmo, goleiro do Grêmio), Marques (craque no Atlético-MG). E, no banco, ainda ficaram Marcelinho Carioca, Vampeta, Dinei...assim, as coisas acabariam em pelada com churrasco em vez de pizza em Brasília. E, falando em futebol, a derrota do Brasil na Copa só não foi uma decepção pior do que o episódio final de LOST.

Mas já que não conquistamos a África, pelo menos conquistamos o Alemão e a Vila Cruzeiro. Num exemplo de organização que não víamos desde a Guerra do Paraguai, polícias e exército juntaram-se para cercar e tomar o maior reduto e centro de distribuição de drogas do estado. Insuflados pelo sucesso de Tropa de Elite 2, filme que deu voz à vontade da classe média de explodir tudo e começar de novo, o BOPE voltou à moda e empatou com Fiuk e Restart o título de artista do ano.

O ano em que se lembrou os trinta anos da morte de John Lennon também nos levou o gênio José Saramago, mas não sem deixar-nos uma linda despedida com o filme José & Pilar, do diretor português Miguel Gonçalves Mendes. Uma história de amor digna de ser cinematografada. Não tão inusitada quanto a do mineiro chileno resgatado e esperado na superfície pela mulher e pela amante. Aliás, esses mineiros foram as verdadeiras celebridades de 2010: 33 pessoas soterradas resgatadas após 17 dias com direito a cobertura ao vivo da Rede Globo, Kibe Loco, tweets e posts das diversas redes sociais com IBOPE maior do que o BBB. Um mega evento de proporções gigantescas, só faltou patrocinadores e merchandising. O Sebastian Piñera está estudando afundar um submarino no ano que vem. Conversas estão quentes com os russos do Kursk.

Mas 2010 também nos reservou gratas surpresas. Uma delas foi o iPad, produto revolucionário da Apple que é tudo e não é nada ao mesmo tempo. Vai entender a cabeça do Steve Jobs. Ele consegue desenvolver um produto que serve para um monte de coisas que ainda não existem e consegue mobilizar um monte de gente para criar coisas para que seu produto tenha uma utilidade. Genial. Palmas para ele.

E já no final do ano, descobrimos mais um maluco ganhando dinheiro com coisas aparentemente sem valor: Julian Assange e seu WikiLeaks. O site de vazamento de informações confidenciais funciona desde 2006, mas só conseguiu realmente incomodar e ganhar a devida notoriedade esse ano com o vazamento do que foi chamado Cablegate, o escândalo dos cabos, onde mostra através de inúmeros documentos o posicionamento dos EUA em suas relações internacionais desde 1966, com pareceres sobre líderes, governos e movimentos ao redor do mundo.

Sobre o Brasil, o WikiLeaks revelou diversos relatórios americanos definindo questões culturais, a aproximação entre Lula e Sarkozy e, finalmente, sobre Dilma Roussef, nossa futura nova presidenta. Nos documentos, os EUA não colocavam fé na eleição da ex-guerrilheira, mas mesmo assim ela ganhou. E, como para ratificar a alegria com sua nova líder, o Legislativo aprovou um belo presente de Natal para ela e para si mesmos: um aumento de salário de mais de 130%. Em 2011, o cargo de presidente da república deixa de pagar R$ 10,7 mil por mês e passa a pagar R$ 26,7 mil por mês.

E é com esse soldo mensal no bolso que Dilma inaugurará uma nova era na história do Brasil. Ela, uma mulher, uma combatente, uma mãe, uma ex-guerrilheira, ex-sequestradora, ex-assaltante de banco, ex-ministra, ex-presidiária e tudo isso sem ter sido eleita uma vez sequer. Parabéns a Dilma e sucesso, muito sucesso e sorte para essa p... não virar até 2014, porque não vai dar para ter Copa num Brasil pior do que o de hoje.

20 de dezembro de 2010

Próxima sessão


Rapaz entra na sala de cinema quase lotada para a próxima sessão e em vez de subir e escolher um dos lugares vai para frente da tela e, resfolegando, pede a atenção de todos.

“Por favor, alguém aí achou um coração caído pelo chão?”

O povo se remexe tentando enxergar embaixo das poltronas. Celulares viram lanternas, idosos se agacham com dificuldade e, de repente, uma menina lá do outro lado da sala grita:

“Achei!”

O povo automaticamente pára e olha para a menina estendendo o coração ensangüentado e pulsante no ar. Rapaz, derrubando sacos de pipoca e canudinhos, corre em direção à menina. Ele a abraça em agradecimento enquanto pipocam as palmas dos espectadores. Para esses já valeu o ingresso.

Rapaz agradece pela ajuda. “Principalmente a sua” diz numa última olhada à menina. E sai da sala. Ela se senta toda toda em sua poltrona com um indisfarçável sorriso nos lábios até que, já na penumbra dos trailers, ela começa a apalpar os bolsos, remexer na bolsa e, lançando um olhar comprido para a porta de saída, se dá conta:

“Ih! Acho que perdi meu coração.” 

16 de dezembro de 2010

O Prado Azul

O sol nem amanhecera e Nestor já estava de pé, barba feita e cabelo untado, preparando o café-da-manhã da família. O açougueiro havia deixado a carne seca e o toucinho na noite anterior e Nestor adicionava os ovos que acabara de pegar na granja. Em pouco tempo o cheiro suculento da gordura queimando chamaria de volta do sono as sete pessoas que habitavam o pequeno casebre no baixio da encosta fervida sob a inclemência do verão.

Nestor pôs à mesa pão preto, azeitonas, mel e o preparado de carnes e ovos. Aos poucos chegavam, comiam, se banhavam e se vestiam para o início dos trabalhos daquela manhã. No alto da encosta, uma imensidão de grãos aguardava para ser colhida antes que viessem as pragas. Gafanhotos, lagartas e até as aparentemente inofensivas joaninhas poderiam comprometer o inverno daquela família isolada. Com todos devidamente alimentados, Nestor partiu levando consigo quatro dos sete filhos com quem compartilhara a refeição. Aos demais, ainda pequeno e frágeis para a tarefa, caberia funções mais de acordo com seus respectivos desenvolvimentos.

Ancinhos e enxadas à mão, o grupo subia não sem dificuldade a íngreme encosta que levava à plantação. O humilde desjejum mal dava-lhes a energia necessária para vencerem o percurso. Chegando, já sonhavam com o momento da pausa e do almoço; todos menos Nestor, a quem cabia a responsabilidade de descer todo o caminho e subir novamente com mais substanciosa refeição. Ele não reclamava. Ao contrário, agradecia aos céus por ter o suficiente para todos. Neste dia, porém, Nestor não estava preparado para a surpresa que lhe aguardava lá no alto. Seu último passo na árdua pirambeira descortinou à sua frente um cenário que o fez congelar mesmo sob o calor daquele dia abafado de nuvens. Sua vontade era cobrir os olhos dos que vinham atrás para poupar-lhes o açoite do destino.

O infinito verde que esperavam encontrar virara um grande mar inundado pelas bátegas de chuva da noite anterior. Engoliu seco, apesar da água abundante a sua frente. Todos largaram as ferramentas e seguraram os corações dentro do peito, apertados. Nestor deu as costas ao seu submerso futuro e correu os olhos sobre seus acompanhantes: lábios contritos, testas franzidas, olhos arregalados, incrédulos. Uma lágrima tentou surgir sob as pálpebras de Nestor que se esforçou em retê-la como uma vingança contra aquele excesso de água.

Mantinha-se à distância da beira num temor de que fosse ele também engolido e ensaiou alguns passos hesitantes de volta para casa, pois não sabia o que dizer aos que lá ficaram. Como explicaria a ausência de esperança? A possibilidade de fome, frio e dor? Baixou os olhos, derrotado. Seus velhos ombros já não agüentavam mais o simples fardo de manter vivos seus entes queridos. Voltou-se aos céus novamente, dessa vez com certa raiva, exigindo em seu íntimo uma reparação divina ou um sinal que pudesse seguir como alternativa ao seu abatido porvir. Mas os céus estavam peculiarmente sarcásticos naquele dia e choveu mais água sobre a vida do pobre. Os olhos profundos de Nestor não tinham mais forças para conter as lágrimas que agora escorriam livres camufladas de chuva.

De tudo que passava pela cabeça de Nestor, o que menos entendia era o escárnio divino feito em chuva. Sem emitir um som sequer, amaldiçoou seu passado, seus pais, os pais de seus pais, e os antes deles e, ainda olhando aquele mar, foi amaldiçoando os grandes navegadores que descobriram essa terra e fizeram dela chão empobrecido; e odiou os ventos que sopravam suas caravelas, os índios que se vendiam por espelhos e os peixes que cumpriam sem questionar seu destino de forrar-lhes as barrigas. Até os peixes. Os peixes.

No meio do desespero, um estalo. Tirou os olhos do mar e partiu correndo ribanceira abaixo. Correu como nunca até a casa onde catou uma vassoura, uns nacos de carne e uma velha camisa de lã grossa. Voltou ofegante ao topo onde encontrou seus filhos ainda imóveis, observando seus rápidos movimentos na transmutação de uma ferramenta em outra. Em minutos, a antiga enxada virou uma vara de pesca. Nestor levantou-a aos céus como um troféu e, num milagre, a chuva parou. Agradeceu silenciosamente e voltou à calma constância. Arregaçou as bainhas das calças e sentou-se à beira com os pés dentro d’água. Deu um nó forte com um longo fio da lã pendurando em sua ponta um pedaço de carne, lançou-o n’água e suspirou.

O grupo inteiro levou algum tempo até perceber o alívio de Nestor e estremeceu de alegria ao vê-lo parir das entranhas do desespero um belo, grande e gordo peixe. E depois outro e mais outro. No fim da manhã, na hora de descer para pegar o almoço, Nestor já havia pescado o correspondente a um dia inteiro de colheita em sua realidade anterior. Satisfeito, levantou-se, descabelou carinhosamente os filhos um por um e olhou pela última vez a água, certo de que não importa se seu sustento venha de dentro da terra ou de dentro d’água, era de dentro de si mesmo que colheria esperança.

13 de dezembro de 2010

Maldita Felicidade

Em 2002 o filme “Jornada da Alma” (The Soul Keeper) contou a história de Sabina Spielerein, russa histérica internada num manicômio em Zurique onde o Dr. Carl Jung começava a colocar em prática as teorias psicanalíticas que desenvolvia juntamente com outro grande doutor e seu mestre, Sigmund Freud.

A Psicologia Analítica elaborada por Jung leva em conta não só aspectos conscientes e seus reflexos na atitude dos pacientes, mas também aspectos do inconsciente como sonhos, intuições e outros fenômenos que nos dão pistas de onde encontrar as causas mais profundas para as diversas psicoses e neuroses que todos nós (sim, todos nós) temos.

Não sou psicólogo e nem tenho a pretensão de, nessas poucas linhas, abordar a densa e profunda obra de Jung, mas, assistindo ao filme, vários aspectos, principalmente o fato de ela ter sido tão revolucionária, me levaram a escrevê-las.

A grande novidade do tratamento proposto por Jung (lembrem-se, segundo essa infidedigna fonte que vos escreve) foi a aproximação entre médico e paciente. Para acessar os arquivos inconscientes de Sabina Spielerein, o Dr. Jung gasta seu tempo, atenção e cuidados com a paciente, até que ela desmonte suas defesas naturais, escaldadas por um histórico de maus tratos e, como o próprio Jung se refere, “métodos medievais” ainda aplicados naquele início de século XX. Em uma inusitada cena, o médico leva sua paciente a um luxuoso restaurante e a alimenta dando-lhe de comer à boca, pois, no hospital, ela se recusava. Nessa busca, o sensível médico acaba por apaixonar-se pela paciente, desenvolvendo um relacionamento irracional e incontrolável por ela.

A grande reviravolta do filme é quando, curada de sua condição de interna de hospício, Sabina, encontrando-se secretamente com o médico que é casado, leva-o a questionar a proximidade com sua própria esposa. Ele se contorce para admitir essa irracionalidade dentro de sua própria vida e corrói-se em dúvida e culpa. Em outra cena brilhante, Jung e Sabina estão numa apresentação de ópera e ele, sem mais nem menos, deixa o teatro em prantos. Ela o segue e pergunta o que há, ao que ele responde debulhando-se em lágrimas “Estou feliz. Maldita felicidade”.
          
Investigando a irracionalidade dos outros, Jung fora pego de surpresa pela sua própria, cheia de complexos e demônios com os quais ele mesmo não sabe lidar. O filme usa a história até certo ponto feliz de Sabina (que, apesar do fim trágico, consegue reerguer-se da condição esquizofrênica e ser respeitada em seu trabalho) para mostrar um Jung doente de frustrações, culpas e medos. Um médico respeitado por fazer seus pacientes lidarem com suas irracionalidades, incentivando-os a expondo-las como diferencial de personalidade, lutando contra a sua própria, negada e reprimida.

Tendo assistido ao filme, é de se concluir que, uma vez sendo nosso inconsciente a verdadeira morada da nossa personalidade, onde estão muitas das nossas feridas, mas que também encerra suas curas, devemos estar mais atentos à maneira como reagimos às situações em que nos metemos para que nossas decisões e atitudes reflitam quem somos, não quem gostaríamos de ser ou quem os outros esperam que sejamos. Mas, se mesmo Jung, dono da idéia e codificador da teoria, pode, como mostra o filme, escorregar e sofrer entre suas vontades e seus compromissos, quem somos nós, pobres mortais, para não escorregar e sofrer?

PS: Para quem gosta, recomendo uma breve leitura sobre a obra de Jung AQUI . Sobre dois poetas russos citados no filme: Vladimir Maiakovsky e Boris Pasternak. E sobre as pinturas de Gustav Klimt AQUI.

10 de dezembro de 2010

Prólogo

Era uma vez um rapaz que queria escrever um romance medieval. Sentou-se e escreveu este prólogo.


O vento soprava frio vindo da janela aberta do quarto. As cortinas de seda flutuavam no escuro como algas brancas no fundo de um lago. Nada daquela noite calma prenunciava o que estava por vir. Se não fossem as luzes brilhantes ao longe, a paisagem seria tão calma e deserta como sempre. A fumaça que subia das fogueiras tremulava rumo à lua e as chamas que iluminavam e aqueciam soldados e mercenários, de longe, pareciam vagalumes num prado alagado.
As sombras dos sitiantes se moviam como um organismo único, não se conseguia distinguir, daquela distância, onde começava e onde acabava o exército. Nesse cenário sombrio, podia localizar somente a tenda vermelha e iluminada do Rei.
Há semanas não havia movimento de qualquer parte. Meus mensageiros, que partiam em segredo levando pedidos de socorro aos aliados, nunca chegavam aos seus destinos e voltavam sempre aos poucos. Suas cabeças sempre primeiro. Meus soldados enclausurados como ratos já podiam pressentir o fim trágico que se desenhava. Ao longe, nosso rebanho agora alimentava o inimigo, que bebia de nossa água e envenenava a corrente do rio que corta a cidade.
Eu me perguntava quanto tempo mais meus homens iriam agüentar. Já estouravam os primeiros motins dentro das guarnições mais baixas. Graças ao Nosso Senhor os superiores abafaram a revolta. Mas até quando também esses agüentariam? Há dias eu rezava para que um milagre acontecesse. Que São Miguel Arcanjo atendesse ao meu clamor e cravasse sua lâmina de fogo no peito de cada inimigo. No entanto, a única coisa que vinha dos céus era uma chuva ocasional para enchermos nossos baldes e cantis.
Saí do meu transe quando um pajem adentrou o quarto.
- Meu Senhor, o Conselho está reunido no salão principal. Estão aguardando Vossa Majestade.
Mirei-o com desânimo – “Que aguardem mais um pouco” - Fechei as grades de madeira da janela e só percebi a inutilidade do meu ato quando vesti a túnica e cheguei ao corredor. Apesar de ricamente decorado, sentia que tapeçarias e pratarias exibiam uma volatilidade e presença desnecessárias. Quantos arqueiros poderia eu manter com o ouro daquele busto? Quantos cavalos eu alimentaria com os fios daquele tapete? Tudo iria queimar no fim.
Entreabri a porta do salão devagar e fui examinando calmamente os presentes. Luc de Gussy não ostentava a barriga dos tempos de paz, a barba de Roberto de Messina crescia volumosa, as roupas do outrora alinhado Conde de Goulac pareciam jogadas sobre seu corpo. E mais ninguém. Que queria eu quando mandei reunir o conselho? Talvez olhar pela última vez nos olhos de meus aliados, mas às vezes perdia a conta dos que ficaram nos campos vermelhos da batalha.
Tomei fôlego e, enfim, abri a porta. A conversa que ia alta cessou automaticamente, enquanto os três marechais tentavam sustentar os olhares em mim. Arrastando o passo, neguei-lhes o cumprimento e joguei-me pesadamente no trono. Após as reverências costumeiras, que agora me entediavam, eles começaram.
– Já faz doze dias, meu Senhor, que as tropas aguardam por ordens. Depois do último motim, os soldados ficam cada vez mais inquietos.
- Mande-os plantar verduras – disse.
Sobressaltado, Roberto de Messina calou-se e olhou surpreso para os outros convivas. Então, o Conde de Goulac tomou a voz.
- Meu Senhor, alguns soldados disseram ter visto mulheres saindo da cidade para terem relações com os inimigos. Alguns de nossos aldeões já juraram fidelidade a ele! Temos que fazer alguma coisa!
- O mesmo, provavelmente – disse eu esticando a mão para o copo de vinho que me era oferecido pelo pajem. – Calem-se – falei sem forças – não vêem que não temos mais alternativas? O inimigo nos cerca há semanas. Que resistência temos a oferecer? Em pouco tempo estaremos queimando as flechas de nossos arqueiros para nos mantermos aquecidos à noite! Na verdade, nem sei por que reuni o Conselho... ou talvez tenha medo de admitir que fomos derrotados...

Ao simples som dessa última palavra, os três guerreiros estremeceram. Eram todos experientes nas batalhas, nos ataques, nos movimentos de defesa e aniquilação. Mas nenhum deles nunca tinha sofrido um cerco. Era de se admirar a coragem desses homens, mas em meu estado de espírito, não me enganava mais com coragem e bravura. Agora não passavam de romance e canções de bardos.
- Talvez o Senhor tenha razão, Majestade – disse Luc de Gussy quebrando o silêncio que se arrastava – Seria melhor entregarmos a cidade e evitarmos o confronto. A superioridade de nosso inimigo é patente! Acredito que já poderiam ter entrado na cidade, se quisessem. Mas a sua crueldade é tanta que preferem degolar-nos magros para que sangremos pouco e rápido.
- Nunca! – Antecipou Roberto – Não podemos nos curvar diante de nosso inimigo! Morreremos de qualquer forma... ou você acha que seríamos libertados para vagar e tentar juntar um outro exército. E mesmo se ficássemos livres, quem se disporia a lutar ao lado de desonrados!? Majestade, – disse ele após engolir seco – já que não temos escolha, devíamos armar nosso exército e atacá-los frontalmente, esta noite! Pelo menos assim nossos nomes não ficariam sujos na memória dos tempos!
- Em verdade... suicídio também é uma opção... – disse eu irônico – Não sou um guerreiro, Roberto. A vitória para mim sempre foi a paz. Agora que não vejo mais saída, minhas energias se esvaem como a areia de uma ampulheta, esperando a hora de cair o último grão.
Tinha vontade de chorar, mas minhas lágrimas secaram há tempos. Tinha medo de morrer, mas alguma coisa me impedia de engolir arsênico ou cravar uma adaga no próprio peito. Se pelo menos meu pai estivesse aqui... – pensei.

Depois escreveu isso AQUI.
Depois isso AQUI.
E, finalmente, porém sem ser o fim, AQUI.
E pediu que não rissem do excesso de reticências e dos erros de português.

8 de dezembro de 2010

Obrigados


Te agradeço a firmeza de propósito
O exemplo cáustico, o abraço tenro
Te agradeço pelo apoio pleno
Teu olhar ingênuo, pelo que foi dito
Te agradeço de todo peito aflito
Do pedestal que desço, o degrau vencido
Te agradeço pela franca estada
E por ter permanecido
Pela lucidez e pelo pranto
Pela dor e o desencanto, pelo sangue invisível
Os cabelos brancos
Por todos esses solavancos do meu ser corruptível
Pelos cristais quebrados que eu pensava diamantes
Pelo peito arfante e encurralado
A mão estendida, a faca e a ferida
Que sangra ainda nesse obrigado

***

Te agradeço pela hora errada
Pelas mil palavras certas
Pela porta cerrada e janelas abertas
Pela suposta ordem e presunçoso equilíbrio
Pelo brilho ainda que fugaz
Pelo caos e a tempestade a se formar
Te agradeço pelo sonho e por antever o caminho
Que mesmo sozinho tenho estado a trilhar
Te agradeço o silêncio
Que nos facilita, verdade infinita a nos amparar
Se me torno eloqüente é como compenso
O vazio de um mundo a se transmutar

***

Te agradeço por ter vindo a mim
Em gritos e impropérios
Num esforço subrenatural
Te agradeço o susto
E as palavras corrosivas do seu ideal
Te agradeço o despertar
Mesmo esse que requer meu suor
O caminho foi escolhido
E os passos que dou para te fazer melhor
Te agradeço a oportunidade
Que tua ira me dá de renovação
Vou pagar meus pecados
Que tu testemunhas a pleno pulmão
Te agradeço menos pela forma e mais pelo conteúdo
Que me deu pistas de como evitar
O mal que se desprende de tudo
Tem tudo em si mesmo para bem terminar

***

Te agradeço o sorriso fácil
Que é meu e que te empresto
Te agradeço as perguntas simples
Cujas respostas não contesto
Te agradeço o olhar entregue
E o murmúrio noturno que me faz insone
As primeiras palavras, não há quem negue
A origem que levas no nome
Te agradeço o abraço frágil no qual não caibo
Do beijo estalado na ponta dos lábios
Ao beiço lacrimoso na hora que dorme
Te agradeço esse amor enorme
Que só desprende de você
Agradeço a bendita hora em que vieste
Na pequenina forma de bebê
E pela magia em torno de ti
De encher meus olhos com água salgada
Te agradeço por ser quem tu és
Sem passado, só presentes e mais nada

6 de dezembro de 2010

Eles não tinham uma música

Eles não sabiam que livros haviam lido em comum muito menos discutido sobre os clássicos. Ela não sabia dos doze níveis do Inferno nem ele conhecia os efeitos do soma. Ele nunca tomou rivotril e ela nunca cheirou loló. Eles não sabiam as bandas preferidas um do outro nem tinham compartilhado um fone de ouvido. Eles não tinham uma música.

Ele nunca soube se o colchão dela era macio ou duro, mas sabia de suas dores nas costas. Ela nunca soube quantas camisas ele tinha, apesar de saber que gostava de usá-las para dentro da calça. Ele nunca soube qual era cor preferida dela, apesar de notar o arco-íris nas suas unhas. Ela nunca soube qual era o nome do perfume dele, apesar das horas perdidas sentido-o exalar de seus antebraços.

Ele nunca soube como ela dirigia, apesar de saber que ela tinha saudades do carro. Ela nunca o vira usando óculos e depois duvidou que seus olhos verdes fossem naturais sob as lentes de contato. Eles nunca pegaram ônibus ou metrô juntos. Ela nunca o viu tomar café. Ele nunca a viu andando de bicicleta.

Eles nunca discutiram um filme que acabaram de assistir nem ela o tinha visto parar o filme chamando atenção para um movimento de câmera. Ele nunca a viu escrever comentários no livro que estava lendo. Ela nunca o viu gritar de dor nem ele a viu chorar de raiva. Eles nunca tinham visto juntos o sol nascer ou se pôr. Nunca tomaram café-da-manhã, nem vinho, nem vodka. Eles nunca tinham dançado nem se jogado no mar vestidos de madrugada. Ele nunca havia pedido trocados a ela para comprar chiclete.

Ela nunca treinou técnicas de pompoar com ele. Ele nunca a tinha feito perder o controle. Ele nunca a tinha visto de cabelos presos ou azuis ou naturais. Ela nunca o tinha visto inventar músicas com seu nome no refrão.

E ainda assim, eles se despediam como se já tivessem descoberto tudo um do outro. E ainda assim eles calavam a dor e seguiam em sentidos opostos fechando as portas atrás de si sem cliques ou rangidos.

Eles não tinham uma música. Talvez por isso tenham se despedido em silêncio.

2 de dezembro de 2010

As brumas de Albano

Nem aquele intenso nevoeiro causado pela água quente do banho escondia a ansiedade no rosto de Albano. Separado em cima da cama, seu melhor jeans presenciava silencioso o vai-e-vem do rapaz aprontando-se para o grande encontro. A camisa havia sido passada na semana anterior, quando nem imaginava que a colocaria em circunstância tão importante.

Enquanto fazia a barba, antecipava a conversa que teria dentro de algumas horas. Já havia compartilhado emoções suficientes e antecipava algumas respostas às perguntas que não parava de inventar.

Não que isso fosse fácil para ele. Acostumado a uma vida de muito amar e pouco ser amado, conformara-se como um Francisco de Assis. E isso de amar os outros em silêncio era de uma dor contumaz, pois com freqüência suplantava dentro de si a vontade de tornar público o sentimento. Tanto que para aplacar esse vazio, Albano pintava, esculpia e se dedicava a outras atividades manuais. Perdeu a conta de maddonas e sfumatos guardados nos porões de sua casa e de sua alma, homenagens a outras doçuras e singelezas.

Mas hoje parecia diferente. Tudo havia ido até então no sentido contrário que previra. A primeira admiração virou afeto, que virou romance, que virou paixão e foi correspondida. Esta noite daria um próximo passo.

Sentou-se onde ela estava, linda, após beijá-la com a simplicidade de quem tem certeza. Suas pernas se acariciando sob a mesa antecipando um momento que, dessa vez, significaria muito mais do que tudo que viveram. Dos lábios dela e de Albano jorravam palavras que só faziam sentido para eles, provocando rubores nas bochechas da menina e um brilho intenso nos olhos do rapaz. Quando o silêncio pousou entre eles, Albano tomou um gole do vinho para estimular sua coragem e enfim levantar o assunto que motivara o encontro em si.

Ainda inspirava o começo da frase quando percebeu que, ao fundo e dos lados, as paredes a meia-luz do restaurante bambeavam. Como tapumes de um cenário sendo desfeito, elas caíram ruidosamente levantando uma poeira branca de pó-de-arroz. Aos poucos, na medida em que o pó levantava, tudo ia desaparecendo sob a bruma: pratos, talheres, candelabro e mesa, deixando apenas suas cadeiras frente a frente. E logo não havia mais cenário, nem luz, nem ela. Apenas ele, sentado no centro do seu próprio vazio abraçando-se ao branco e espesso véu que se desprendia da água quente do banho.