23 de dezembro de 2010

Próspero Natal e Feliz Ano Novo

Nunca entendi por que só o Natal, que dura algumas horas, deveria ser feliz enquanto o Ano Novo, 365 dias, deveria ser próspero. Não que desejasse o contrário, ou seja, um Natal infeliz e um Ano Novo de cinto apertado. Mas gostaria que me desejassem ao inverso.

Por isso, faço dessas linhas meu desejo para você, leitor, esperando que, ato-contínuo, possa me desejar tudo de volta.

Desejo a você um próspero Natal. Uma mesa farta, repleta de pessoas que você ama alegres pelo fato simples fato de estarem juntas e pelo consumo leve de bebidas alcoólicas, pois, se bem me lembro, o primeiro milagre daquele cujo nascimento comemoramos no Natal, foi exatamente transformar água em vinho (e, como diz um amigo meu, “ainda bem que transformou em vinho porque se tivesse transformado em vodka, ninguém lembraria do milagre”).

Desejo que você possa presentear aqueles que você acha que merecem um reconhecimento pela proximidade, mesmo que esse presente seja um abraço, um beijo ou um aperto de mão vigoroso. Desejo que não lhe faltem recursos para que, nesta data, você possa demonstrar a sua afeição por todos que, de alguma forma, contribuem ou contribuíram para que você seja uma pessoa melhor ou diferente.

Quanto ao Ano Novo, desejo-o, sim, feliz. Mesmo que não seja um ano de prosperidade, mesmo sem aquele carro novo ou o apartamento de três quartos. Mesmo sem aquele aumento de salário ou mudança de emprego. Mas que a cada dia as angústias diminuam, as ansiedades abrandem, as preocupações atenuem enquanto as possibilidades aumentam, as vontades aqueçam, os amores floresçam e as certezas fortaleçam.

Desejo a você um ano feliz, o que é uma coisa muito pessoal. Desejo a você que o ano aconteça sem sustos, mas se os houver que sejam aqueles em que se grita “surpresa” e acaba com você cheio de presentes. Desejo a você uma mão firme na qual você segure quando sentir medo ou solidão. Desejo que você tenha um ano de bons sentimentos e não de boas coisas, pois as coisas, mesmo as melhores, apodrecem, quebram ou enferrujam enquanto os sentimentos ficam dourados com o passar do tempo.

Desejo, por fim, que no Natal do ano que vem você releia essas linhas e que elas sejam tão atuais quanto são hoje, pois, tenho certeza, serão tão ou mais sinceras.

21 de dezembro de 2010

Reminiscências do Ano Velho - 2010

Mantendo a jovem tradição das Reminiscências do Ano Velho, primeiramente publicada AQUI no final de 2009, volto à prancheta para desenhar com palavras o perfil de 2010 através dos fatos que nos tiraram o sono, do sério e da cadeira.

O ano de 2010 começou com o trágico prenúncio de que o planeta começaria a segunda década do terceiro milênio cobrando as faturas dos últimos duzentos mil anos de presença humana a detonar a Terra e, provando que não faz distinção de nossas classes sociais em sua ira, resolveu dar exemplo em Angra dos Reis, balneário carioca reduto de veraneio dos cheios da grana, e no Morro do Bumba, comunidade carente de Niterói que só conseguiu ver água encanada quando as águas do dilúvio correram por entre suas vielas. Mas a desforra natural não privilegiou do Brasil. A Terra sacudiu-se toda no Chile, no Haiti e em um monte de outros lugares como se quisesse se livrar de nós, suas eternas pulgas, como um cão que já cansou de se coçar.

Nossa sorte foi que achamos outro cão para sugar, ou melhor, outro planeja onde morar. Trata-se de uma descoberta fenomenal: um planeta com as condições muito similares às da Terra na constelação de Libra, logo ali a 20,3 anos-luz, com vista para um sol vermelho, a Gliese 581. O planeta é perfeito: tem água nos três estados, ciclos freqüentes de calor e frio e, o melhor, não tem nenhum ser humano lá e levaria mais ou menos 780 anos para um ônibus espacial chegar lá saindo de Cabo Canaveral, mais tranqüilo do que sair da Barra da Tijuca em direção ao Centro. Nesse prazo dá até tempo de a esperança morrer.

Mas enquanto a esperança definha, testemunhamos o processo eleitoral mais desacreditado da história do Brasil. Como diria nosso presidente, nunca na história desse país votamos tanto em pessoas tão despudoradamente despreparadas. Aliás, tornou-se um diferencial eleitoral a imbecilidade.

E para não falarem que não falei do Tiririca, permanecerei em silêncio de oração.

Eleições em ano de Copa tem dessas coisas, o eleitor acaba esquecendo o que tem que fazer e elege para o Congresso e para a Câmara aqueles que gostariam de enviar para disputar o título mundial de futebol. E o resultado é que conseguimos eleger, com uma votação recorde, um plantel de dar inveja: Romário, Bebeto, Danrlei (ele mesmo, goleiro do Grêmio), Marques (craque no Atlético-MG). E, no banco, ainda ficaram Marcelinho Carioca, Vampeta, Dinei...assim, as coisas acabariam em pelada com churrasco em vez de pizza em Brasília. E, falando em futebol, a derrota do Brasil na Copa só não foi uma decepção pior do que o episódio final de LOST.

Mas já que não conquistamos a África, pelo menos conquistamos o Alemão e a Vila Cruzeiro. Num exemplo de organização que não víamos desde a Guerra do Paraguai, polícias e exército juntaram-se para cercar e tomar o maior reduto e centro de distribuição de drogas do estado. Insuflados pelo sucesso de Tropa de Elite 2, filme que deu voz à vontade da classe média de explodir tudo e começar de novo, o BOPE voltou à moda e empatou com Fiuk e Restart o título de artista do ano.

O ano em que se lembrou os trinta anos da morte de John Lennon também nos levou o gênio José Saramago, mas não sem deixar-nos uma linda despedida com o filme José & Pilar, do diretor português Miguel Gonçalves Mendes. Uma história de amor digna de ser cinematografada. Não tão inusitada quanto a do mineiro chileno resgatado e esperado na superfície pela mulher e pela amante. Aliás, esses mineiros foram as verdadeiras celebridades de 2010: 33 pessoas soterradas resgatadas após 17 dias com direito a cobertura ao vivo da Rede Globo, Kibe Loco, tweets e posts das diversas redes sociais com IBOPE maior do que o BBB. Um mega evento de proporções gigantescas, só faltou patrocinadores e merchandising. O Sebastian Piñera está estudando afundar um submarino no ano que vem. Conversas estão quentes com os russos do Kursk.

Mas 2010 também nos reservou gratas surpresas. Uma delas foi o iPad, produto revolucionário da Apple que é tudo e não é nada ao mesmo tempo. Vai entender a cabeça do Steve Jobs. Ele consegue desenvolver um produto que serve para um monte de coisas que ainda não existem e consegue mobilizar um monte de gente para criar coisas para que seu produto tenha uma utilidade. Genial. Palmas para ele.

E já no final do ano, descobrimos mais um maluco ganhando dinheiro com coisas aparentemente sem valor: Julian Assange e seu WikiLeaks. O site de vazamento de informações confidenciais funciona desde 2006, mas só conseguiu realmente incomodar e ganhar a devida notoriedade esse ano com o vazamento do que foi chamado Cablegate, o escândalo dos cabos, onde mostra através de inúmeros documentos o posicionamento dos EUA em suas relações internacionais desde 1966, com pareceres sobre líderes, governos e movimentos ao redor do mundo.

Sobre o Brasil, o WikiLeaks revelou diversos relatórios americanos definindo questões culturais, a aproximação entre Lula e Sarkozy e, finalmente, sobre Dilma Roussef, nossa futura nova presidenta. Nos documentos, os EUA não colocavam fé na eleição da ex-guerrilheira, mas mesmo assim ela ganhou. E, como para ratificar a alegria com sua nova líder, o Legislativo aprovou um belo presente de Natal para ela e para si mesmos: um aumento de salário de mais de 130%. Em 2011, o cargo de presidente da república deixa de pagar R$ 10,7 mil por mês e passa a pagar R$ 26,7 mil por mês.

E é com esse soldo mensal no bolso que Dilma inaugurará uma nova era na história do Brasil. Ela, uma mulher, uma combatente, uma mãe, uma ex-guerrilheira, ex-sequestradora, ex-assaltante de banco, ex-ministra, ex-presidiária e tudo isso sem ter sido eleita uma vez sequer. Parabéns a Dilma e sucesso, muito sucesso e sorte para essa p... não virar até 2014, porque não vai dar para ter Copa num Brasil pior do que o de hoje.

20 de dezembro de 2010

Próxima sessão


Rapaz entra na sala de cinema quase lotada para a próxima sessão e em vez de subir e escolher um dos lugares vai para frente da tela e, resfolegando, pede a atenção de todos.

“Por favor, alguém aí achou um coração caído pelo chão?”

O povo se remexe tentando enxergar embaixo das poltronas. Celulares viram lanternas, idosos se agacham com dificuldade e, de repente, uma menina lá do outro lado da sala grita:

“Achei!”

O povo automaticamente pára e olha para a menina estendendo o coração ensangüentado e pulsante no ar. Rapaz, derrubando sacos de pipoca e canudinhos, corre em direção à menina. Ele a abraça em agradecimento enquanto pipocam as palmas dos espectadores. Para esses já valeu o ingresso.

Rapaz agradece pela ajuda. “Principalmente a sua” diz numa última olhada à menina. E sai da sala. Ela se senta toda toda em sua poltrona com um indisfarçável sorriso nos lábios até que, já na penumbra dos trailers, ela começa a apalpar os bolsos, remexer na bolsa e, lançando um olhar comprido para a porta de saída, se dá conta:

“Ih! Acho que perdi meu coração.” 

16 de dezembro de 2010

O Prado Azul

O sol nem amanhecera e Nestor já estava de pé, barba feita e cabelo untado, preparando o café-da-manhã da família. O açougueiro havia deixado a carne seca e o toucinho na noite anterior e Nestor adicionava os ovos que acabara de pegar na granja. Em pouco tempo o cheiro suculento da gordura queimando chamaria de volta do sono as sete pessoas que habitavam o pequeno casebre no baixio da encosta fervida sob a inclemência do verão.

Nestor pôs à mesa pão preto, azeitonas, mel e o preparado de carnes e ovos. Aos poucos chegavam, comiam, se banhavam e se vestiam para o início dos trabalhos daquela manhã. No alto da encosta, uma imensidão de grãos aguardava para ser colhida antes que viessem as pragas. Gafanhotos, lagartas e até as aparentemente inofensivas joaninhas poderiam comprometer o inverno daquela família isolada. Com todos devidamente alimentados, Nestor partiu levando consigo quatro dos sete filhos com quem compartilhara a refeição. Aos demais, ainda pequeno e frágeis para a tarefa, caberia funções mais de acordo com seus respectivos desenvolvimentos.

Ancinhos e enxadas à mão, o grupo subia não sem dificuldade a íngreme encosta que levava à plantação. O humilde desjejum mal dava-lhes a energia necessária para vencerem o percurso. Chegando, já sonhavam com o momento da pausa e do almoço; todos menos Nestor, a quem cabia a responsabilidade de descer todo o caminho e subir novamente com mais substanciosa refeição. Ele não reclamava. Ao contrário, agradecia aos céus por ter o suficiente para todos. Neste dia, porém, Nestor não estava preparado para a surpresa que lhe aguardava lá no alto. Seu último passo na árdua pirambeira descortinou à sua frente um cenário que o fez congelar mesmo sob o calor daquele dia abafado de nuvens. Sua vontade era cobrir os olhos dos que vinham atrás para poupar-lhes o açoite do destino.

O infinito verde que esperavam encontrar virara um grande mar inundado pelas bátegas de chuva da noite anterior. Engoliu seco, apesar da água abundante a sua frente. Todos largaram as ferramentas e seguraram os corações dentro do peito, apertados. Nestor deu as costas ao seu submerso futuro e correu os olhos sobre seus acompanhantes: lábios contritos, testas franzidas, olhos arregalados, incrédulos. Uma lágrima tentou surgir sob as pálpebras de Nestor que se esforçou em retê-la como uma vingança contra aquele excesso de água.

Mantinha-se à distância da beira num temor de que fosse ele também engolido e ensaiou alguns passos hesitantes de volta para casa, pois não sabia o que dizer aos que lá ficaram. Como explicaria a ausência de esperança? A possibilidade de fome, frio e dor? Baixou os olhos, derrotado. Seus velhos ombros já não agüentavam mais o simples fardo de manter vivos seus entes queridos. Voltou-se aos céus novamente, dessa vez com certa raiva, exigindo em seu íntimo uma reparação divina ou um sinal que pudesse seguir como alternativa ao seu abatido porvir. Mas os céus estavam peculiarmente sarcásticos naquele dia e choveu mais água sobre a vida do pobre. Os olhos profundos de Nestor não tinham mais forças para conter as lágrimas que agora escorriam livres camufladas de chuva.

De tudo que passava pela cabeça de Nestor, o que menos entendia era o escárnio divino feito em chuva. Sem emitir um som sequer, amaldiçoou seu passado, seus pais, os pais de seus pais, e os antes deles e, ainda olhando aquele mar, foi amaldiçoando os grandes navegadores que descobriram essa terra e fizeram dela chão empobrecido; e odiou os ventos que sopravam suas caravelas, os índios que se vendiam por espelhos e os peixes que cumpriam sem questionar seu destino de forrar-lhes as barrigas. Até os peixes. Os peixes.

No meio do desespero, um estalo. Tirou os olhos do mar e partiu correndo ribanceira abaixo. Correu como nunca até a casa onde catou uma vassoura, uns nacos de carne e uma velha camisa de lã grossa. Voltou ofegante ao topo onde encontrou seus filhos ainda imóveis, observando seus rápidos movimentos na transmutação de uma ferramenta em outra. Em minutos, a antiga enxada virou uma vara de pesca. Nestor levantou-a aos céus como um troféu e, num milagre, a chuva parou. Agradeceu silenciosamente e voltou à calma constância. Arregaçou as bainhas das calças e sentou-se à beira com os pés dentro d’água. Deu um nó forte com um longo fio da lã pendurando em sua ponta um pedaço de carne, lançou-o n’água e suspirou.

O grupo inteiro levou algum tempo até perceber o alívio de Nestor e estremeceu de alegria ao vê-lo parir das entranhas do desespero um belo, grande e gordo peixe. E depois outro e mais outro. No fim da manhã, na hora de descer para pegar o almoço, Nestor já havia pescado o correspondente a um dia inteiro de colheita em sua realidade anterior. Satisfeito, levantou-se, descabelou carinhosamente os filhos um por um e olhou pela última vez a água, certo de que não importa se seu sustento venha de dentro da terra ou de dentro d’água, era de dentro de si mesmo que colheria esperança.

13 de dezembro de 2010

Maldita Felicidade

Em 2002 o filme “Jornada da Alma” (The Soul Keeper) contou a história de Sabina Spielerein, russa histérica internada num manicômio em Zurique onde o Dr. Carl Jung começava a colocar em prática as teorias psicanalíticas que desenvolvia juntamente com outro grande doutor e seu mestre, Sigmund Freud.

A Psicologia Analítica elaborada por Jung leva em conta não só aspectos conscientes e seus reflexos na atitude dos pacientes, mas também aspectos do inconsciente como sonhos, intuições e outros fenômenos que nos dão pistas de onde encontrar as causas mais profundas para as diversas psicoses e neuroses que todos nós (sim, todos nós) temos.

Não sou psicólogo e nem tenho a pretensão de, nessas poucas linhas, abordar a densa e profunda obra de Jung, mas, assistindo ao filme, vários aspectos, principalmente o fato de ela ter sido tão revolucionária, me levaram a escrevê-las.

A grande novidade do tratamento proposto por Jung (lembrem-se, segundo essa infidedigna fonte que vos escreve) foi a aproximação entre médico e paciente. Para acessar os arquivos inconscientes de Sabina Spielerein, o Dr. Jung gasta seu tempo, atenção e cuidados com a paciente, até que ela desmonte suas defesas naturais, escaldadas por um histórico de maus tratos e, como o próprio Jung se refere, “métodos medievais” ainda aplicados naquele início de século XX. Em uma inusitada cena, o médico leva sua paciente a um luxuoso restaurante e a alimenta dando-lhe de comer à boca, pois, no hospital, ela se recusava. Nessa busca, o sensível médico acaba por apaixonar-se pela paciente, desenvolvendo um relacionamento irracional e incontrolável por ela.

A grande reviravolta do filme é quando, curada de sua condição de interna de hospício, Sabina, encontrando-se secretamente com o médico que é casado, leva-o a questionar a proximidade com sua própria esposa. Ele se contorce para admitir essa irracionalidade dentro de sua própria vida e corrói-se em dúvida e culpa. Em outra cena brilhante, Jung e Sabina estão numa apresentação de ópera e ele, sem mais nem menos, deixa o teatro em prantos. Ela o segue e pergunta o que há, ao que ele responde debulhando-se em lágrimas “Estou feliz. Maldita felicidade”.
          
Investigando a irracionalidade dos outros, Jung fora pego de surpresa pela sua própria, cheia de complexos e demônios com os quais ele mesmo não sabe lidar. O filme usa a história até certo ponto feliz de Sabina (que, apesar do fim trágico, consegue reerguer-se da condição esquizofrênica e ser respeitada em seu trabalho) para mostrar um Jung doente de frustrações, culpas e medos. Um médico respeitado por fazer seus pacientes lidarem com suas irracionalidades, incentivando-os a expondo-las como diferencial de personalidade, lutando contra a sua própria, negada e reprimida.

Tendo assistido ao filme, é de se concluir que, uma vez sendo nosso inconsciente a verdadeira morada da nossa personalidade, onde estão muitas das nossas feridas, mas que também encerra suas curas, devemos estar mais atentos à maneira como reagimos às situações em que nos metemos para que nossas decisões e atitudes reflitam quem somos, não quem gostaríamos de ser ou quem os outros esperam que sejamos. Mas, se mesmo Jung, dono da idéia e codificador da teoria, pode, como mostra o filme, escorregar e sofrer entre suas vontades e seus compromissos, quem somos nós, pobres mortais, para não escorregar e sofrer?

PS: Para quem gosta, recomendo uma breve leitura sobre a obra de Jung AQUI . Sobre dois poetas russos citados no filme: Vladimir Maiakovsky e Boris Pasternak. E sobre as pinturas de Gustav Klimt AQUI.

10 de dezembro de 2010

Prólogo

Era uma vez um rapaz que queria escrever um romance medieval. Sentou-se e escreveu este prólogo.


O vento soprava frio vindo da janela aberta do quarto. As cortinas de seda flutuavam no escuro como algas brancas no fundo de um lago. Nada daquela noite calma prenunciava o que estava por vir. Se não fossem as luzes brilhantes ao longe, a paisagem seria tão calma e deserta como sempre. A fumaça que subia das fogueiras tremulava rumo à lua e as chamas que iluminavam e aqueciam soldados e mercenários, de longe, pareciam vagalumes num prado alagado.
As sombras dos sitiantes se moviam como um organismo único, não se conseguia distinguir, daquela distância, onde começava e onde acabava o exército. Nesse cenário sombrio, podia localizar somente a tenda vermelha e iluminada do Rei.
Há semanas não havia movimento de qualquer parte. Meus mensageiros, que partiam em segredo levando pedidos de socorro aos aliados, nunca chegavam aos seus destinos e voltavam sempre aos poucos. Suas cabeças sempre primeiro. Meus soldados enclausurados como ratos já podiam pressentir o fim trágico que se desenhava. Ao longe, nosso rebanho agora alimentava o inimigo, que bebia de nossa água e envenenava a corrente do rio que corta a cidade.
Eu me perguntava quanto tempo mais meus homens iriam agüentar. Já estouravam os primeiros motins dentro das guarnições mais baixas. Graças ao Nosso Senhor os superiores abafaram a revolta. Mas até quando também esses agüentariam? Há dias eu rezava para que um milagre acontecesse. Que São Miguel Arcanjo atendesse ao meu clamor e cravasse sua lâmina de fogo no peito de cada inimigo. No entanto, a única coisa que vinha dos céus era uma chuva ocasional para enchermos nossos baldes e cantis.
Saí do meu transe quando um pajem adentrou o quarto.
- Meu Senhor, o Conselho está reunido no salão principal. Estão aguardando Vossa Majestade.
Mirei-o com desânimo – “Que aguardem mais um pouco” - Fechei as grades de madeira da janela e só percebi a inutilidade do meu ato quando vesti a túnica e cheguei ao corredor. Apesar de ricamente decorado, sentia que tapeçarias e pratarias exibiam uma volatilidade e presença desnecessárias. Quantos arqueiros poderia eu manter com o ouro daquele busto? Quantos cavalos eu alimentaria com os fios daquele tapete? Tudo iria queimar no fim.
Entreabri a porta do salão devagar e fui examinando calmamente os presentes. Luc de Gussy não ostentava a barriga dos tempos de paz, a barba de Roberto de Messina crescia volumosa, as roupas do outrora alinhado Conde de Goulac pareciam jogadas sobre seu corpo. E mais ninguém. Que queria eu quando mandei reunir o conselho? Talvez olhar pela última vez nos olhos de meus aliados, mas às vezes perdia a conta dos que ficaram nos campos vermelhos da batalha.
Tomei fôlego e, enfim, abri a porta. A conversa que ia alta cessou automaticamente, enquanto os três marechais tentavam sustentar os olhares em mim. Arrastando o passo, neguei-lhes o cumprimento e joguei-me pesadamente no trono. Após as reverências costumeiras, que agora me entediavam, eles começaram.
– Já faz doze dias, meu Senhor, que as tropas aguardam por ordens. Depois do último motim, os soldados ficam cada vez mais inquietos.
- Mande-os plantar verduras – disse.
Sobressaltado, Roberto de Messina calou-se e olhou surpreso para os outros convivas. Então, o Conde de Goulac tomou a voz.
- Meu Senhor, alguns soldados disseram ter visto mulheres saindo da cidade para terem relações com os inimigos. Alguns de nossos aldeões já juraram fidelidade a ele! Temos que fazer alguma coisa!
- O mesmo, provavelmente – disse eu esticando a mão para o copo de vinho que me era oferecido pelo pajem. – Calem-se – falei sem forças – não vêem que não temos mais alternativas? O inimigo nos cerca há semanas. Que resistência temos a oferecer? Em pouco tempo estaremos queimando as flechas de nossos arqueiros para nos mantermos aquecidos à noite! Na verdade, nem sei por que reuni o Conselho... ou talvez tenha medo de admitir que fomos derrotados...

Ao simples som dessa última palavra, os três guerreiros estremeceram. Eram todos experientes nas batalhas, nos ataques, nos movimentos de defesa e aniquilação. Mas nenhum deles nunca tinha sofrido um cerco. Era de se admirar a coragem desses homens, mas em meu estado de espírito, não me enganava mais com coragem e bravura. Agora não passavam de romance e canções de bardos.
- Talvez o Senhor tenha razão, Majestade – disse Luc de Gussy quebrando o silêncio que se arrastava – Seria melhor entregarmos a cidade e evitarmos o confronto. A superioridade de nosso inimigo é patente! Acredito que já poderiam ter entrado na cidade, se quisessem. Mas a sua crueldade é tanta que preferem degolar-nos magros para que sangremos pouco e rápido.
- Nunca! – Antecipou Roberto – Não podemos nos curvar diante de nosso inimigo! Morreremos de qualquer forma... ou você acha que seríamos libertados para vagar e tentar juntar um outro exército. E mesmo se ficássemos livres, quem se disporia a lutar ao lado de desonrados!? Majestade, – disse ele após engolir seco – já que não temos escolha, devíamos armar nosso exército e atacá-los frontalmente, esta noite! Pelo menos assim nossos nomes não ficariam sujos na memória dos tempos!
- Em verdade... suicídio também é uma opção... – disse eu irônico – Não sou um guerreiro, Roberto. A vitória para mim sempre foi a paz. Agora que não vejo mais saída, minhas energias se esvaem como a areia de uma ampulheta, esperando a hora de cair o último grão.
Tinha vontade de chorar, mas minhas lágrimas secaram há tempos. Tinha medo de morrer, mas alguma coisa me impedia de engolir arsênico ou cravar uma adaga no próprio peito. Se pelo menos meu pai estivesse aqui... – pensei.

Depois escreveu isso AQUI.
Depois isso AQUI.
E, finalmente, porém sem ser o fim, AQUI.
E pediu que não rissem do excesso de reticências e dos erros de português.

8 de dezembro de 2010

Obrigados


Te agradeço a firmeza de propósito
O exemplo cáustico, o abraço tenro
Te agradeço pelo apoio pleno
Teu olhar ingênuo, pelo que foi dito
Te agradeço de todo peito aflito
Do pedestal que desço, o degrau vencido
Te agradeço pela franca estada
E por ter permanecido
Pela lucidez e pelo pranto
Pela dor e o desencanto, pelo sangue invisível
Os cabelos brancos
Por todos esses solavancos do meu ser corruptível
Pelos cristais quebrados que eu pensava diamantes
Pelo peito arfante e encurralado
A mão estendida, a faca e a ferida
Que sangra ainda nesse obrigado

***

Te agradeço pela hora errada
Pelas mil palavras certas
Pela porta cerrada e janelas abertas
Pela suposta ordem e presunçoso equilíbrio
Pelo brilho ainda que fugaz
Pelo caos e a tempestade a se formar
Te agradeço pelo sonho e por antever o caminho
Que mesmo sozinho tenho estado a trilhar
Te agradeço o silêncio
Que nos facilita, verdade infinita a nos amparar
Se me torno eloqüente é como compenso
O vazio de um mundo a se transmutar

***

Te agradeço por ter vindo a mim
Em gritos e impropérios
Num esforço subrenatural
Te agradeço o susto
E as palavras corrosivas do seu ideal
Te agradeço o despertar
Mesmo esse que requer meu suor
O caminho foi escolhido
E os passos que dou para te fazer melhor
Te agradeço a oportunidade
Que tua ira me dá de renovação
Vou pagar meus pecados
Que tu testemunhas a pleno pulmão
Te agradeço menos pela forma e mais pelo conteúdo
Que me deu pistas de como evitar
O mal que se desprende de tudo
Tem tudo em si mesmo para bem terminar

***

Te agradeço o sorriso fácil
Que é meu e que te empresto
Te agradeço as perguntas simples
Cujas respostas não contesto
Te agradeço o olhar entregue
E o murmúrio noturno que me faz insone
As primeiras palavras, não há quem negue
A origem que levas no nome
Te agradeço o abraço frágil no qual não caibo
Do beijo estalado na ponta dos lábios
Ao beiço lacrimoso na hora que dorme
Te agradeço esse amor enorme
Que só desprende de você
Agradeço a bendita hora em que vieste
Na pequenina forma de bebê
E pela magia em torno de ti
De encher meus olhos com água salgada
Te agradeço por ser quem tu és
Sem passado, só presentes e mais nada

6 de dezembro de 2010

Eles não tinham uma música

Eles não sabiam que livros haviam lido em comum muito menos discutido sobre os clássicos. Ela não sabia dos doze níveis do Inferno nem ele conhecia os efeitos do soma. Ele nunca tomou rivotril e ela nunca cheirou loló. Eles não sabiam as bandas preferidas um do outro nem tinham compartilhado um fone de ouvido. Eles não tinham uma música.

Ele nunca soube se o colchão dela era macio ou duro, mas sabia de suas dores nas costas. Ela nunca soube quantas camisas ele tinha, apesar de saber que gostava de usá-las para dentro da calça. Ele nunca soube qual era cor preferida dela, apesar de notar o arco-íris nas suas unhas. Ela nunca soube qual era o nome do perfume dele, apesar das horas perdidas sentido-o exalar de seus antebraços.

Ele nunca soube como ela dirigia, apesar de saber que ela tinha saudades do carro. Ela nunca o vira usando óculos e depois duvidou que seus olhos verdes fossem naturais sob as lentes de contato. Eles nunca pegaram ônibus ou metrô juntos. Ela nunca o viu tomar café. Ele nunca a viu andando de bicicleta.

Eles nunca discutiram um filme que acabaram de assistir nem ela o tinha visto parar o filme chamando atenção para um movimento de câmera. Ele nunca a viu escrever comentários no livro que estava lendo. Ela nunca o viu gritar de dor nem ele a viu chorar de raiva. Eles nunca tinham visto juntos o sol nascer ou se pôr. Nunca tomaram café-da-manhã, nem vinho, nem vodka. Eles nunca tinham dançado nem se jogado no mar vestidos de madrugada. Ele nunca havia pedido trocados a ela para comprar chiclete.

Ela nunca treinou técnicas de pompoar com ele. Ele nunca a tinha feito perder o controle. Ele nunca a tinha visto de cabelos presos ou azuis ou naturais. Ela nunca o tinha visto inventar músicas com seu nome no refrão.

E ainda assim, eles se despediam como se já tivessem descoberto tudo um do outro. E ainda assim eles calavam a dor e seguiam em sentidos opostos fechando as portas atrás de si sem cliques ou rangidos.

Eles não tinham uma música. Talvez por isso tenham se despedido em silêncio.

2 de dezembro de 2010

As brumas de Albano

Nem aquele intenso nevoeiro causado pela água quente do banho escondia a ansiedade no rosto de Albano. Separado em cima da cama, seu melhor jeans presenciava silencioso o vai-e-vem do rapaz aprontando-se para o grande encontro. A camisa havia sido passada na semana anterior, quando nem imaginava que a colocaria em circunstância tão importante.

Enquanto fazia a barba, antecipava a conversa que teria dentro de algumas horas. Já havia compartilhado emoções suficientes e antecipava algumas respostas às perguntas que não parava de inventar.

Não que isso fosse fácil para ele. Acostumado a uma vida de muito amar e pouco ser amado, conformara-se como um Francisco de Assis. E isso de amar os outros em silêncio era de uma dor contumaz, pois com freqüência suplantava dentro de si a vontade de tornar público o sentimento. Tanto que para aplacar esse vazio, Albano pintava, esculpia e se dedicava a outras atividades manuais. Perdeu a conta de maddonas e sfumatos guardados nos porões de sua casa e de sua alma, homenagens a outras doçuras e singelezas.

Mas hoje parecia diferente. Tudo havia ido até então no sentido contrário que previra. A primeira admiração virou afeto, que virou romance, que virou paixão e foi correspondida. Esta noite daria um próximo passo.

Sentou-se onde ela estava, linda, após beijá-la com a simplicidade de quem tem certeza. Suas pernas se acariciando sob a mesa antecipando um momento que, dessa vez, significaria muito mais do que tudo que viveram. Dos lábios dela e de Albano jorravam palavras que só faziam sentido para eles, provocando rubores nas bochechas da menina e um brilho intenso nos olhos do rapaz. Quando o silêncio pousou entre eles, Albano tomou um gole do vinho para estimular sua coragem e enfim levantar o assunto que motivara o encontro em si.

Ainda inspirava o começo da frase quando percebeu que, ao fundo e dos lados, as paredes a meia-luz do restaurante bambeavam. Como tapumes de um cenário sendo desfeito, elas caíram ruidosamente levantando uma poeira branca de pó-de-arroz. Aos poucos, na medida em que o pó levantava, tudo ia desaparecendo sob a bruma: pratos, talheres, candelabro e mesa, deixando apenas suas cadeiras frente a frente. E logo não havia mais cenário, nem luz, nem ela. Apenas ele, sentado no centro do seu próprio vazio abraçando-se ao branco e espesso véu que se desprendia da água quente do banho.

30 de novembro de 2010

Flor de vaso

Quem te colhe, flor de vaso
que não sangre em teus espinhos
disponíveis, caso a caso
desabrochando-se em carinhos

Sob a nesga do primeiro fogo
colore sonhos de aurora
Estica-se na janela, em gozo
quem preso a ti, devora

És tudo e nada ao mesmo tempo
de verve e obviedade
adula em seiva rubra o ressentimento
das mais belas crueldades

Fez luz nova brilhar no prado
que expôs em cor e som
aquele velho arroio questionado
sem marcas de mordida ou batom

Uma vez doce e singela
inocula teu veneno em borbotões
teus espinhos, caninos em assalto
vens do alto, vampira de emoções

Era óbvio o destino
Teu e meu em paralelos
dos beijos que sacudiram sinos
restam os golpes dos martelos

29 de novembro de 2010

Conte um Conto da ABL

Como já saiu o resultado do concurso Conte um Conto, da ABL, que tinha como proposta escrever um novo final para o conto A Cartomante, de Machado de Assis, agora posso publicar o final que eu escrevi. Para quem não conhece o conto, sugiro lê-lo AQUI. A idéia era partir do momento em que Camilo sai da casa da cartomante e vai para a casa do amigo.


Chegando, apeou e avançou pelo pátio até a soleira, onde fitou as carrancas que guardavam a pequena varanda e anunciou-se batendo à porta.

Villela estava febril. No escritório, serviu licor de jenipapo, acendeu o cachimbo e sentou-se ajeitando os óculos de cristal. Sob intensas baforadas, Camilo percebeu que as cartas anônimas deixadas com Rita repousavam na mesa entre eles e estremeceu, cogitando um erro nas previsões da cartomante.

Quanta ingenuidade, pensou. A anciã dissera-lhe só o que queria ouvir e lhe encheu de esperança, assim como antes o fizera com Rita. Como era fraco, vergando ao sabor dos que o influenciavam. Apaixonou-se quando compelido, traiu uma longeva amizade quando incitado, criou e destruiu uma vida inteira de filosofia ao bel-prazer do que sopravam em seu ouvido. Sua infantilidade destoava da figura adulta do amigo, altivo, bem-sucedido, fumando o cachimbo da maturidade. Resignado, decidiu tomar rédeas do próprio destino.

- Caro amigo, antes de tudo, quero confessar-te um erro pelo qual estou deveras arrependido. Venho encontrando-me em pecado com Rita. Estive distante a pensar como contar-te tal afã – mentiu.

Grave como de costume, Villela interrompeu.

- Camilo, acalma-te. Saibas que descobri Rita planejando meu assassínio e posterior fuga. De tonta a víbora nada tinha pois que deu-se ao trabalho de letrar um escravo que lhe emprestasse a caligrafia nessas cartas anônimas – disse apontando as cartas na mesa – com o motivo de chantagear-te. Chamei-te para desmascará-los juntos, mas como demoraste, tomei sozinho as providências para o exílio de ambos. Portanto, não desculpe-se – sentenciou o ex-magistrado – A traidora é ela.

Lívido, Camilo recostou-se novamente e sossegou num gole quente de licor de jenipapo.

25 de novembro de 2010

W Brasil

O exercício era fazer um conto utilizando a letra de uma música. Eu escolhi W Brasil do Jorge Ben Jor. Ficou mais longo do que o normal, mas os especialistas que leram acharam muito bom. Tá com tempo?

W Brasil


            Antes de a favela carioca ter essa imagem pejorativa de violência e descaso social que hoje tem, antes de ser reduto de tráfico de drogas e milícias, era um lugar de esperança. Um lugar onde famílias vindas do interior, de onde quer que fosse, poderiam se estabelecer livremente e sonhar com dias melhores para si e suas famílias ao som de radinhos de pilha sintonizados na hoje extinta BKW Brasil, cento e cinqüenta megahertz. Aos domingos a favela ressoava o chiado do velho radialista a chamar “Alô, alô – shhhhhhhh – WBrasil! Alô, alô – shhhhhhhh – WBrasil!”

            E foi nesse ambiente que floresceu a amizade de três garotos: Jacarezinho, filho de retirantes alagoanos, apelidado dessa forma por seu porte esguio, na verdade quase esquelético, e sua dentição exageradamente proeminente; Avião, menino meio avoado, motivo do apelido, tinha perdido o pai para a bebida quando ainda era bebê num município do interior do Rio do qual ele não lembrava o nome; e Disco Voador, moleque cabra-da-peste como lhe chamava a própria mãe na hora de acabar a correria pelos becos e tomar banho, processo demorado que acontecia nos dias em que havia água suficiente na caixa para a higiene de sua grande cabeça paraibana, motivo pelo qual foi apelidado dessa forma. Era comum ouvir as mães aos berros quando o carro-pipa chegava: “Jacarezinho!” “Avião!” E uma das mães, ciente da propensão para o desastre que tinha seu filho, vociferava com os vizinhos que estavam sempre levantando um puxadinho aqui ou ali: “Cuidado com o Disco Voador”, dizia já conformada com o apelido, “Tira essa escada daí! Essa escada é pra ficar aqui fora e não no meio do corredor”.

            Como não havia ali uma convenção formal, não havia a quem recorrer quando o menino espatifava-se não só contra escadas, mas contra carrinhos-de-mão, baldes de tinta e poças de cimento. Não poderiam, enfim, sentenciar algo do tipo “Vou chamar o síndico” e nem podiam contar com a polícia para manter esse tipo de ordem. Por isso, um código de ética velado sustentava as relações sociais. E eram exatamente essas relações que esses três meninos, cheios de sonhos e planos, se esforçavam para transgredir.

            As pessoas viviam chegando e partindo da favela. Uns voltavam para seus lugares de origem enquanto outros vinham buscando a tal da esperança. Um belo dia mudou-se para as redondezas uma senhora mulata com seu neto. A família toda havia ficado no Nordeste e a avó viera para o Rio para tratar a doença rara do neto – um tal de hipotireoidismo – que já manifestava no menino um quadro de obesidade. Mas alheios a todas essas complicações adultas demais, Jacarezinho, Avião e Disco Voador, receberam o novo amigo com a maior das honrarias, um apelido: Tim Maia. E, quanto mais o novo integrante demonstrava seu desagrado, tanto mais os meninos reforçavam-no: Tim Maia! Tim Maia! Tim Maia! Tim Maia!

            Os quatro, agora adolescentes, eram inseparáveis. Jogavam no mesmo time contra os meninos da rua de baixo e pegavam as menininhas das outras favelas nos pagodes. Mas o esporte preferido deles não era nem futebol nem beijo na boca, era o surf ferroviário. O trem corre nos trilhos da Central do Brasil e leva em seu cachaço os quatro moleques se desviando dos fios de alta tensão em alta velocidade. E eram bons nisso, o que lhes dava um status de heróis, aumentando tanto suas chances de ganhar os jogos de bola, devido à maior torcida que reuniam, quanto suas chances com as menininhas das favelas.

            Um dia, numa tarde de sol, os quatro entraram num dos vagões mais lotados. Idosos em pé, crianças de colo aos berros, mendigos esmolando, enfim, tinha de tudo dentro do vagão, incluindo paixão antiga de Avião. Ela havia mudado há muito para a casa de uma tia, Léia, que morava em melhores condições em Acari. Desde então, o contato tornou-se esparso, mas o sentimento, pelo menos por parte dele, maior. Quem lhes havia apresentado foi o Tim Maia que disse “Avião, essa é a Rita, irmã do Fernando, o belo, e prima do falecido Cabral 2, lembra dele, filho do portugês da venda, o Cabral 1?” No mesmo instante, Avião soube que havia algo diferente na menina, mas não chegou a dizer nada, ainda mais quando viu Jacarezinho aos beijos com ela num canto do baile. Até hoje, de sacanagem, o magricela relembrava o dia dizendo “E aquele beijo quente que eu ganhei da sua amiga?” ao que o próprio Avião respondia menosprezando: “E o que é que deu? E daí? Não tenho nada com ela mesmo”. E Jacarezinho, galhofeiro, completava “Funk na cabeçaaaaaa...” e ria junto com o resto da turma da cara amarrada de Avião.

            Nesse dia do trem lotado, talvez tenha sido o calor ou a distância prolongada entre os dois, o encontro inesperado levou Avião a deixar os amigos de lado e, se acotovelando pelo vagão, chegar perto de Rita. Ela o viu e o reconheceu. Cumprimentaram-se com dois beijos no rosto e, percebendo que o rapaz não iniciaria qualquer assunto, disse: “Você já viu o último Niu iorque taime?”, referindo-se ao informativo marginal que era impresso em mimeógrafo e distribuído na Central falando dos eventos jovens, próximas festas, etc. “Não” respondeu sincero e despreparado o rapaz. “Deu no niu iorque taime que o Fernando –  o Belo, meu irmão, lembra? – não sabe se vai participar do próximo campeonato de surf ferroviário”. Avião arregalou os olhos e, num movimento quase involuntário, natural à sua dureza e falta de noção, arrancou o papel da mão da menina. Se havia um campeonato disso, a gente tinha que saber! Passou os olhos pelo papel pensando “surfista de trem...surfista de trem” e, depois, vagou sua atenção deficitária por outros textos como o que dizia “A feira de Acari é um sucesso” sobre o que refletiu em sua ingenuidade, “é verdade...tem de tudo lá. É um mistério”.

             Despediram-se com mais dois beijos na bochecha e, sem mais palavras, levou consigo o papel meio amassado. Reencontrou os amigos quando desembarcaram em Japeri, estação que preferiam para subir às costas do trem. Avião nem deu tempo de os meninos perguntarem o porquê daquela cara de quem viu fantasma e foi logo lhes entregando o papel. Enquanto os outros três liam sobre o campeonato, Avião dizia “Deu no niu iorque taime! E a gente não sabia!”

            Levantando os olhos do papel mimeografado, Jacarezinho olhou para o nada como se percebesse o desafio no ar. “Ouvi falar dessa parada...começou já tem um tempo. Dizem que o Cabral 1 descobriu a filial, começou a parada faz mais de dez anos. O cara era fera, fazia até acrobacia nas costas da cobra de ferro. Mas aí a idade chegou e o maluco aposentou. Dizem que o Cabral 2 tentou e se deu mal. O filhote de cruz-credo foi tentar pular um fio, tropeçou e virou churrasco”. Todos se olharam esperando a conclusão, mas Avião não deixou: “Vambora mostrar pra todo mundo então o que a gente faz, cambada!”. E num uníssono, os quatro se abraçaram e subiram o poste para esperar o trem chegar.

Os quatro perambularam pelas favelas para descobrir quem estava organizando o campeonato, pois Avião não queria pedir a Rita perguntar para seu irmão Fernando, o belo, aparentemente uma referência no assunto, já que foi entrevistado pelo famoso panfleto, como fazia para se inscrever. No fundo, Avião queria ser campeão do torneio e mostrar para Rita que era melhor que o Jacarezinho mirrado que ela havia preferido. Amor! Dor! Dor! Era o máximo que seu intelecto reduzido conseguia resumir.

            Acharam o barraco que concentrava as inscrições num beco na Vila do João. Duas pessoas estranhas guardavam a entrada do barraco e perguntaram: “É aqui que faz inscrição pro campeonato de surf?”. Um dos mal-encarados virou para o outro e disse “Deixa passar. Lá da rampa mandaram avisar que os moleque são tranqüilo”, se permitindo o erro de concordância. A taxa era cara e, prevenidos, os rapazes antes de pagar ainda perguntaram como conseguiriam o dinheiro de volta caso a polícia desse o ar da graça no dia do evento. “Todo dinheiro será devolvido...” disse o suposto tesoureiro do evento que recolhia as notas amassadas dos garotos. Cada um recebeu um envelope e saíram tão felizes com a ousadia que nem perceberam o que o tesoureiro dizia num tom debochado e sorriso maléfico “...quando setembro chegar”.

Num pedaço de papel também mimeografado dentro de cada envelope de azul índigo que haviam recebido se lia data e local onde deveriam estar para o início da competição. Durante os sete dias que o separavam da data, Avião, em treinamento, passou percorrendo diversas vezes as linhas do trem da Central passando pela Mangueira, dando uma volta na Pavuna e chegando em Madureira, dentro e em cima do trem, tentando esbarrar não com os fios de alta tensão, mas novamente com Rita para lhe contar as novidades.

Mas o destino também tinha um envelope de azul índigo reservado para o rapaz. Dois dias antes da competição, Disco Voador chegou dizendo que haveria um “pagode nervoso” lá em Marechal Hermes e que, segundo suas fontes, Rita estaria lá com Fernando, o belo, seu irmão. “É lá” rematou Avião. “É lá o que?” perguntou o amigo cabeçudo, mas, desconversando, Avião completou “Ahn...que o samba rola de primeira”. Disco Voador desconfiou da apreensão do amigo e comentou mais tarde com Jacarezinho, “Cara, o Avião tá estranho. Tá motivadaço pro campeonato”. “Tá é com dor de corno porque eu peguei a mulezinha dele. Tá querendo se amostrar pra ela no campeonato pra ver se pega. Prego”. “Então fica ligado, Jacaré, porque o cara vai brigar pra ganhar”, completou Disco Voador com a eloqüência que a vida achou por bem lhe presentear.

No pagode, os olhos de Avião varriam a multidão. Com a ansiedade lhe aflorando à pele, não conseguia disfarçar a vontade de encontrar com Rita, o que só veio a acontecer lá pelo final da noite. Levemente embriagado, avistou a menina sozinha e aproximou-se. Dois beijinhos e a pergunta “Está sozinha?” “Não, o Fernando foi ao banheiro”. Num esforço sobre-humano, Avião, descontrolado, disse o que, mais tarde, se arrependeria “Sabe Rita, daqui a dois dias você vai conhecer o homem da tua vida. Um cara que pode até não ser bonito nem magro nem morar bem lá em Acari que nem você, mas que não esconde que tem origem humilde, que não troca seus ideais por uma vida confortável. Você vai conhecer um cara corajoso que leva a vida se arriscando por aquilo que gosta. Nesse dia, tu vai ligar pra tua tia rica e vai dizer ‘alô, alô, Tia Leia. Encontrei o homem da minha vida. Vem pra cá, rápido, mas se tiver ventando muito não venha de helicóptero, vem de Kadett mesmo.”

Avião, de olhos rasos e vermelhos, encarou uma Rita incrédula e surpresa. Ela não sabia como reagir e ele não sabia como expressar o que sentia por ela. Amor! Dor! Dor! Deu um passo atrás e depois as costas e foi-se deixando a menina sem resposta para a pergunta que lhe fez Fernando, o belo, quando voltou do banheiro “Quem era?”

No dia seguinte os quatro amigos inseparáveis não se encontraram. Jacarezinho ficou em casa concentrado. Disco Voador estava de castigo por ter destruído a churrasqueira em construção. Avião estava de ressaca e Tim Maia passou o dia tomando água de vinte em vinte minutos para um exame que faria de manhã bem cedo antes do campeonato, “Alô, telefonista, me desperte ás 7:15, por favor” disse sua avó ao orelhão antes de ir dormir. Enquanto isso, em Acari, toca o telefone da casa da Tia Leia. “Oi, mãe, é o Fernando. A Rita está por aí?” No minuto seguinte, atende a garota “Oi, Fernando”. “Oi, Rita. Vou ficar na casa da Laura hoje, mas não esqueci de amanhã, não. Você vai querer rádio táxi?” A menina sorriu e disse “Nove e meia. Manda um beijo pra Laura e vê se cuida dela direito aí, senão o bicho pega. Se vacilar com amiga minha vai ter que prestar contas comigo”. “Tá bom, Rita, pode deixar. Não vou fazer nada que ela não queira!”. “Bobo. Até amanhã”. “Até”.

Lá pelas onze horas quando Rita e Fernando chegaram à estação de Cascadura o já povo se aglomerava para ver o início da competição. Contrariando as expectativas iniciais, a polícia que lá estava não ameaçou os procedimentos da comissão organizadora. Eram de alguma forma ligados aos competidores e estavam ali apenas para garantir a segurança do evento. Mesmo tendo feito o exame de manhã, Tim Maia não foi o último a chegar. Avião em silêncio, se aproximou dos três amigos com olheiras cavadas e escuras. Dava para perceber que não havia dormido. Disco Voador, comovido com a imagem sugeriu “Avião, você tem certeza que quer se equilibrar hoje? O sol tá forte, neguinho vai com tudo”. “É pra isso que eu tô aqui, Disco. Hoje vou com tudo”. Dessa vez, até Jacarezinho, normalmente alheio aos sofrimentos dos outros, ficou chocado com a atitude do amigo e tentou atabalhoadamente amenizar, “Que isso, cara. Isso tudo por causa de xereca? Quer que eu coloque a Rita na sua fita?”. Avião cerrou os olhos como que para conter a raiva que deles escorria, mas evitou o conflito e disse apenas “Não precisa”. Queria mostrar para todo mundo do que era capaz em cima do trem. Se arrumasse uma briga agora o máximo que conseguiria era ser expulso e deixar outro brilhar aos olhos de sua Rita. Não, ele não permitiria. Seria um ninja hoje em cima do trem, um gato driblando os fios, um bailarino se contorcendo sobre o ferro quente e sob as passarelas, o balanço do trem seria seu diapazão a quem ele clamaria “Eu também quero graves, médios e agudos” se soubesse alguma coisa de construção musical.

O percurso começava em Cascadura onde uma escada improvisada ajudava os competidores a subirem no trem sem percalços, e terminava em Anchieta. Lá, sentados numa bancada haveria uma comissão julgadora que apuraria os votos dos juízes instalados nos vagões que, de alguma forma, tinham a responsabilidade de observar a performance in loco e dar-lhes nota. Em Cascadura alguém da organização gritava “Eu vou chamar” e um suspense se instalava no ar enquanto a audiência aguardava o nome do próximo competidor. E, um a um, os amigos foram chamados. “Jacarezinho”. Nota oito lá em Anchieta. “Avião” Nota nove e meio em Anchieta. “Disco Voador”. E ele veio cheio de si “Cuidado comigo! Cuidado com o Disco Voador. Tira essa escada aí que eu vou subir sozinho! Essa escada é pra ficar aqui fora!”. Mas algo aconteceu no meio do caminho, pois não chegaram a vê-lo em Anchieta. E, por último, “Tim Maia”. Nota dez em Anchieta, foi ovacionado com aplausos dos fãs que lá estavam e o coro “Tim Maia, Tim Maia, Tim Maia, Tim Maia!”

Avião ficou desesperado e quis partir para cima do balofo, mas Jacarezinho não deixou. Via na alegria do amigo mais recente a tristeza que levaria para o resto de sua vida por não ter conseguido conquistar o campeonato e, por conseguinte, segundo o distorcido raciocínio do rapaz, o amor de sua querida Rita. Ela, por sua vez, vendo-o desolado nos braços do amigo raquítico tomou a iniciativa e agachou-se ao seu lado. Quando a viu, nem tentou enxugar as lágrimas e, transtornado, só pode pronunciar “Eu te amo, Rita”. Como resposta orgânica a um estímulo externo, os olhos da menina encheram-se d’água e por todos os demorados segundos que durou aquele primeiro beijo nenhuma palavra foi dita. E não era necessário, pois a platéia já tinha se esquecido do Tim Maia e agora ovacionava em coro o outro amigo “Avião. Avião. Avião. Avião.”

23 de novembro de 2010

50.000 cacos

 A porta se fechou com um estrondo e a fruteira de vidro rachou pela violência com que o molho de chaves caiu sobre ela. Bernardo mal se agüentava de ansiedade, rasgando o pacote que acabara de receber do correio. Teve alguma dificuldade para retirar a fita adesiva que trancava as dobraduras do papel pardo, mas tanta era sua vontade que arrancou-lhe à unha.

Deu um suspiro ofegante quando retirou o último pedaço do embrulho e não conseguiu segurar, dentro do azul dos olhos, sequer uma lágrima ao ver-se diante do que esperava há tanto tempo. Na caixa lia-se em enormes letras coloridas “50.000 peças”. Não importava se era uma paisagem polar, uma nave de igreja barroca ou um aposento gregoriano. Alguns segundos depois, aqueles suficientes para arrancar os últimos plásticos protetores, lá estava o rapaz debruçado sobre um emaranhado de pequenos pedaços de cartão recortado, um quebra-cabeças.

Antes de começar a liturgia que lhe consumiria alguns dias, quiçá semanas conforme era sua esperança, pois tanto melhor quanto mais intrincado, olhou nas paredes da sala como troféus os vários desafios previamente superados. Na parede maior, sobre a tevê, deixou-se por alguns contemplativos segundos a relembrar os últimos momentos daquele Baco de Caravaggio em tamanho original.

Tomou fôlego e voltou atenção ao monte de peças que o encarava. Uma a uma elas iam e vinham diante dos seus olhos, um milhão de detalhes, cores, concavidades e reentrâncias cujo balé de possibilidades era a paz, encontrar sentido naquele caos, ordem naquela desordem.

Aos poucos pequenas metades se fundiam em proto-imagens, noções, que iam formando novas metades a se fundiam com outras peças. Viam-se, agora, dois olhos, uma orelha, um queixo barbado e proeminente. Era sem dúvida um rosto, um retrato.

Não dormiu. O dia seguinte passou e mais um e mais um. Também não comeu durante esse período, o que dava-lhe, hoje, uma aparência destratada e entregue. As olheiras eram toneladas sobre as maçãs-do-rosto e Bernardo seguia montando: face, pescoço, ombros. Mais do que um retrato, era um busto.

Mais três dias se passaram e Bernardo seguia febrilmente o processo de escolha, verificação, raciocínio e encaixe. Escolha, verificação, raciocínio e encaixe. Escolha, verificação, raciocínio e encaixe.

Enfim, no sétimo dia, restava-lhe pouco mais do que algumas dezenas de peças. Com o nariz arrastando na figura, preocupado apenas com os detalhes, ainda não havia reparado na imagem que ia completando. Quando as luzes pediram para serem acesas, Bernardo tinha somente uma peça na mão. Era uma peça escura com dois lados retos, pressupondo o ângulo do canto inferior esquerdo do painel.

Vagarosamente aproximou a peça do vazio que clamava por ela e encaixou, mas em vez de sentir aquela mesma antiga sensação de plenitude das outras conquistas, um calafrio foi o que lhe subiu pelas costas secas de cansaço. Trôpego e descrente viu um buraco, uma mancha clara da cor do chão onde deveria estar uma peça na altura do coração do personagem retratado.

Ficou de pé. Fitou panorâmicamente toda a imagem e viu a si mesmo, mesmos olhos azuis, mesmo cabelo jogado, mesmas olheiras de cansaço. E mesmo vazio no peito. Estremecendo, correu para o banheiro e viu-se mais uma vez com o mesmo aspecto no espelho e socou-lhe com tanta força que levou o sangue a respingar no teto. Procurou dentre estilhaços aquele mais apropriado para substituir a peça faltante. Trêmulo como quem está prestes a chegar onde é esperado, revirou a poça vermelha que se formava no chão até resgatar dela o pedaço de vidro que lhe serviria.

Levantou-se devagar para que o escuro que já chegava à sua visão periférica não a engolisse por completo. Cambaleou apoiando-se nos portais até deixar-se cair ao lado do auto-retrato-quebra-cabeça. Tentou limpar o sangue do pedaço de espelho que trazia do banheiro, quebrou-lhe uma pequena aresta para garantir o encaixe perfeito e pousou o dedo ensangüentado completando a obra.

18 de novembro de 2010

Antes da catraca

Este deveria ter sido o primeiro post deste blog. Mas como eu só escrevi ele ontem, fica hoje o registro.

Antes da catraca

Sempre andei de ônibus e sentava antes da catraca, na época que ainda se entrava nos ônibus pela parte de trás, só para ficar observando as pessoas. Tentava imaginar de onde vinham e pra onde iam. Sentia-me um tipo de Sherlock Holmes adivinhando os pontos aonde cada passageiro saltaria.


Mas isso acabou depois que fui assaltado. Os assaltos a ônibus eram comuns, mas, geralmente, os que sentavam antes da catraca eram poupados. Sentar antes da catraca dava às pessoas um ar de marginalidade, de revolta, o trocador achava que a gente ia dar calote. Essa suposta marginalidade nos aproximava dos verdadeiros marginais em ação catando os pertences dos integrados pagadores de passagem lá na frente. Mas, apesar de ter incorporado essa aura marginal à minha atitude, de nada me valeu nesse dia e, graças a deus, consegui, com o tempo, diminuir minha dependência do transporte público.

Viajar antes da catraca também era o fenótipo de uma característica que carrego em meu DNA: a introspecção. Lá de trás conseguia ver tudo sem ser visto e isso me dá outra característica: a possibilidade de ver em perspectiva. Sou bom em me colocar no lugar dos outros e, talvez pelos dois motivos, seja impelido a escrever.

Por muito tempo preferi a poesia que era a realização do “ver sem ser visto”. Mas, aos poucos, a prosa vem me cativando e, através dos contos, ponho em ação essa veia documental destilada nesses pequenos textos cujo estilo, se tiverem paciência e altruísmo suficientes, constatarão nas descrições, às vezes exageradas, foco principal do meu aprimoramento, e nas metáforas inusitadas.

Não domino técnicas nem trago ainda grande bagagem literária nas costas, mas tenho boas intenções. Espero que, um dia, alguma frase que eu venha a escrever ou tenha já escrito provoque uma lágrima ou um sorriso, um susto ou uma reflexão, enjôo ou júbilo. Mas, enquanto isso não acontece, estarei aqui, atrás da catraca, absorvendo e escrevendo até onde esse ônibus me levar.

15 de novembro de 2010

O comprometimento do salmão

Estava pegando no sono. Meu pé esquerdo sentia o fluxo do rio onde estava pela metade, trazendo da ponta dos dedos uma sensação de pura paz. Não havia barulhos senão o murmurar baixo como um sussurro da água desfazendo-se em espuma contra uma pedra maior e o chacoalhar das copas das árvores tão altas que me desafiavam a visão quase desfalecida.

Acompanhava com olhos semicerrados a água em seu ir sem vir, numa única e decidida direção, para o baixo. Sem sucesso tentava carregar meu pé que, preso a mim, opunha uma resistência desleal. Sucesso, sim, tinha ao levar o leito, as pequenas pedras e os peixes que, dispondo da própria correnteza do rio, deixavam-se levar até não sei onde, o lugar onde os peixes preferem viver.

Porém, perto da outra margem havia um que lutava contra a força do rio. Era um salmão grande e vermelho. Via-se que lutava contra a correnteza sem, no entanto, conseguir sair do lugar. Se os tivesse, trincaria dentes e contrairia a fronte, num daqueles sinais humanos de esforço. Mas como peixe era, denotava outros sinais que qualquer observador, seja acostumado com o fenômeno, seja admirado com o inusitado, entenderia e lhe emprestaria um adjetivo humano qualquer para descrever essa luta, convenhamos desumana.

Acompanhei o peixe até o estertor das forças o que, para minha surpresa, não aconteceu uma, mas três ou quatro vezes. Era persistente, o danado. Quando eu achava que o rio havia vencido, varrendo o peixe para detrás de uma pedra, eis que após alguns minutos de descanso, voltava ele a sacolejar sua espinha rio acima.

Já desfeito de minha intenção de dormir e retirando finalmente meu pé de dentro daquele campo de batalha, fiquei acompanhando rio e peixe a se digladiarem refletindo sobre o que levaria o peixe a subir tamanha correnteza e, pior, o que levaria o rio a dificultar-lhe tanto o trabalho.

Rio e peixe são coisas que, diferente da gente, não se sentam à margem das cidades a refletir sobre as desventuras dos humanos em que nela vivem. Se o fizessem, porém, talvez não tivessem a mesma dificuldade que tive para dormir ao observar esta luta que descrevo.

Pois bem, refletia sobre as dificuldades de um e de outro e me vi sobre a pressão de julgar-lhes não as intenções, pois que são irracionais ambos e delas se privam, pelo menos até onde a ciência contemporânea entende, mas os instintos que a natureza põe em conflito. Mas como o rio em si não encerra, exceto em poesia, nem intenção nem instinto, foquemos no peixe a reflexão e deixemos o rio seguir seu curso.

O peixe sabe que sua cria tem mais chance de sobreviver se estiver numa calma lagoa, cercada como um forte-apache, sem predadores. Por isso, recorre a ela todo ano, pelo menos uma vez por ano, para procriar e, nesse período, se mais uma vez compararmos peixes e homens, o que se viria naquela lagoa seria um grande bacanal. Muitos peixes, machos e fêmeas agrupados num espaço fechado com um simples propósito: fazer com que o esperma de uns chegue e fecunde os ovos das outras. Tirando o fato de que agrupamentos humanos com esse específico propósito não existem, pelo menos não para procriação, tomamos pelo bacanal como a situação que parece ser a mais similar para termos de comparação, pois, mais uma vez, peixes são privados tanto de intenções quanto de responsabilidades e, se assim não fosse, com certeza não estariam os peixes por aí a fecundar qualquer peixa que lhe cruzasse o caminho, ou melhor dizendo, a corrente.

Nessa calma lagoa à qual recorrem tantos peixes e peixas acontece uma algazarra. São muitos indivíduos para um espaço diminuto. Chegam a uma conclusão coletiva: a de que, se permanecerem ali para sempre desfrutando da calma e da segurança, logo não haverá espaço, muito menos alimento, para eles e para a prole que está vindo e que é a razão primeira de eles mesmos estarem ali. Pois eis que, chegando a essa conclusão, os peixes, após certificados de que fizeram o que foram ali para fazer, deixam o local e voltam para o mar. Mas nem todos, há alguns que, exaustos da luta contra a correnteza e da ejaculação constante dos últimos dias, morrem ali mesmo e, religiosamente, dão de seu próprio corpo como alimento ao porvir das gerações.

Talvez mais impressionante do que a luta contra o rio seja o fato de que esses peixes, para procriar, voltem exatamente ao mesmo rio em que foram concebidos. Imaginem um diminuto peixe dentro da imensidão do oceano, sem placas que os orientem ou pontos de referência que os localizem, uma vez que, dentro do mar, qualquer coisa que permaneça imóvel por um longo período é consumido pelas algas, corais e outras coisas do gênero que fazem uma atualização constante da orografia e da decoração do lugar, tentando, após muito tempo e muito nado, voltar exatamente para seu ponto de partida. Talvez essa bússola interna, cujo Norte é seu ponto de partida, seja a compensação que a natureza achou por bem dar ao bicho que, não tendo intenção ou responsabilidade, se comprometeu desde os primórdios dos tempos a ser uma metáfora de completação de ciclos.

Ser concebido, nascer, deixar-se ao sabor do rio que vai e posteriormente ao sabor das marés que vão e vem, voltando, enfim, depois de muito nado, para o lugar onde tudo começou. E a volta é hercúlea, pois parece que nada ajuda o pobre peixe. Não havendo rota definida, uma vez chegando ao rio, este lhe barra o caminho com tanta intensidade que, mesmo que no final das contas chegue ao destino, que era primeiramente o lugar de onde nunca deveria ter saído, não lhe resta lá muito mais senão morrer.


Satisfeito com a definição do destino ictíaco, parei de refletir. Sentei-me e tirei a botina para colocar de novo meu pé esquerdo na água, pois minha intenção é estar com pelo menos metade do pé ao sabor do rio enquanto deixo meu corpo ao sabor do sono.

10 de novembro de 2010

Incontinência

Na primeira vez eu tinha seis anos. Era meu primeiro dia na escola nova onde cursaria o CA. Não sei ao certo como aconteceu, mas, na altura da hora do recreio, já estava diferente. A professora foi quem percebeu a minha mudança, comentou com a diretora e depois com minha mãe assim que ela chegou para me buscar. Vi as três conversando com alguma gravidade no semblante.

A segunda vez foi durante as férias, muito tempo depois. Já era vaga a lembrança do incidente anterior. Foi num fliperama com os bolsos cheios de fichas. De repente, tudo parou e só meus olhos se moviam como acompanhando um movimento cadenciado, para lá e para cá. Mergulhado no transe, senti que devia lutar contra ele para me manter consciente. Balancei a cabeça, ergui-a e respirei fundo. Mas era tarde, o estrago já estava feito e durou por toda a minha adolescência.

A partir de então os episódios se tornaram mais freqüentes. Na rua, na praia, duas ou três vezes durante as festas. Cada vez mais intensos, me demandavam esforço cada vez maior de camuflagem.

O mundo muda quando se faz dezesseis anos. Não acreditei nas palavras de meu avô quando, ao entregar-me o envelope com dinheiro, me felicitava pelo aniversário. Mas o velho era cascudo e sabia das coisas, pois foi com essa idade que me tornei consciente da minha condição.

Foi um grande ano: dirigi pela primeira vez, tatuei uma águia nas costas e o Brasil foi campeão mundial de futebol. Foi durante essa comemoração o episódio mais dolorido. Imaginem-se no meio de uma multidão convulsiva de alegria. O clima era totalmente favorável para um final feliz de filme americano.

No meio daquela confusão um sorriso especial, que já vinha acompanhando há tempos, me lançava uma flecha afiada de sedução. Minha incontinência se manifestou com força total e fui ao encontro daquele sorriso. Felicitamos-nos pela conquista esportiva como se fosse nossa mesmo e sugeri um beijo que fosse ao mesmo tempo medalha e troféu eterno daquele momento. Mas a existência de um namorado desconhecido aguou os planos e tornou-se crônica também minha desilusão.

Depois disso acabei aprendendo a conviver com essa necessidade especial. Agora, toda vez que sinto a aproximação da crise aguda, volto a me sentir com seis anos e cruzo os braços sobre o peito tentando evitar a incontinência do meu coração.

5 de novembro de 2010

Comendo, rezando e amando o Capitão Nascimento

Nesse feriado aproveitei para colocar em dia minhas responsabilidades cívicas, aquelas que todos temos que cumprir mesmo sem querer. Então, fiz duas coisas: votei e fui ver os filmes mais comentados do momento – Tropa de Elite 2 e Comer, Rezar e Amar.


Peguei uma seção dupla: mais cedo me alistei no BOPE e fui com o agora Tenente Coronel Nascimento atrás do novo inimigo. Ainda com sangue na lapela e com a vista cheia de realidade, jantei um belo arroz de polvo e depois me deixei levar pelos devaneios yuppies da bem sucedida em crise existencial Liz Gilbert. No fim, não resisti à tentação de imaginar o que aconteceria se os dois protagonistas se conhecessem.

Se a viagem da escritora ao exterior motivada por sua busca interior a trouxesse ao Brasil, poderia, gastando menos dólares ter aprendido tudo que aprendeu em um ano de gastança rodando o mundo. Na Bahia, aprenderia um novo idioma, o baiano, se empanturrando de iguarias tão ou mais calóricas que os diversos macarrões italianos. Poderia aprender a humildade sem lavar o chão dos templos hindus, mas pescando com lanças nua em pêlo nas comunidades indígenas no interior no Pará, seria uma bela cena. E, finalmente, encontrar seu guru no Rio de Janeiro – o Tenente Coronel Nascimento – no cubículo mais alto, do prédio mais alto do comando mais alto da inteligência policial carioca.

Obviamente o Coronel Nascimento não tem o charme desdentado do guru original, mas também tem a mesma rude sabedoria cujos preceitos básicos provavelmente levariam Liz às mesmas conclusões sem precisar de tanto tempo e num único lugar.

Seria ele a fazer com que ela superasse a propensão imperialista de todo americano e trocaria o peru da ceia de Ação de Graças pelas delícias de um churrasquinho de esquina em Padre Miguel sob fios de alta tensão apinhados de pombos com as mais poéticas misantropias. Lá se apaixonaria pela malemolência brejeira dos operários do pagode, não sem antes descobrir, em Mesquita, o porquê de a Chatuba ser o bonde dos careca (sic).

Seria ele a aproximá-la da fé mostrando que a entediante meditação poderia ser substituída pela pragmática seção de descarrego no templo maior em Del Castilho onde descobriria que o voto de verborragia tem mais poder sobre os ignorantes que o voto de silêncio e que num auditório com duas mil cadeiras poderiam ser encontrados mais de dois mil encostos.

Seria ele próprio, o Coronel Nascimento, a apresentar à moça o amor. Não esse amor hollywoodiano da qual ela fugiu por descobri-lo vazio, mas um amor com a singeleza do Méier, que a fará sonhar em ser apresentadora de telejornal. Um amor tijucano que se cultiva nas efervescentes beiras de piscina dos clubes e nas reluzentes praças de alimentação dos shoppings. E pegariam juntos o 607 chacoalhando até o ponto final, onde se matariam de amor no escurinho aconchegante do Largo do Estácio.

E, no final, ela encontraria no discurso dele logo após o incidente entre o Capitão Matias e o Beirada durante a ocupação de Bangu 1, aquelas palavras que a traduzirão por completo: você tem que aproveitar as chances que tem, mas lembrando que tem coisas que fazem um furo pequeno na entrada, mas o buraco de saída é do tamanho de uma tangerina.

29 de outubro de 2010

Primeiro Beijo

Esta noite sonhei com um primeiro beijo. Você vinha longe cercada por uma aura colorida e suave, quase levitando. Seu vestido parecia fluido, tremulando em volta do corpo, escondendo e revelando curvas; às vezes frágeis, às vezes generosas.
Seus olhos – achas ardentes a marcar a face clara e sublimada – deixavam um rastro de minúsculas pedras preciosas como uma corte de fadas seguindo pelo caminho anunciando tua aproximação. Deles partia um olhar infinito, misterioso e corrosivo. Úmido apesar de petrificado no meu e prestes a derramar-se em júbilo.

Vinha com as mãos estendidas como quem distribui dádivas, compartilha calor e abençoa condenados. A sombra dos seios a marcar rijos o caimento do tecido evanescente. Finalmente parou diante de mim colocando-me em estado de epifania. Vi de muito perto a tempestade de cabelos escuros escorrendo em cachoeira sobre os ombros eternos e o colo macio.

Entreabertos como buracos-negros, nossos lábios se atraíram numa gravidade lasciva e o impacto de um milhão de estrelas me cegou. Não fechei os olhos e, mesmo cego, continuei vendo você.

Unimo-nos por um momento que passou longo demais para ser lembrado por inteiro e demasiadamente fugaz para ser aproveitado por completo. Corações pararam. Morri um pouco e renasci acordado, não querendo voltar para o sonho, mas me certificar de que seu primeiro beijo do dia fosse tão intenso e inesquecível quanto fora o meu.

25 de outubro de 2010

Celas de Aniversário

Pelas barras das celas do pavilhão cinco já havia corrido sangue demais. No piso de ardósia estavam marcadas como tatuagens de sangue indeléveis as tentativas frustradas de fugas e rebeliões passadas. Ainda era possível encontrar um dente perdido nos cantos dos degraus sob os corrimãos de aço fundido. Não havia cárcere naquele andar que não tivesse presenciado gritos de dor e choros sufocados de ira.


Sob essa atmosfera eram tratadas as tortas índoles daninhas à sociedade: oito detentos cujos crimes expiavam vestindo com o cinza de seus uniformes os longos dias cativos. As refeições frugais evitavam a preguiça, pois suas forças eram usadas para o trabalho na fábrica de tijolos que o presídio mantinha: seus esforços ajudariam a construir a sociedade e não mais destruí-la. Os banhos de sol eram curtos e as visitas escassas. Nesses dias específicos, seus corações empedernidos se amoleciam pela presença de um ente próximo (que poderia ser uma mãe arrependida ou um vizinho apiedado) ou pela simples ausência de alma que os quisesse bem ou mal. A sensação de abandono era trágica e, somada ao discurso dos psicoterapeutas que os acompanhavam, virava argumento motivador de mudanças de hábito, de amizades e de princípios.

O processo de domar essas pessoas com características tão extremas precisava utilizar-se de todas as oportunidades para a construção de símbolos que os fizessem produzir o esforço necessário para a mudança. Se um filme era projetado numa seção de cinema, sua mensagem deveria ter um conteúdo construtivo para o processo. A biblioteca exclusiva do pavilhão cinco encerrava obras de superação e perseverança. Uma orquestrada lavagem cerebral era posta em prática naquele pavilhão com resultados mais do que comprovados.

Nas paredes dos corredores de acesso às celas, rostos expunham esse sucesso. Albely de Souza, condenado a 19 anos de reclusão por tráfico de estupefacientes. Atual proprietário do hotel Alma Peregrina. Caetano Morais, condenado a 16 anos de reclusão por utilização de inimputáveis para prática de homicídio doloso. Atual chef do restaurante Ponte do Amanhã. E muitos, muitos outros exemplos de correção conseguidos pela instituição penal.

Os oito apocalípticos aspirantes a integrados, atuais moradores transitórios do pavilhão cinco, lutavam diariamente contra suas inclinações para, um dia, terem seus retratos pendurados naquelas paredes. Mas um deles pretendia algo diferente. Algo que o elevasse à condição transcendente de messias salvador.

Condenado por formação de quadrilha, uma condenação aparentemente menor em comparação às dos outros detentos, Ramiro foi o responsável pela organização criminal mais longeva e violenta do bairro onde morava. Sob seu comando estiveram onze meliantes responsáveis por crimes das mais diversas naturezas. Era um líder nato e, como tal, tinha a eloqüência necessária para aliciar tanto marginais quanto almas retas para seus esquemas. Conhecia a todos e mantinha-os perto fazendo-os acreditar que eram seus amigos. Era muito bom nisso.

Com sua capacidade ímpar de angariar informações, Ramiro descobriu que haveria algum evento interno daqui a três meses. Seu raciocínio rápido cruzou dois dados importantes que culminariam numa fuga perfeita: distração no mês de seu aniversário. Sairia da cadeia e comemoraria seus vinte e sete anos dentro do seu antigo covil, já preparando o próximo golpe.

Pôs mãos à obra e levantou o necessário: mapas, plantas, bilhetes, favores e concessões, tudo foi feito. Desenhou o plano e o caminho que faria através dos dutos de esgoto, as galerias pluviais e os corredores elétricos por sob a carceragem. Pronto. Precisaria de exatamente oitenta e sete dias entre o início das operações e a saída ao ar livre no dia do seu aniversário.

Apenas os mais confiáveis colegas de presídio sabiam do planejamento. Por mais que se sentisse auto-suficiente, teria que compartilhar algumas informações para conseguir privilégios e, no fundo, se sentir seguro, mas, principalmente, para ter de quem se vingar caso algo saísse do seu controle.

Como um bom gerente de projetos, foi ajustando alguns planos e se colocando algumas metas intermediárias, até que no octogésimo sexto dia, conseguiu chegar à saída de esgoto que precisava. Ela estava lá, disponível e desguarnecida. Apenas um empurrão o separava da sua liberdade. Nesse dia, voltou para dentro de sua cela com um sorriso estampado no rosto. Faria as coisas agora devagar. Sua última refeição em cativeiro a degustaria com calma, como se já estivesse na laje do seu barraco com vista para o mar.

No dia seguinte, com todos os presos em suas devidas celas, viu o movimento dos guardas no horário combinado em direção ao tal evento. Esperou ansioso até que se trancafiasse o último cadeado e engendrou seu plano. Entrou pela privada contorcendo-se pelo sifão, vocês não sabem a bitola dos canos de esgoto dessas instalações hoje em dia e o quanto um perito em fugas pode dobrar-se na direção de seu objetivo. Passou do esgoto para a rede pluvial, desta para as galerias e de lá para os corredores elétricos, como havia pensado. No fim de um corredor, as luzes entravam em fachos redondos por entre os buracos da pesada tampa de aço no teto do corredor. Subiu uma pequena escada e certificando-se que a luz era somente a da lua, forçou o pesado aço com os ombros, deslocando a tampa e, finalmente, fitou a amplitude do céu salpicado de estrelas.

No último impulso, aquele que damos para colocar o corpo todo para fora de um buraco onde não queremos estar, foi surpreendido por uma forte luz. O holofote havia sido ligado. Alguém o tinha delatado. Imóvel, não ouviu sirene, nem gritos de “pare” nem estampido de tiros, mas um coro dissonante de vozes conhecidas cantando “parabéns a você” enquanto as luzes da festa ao ar livre acendiam e revelavam qual era o inusitado evento em que guardas estariam no dia de seu aniversário.

21 de outubro de 2010

Verdades

Venho revirando minha vida à procura de verdades e a única que encontrei até agora é que, por mais eternas que possam parecer, as verdades são mesmo é transitórias.

São transitórias porque nós não somos sempre os mesmos. Enganamo-nos querendo que as verdades se mantenham as mesmas tentando buscar uma coerência que a vida em si não tem. Teimamos em acreditar nelas mesmo quando elas zombam da gente já dentro do túmulo, mortas e enterradas.

Minhas verdades hoje são mais reflexo do que eu sinto do que dos meus pensamentos racionais. Se sentir raiva, essa é verdadeira. Quando passa a raiva e sinto afeto, esse é verdadeiro. Verdades absolutas são colunas dóricas em ruínas. Lindas e nos fazem refletir sobre o passado, mas são vítimas de uma tirânica obsolescência.

Verdade, verdade mesmo, é o que nos move a fazer coisas. Por isso, verdade é sentimento. Verdade se manifesta no tremor nas pernas e na contração no abdome. Quase podemos tocar a tensão no ar.

A coerência da vida ou esse prolongamento da vida útil de uma verdade só é possível com a manutenção do sentimento. O silêncio é árido e só espinho se cria nesse ambiente. Fazer uma verdade florescer diversas vezes ao longo da vida é uma questão de regar o sentimento que a sustenta. Essa água pode ser feita de saliva ou lágrimas, mas o importante é que esteja sempre fresca. Cabe-nos escolher quais verdades valem à pena serem regadas e quais devem secar e dar lugar a novas.

18 de outubro de 2010

Nova Iorque

Participo de um grupo de leitura com o objetivo de mostrar meus textos para um seleto grupo de autores mais experientes do que eu e, com as críticas, torná-los mais palatáveis a vocês, meus três leitores.

A maioria dos partcipantes escreve humor. Não é muito a minha praia, mas imbuído do espírito de colocar minha cara e minha caneta à tapa, escrevi logo para o primeiro encontro do grupo esse breve conto baseado em fatos reais, ou melhor, em uma narrativa de um amigo sobre um episódio que realmente aconteceu. Ele que me perdoe, mas queria muito anexar ao texto as caras que ele faz quando conta essa história. Não dando, aí vai:


Nova Iorque


Blue era a cor da mala que Luis acabara de despachar no check-in do aeroporto. Estava feliz da vida por ter conseguido juntar o dinheiro necessário para embarcar nessa que era a viagem dos seus sonhos: Estados Unidos. Sabia que a viagem seria solitária, mas nada tirava sua empolgação.

Desde sempre tinha curiosidade de conhecer Nova Iorque. Sabia de cor a localização das ruas que eram citadas nos filmes da TV. Tinha um mapa onde apontava os lugares como a Magnólia Bakery, melhor apple pie de NY, lá na Bleecker Street e o DeWitt Clinton Park onde disfrutaria de um passeio sossegado à margem do rio logo ali entre as 52nd e a 54th street. Mas gabava-se mesmo era de seu inglês. Sua meta era falar tão naturalmente que ninguém o identificasse como estrangeiro. Queria ter a fluidez de um cidadão novaiorquino e se esforçava tanto para falar da maneira que lhes é peculiar que chegou a se cadastrar em um desses programas de troca de cartas para se corresponder com um nativo e aprender as gírias e os palavrões diretamente dele. Era encantador ouvi-lo dizer motherfucker.

Quando juntou todo o dinheiro necessário, foi até uma agência de turismo reservar o pacote New York, New York: 4 dias e 3 noites com vista para o rio Hudson. Imperdível. O problema agora era segurar a ansiedade. Ninguém mais agüentava Luis gastando seu inglês com tudo. Não era difícil escutar um amazing quando algo o agradava ou um Oh, my! quando espantado.

Enfim chegou o dia do embarque e, como dito pelo próprio Luis insone, couldn’t sleep at all. O check-in correu bem. O embarque foi ótimo. Luis reservou uma poltrona na janela pois queria ver a cidade se descortinando aos poucos sob as nuvens. Estava absorto nesse pensamento com o avião já no ar quando foi interrompido pela aeromoça:

- Rélougentoumanduiuuantiuaitiuain?

Luis não se fez de rogado e emendou quase instantaneamente, pedindo que a aeromoça repetisse a frase pois não tinha prestado attention:

- Duiu-uanti-uaitiuain?

Nervoso, Luis hesitou um pouco mas pediu novamente que repetisse:

- Duiu-uantuaiti-uain?

E isso ocorreu mais umas duas ou três vezes até que o senhor sentado à poltrona da frente perdeu a paciência e levantando, berrou “PORRA, DO... YOU... WANT... A... WHITE... WINE? WHITE WINE! VINHO BRANCO, ANIMAL! VOCÊ QUER UM VINHO BRANCO?

11 de outubro de 2010

Calmaria

Os barcos boiavam na enseada de mar liso. Naquela hora da manhã nem os peixes estavam acordados, mas já havia fogo aceso e pão na mesa das casas dos pescadores. As mãos grossas rematando os últimos ajustes das tarrafas para que nem uma pequena manjuba pudesse escapar, não vacilavam com o fio tenso e forte entre os nós que só eles conseguiam fazer e desfazer, mais firmes que os nós de seus próprios dedos.


As redes eram como extensão de seus corpos, seguiam cardumes para num abraço trazer para si a fartura que o mar lhes reserva. A cada um sua parte, ao peixe a certeza de cumprir sua predestinação submissa ao anzol. Os magros pescadores, espíritos naquela manhã ainda sem luz, cambaleavam seus passos sonolentos até a praia carregando nas costas o branco fardo de malha que lhes alimentaria o ventre e a esperança. Um dia no mar era um dia sagrado, uma noite em terra, abençoada.

Em pouco tempo, uma pequena multidão postava-se ao píer, silenciosamente desejando boa ventura aos que saiam. A lua cheia ainda insistia em encontrar o sol, presságio de mar cheio e povoado. Os barcos saiam um a um, sem pressa, jogando pra lá e para cá seus tripulantes e formando uma leve espuma que subia ao ar e voava até os olhos das mulheres, cabeças cobertas por panos, chorando o medo de que o mar lhes tomasse seus maridos. Lágrimas apreensivas de uma saudade antecipada ou possível ausência permanente.

E elas seguiam acompanhando a partida até não verem mais do que pontos negros contra o laranja da manhã. O sol emergia do mar no horizonte e por alguns instantes, o próprio mar era luz. Uma estrada dourada ligava o píer e os barcos e, por trás destes, no céu livre de nuvens como pano de fundo, as gaivotas iam alto guiando os pescadores na direção correta.

Sob a coreografia das aves estacionadas no ar, os barcos jogavam seu véu branco sobre aquele azul reluzente. Havia um ritual a ser cumprido, como um código de ética passado de geração em geração: os primeiros peixes eram das gaivotas, como uma oferenda pela eterna ajuda. Banqueteavam-se e diminuíam os cardumes, facilitando ação das tarrafas. Pescar era uma liturgia que, se encenada de forma correta respeitando as deidades, elas lhes garantiriam as dádivas.

E enfim os pescadores desenrolavam a seda sobre a água. Num movimento de ossos aparentes sobre as peles fustigadas por tempo e sol, eles a atiravam como suas próprias bocas a engolir do mar o necessário. Com as redes baixando sobre os cardumes, os barcos davam meia-volta devagar em retorno á praia e, na areia agora deserta, amarravam numa única todas as cordas de todas as redes, como uma goela por onde todo esperado peixe passaria rumo à saciedade daquela gente.

A corda então ficava tensa a meio metro do chão, uma luta entre elementais. De um lado, esquálidos e numerosos, os homens tentavam trazer o mar. Do outro, o mar egoísta lutava para manter dentro de si o que lá nasceu. E a disputa era desigual. As crianças perguntavam sobre o tamanho do peixe que viria imaginando grandes baleias e monstros enrolados na praia.

Invariavelmente a persistência dos homens vencia a teimosia do mar. As redes repletas chegavam à praia com prejerebas e robalos. Peixes simples para barrigas simples. De vez em quando, um xaréu ou um tarpão sobressaía entre a espicha menor e era dado ao pescador mais velho.

Excitados e famintos ao redor do frenesi dos peixes na água rasa, os pescadores dividiam a pilhagem marítima e levavam suas partes de volta para casa, lareiras acesas aguardando a segunda e última refeição. Os barcos descansavam ancorados à margem enquanto os corpos procuravam ancorar-se uns aos outros, voltando, o mar e as vidas, à lisa calmaria do final da tarde.