7 de dezembro de 2012

O Encontro de Clotilde

Clotilde pediu para sair mais cedo, inventou que precisava levar sua irmão ao médico. A patroa desconfiou da existência de irmã mais misteriosa e não menos misteriosa doença que acometia subitamente requerendo atenção prestativa da ama de tantos anos e confiança.

Clotilde não podia revelar mas tinha planos para aquela noite. Dias atrás renovara o quartilho do perfume favorito, mimo ao qual se reservava apenas no Natal ou, atualmente, no velório de alguma amiga mais próxima cujos quase oitenta nos de vida vinham subtraindo com cada vez mais frequência de seu convívio.

As tantas conduções que tomava até sua casa nem a eternidade do trajeto eram suficientes para esmorecer Clotilde de seu plano. Chegando, calmamente preparou a si e a casa para a ocasião. No banheiro, abriu um sabonete novo e atirou o velho, craquelado de saudade, no lixo. Seu vestido já estava passado desde a noite anterior, assim como a anágua rendada e o lenço de cetim que manteria à mão para o caso de alguma emoção maior derramar-se pelos olhos.

Desistiu das luvas, coisa antiga, pois queria parecer mais jovem e era Dezembro. As várias camadas de roupa lhe dariam calor suficiente para preocupá-la com um possível suadouro incontrolável na hipótese de as coisas realmente esquentarem. Mesmo com oitenta anos experimentava calores súbitos que não eram efeito da menopausa.

Então, antes de rechear todos aqueles panos, Clotilde preparou o jantar. Era uma especialista em agradar e, hoje, queria ser agradável mais do que nunca. Hábil que era na instrumentação cirúrgica da culinária, não tardou para que a carne assasse e ficar pronta ao mesmo tempo que o arroz, o feijão, tudo cronometrado pelos anos de experiência.

Do armário resgatou a toalha de mesa que um dia esteve sob seu bolo de casamento e, noutro, sobre o rosto de seu finado marido. Agora, depois de tanto tempo, não importava mais aquele passado, por mais brilhante que tivesse sido, como também não importava a apagada vida solitária que vivia já há trinta anos. A toalha, uns cinquenta. Talvez mais. Se tivesse tido filhos provavelmente teria mais facilidade, ou vontade, de medir o tempo com maior precisão pois não há relógio tao acurado quanto o que palpita num peito de mãe, dizem.

Toalha à mesa. Louça branca e os melhores talheres. Guardou no fundo da despensa os copos de geléia de mocotó acumulados ao longo dos anos de regozijo com a sobremesa e substitui-os na mesa por duas taças de vinho. Nunca tomara vinho mas sabia que para a ocasião deveria servi-lo. Não era fã de bebidas de qualquer genero, ainda mais tendo elas levado o dito marido com um fígado mais inchado e espumoso do que o normal. Ainda hoje, quando bebia, nenhum gosto era mais forte do que o do finado beijo. A garganta ardia menos que o peito de saudade. Chegou a pensar em abrir uma sidra mas seria espalhafatoso demais e, afinal, não havia ainda o que comemorar. Por isso deixou-a de lado até que o Reveillon chegasse. Não estava longe.

Tudo pronto na cozinha, retirou-se para o banho que poderia ser demorado, minuncioso e relaxante. À falta de um secador em casa, havia passado ante no salão e armado o cabelo num penteado que lhe agradava e que preservou dentro de uma touca sob o chuveiro fraco. Sentou-se à penteadeira enrolada na toalha mais felpuda e sorriu para si mesma no espelho. Tateou sem tirar os olhos do reflexo e levou às orelhas os brincos herdados da avó. Duas pequenas argolas douradas. Simples, mas que contrastavam tão bem com a pele morena de Clotilde que se ela não tivesse olhos brilhantes, chamariam mais atenção.

A noite caía vagarosamente lá fora enquanto Clotilde calçava seus sapatos de salto alto. Certificou-se mais uma vez no espelho se tudo estava no lugar e ajeitou um cílio revolto com a pequena escovinha da máscara. Correu a mão pelos lados do corpo sobre o vestido e se sentiu preparada.

Na sala, faltava um toque final. Pegou a lista telefônica e pôs na cadeira à sua frente do outro lado da mesa. Em cima dela pôs o pequeno televisor e sintonizou o canal da novela, que ainda não tinha começado.

Clotilde teve tempo de servir o seu prato e um prato à frente da TV com quem partilharia, finalmente aquele romântico jantar. Encheu as duas taças de vinho a tempo de brindar um sonoro "tim tim"e suspirou assim que o Tarcísio apareceu na tela.

25 de novembro de 2012

Ipê amarelo

As costas de D. Alba estalaram quando ela levantou-se depois de tanto tempo agachada plantando aquela muda de ipê. O verão ainda não estava no auge e mesmo próximo do meio-dia o calor não sufocava e uma brisa vinda do jardim do outro lado da rua amenizava o sacrifício daquela senhora meticulosa ao pé do canteiro.

Era um ipê, não se sabia de que cor. Um dia ele seria frondoso e debaixo da sua sombra brincariam seus bisnetos que ainda não haviam nascido mas que, ela tinha certeza, estavam a caminho. E a notícia do casamento da primeira neta só aumentava a sua esperança.

Naquele mesmo lugar um outro ipê já vivera por muito tempo e D. Alba, muito antes de seus cabelos tornarem-se plúmbeos, ali descansava e lia suas histórias enquanto seus irmãos brincavam rua acima. Mas os tempos mudaram e a rua foi asfaltada. Os vizinhos se mudaram e os novos não ligavam para a sombra da árvore. Para eles, ela apenas ocupava uma vaga de carro. E mais carros viriam. E com o tempo e com os carros, veio também a gasolina que os vizinhos usaram para regar o grande ipê amarelo e causar-lhe uma dolorosa morte. Dolorosa não mais para a planta do que para Albinha que tanto gostava dela.

A árvore foi rapidamente encolhendo enquanto Alba crescia e as pessoas deixavam para trás o diminutivo de seu nome e ela era então só Alba, o que já era muito. Seus pais já haviam partido e o tronco enegrecido da árvore afogada em gasolina fora enfim retirado por seus filhos que tiveram todo o cuidado em manter um canteiro no lugar, provavelmente a vingança velada ao vizinho e sua pretensão estacionar ali.

Os filhos mesmos gostariam de estacionar seus carros em frente a casa de D. Alba. Isso facilitaria muito o trânsito dos carrinhos de bebê e bolsas de fraldas que agora pululavam pela casa antiga e davam novo ar à vida daquela senhora. Enquanto os netos cresciam, ela mostrava fotos do antigo ipê à frente da casa com uma nostalgia que impressionava as crianças. Ela sempre fora boa em contar histórias e, principalmente, piadas. Era a avó que as crianças mais gostavam e era-lhe natural esse carinho. Não fazia grandes festas nem comprava-lhes com doces ou mimos superficiais.

A primeira neta cresceu e aprendeu com ela a coser, tricotar e cozinhar, cultivando um carinho mútuo e uma confiança com a mesma diligência que tirava as ervas daninhas e as formigas do canteiro. E, no dia do seu casamento, o carro deixou a ela e seu marido, à frente desse canteiro onde a pequena muda de ipê havia sido recém plantada. A casa de D. Alba sempre fora o centro gravitacional da família e incorporava os corpos, celestes ou não, que entravam e saíam dela. Uns rápidos como cometas enquanto outros em órbitas milenares.

A árvore crescia na mesma medida da ansiedade de descobrir a cor de suas flores que D. Alba mantinha dentro de si. Desenvolvia-se saudável, seu caule deixara de ser de um verde frágil e agora ja tinha a casca maleável que precede os grandes troncos. Suas folhas mínimas já dava lugar a línguas largas a pender pesadamente da ponta dos galhinhos mais audaciosos que buscavam o sol.

Por longos anos D. Alba assistiu esperançosa o surgimento dos botões que não se abriam. O clima, quente demais, frio demais, vento demais, sempre explicavam o fato de até agora nenhum botão ter brotado. Até que, num outro verão, o nascimento da primeira bisneta acalentou ainda mais o sonho de ver a cor do ipê, finalmente. Já era hora de crianças voltarem a correr e berrar pelos corredores da casa e  pelas calçadas da rua. Só assim o ipê teria a energia que precisava para enfrentar o clima cruel que matava, ano a ano, suas flores.

Mas, algum tempo depois, o ipê como que parou de crescer, estacionou. Era comum ver cair as folhas verdes, saudáveis de seus curtos galhos. Estava da altura de D. Alba agora e ela podia conversar com ele olho no olho e era com uma reverência que ela se agachava todo dia para regar-lhe as raízes e arear-lhe o solo. Um dia, a situação se agravou e D. Alba viu a casca do tronco do ipê encher-se de um branco não natural, como um pó a cobrir suas rasas reentrâncias de planta jovem.

Foi quando ela soube que o casamento da primeira neta não estava indo bem e a separação era inevitável. D. Alba temeu nunca descobrir de que cor seria o ipê. Gostava de pensar que o redondo do mundo devolveria a ela o ipê amarelo de sua infância e que, daquele passado, reviveria as alegrias sob o frescor de sua sombra com os bisnetos nos braços, ensinando a coser e contando histórias.

O sal de tantas lágrimas fizeram o ipê secar e secar e nem o empenho de D. Alba nem seus inúmeros artifícios fizeram voltar a saúde à planta. Desenganou-se. A desilusão foi como a gasolina e tirou-lhe a vida e D. Alba mesmo foi perdendo o viço. Deixou-se abraçar pelo sofá e a televisão. A correria dos netos e a gritaria dos churrascos não aplacavam a grande perda de seu ipê e, com ela, a certeza de que o passado não volveria e se perderia num olvido gradual e lancinante. Acompanharia a morte da esperança pela janela, folha a folha.

Mas sua rotina de UTI botânica mantinha-se. Não optou por nenhuma ortotanásia e continuou a adubar a terra, regar e retirar as ervas mesmo não cultivando mais sonhos de recuperação. E, neste processo, surpreendeu-lhe um pequeno broto num dia, bem cedo, camuflado por gotículas de orvalho ou da chuva que caíra na noite anterior.

Aproximou-se bem para ver se aquilo era realmente o que pensava ser e teve que entrar em casa para buscar os óculos de perto no intuito de certificar-se. De pertinho, achou que a chuva tinha lavado embora o pó que cobria o tronco e não restava sinal deve na terra aos seus pés. Uma nova faísca incendiou-lhe o peito e veio à superfície traduzido num breve sorriso.

Entrou novamente buscando o telefone mas enquanto ainda procurava no caderninho o número da primeira neta, ele tocou. Era ela própria e queria lhe contar novidades em primeira mão. D. Alba soube, então, que as flores seriam mesmo amarelas.

29 de outubro de 2012

O Vestido

A costureira espetou-se com a agulha enquanto pespontava a última prega bordada do vestido. Sem saber, batizava-o com sangue e iniciava-o para o cumprimento de seu destino.  Afastou-se com o dedo magoado à boca exclamando pelos olhos algo como o "parla" daquele outro grande artista porém mais como uma feiticeira a imputar-lhe propriedades sobrenaturais.

Fora o vestido concebido para gala, seu corte sóbrio desenhado para não chamar nem tanta nem pouca atenção para si mas, sim, para esmeraldas expostas nos colos ou dependuradas nas orelhas de suas futuras donas.

Seu toque era macio e sua cintura drapeada marcando-a conforme a moda. Sua cor neutra era a cúmplice do bem que fazia aos aspectos naturais de quem o usasse. Não havia olhos de quaisquer cor ou cabelos por mais armados ou soltos que fossem que não se dispusessem perfeitamente sobre a cobertura dos ombros e colo expondo a público o que deveria ser mostrado apenas a dois enquanto escondia aspectos mais promissores debaixo de si.

Ele vestia até pouco abaixo dos joelhos com discretos cortes laterais porém tão reveladores durante o movimento que mal se notava a falta de decote. Para compensar essa falta, marcava o volume dos seios com linhas estrategicamente cerzidas a sustentar-lhes sobre a afinação da cintura. O resultado era um glamour pin-up, refinado e espevitado.

Mangas curtíssimas revelavam braços esguios e toques gentis. Fechava-se às costas num longo e lânguido fecho eclair até o coccix apenas torneando a silhueta da curva mais bela de qualquer mulher.

Vesti-lo era uma obrigação, pensou ela naquela noite. O vestido que havia passado de geração a geração insinuou-se de dentro do armário. Tanto tempo após sua concepção. Tantas paixões, ciúmes e suicídios. Ciente de seu poder, ela dispensou as jóias, perfumes, maquiagens e exageros. Seria apenas ela, seu corpo, a ser o foco da mágica. Sua própria beleza a emancipar-se, como se despida de tudo porém sob uma armadura de luz e sombras a mexer com a imaginação de todos, principalmente daquele que a esperava.

E o efeito foi fulminante ao vê-la caminhar a curta distância que os separavam. Ela parecia saltitar, flutuar. Examinar as dobras perfeitas do vestido dançando a cada passo, provocantes em toda a complexa simplicidade com qual uma obra de arte vive e vibra.

Quando se encontraram, o vestido performou sua mágica. Um ímã, uma pederneira a atirar faíscas a cada toque, carinho e beijo até o fecho deslizar por completo e sublimar-se, o vestido, sobre as costas de uma cadeira, a observar sua obra completa, seu dever cumprido. Mais uma paixão cultivada e consumada, sem superfluos, só beleza e mais nada.

19 de outubro de 2012

Mesmos

Mesmo se o céu, mesmo se o mar
Mesmo se um dia tudo mudar
Mesmo se a noite nunca acabar
Mesmo se o sol parar de brilhar
Mesmo se a distância nos separar
E o olho secar e o peito apertar
Mesmo que a vida me force a lutar
Mesmo se a lua não iluminar
E pelas ruas eu continuar
E sentado na esquina eu tiver que esperar
E durante as festas eu me maltratar
Mesmo se palavras eu não encontrar
E mesmo se a música parar de tocar
Mesmo se a lembrança se embaralhar
Mesmo se o mundo parar de girar
Mesmo que as ondas tentem me afogar
Mesmo se a mistura nunca funcionar
Se a cadeira quebrar e a corda arrebentar
Mesmo que não tenha quem me consolar
Ou um copo gelado a me confortar
Mesmo sem colo onde repousar
Mesmo se tudo me condenar
Mesmo se a chuva parar de molhar
Ou se em fogo eu me incinerar
Mesmo se um dia eu esquecer seu olhar
Mesmo se nunca mais voltar
Jogado num canto escuro do bar
Ou ajoelhado na nave a orar
Mesmo que já não sobre lugar
Mesmo que eu tenha que me apertar
Mesmo se a brisa parar de soprar
E o sétimo inferno vier me buscar
Se o paraíso me rechassar
Se meu mais caro amigo me abandonar
Mesmo se um dia eu sofrer sem chorar
Ou mesmo viver sem ninguém magoar
Mesmo se tudo ficar como está
Mesmo se o afeto não impressionar
Se no fundo já esteja farto de esperar
Não se engane, querida, não vou descansar
Enquanto em meus braços não te embalar
E de olhos fechados me ouvir sussurrar
O quanto de amor eu lhe tenho para dar.

19 de setembro de 2012

Quando o dia raiar

Quando o dia raiar, não terás mais tormento
Não terá mais sentido o lamento
o sussurro que me chega do fim
Não abrigarás sentimento
que julgas ora bom ora ruim
Quando o dia raiar, o sol trará grito e aplauso
abraço entremeado de riso
corpos entregues ao mesmo movimento
Lembra que a noite passou num instante
e que, exausta, de peito arfante
ainda via a  beleza daquele momento

Quando o dia raiar te esqueças da dúvida
a se concentre na dádiva
o bem que faz amarmos assim
E quem sabe outra hora, em outro ambiente
num dia que te encontres contente
por receber o tanto de amor que flui de mim
possa enfim libertar o sorriso, espontaneamente
esse lindo sorriso que sob corrente
você guarda fundo dentro de si
Nesse dia, o sol nascerá a pino
e de longe se escutará o sino
solitário anunciando o fim do fim

Quando o dia raiar, terás tudo e de peito leve
e aquilo que tem sido lindo e breve
fará parte do todo que és tu por completo
permanecerá na memória, indelével
resistindo com energia invejável
como a imagem de nós refletida no teto
Corro o risco então da loucura
de mãos dadas num dia e noutro à procura
das tuas palavras que me dão sustento
do teu beijo que me percorre lento
e dissipa a mais profunda amargura
Da nossa sintonia pura que é meu alimento
sobrevivo de ti com toda fartura
enquanto estiver no teu pensamento

11 de setembro de 2012

Saudades 1

No meio do dia tropeço na saudade. Doído, meu peito arde por não sentir-te sobre ele. Tu cabias inteira ali respirando entregue ao sono. Mesmo crescida me confiava em abandono.
Onde estão teus chutes que, mesmo pai, senti à noite. Onde está seu choro ao qual, mesmo insône, socorria-te.
Teu sorriso que é meu. Teu jeito que é meu. Cada dia mais longe e eu, comprimindo a tristeza, a falta, o cinzento do dia que é o dia sem te ver.
Não te esqueças de mim, peço eu ao anjo invisível, desconhecido enquanto escrevo. Tu és a coisa mais importante para mim. Sinto a ausência dos teus pequenos braços, da tua confiança, da tua rebeldia e obediência. Da tua voz gargalhando e chorando, negociando. Seu corpo que eu cuidei tão bem. Estalar seus dedos, secar suas lágrimas, pentear seus cabelos. Rir, correr, cair, brincar. Minha infância é sua. Sua infância é a minha segunda chance.
Se me arrependo de algo é a distância entre nós. Se choro por algo é a falta que você me faz. Se torço por algo é que passe logo e fiques do meu lado uma vez mais, tanto quanto quiser.
Cresça comigo, converse comigo. Sua inocência, suas confidências, seus segredos. Nossas mágicas. Cócegas, café-da-manhã com seus pés sobre minhas pernas. Te lembrarás disso?
Teu carinho, teu abraço. Choro, choro e choro sentindo a sua falta.

28 de agosto de 2012

Cortina de Fumaça


Ouço teu sussurro mas não sinto
seu hálito, teu sorriso invisível
teus passos, a porta se abrindo
e eu nesse espaço vazio
Tuas doces palavras amargas
o abdome se ressente
enquanto a distância de cura
é a mesma de dor e conflito

Estamos perdidos, procurando explicação
uma nova epifania, um estado de graça
entre tanta simulação,
silhuetas e cortina de fumaça

Então me pergunto o que será no fim
quando todos desligarmos os aparelhos
e olhando dentro de mim
me acostumar com a sala de espelhos

E tudo é lindo quando é novo
e quando novo tudo é tão terno
pode ser um amor proibido
ou um abraço fraterno

Um dia o vento leva toda a purpurina
e perde a fada a asa cristalina
e o vinho não passará de vinagre
sob a cortina de fumaça das velas
que imploram sempre um novo milagre
____________________________________

Com o fim da luz vem uma outra
e mais uma e mais uma
como um sol transladando a minha volta
e eu contendo a revolta
procurando mundo afora
um lugar que me receba
companhia que me beba
até o raiar da nova aurora

21 de agosto de 2012

Tentativas


Eu que já tentei de tudo
Fiquei cego, surdo e mudo
E de nada adiantou
Me atirei em outros braços
Tirei mil novos retratos
O seu nunca desbotou
Já joguei as roupas fora
E a lembrança ainda aflora
Um broto de erva daninha
Eu renovo o meu canteiro
Me ocupo o dia inteiro
Debruçado à escrivaninha
Inventando tantos jeitos
De lembrar só teus defeitos
Que esqueci de decorar
Lembro a cor da sua unha
E as loucuras que propunha
Só para a gente se encontrar
E quanto mais esforço eu faço
Para sair desse embaraço
Mais me enrolo no novelo
Até a Buda eu hoje clamo
Para me esquecer de que te amo,
teus carinhos, teu desvelo
Mas não há santo que dê conta
Desse amor que ainda desponta
E me tira deste mundo
E eu sufoco, escondo e mato
Mas ele, como um desacato
Vai e volta mais profundo
Se escondendo nessas poucas
Irreconhecíveis bocas
A que me levam tua ausência
E eu tentando não lembrar
Não faço mais que recordar
E ao calar, peço clemência
Por favor, me deixa em paz
Tenha dó desse rapaz
Ó sentimento dolorido
Que não morre ou se desfaz
E que também não volta atrás
A reviver o colorido
Fica nesse lusco-fusco
A se arrastar como um molusco
Ruminando idas e vindas
Queria só por um momento
Um bem breve esquecimento
Que assoprasse essa ferida
Já seria um bom alento
Contra esse grão tormento:
Que é lembrar por toda a vida

13 de agosto de 2012

Ossos


Os ossos quebrados estalavam como bambus vergando sob vento forte. A essa altura não havia mais palavras, sequer os típicos xingamentos. Apenas o som de punhos e unhas violentos encontrando pele, cartilagem e órgãos. Uma pirotecnia de sangue voando pelos ares, pintando pranchas Rorschach pelas paredes.

Ela disse o que tinha que dizer, como sempre, e ele calou-se. Era a estratégia de ambos para opor-se ao sofrimento: atropelamento e fuga, respectivamente. O apartamento ficou pequeno demais para tanta verdade e mágoa contida, a ponto de a ausência causar mais prazer do que dor.

Os olhos azuis dele já não tinham fogo ou paixão e ela tampouco mordia mais os lábios de excitação. Seus toques eram burocráticos, cheios de drible, evitando os pontos que acendiam lembranças e vontades. Seus beijos eram secos e a sede era por uma nascente que não jorrava mais de dentro de nenhum dos dois. Eram desertos no meio de um vasto oásis.

A cotidiana administração da casa tornou-se o alicerce da união e a qualidade do tempo que passavam juntos era um gráfico em queda vertiginosa que daria arrepios a qualquer CEO. Por outro lado, se esquivavam dando asas às suas mais rasas necessidades, compensando a ausência de alma com o excesso de coisas.

Os diálogos rareavam e nem as condições do tempo ajudavam o conteúdo. Cada um nutria sua própria distração independente, cultivando cactos dentro de si. Entorpeciam-se de informação que não trocavam, numa disputa cujo vencedor seria o melhor ator, o que parecesse menos afetado.

Deram um último beijo há algum tempo. Na verdade, desde então se deram vários beijos, mas nenhum deles como esse último, lá atrás. Haviam passado a tarde caminhando pela praia vendo o sol se pôr e tomando água de côco. Pareciam tão felizes com as mãos entrelaçadas contra a brisa úmida que nem imaginavam o potencial destrutivo a fermentar sob os peitos suspirosos e palavras doces.

Aquele mel foi cristalizando na medida em que a brasa da relação esfriava. Quando se encontravam, gaguejavam, tremiam, perdiam o raciocínio no meio das frases, pareciam distraídos um pelo outro. Mesmo com a casa vazia, havia uma aura suave pairando à meia parede, uma atmosfera acolhedora que abraçava a ambos, muito antes de as manchas aparecerem sob suas retinas.

Não se lembravam mais de terem confidenciado amor eterno um ao outro. A primeira vez não tinha mais relevância, não sustentava qualquer sentimento ou memória que levasse sequer à autoindulgência. Quando havia algum sexo, era permeado pelo egoísmo de ambas as partes, pois quando atingiam o êxtase era apenas para se distanciarem ainda mais no instante seguinte. Tomavam banho para tirarem de si qualquer resquício do outro que pudesse incomodar.

Hoje, colhiam os louros de uma escolha apaixonada e precoce. O sangue que escorria na parede e empoçava no chão era o banquete para o qual a vida os convidara e no qual apareceram com os trajes errados. Chegada a hora de despirem-se, souberam que um não tinha fome do outro, ou melhor, jantarem-se não era mais o suficiente.

9 de agosto de 2012

Indios

Todos os dias a tribo se reunia em volta da fogueira ao início da queda do sol por trás da grande montanha. As mulheres chegavam primeiro e alimentavam seus filhos com o que havia de melhor, era deles a prioridade. Antes que terminassem chegavam os homens da tribo com seus melhores cocares e pinturas,  adereços coloridos e chocalhos para a distração final dos pequenos cujas barrigas arredondadas de vermes e comida fresca reluziam ante o crepitar do fogo.

Em pouco tempo dormiam e as mulheres os aconchegavam nas pequenas redes rentes ao chão dentro das ocas, infinitos galpões com teto de palha e enormes vigas de madeira que sabe-se lá que entidade ancestral os pusera de pé. Aquecidos sobre as mantas de pele de jaguatirica, elas os deixavam para acompanharem seus homens sob o calor das enormes achas que agora queimavam violentamente no centro da aldeia.

Terminada a refeição o grande pajé levantava-se não sem dificuldade, ajudado pelos mais próximos e, pronunciando palavras estranhas, atirava ao fogo folhas e sementes sagradas que desapareciam instantaneamente na fogueira exalando inconcebível perfume, como se o cheiro da chuva pudesse misturar-se ao aroma de um beijo. Dessa fumaça, dizia o pajé em língua incompreensível, viriam as melhores sortes e os mais augustos sonhos que cada um da tribo pudesse imaginar.

Em pouco tempo, a negra fumaça dava lugar a uma outra, branca e cintilante, quase tão reluzente quanto a profundeza das chamas de onde vinham, e traziam consigo pequenas cinzas ainda em brasa que grudavam nas pontas dos narizes e cílios dos índios mais friorentos. Gesticulando ainda e cada vez mais febril, o pajé ia de rosto em rosto indagando o que cada um, de olhos fechados, via.

Kalita via somente Aielo correndo no prado, arma à mão e cabelo ao vento, atrás da caça. Aielo via somente Kalita banhando-se no regato. E ambos já não sabiam se o calor que sentiam era da fogueira real ou da imaginária que consumia seus pensamentos entrelaçados pela fumaça. Kalita via Aielo em sonho e em sonho compartilhavam-se. Aielo tinha Kalita em sonho como ela o tinha em seu próprio. 

Aproximados pelo grande fogo, em seu calor se consumiam, corpos trementes, suados, malhados pelas chamas que iluminavam a aldeia sob o céu recém pintado de escuro. Nenhum olho se abria e, ainda assim, via-se cada vez mais enquanto o pajé conduzia a cerimônia entre os índios entregues a seus devaneios. Kalita e Aielo, no prado ou no regato, ambos sonhavam-se vívidos, semi-despertos, e mantinham-se fielmente a cada final de dia, a cada inspiração e a cada expiração.

A voz do pajé diminuía. O grande fogo arrefecia. A luz do dia evanescia substituída pela mão negra da noite salpicada de estrelas. O transe desacelerava. As respirações se acalmavam. Alguns deixavam-se cair ao chão exaustos. Kalita abria os olhos e do outro lado da fogueira encontrava os de Aielo em sua direção. O suor e a fumaça irritavam olhos e gargantas enquanto aqueles peitos ainda ardiam.

Quando a fogueira se apagava por completo, os índios davam as mãos e agradeciam o repasto e o sonho, como se tivessem satisfeito corpo e mente naquele banquete e retiravam-se de volta à infinita oca, sob o zumbido dos moscardos e o ronronar das crianças enquanto os vaga-lumes se confundiam com as últimas cinzas ainda acesas levadas pelo vento para longe dali.

Kalita tirava de si a fuligem negra num demorado banho no regato, enquanto Aielo alcançava suas armas e corria até o prado a garantir que os pequenos tivessem o que comer no dia seguinte. De longe, ele a via banhar-se enquanto ela o via correr e ambos esperavam que a cerimônia da noite seguinte entregasse um ao outro novamente sob o calor das mesmas chamas, o travo da mesma fumaça e o incompreensível das mesmas palavras.

31 de julho de 2012

Carta para mim no futuro

Rio, 25 de Julho de 2012, 23:59

De: Fabio de 2012
Para: Fabio de 2022

Fala, cara. Tudo bem?
Estou aqui no último minuto dos nossos 33 anos e me lembrei de você.

Espero que tudo esteja bem e que as escolhas que fiz tenham sido proveitosas para você aí no futuro. É pelo que eu sinceramente torço uma vez que fazê-las hoje me custaram mais dos poucos cabelos que tu sabes tão bem quanto eu como são raros, se é que aí daqui a 10 anos ainda restam.

Aqui, com 33 para 34 anos, acho que já vivi metade de nossa vida. Deixo aqui então um apelo para que tente tão arduamente viver bem a metade final quanto eu venho tentando viver a inicial. Você vai ver que não será fácil, mas acho que você consegue, uma vez que já será mais vivido que eu, mais experiente e mais preparado para todas as preocupações que eu deixei aí para você.

Tenho certeza que agora vem a metade mais complicada da nossa vida. A primeira foi moleza, teve a infância que consumiu boa parte dela e, da juventude, deixo para você belas lembranças que deverão ser o combustível e o equilíbrio que você vai precisar nos momentos mais difíceis que certamente virão. E quando vierem, lembre-se das pitombas, das pitangas e da cana-de-açúcar lá em Vila Valqueire. De catar a bola com nojo de dentro do rio no Grajaú, da manga atirada pelo primo que abriu o lábio e sangramos feio pela primeira vez. Das tardes sobre as pedras em Guarapari e das madrugadas sobre as dunas de Cabo Frio. Daquela noite no Bairro Peixoto. Daquela tarde que estabeleceria os quinze anos seguintes ou daquele momento que parou no tempo em que soube a importância da diferença entre um e dois traços azuis num pedaço de plástico.

Tomara que ainda estejam aí contigo nosso pai e nossa mãe pois foi  por causa deles que tudo isso aconteceu. Sem o amor deles nem eu nem você poderíamos estar agora nos correspondendo. E se acaso não estejam, estarão certamente em lugar melhor do que eu e você estamos. Mas nunca os deixe fora da sua vida como eu muitas vezes fiz por imaturidade, orgulho e essa necessidade urgente de liberdade que, sabes bem, acalentamos no fundo do peito e tatuei no alto das costas.

E que vontade de saber como anda a nossa filha aí no futuro. Quatorze anos. Em breve debutará. O que ela quer de presente? Uma viagem? Dançar contigo a valsa como dançou tantas vezes comigo nos quatro anos que vivemos juntos? Dê dois beijos nela, um por mim e outro por ti aí no futuro e não descanse no cuidado, na atenção e no carinho dedicado a ela pois foi o que fiz até hoje. Não tenho dúvidas que está sendo bem cuidada pois, se tudo continuar como está hoje, não lhe faltará amor de quem quer que seja.

Deixei para ti uma dúzia de bons amigos em quem você pode confiar. Não deixe eles de lado e dedique-se a eles como eles se dedicaram a mim durante esses 33 para 34 anos. Dê-lhes a sua atenção e compartilhe com eles seus problemas, beba umas com eles de vez em quando. Confia em mim, a conta do bar é mais barata que a da terapia.

Tenha paciência, mais paciência com as coisas do que tive eu até hoje. Escute nossa intuição. Não sei de onde ela vem e, se descobrir, não a largue de mão. E, principalmente, não se violente. Saiba onde estão os limites que tanto ralei para descobrir. Não gostaria de saber que você aí do futuro ainda desrespeita as fronteiras que com tanto esforço lutei para estabelecer.

E, por fim, aproveito para te fazer um pedido. Perdoa. Perdoa todos aqueles de quem trago mágoas e não fui forte o suficiente para perdoar. Mas principalmente, perdoa a ti mesmo, ou a mim, já que a maioria dos erros cometidos em nossa vida fui eu quem os cometi. Então, perdoa a mim e estará perdoando a ti mesmo. E com o perdão desses erros você estará livre para tentar acertar um pouco mais. 

Uma pena você não poder daí do futuro me mandar uma mensagem para o passado e aplacar a ansiedade que tenho de confirmação ou não do bom ou mau trabalho que fiz até hoje.

Espero que esteja bem, saudável e feliz.

Um abraço.

Fabio


25 de julho de 2012

Efeitos do Silêncio

O sol entrou pela fresta da cortina dissipando a escuridão que envolvia Plínio no sono em que estava desde cedo da noite anterior. Aos poucos a nesga arrastou-se dos pés à cabeceira da cama demorando-se cruelmente sobre as pálpebras fechadas. No sonho, a tradução era um flash idílico de um momento inesquecível que se eternizava em fotografia, despertando-o no momento do clique.
Acordado, virou-se de lado ainda sem abrir os olhos preferindo feri-los não com a natural luz solar mas com a de led de seu aparelho celular pousado na mesa de cabeceira onde checou as horas. Era cedo ainda. Procurou mensagens, e-mails e outras tantas formas de interação possíveis daquele dispositivo e não achou nenhuma.

Levantou-se enfim e, passando pela sala, tocou de leve o botão da secretária eletrônica que nada lhe respondera. Suspirou continuando em frente até a cozinha onde aproveitaria o tempo de que ainda dispunha para um café-da-manhã tranquilo, coisa que não fazia há tempos. Tirou algumas frutas da geladeira e preparou-as para batê-las no liquidificador. Hesitou por um segundo antes de ligar o aparelho, como era cedo ainda, não gostaria de acordar todos os vizinhos que estariam certamente dormindo àquela hora, mas passado o breve lapso de humanidade e esfomeado pelo longo período de jejum, Plínio largou o dedo no nível máximo chegando a fechar os olhos antecipando a dor que o barulho indesejável causaria aos seus ouvidos. Foi abrindo os olhos devagar surpreso ao sentir o aparelho entrar em funcionamento apenas pela forma como vibrava nas suas mãos sem barulho algum. Chegou a bater com força para ver se o aparelho gritava como era de se esperar, mas ele continuava apenas a tremer, talvez de medo de apanhar mais, enquanto transformava as frutas na vitamina matinal de Plínio.

Como a sonolência e a fome superavam naquele momento a curiosidade e a surpresa, Plínio desligou o motor convencido de que deveria comprar outro, afinal liquidificador que não faz barulho não funciona adequadamente. Com o copo alto cheio até a boca da grossa vitamina, preferiu não ligar a TV e, em vez disso, sentou-se na confortável poltrona de vime que tinha na varanda onde leria as notícias do jornal do dia. Em dias calmos, Plínio ali relaxava observando os passarinhos sob as copas das árvores que filtravam a manhã no chão do promontório. Aquela natural algazarra, junto com uma ou outra freada brusca ou buzina estridente, ônus de se morar em qualquer cidade grande, contribuía para dar a tranquilidade procurada por Plínio nesses momentos.

Sentou-se e descansou o copo sobre a mesa auxiliar enquanto desdobrava o jornal até sua coluna preferida quando estranhou todo aquele silêncio. Onde estavam os pássaros neste dia ensolarado? Seria feriado? Onde estavam os sons do trânsito? Nem a vassoura do porteiro a varrer as folhas na calçada ele ouvia.

Levantou-se e se debruçou sobre a grade da varanda para ver se a rua estava mesmo deserta como esperava pela ausência dos peculiares ruídos, mas teve outra surpresa. Estava tudo lá: o engarrafamento, o motorista com metade do corpo para fora da janela gesticulando feroz, o vendedor de balas no sinal abrindo e fechando a boca e, prestes a voltar à poltrona, ainda viu aquele carro vermelho bater na traseira do ônibus parado no ponto.

Arregalou os olhos menos para compensar a percepção sonora que acabava de descobrir perdida e mais pelo espanto de que era acometido por perdê-la e, antes de voltar a sentar-se, correu de volta para dentro e ligou a TV. A TV lhe salvaria. Atrapalhando-se com o controle remoto acabou colocando num canal sem sinal e com chuviscos. Tentou ouvir algum chiado mas era comum a TV não emitir som algum naquelas sintonias. Apertou então na sequencia correta os botões e chegou a um programa que não assitia há anos, impressionado por redescobri-lo ainda no ar. Na tela, uma grande plantação de soja sacolejava ao vento sem emitir nenhum som.

Plínio olhou no controle o botão do volume. Olhou a TV e mirou o controle em sua direção. Seria o derradeiro teste. Devagar, correu o dedo até o lado do botão que exibia o sinal de + e, de olhos cerrados, apertou. O som permaneceu ausente enquanto o rapaz abria os seus incrédulos olhos vendo a barra azul que significava o nível do volume chegar ao limite na tela.

Entrou em pânico. Ligou o chuveiro e não ouviu o espargir da água. Amassou o jornal e não ouviu seu ruído seco, espatifou o copo cheio de vitamina na parede branca da varanda e não ouviu nem estalido do vidro nem o tilintar de seus cacos sobre o chão de cerâmica amarela.

Deixou-se cair sobre o sofá em desespero, mãos à cabeça e, berrando, sentia a garganta arder. Tossiu de tanto berrar, quase vomitou e não ouviu sequer um gorgolejo disso tudo. Descabelado e de olhos vermelhos afundou o rosto entre as almofadas coloridas quando sentiu um toque suave sobre seus ombros.

Virou-se e, sob a cortina de lágrimas, viu Marta que entrara propositalmente em silêncio pois, pela hora, adivinhava Plínio ainda na cama, preguiçoso que era, sempre demorando alguns minutos antes de deixá-la pelo banho. As mãos de Marta deixaram suas costas e agora seguravam seu rosto como quem segura um cálice, ambas as mãos sob os maxilares. Ela então entreabriu os lábios prestes a pronunciar alguma coisa.

Plínio tremeu pela possibilidade de também deixar de ouvi-la. Sentiu-se à beira da morte quando, em câmera lenta, via os pulmões de Marta encherem-se em sua inspiração preparando-se para falar. Como de costume, Plínio fechou os olhos e encolheu-se.

- Calma, eu estou aqui. Vou cuidar de você - disse Marta e escutou Plínio abrindo os olhos feliz, curado por milagre da inusitada surdez. Ouviu tudo então: os pássaros, os carros, os gritos lá fora e os da TV, o chuveiro e o liquidificador do vizinho. E, mesmo tendo todos esses sons disponíveis aos seus ouvidos ressucitados, preferiu encostá-los no colo de Marta e ouvir o reconfortante bater de seu coração. O calor do abraço e o conforto do colo o fizeram dormir novamente, exausto que estava, e assim ficou até mais tarde. Até o meio-dia porque era mesmo feriado.

19 de julho de 2012

Minha Lua


O inverno chegou e era para sentirmos frio.

No entanto, o vento, as nuvens e as trovoadas que me cercam não conseguem arrefecer o calor que sinto em minha própria estação. Apesar de lá fora chover, aqui é Solstício de Verão e seu eterno dia. 

Apenas minha Lua me faz falta e me concedo o direito de chorar por ela como choram os lobos no frio das estepes, apertando meu coração sob meus próprios caninos.

Minha Lua, minha Lua, que tenho visto com frequencia tão bissexta mas cuja presença invisível paira sempre sobre meu céu, mesmo quase transparente ali ela está, e que se enche nas longas noites desse inverno. Minha Lua que me abraça a cada encontro com sua luz cálida e morna, diastólica. Meu peito relaxa no abraço e volta a comprimir-se na despedida. Minha Lua, minha Lua, que desde então controla a vazante de meus olhos e o preia-mar das minhas alegrias. Que mingua num sorriso puro e se renova a cada ciclo, comigo, comigo. 

Quantas estrelinhas em seu céu! Conto contigo cada uma e nenhuma foge. Há mágica e distância, fé e ignorância, bênção. Queria eu voltar a não saber. Não saber que é inverno lá fora e eu deveria estar com frio. Não saber desses quilômetros que nos afastam, desses anos-luz que meu beijo leva para chegar até você enquanto em segundos molho novamente meu rosto de saudade.

O inverno chegou e não me pegou desprevenido. Aqueço-me sob o cobertor da consciência tranquila, tendo o suficiente de lenha e fé no futuro. Chova o quanto chover, guio minha nau na tempestade que for, tendo minha Lua como Norte, vento nas costas e olhos de águia. Hasteio minha bandeira no frio desse inverno, nesse mar escuro e revolto, para que aos quatro ventos se diga que o homem forte não cai e, se acaso do chão se aproxima, é apenas para tomar novo impulso em direção a sua Lua. 

O inverno chegou e isso é bom. Sinal de que as flores desabrocharão e quente será já o primeiro dia do Verão. Me recomendo,então, à magnânima força que guia minha Lua para que minha estação se mantenha quando ele chegar.

13 de julho de 2012

Contos Corporativos - O Analista Sonhador

Já passava da hora do café quando o assunto que motivou a reunião chegou ao fim, mas antes que todos se levantassem Arlindo trouxe um novo assunto, não era exatamente um assunto novo, mas poderia ter esperado uma outra reunião, afinal, já passava da hora do café.

- Godofredo, dirigiu-se Arlindo ao chefe geral na cabeceira da grande mesa, precisamos achar alguém então para a vaga, lembra?

- Godofredo que fora pego a meio movimento de levantar-se, sentou-se novamente e, suspirando descafeinadamente, respondeu - Qual a sua sugestão?

- Pensei no Gumercindo - apontando com dedo rijo o analista.

- O Gumercindo? Mas o Gumercindo é um errante contumaz - sentenciou Godofredo mirando o próprio como se esperasse dele uma defesa, mas sabendo da quantidade de níveis hierárquicos que os separavam, Gumercindo só se permitiu uma resposta quando Arlindo, seu chefe, cutucou-o com o olhar, apressando a resposta.

- O Godofredo tem razão, Arlindo. Sou mesmo um errante contumaz. Mas também fui até hoje um acertante frequente. Não posso me comprometer a acertar sempre se isso for exigido como competência essencial para a vaga, mas posso dizer que vou morrer tentando. Algumas vezes os erros que cometi no passado evitarão que eu os repita na nova posição, o que faz com que o fato de ser um errante passe a contar a meu favor, mas devido às enormes exigências por inovação pela qual sofre a empresa atualmente e como nem eu nem ninguém pode prever o sucesso ou o fracasso de uma ação, os erros, sem dúvida, acontecerão sendo eu ou qualquer outro a ser empossado na vaga. Se precisarem de alguém que tente e erre querendo muito acertar podem contar comigo pois minha trajetória na empresa mostra que não tenho medo de tentar nem de mudar o que precisa ser mudado na tentativa.

Um silêncio solene pairou sobre a mesa de reunião quando Gumercindo calou-se e foi quebrado apenas quando Godofredo, em dúvida, retorquiu.

- Belo discurso, mas sério, quem a gente coloca na vaga?

5 de julho de 2012

Contos Corporativos - I - Chaves de Fenda


Apresentando o primeiro da série Contos Corporativos.


I - Chaves de Fenda

- Da China!? - exclamou sua pergunta Adalberto, o gerente tributário.

- Exatamente. É de lá que tudo vem hoje. Tá vendo essa caneta? É de lá, tá vendo? - mostrou Simão sacudindo-a no ar - É a mesma fábrica dessa caneca aí na sua mesa. E, se der mole, até a cueca que você está vestindo é de lá.

- Minha cueca é Calvin Klein.

- Então! É tailandesa. É tudo a mesma coisa.

A conversa cessou quando Godofredo entrou na sala de reunião. Havia um clima pesado no ar. As vendas que deveriam estar acima da média estavam abaixo por algum sórdido motivo que ninguém poderia saber. Exceto os clientes, talvez. Com o ar grave que a situação merecia, Godofredo, o gerente geral, deu início à reunião após os litúrgicos dez minutos de atraso.

- Amigos, estamos aqui para discutir soluções para aumentar as vendas. Alguém tem alguma sugestão?

Como não haviam sido informados do assunto da reunião, ninguém se manifestou. Quando a sobrancelha esquerda de Godofredo elevou-se tremulante, sinal de esgotamento de sua paciência, Adalberto tomou a palavra.

- Olha, o Simão aqui - olhando para o colega ao lado - havia sugerido que importássemos uns brindes da China para presentear os clientes.

Simão que havia sido convocado por um descuido da secretária ao digitar o nome da gerente de distribuição Simara, que encontrava-se em licença maternidade, endireitou-se na cadeira e prendeu a respiração, enquanto Adalberto continuava.

- Ele disse que até a sua cueca, Godofredo, deve ter sido fabricada na China. Afinal, a gente sabe que tudo vem de lá. Dessa caneta - disse apontando a caneta de Simão à mesa - até a roupa íntima de todo mundo aqui.

- Como você sabe a procedência de nossas roupas íntimas? - indagou Godofredo agora com as duas sobrancelhas arqueadas.

- Não é bem assim - tentou consertar Simão, engolindo seco - Eu estava comentando com o Adalberto que hoje tudo vem de lá e tal. E já que tudo vem de lá e é tudo meio vagabundinho...menos a sua roupa íntima, claro, essa é de ótima qualidade...a gente podia premiar os clientes que compram mais, os mais fiéis e tal.

- Temos clientes fiéis? - perguntou sem olhar para o Gerente de Informações, Relacionamento, Inteligência e Noções Orientadas (G.I.R.I.N.O) ao que ele respondeu prontamente.

- Certamente, Sr. Godofredo. E muitos. Só não sabemos quantos nem quem são, nem onde se encontram. Mas segundo uma pesquisa recente onde perguntamos aos clientes sobre sua fidelidade, quase cem por cento se disse fiel aos nossos produtos, o que nos dá uma margem de erro de zero ponto sessenta e três por cento de chance de agradá-los com brindes vagabundinhos.

A proposta começava a ganhar envergadura e quando uma proposta agrada o gerente geral ela deixa de ser órfã e acontece uma pouco solene disputa por sua paternidade.

- Inclusive - disse o gerente de marketing - nossos concorrentes nunca fizeram isso. Eu mesmo já havia sondado as agências de publicidade que os atendem sobre...sobre...sobre essa coisa de China e tudo o mais e eles disseram que nunca ninguém comprou nada de lá. Isso nos dá uma vantagem competitiva - completou com o jargão padrão para que todos esquecessem as baboseiras que havia dito e concordassem bovinamente, intenção de todos os diplomados em propaganda.

O gerente de vendas, então o dono do problema, não teve dúvidas - Vamos trazer essas bugingangas então. Simão, quanto custa?

- Bom, pelo que ouvi falar depende do item, da quantidade e das especificações. Mas se estiverem todos de acordo eu posso sondar o fornecedor e...

- Calma aí!! - interrompeu o coordenador de Aquisição de Itens Corporativos Secundários - pode deixar que a minha área concentra as competências necessárias para esse tipo de negociação estratégica. Estamos acostumados a lidar com os chineses e sabemos que sua cultura não aceita diversos cacoetes negociais pelos quais leigos despreparados costumam se deixar levar.

Godofredo parecia satisfeito e levantou-se, mas não sem antes vaticinar como um oráculo em tom ao mesmo tempo desafiador e motivante.

- Se esses itens não estiverem aqui em duas semanas estão todos vocês na rua. E o primeiro da lista é o Simão que deu a idéia.

Era um líder nato.

Então, em uma semana, empurrados por um Simão em desespero, cada um atuou em sua especialidade. A G.I.R.I.N.O conduziu uma pesquisa online com dezessete clientes que aprovaram as cores os formatos e o preço. A G.I.R.I.N.O, porém, não garantia o sucesso da ação, uma vez que a campanha de comunicação, responsabilidade do gerente de marketing, ainda não havia sido finalizada pela agência de publicidade contratada, afinal a agência não estava acostumada a trabalhar com prazos tão curtos e a quantidade de peças encomendadas era enorme, desde outdoors, busdoors, taxidoors e os famosos wooblers que, por mais que explicassem, ninguém do próprio departamento sabia direito para o que servia, sabiam apenas que eram estratégicos.

Enfim a campanha chegou, mas o marketing não garantia o sucesso da ação, uma vez que o fato de serem produtos chineses era uma novidade e ninguém poderia prever a reação dos clientes tão acostumados que estavam com o excelente produto que a empresa lhes oferecia. Um fato a dar mais mistério à livre queda que experimentavam as vendas.

Aprovados os conceitos de comunicação e produto, o coordenador de Aquisição de Itens Corporativos Secundários entrou em contato com o consulado chinês, que o pôs em contato com a câmara de comércio, que os pôs em contato com a associação de produtores chineses do item escolhido, mas era a associação errada e perderam alguns dias até descobrirem o que significava aquele misterioso ideagrama vermelho no alto da folha de apresentação.

Por fim, acharam um fornecedor e marcaram uma reunião. Simão não foi avisado, mas por acaso esbarrou com o grupo pelos corredores da empresa e saudou efusivamente o chinês, morador de Campinas, seu parceiro de ping-pong nos tempos de colégio, atualmente representante da empresa chinesa escolhida.

A reunião aconteceu e o setor de Aquisições emitiu parecer dizendo não poder garantir o sucesso da ação devido ao fato de que o fornecedor não estava cadastrado no sistema, processo que duraria mais ou menos um mês, tempo esse que inviabilizaria a entrega no prazo mesmo que viessem de avião fretado comercial desde Pequim ou Xangai, já não poderiam dizer com certeza. Nenhum deles entendia bem o sotaque campineiro.

Simão tomou para si a responsabilidade, coisa que sabiamente Godofredo já havia lhe imputado, mestre na arte da delegação que era, e colocou seus próprios dados no sistema, o que aceleraria o processo, mesmo sabendo que, à partir daí, estaria devendo à sua própria empresa quase dois milhões de itens vagabundos chineses equivalentes a meios milhão de dólares. O produtos eram realmente baratos. Feito isso, disparou uma mensagem de “ok” para que a agência de publicidade produzisse as peças, inclusive um filme de sessenta segundos para TV que deveria estar no ar naquela noite.

Acompanhando online centímetro a centímetro o avião cruzar o planeta, Simão tinha ainda uma missão a cumprir. Enquanto voavam os itens, Adalberto deveria preencher a papelada da Receita Federal para que a inspeção aduaneira soubesse de antemão o que estava por vir e não criasse caso com a enorme e inusitada carga para um cliente mais inusitado ainda.

- Adalberto, eu sei que já são cinco e quinze, mas antes de você ir embora, será que você poderia me fazer a gentileza de, por favor, preencher a papelada da Receita dos itens que estão vindo da China? - é impressionante como o desespero nos deixa educados.

- Tá vendo aquela caneta ali no chão? - perguntou Adalberto.

- Sim, é a chinesa. O que que tem ela?

- Ela caiu ali eram cinco horas.

- E daí?

- E daí que ela está no chão desde às cinco horas porque à partir das cinco horas eu não trabalho mais.

- E o que você está fazendo na empresa então??

- Estou atualizando meu Facebook.

Vendo a inutilidade de sua permanência ali, Simão catou a papelada da Receita e foi até o Departamento de Notas Fiscais para ver se alguém ali poderia ajudá-lo, mas também foi em vão. Então começou a preencher com o que achava certo. Inseriu um número de CNPJ com vinte e três dígitos, um registro de importador inventado e despachou tudo com um carimbo vermelho escrito PDR, sigla para Produto Defeituoso Reutilizado.

Por algum milagre que só o santo protetor dos processos corporativos poderia ter perpetrado, os itens chegaram no último dia do prazo dado por Godofredo que foi pessoalmente inspecionar as caixas de papelão carimbadas com diversos ideagramas incompreensíveis. Ficou tão satisfeito que chegou até a comentar com sua secretária.

A ação correu na semana seguinte e foi um grande sucesso, como já haviam previsto os especialistas da G.I.R.I.N.O, o marketing e o departamento de Aquisições. E a causas de tanto sucesso eram óbvias: o levantamento acurado das preferências dos cliente, a intocável campanha de comunicação que provavelmente renderia uma indicação a Cannes para a agência e, claro, a perfeita negociação de condições que fizera o departamento de Aquisições com o fornecedor. 

Alguns dias porém após a ação ter acontecido, as vendas que foram levemente elevadas e conferiam ao gráfico uma esperançosa tendência de crescimento, voltou a cair e a proximidade do vermelho no resultado da empresa levou Godofredo a chamar outra reunião quase às nove da noite, mas dessa vez todos sabiam o assunto, apesar de novamente não estar especificado na convocação via email.

Com todos presentes, Godofredo disse.

- Confiei em vocês e as vendas voltaram a cair. Quero que importem mais bugingangas da China, mas dessa vez para essa semana. Vocês são bons e não vão cometer os mesmos erros duas vezes. Já passaram por esse processo e sabem que pontos devem ser revisitados. Uma semana. E se não chegar, Simão, você será demitido.

Sem deixar que Godofredo terminasse a frase, Simão disparou da sala de reunião direto para a baia onde trabalhava Adalberto na esperança de ainda encontrá-lo ali.

- Adalberto, Adalberto! O Godofredo quer mais uma encomenda da China! Preciso correr primeiro com a papelada da Receita. Me ajuda!?

- Bugingangas da China de novo!? Só se fala nisso agora! Quero é saber quando essa empresa vai voltar a vender chaves de fenda.

20 de junho de 2012

Nem por mil palavras

Sou um fã das palavras.
Na infância tinha um dicionário de sinônimos que folheava sempre antes de ir para a escola e escolhia, dentre aquelas várias expressões pouco conhecidas, as que seriam usadas naquele dia. Os sinônimos de bagunça eram investimento certo. Sempre tinha uma oportunidade de usá-los. "Olha a algazarra!" gritava eu no meio da maior fuzarca durante as aulas de Português ganhando pontos com o professor. Uma pena as inúmeras letras da Química ou os caracteres gregos da Física não formarem palavras, pois precisaria mais dos pontos nessas disciplinas.

Esse hábito me acompanha desde então, mas não sou daqueles que pretendem aprender uma palavra nova por dia. No entanto, às vezes invento uma história, um poema ou um verso só para dar asas a uma palavra grudenta que não me sai da cabeça. Se procurarem bem, acharão a palavra "esquife" ou a expressão "para lá e para cá" com certa frequência em alguns períodos por aqui pelo blog. Outras vezes, construo textos só para que uma certa palavra brilhe. Vou polindo as bordas, afiando as pontas, abalroando os engastes até encaixá-la perfeita, translúcida na idéia central.

Por causa desse gosto pelas palavras acabo também gostando de pessoas que inventam palavras. Não raro são indóceis, inconformados, inteligentes e visionários. Não é qualquer um que inventa uma palavra. É preciso coragem e ousadia para expor-se ao ridículo de uma ignorante correção. Digo ignorante não no sentido de falta de conhecimento, o que seria um contra-senso, mas pela falta de educação que é tentar matar a língua que é viva e enjaular a criatividade que voa. Enfim, ignorantes aqueles que não entendem e sufocam um neologismo. Mesmo que já exista um termo etimologicamente correto para uso. Diga ao Menino Maluquinho que "mexedorzinho" é colher e eu digo que és um mequetrefe.

Em sua ansiedade, a pessoa que inventa palavras quer apenas traduzir o que sente, dar forma às ininteligíveis matizes de sua alma. Fazer-se entender, pura e simplesmente. Admiro isso e gostaria de ter esse dom, pois aliviaria, e muito, a minha própria ansiedade.

Mas mesmo sendo o ardoroso fã que sou das palavras, não posso deixar de reconhecer nelas uma falha ou, amenizando, afinal, como fã tenho esse direito, uma limitação. E uma óbvia limitação.

Tente descrever o pôr-do-sol na praia num dia de verão. Já tentei, AQUI, é impossível. Ou a figura de uma noiva sendo abandonada no altar. Também tentei, improvável que alguém adivinhe. Um dia eu incluo nesse blog.

Mas muito pior que descrever situações, é descrever os sentimentos. Tente descrever o que sente quando aquela pessoa mais do que querida passa por você. Difícil. Agora tente traduzir a diferença de quando essa pessoa passa e quando ela passa e realmente olha para você. É sutil e ao mesmo tempo mais complexo. Tem palavra suficiente para isso? E quando suas mãos se tocam sem querer ou aquela troca de olhares antes do primeiro beijo. Como explicar a tremedeira, o suadouro, a garganta seca que são os efeitos físicos dessas situações? Como entender a tremedeira sendo borboletas no estômago, o suadouro sendo humores do amor e a garganta seca, a sede da paixão. Ah, ingênuos poetas, achando que se fazem entender.

A triste conclusão é a de que, por mais palavras que se inventem, nunca conseguiremos traduzir fielmente o que sentimos. A comunicação será sempre limitada e a necessidade por novas palavras sempre infinita. Para um fã de palavras, é um cenário e tanto, mas não troco aquele olhar, aquele toque e aquele beijo nem por mil palavras.

15 de junho de 2012

Jogo do Amor

O neon é clichê e está lá
assim como os dados transparentes
não se aposta dinheiro neste bacará
palavras são ases nas mangas cadentes
não adianta soprar ou torcer
as cartas já estão marcadas
você pisca e adula o crupiê
mas a banca empilha o butim das rodadas
a vida é um cassino brilhante
onde voam pessoas como insetos em flor
até nos queimarmos, incandescentes
todos nós perdedores no jogo do amor
cada um blefa como pode
dissimulados no jogo do amor
quem ganha, bate, pega o morto
tamanha a violência do jogo do amor

30 de maio de 2012

Mesmo Lugar


Mesmo lugar
é luto, é triste
é teu dedo em minha face em riste
sacudido a me reprovar

Salgado gotejar
escorre lento
a semente que seria sustento
nunca chega a germinar

Mesmo lugar
é frio, é pouco
é um grito louco
sufocado e rouco
entre tu e eu a nos afastar

O espaço cresce
enquanto permanece
essa tentativa estranha
entre amor e manha
a nos entrelaçar

Mesmo lugar
uma casa, um cômodo
um leve enjôo e o incômodo
na expectativa de tudo acabar

E assim esperamos
toleramos e amamos
de consciência tranquila
enquanto o olho cintila
vendo o tempo, a suspirar

23 de maio de 2012

Revoada

Às vezes confundo
a terra seca e o chão fecundo
e me ponho a semear
Até me surpreender
ao tempo da colheita
sob o sol, a vista estreita
com o par de asas negras
maduras, prontas para voar
Ainda tento com ancinho
por receita e pergaminho
a erva negra extirpar
mas o campo põe-se em algazarra
como os tambores da fanfarra
um infinito bater-asa
do milho negro a revoar
E no campo ali vazio
ouço apenas o assobio
da negra revoada a se afastar

16 de maio de 2012

Um Milhão

Assim que o relório ressoou a décima-primeira badalada sob a luz da lua, Dona Camila correu ao telefone e discou o número de Seu Dario. A conexão foi estabelecida mas quem atendia era a secretária eletrônica. Estava exasperada pois não era costume de Seu Dario atrasar-se assim em plena terça-feira. O jantar manteve-se quente sobre a mesa da mesma forma que a esperança da idosa de que o atraso fosse somente o trânsito, o chefe ou algo semelhantemente desimportante.

Após a oitava tentativa frustrada, Dona Camila desistiu do telefone de Seu Dario e percorreu a caderneta de telefones, amigos e conhecidos, prováveis conhecedores do paradeiro do sumido, mas nenhum deles sabia responder às perguntas trêmulas formuladas apressadamente por Dona Camila.

Enquanto errava entre um Rodrigo e um Rolando, o telefone tocou. Dona Camila deixou tocar novamente e atendeu ansiosa já chamando "Dario, Dario", porém a voz rouca do outro lado não era a dele e muito menos eram dele as duras palavras que ouviria a seguir. O interlocutor não tardou a definir o sequestro, o que fez Dona Camila gelar-se toda enquanto ouvia as condições do acordo propostas pelo meliante do outro lado da linha.

- Queremos dois mil - precificou o sequestrador a vida do sequestrado.

- Dois mil?! - respondeu Dona Camila - É um absurdo!

- Madame, é só não criar problema que teu fulano fica bem.

- Não estou falando isso. Digo que dois mil por Dario é um absurdo! Ele vale muito mais do que isso. Ele é a minha vida. Tudo pra mim

Um silêncio pairou no fone do lado de lá enquanto Dona Camila assoava o nariz e limpava as lágrimas do rosto. Sem entender muito bem o que estava acontecendo mas vislumbrando, empreendedor que era em sua natureza, uma oportunidade de aumentar seus ganhos, o sequestrador fez uma nova proposta.

- Ah, é? - disse com o máximo da diplomacia que conseguiu - Então vamos querer dez mil! Senão a gente esfola o teu querido!

Aquelas palavras esfolaram, sim, a alma da pobre velhinha que não teve  mais o que dizer do que - Mas, dez mil?! O que está aí com você é uma pessoa querida. Não é um relógio ou um objeto qualquer! Você acha que meu Dario vale só isso?! - e não conteve um berro desesperado como o daquelas muçulmanas de corpo coberto que vivem perdendo seus filhos nos bombardeios tão noticiados na tevê - Não...não...meu Dario vale muito mais que isso. Ele vale minha vida. Ele vale um milhão!

"Opa!" pensou involuntariamente o sequestrador do outro lado, não tanto influenciado pelo valor em si, pois que era marginal de pouca rodagem e nunca tinha posto as mãos em butins dessa grandeza, e mais pelo som que se acostumara a ouvir nos filmes e que, de alguma forma, sabia que era alto. Ainda assim, desconfiado, ameaçou - A senhora tá achando que a gente tá de brincadeira, Dona? Nós vamos matar o teu boneco sem dó e mandar os pedacinhos dele pra você montar igual quebra-cabeça!

Palavras que apenas fizeram Dona Camila emitir mais alguns urros guturais e, depois de alguns segundos que levou para retomar o fôlego e a razão, dizer - Pela sua voz, você me parece um rapaz inteligente - mentiu - e sabe que uma coisa inteira vale mais do que uma coisa pela metade. O preço está combinado. Se vier faltando pedaço eu diminuo o pagamento. O que você prefere?

Parecia uma boa oferta. O sequestrador entregaria o fardo que era esse velho sob sua custódia, pegaria a grana e, se tudo corresse bem, ainda tomaria um cafezinho sossegado na casa da Dona Camila.

- Tudo bem. Entrego o velho amanhã - finalizou o sequestrador definindo a situação .

- Amanhã?! Onde você acha que eu vou conseguir um milhão a essa hora da madrugada? Preciso de uma semana.

- E o que eu faço com esse traste durante uma semana?

- Problema seu. Foi você que sequestrou ele. Você quer seu dinheiro ou não quer?

- Dona, a senhora não sabe com quem a senhora está falando. Somos bandidos perigosos e especializados!

- E sem um tostão, pelo visto. Meu filho, liga na terça que vem pra gente marcar a hora da entrega. Aproveita e passa pro Dario que eu quero falar com ele.

- Que isso, Dona?! Tá me achando com cara de otário? Tu só vai ver o teu velho no dia que a gente marcar - berrou o sequestrador, desligando o telefone.

Na sexta às sete da manhã Dona Camila foi acordada pelo toque estridente do antigo telefone.

- Alô?

- Sou eu, Dona. Cadê o dinheiro?

- Calma, calma. Eu pedi uma semana e ainda não passou uma semana.

- Passou sim! Tá de sacanagem com a minha cara? De terça a trerça é uma semana!

- Mas só completa uma semana hoje às vinte e três horas. Me liga nesse horário, tá?

- Mas, Dona, a senhora é uma...

- Ah! Aproveita e passa pro Dario que eu quero falar com ele.

- Tá maluca! Nada disso. Te ligo às onze! - e desligou.

Dez e cinquenta e oito da noite, o telefone voltou a tocar.

- Alô? - atendeu Dona Camila.

- Dona, sem gracinha. Dia e hora da entrega.

- Calma, calma - Dona Camila não podia esconder o nervosismo - Só recapitulando. Você me traz o Dario inteiro e eu te dou o seu milhão. Correto?

- Dona, a senhora tá se arriscando. Quero um milhão em notas pequenas e não sequenciais - disse o sequestrador parafraseando o vilão do filme exibido na noite anterior - Somos especialistas!

- Já tenho o dinheiro. O Dario está inteiro?

- Está, mas...

- Então passa pra ele que eu quero falar com ele.

- Data e hora primeiro.

- Pode passar amanhã de manhã aqui em casa - e deu o endereço em seguida, mas o pilantra do outro lado desligou o telefone.

No dia seguinte pela manhã Dona Camila preparou um desjejum reforçado para a chegada de Dario. Imaginava que estivesse fraco e atordoado pela experiência e queria cuidar dele, que boa mulher. O sequestrador, experiente, pelo menos segundo sua própria opinião, passou pelo endereço ainda na noite anterior e novamente logo de manhãzinha e nada notou de estranho na vizinhança. Nenhuma delegacia, nenhuma unidade móvel de polícia, sequer Cosme e Damião ou polícia montada. Ganhou confiança e, às onze da manhã, tocou a campainha. Dona Camila abriu a pequena janelinha corrediça da porta e perguntou lá de dentro, apertando os olhos por detrás das grossas lentes dos óculos, se era o sequestrador e onde estava seu Dario. O meliante confirmou a primeira pergunta e à segunda respondeu que estava bem.

- Quero vê-lo antes.

- Quero ver a grana.

Imediatamente um pacote escorregou pela portinhola do cachorro ao pé da porta. O sequestrador abriu e conferiu por alto o valor das notas de cinquenta que ali estavam.

- Falta dinheiro, Dona. Cadê o resto?

- Cadê o Dario?

O sequestrador apitou o rádio e mandou alguém trazê-lo.  Um carro preto insulfilmado parou na porta e Dario saiu ajeitando as calças que lhe caiam da cintura. Dona Camila destrancou a porta e jogou na soleira uma bolsa de uma popular loja de artigos femininos que continha o restante do valor combinado. Dario passou pelo sequestrador arrumando os óculos no nariz e entrou em casa enquanto, agachado, o sequestrador conferia as notas displiscentemente.

Tão discpliscentemente que nem se deu conta do pequeno aparelhinho jogado entre as cédulas a mandar sinal para os radares da polícia que Dona Camila mantivera avisada desde a semana passada.

9 de maio de 2012

Cão Sem Dono

Você tá vendo ali na esquina
bicho lambendo a ferida
querida, esse sou eu
ou o que de mim sobrou

Vou vagando pelos cantos
depois que o nosso desencanto
finalmente se rompeu
e acabou com nosso amor

Em vez de beijos todo dia
vivo em frente à padaria
das sobras que ninguém comeu
mastigando os velhos ossos
desse amor que já foi nosso
e agora já venceu

E quando bate o desespero
me concentro no galeto ou
nesse soneto que é só teu
Vem comprar logo o almoço
e me larga mais um osso
como você prometeu

E deixa o estabelecimento
e nele todo o sentimento
que tivera antes do fim
Vou ficar ali na esquina
te olhando na surdina
até que passes por mim

Então corro ao teu abraço
pra roubar mais um pedaço
da carne boa que comprou
E sob gritos e impropérios
vou me esconder no cemitério
e tu nunca mais me encontrou

Mas sempre fico ali na esquina
a lamber minha ferida
querida, é onde aos poucos eu morro
De vez em quando a velha bruxa
vem me bater com o guarda-chuva
me chamando de cachorro

E me recolho ao meu escuro
na sarjeta ao pé do muro
onde espero amanhecer
Quando tu vens comprar teu pão
e eu com sofreguidão
estendo a língua a te lamber

3 de maio de 2012

A contribuição dos Beatniks


Fiquei curioso quando soube que o diretor brazuca Walter Salles (Central do Brasil, Água Negra e Diários de Motocicleta) estaria à frente da mais nova produção do clássico On the Road (em português, Na Estrada), do célebre autor beatnik Jack Kerouak. Tão logo confirmei a informação corri atrás de outras referências que me pusessem em melhor contato com o clima da época e com os “ideais” beatniks e os achei em outros dois grandes nomes influenciadores do movimento: William S. Burroughs e Allen Ginsberg.
O mundo vivia a ressaca de seriedade do pós-guerra. A juventude, sufocada pelo chamado à pátria e para o cumprimento de responsabilidades para com seu país, vivia agora não mais sob a ameaça flagrante de um novo conflito (que só chegaria, a ameaça e não o conflito em si, anos mais tarde com a bipolarização da Guerra Fria). Viveu-se então um período de grande efervescência cultural.
A geração beat, no meu pretenso entendimento (ai da sociologia e da antropologia) foi o grande estopim da revolução contra-cultural que tomou conta dos EUA até a década de oitenta. É nela que se encontram as sementes do experimentalismo, do livre fluxo de consciência, do contato transcendente e a noção de pertencimento ao cosmo, porém num grau ainda menor do que os hippies dos seventies, por exemplo. Sem falar da grande influência da espontaneidade do Jazz que fazia a trilha sonora da vida na época que seria substituída depois pelo Rock and Roll. Não à toa, esses três nomes citados acima (Kerouak, Ginsberg e Burroughs) são fontes frequentes de inspiração para grandes obras dos anos 60 e 70, tendo estado nas poesias de Jim Morrison, nas músicas de Frank Zappa e até na capa do lisérgico Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band (Burroughs) dos Beatles.
Assisti recentemente a dois filmes que me levaram a entender e vivenciar um pouco desse  imaginário beatnik: “O Uivo” (Howl, 2010) onde James Franco (172 Horas, Homem Aranha, Milk) encarna com louvor o poeta Allen Ginsberg e “Almoço Nu” (Naked Lunch, 1991) baseado na obra homônima de Burroughs e dirigida por ninguém menos que David Cronenberg (A Mosca, Um Método Perigoso).
Em O Uivo, conta-se a vida de Ginsberg em flashbacks enquanto a relevância de seu poema homônimo é julgado num tribunal popular. O caráter autobiográfico do poema é um prato cheio para esse recurso pois mesmo camuflado sob um confuso (e às vezes incompreensível) fluxo de consciência do poema, os personagens principais na vida do autor vão tomando forma. Proibido de circular sob acusação de estimular a promiscuidade e atentar contra a moral, o poema de Ginsberg ganhou notoriedade e correu o mundo após ser sonoramente absolvido de seus supostos pecados. Era de se esperar que a quadrada sociedade americana da época (da época?) se exasperasse ao ler coisas do tipo 

“Eu vi os expoentes da minha geração, destruídos pela 
    loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,
...
que morderam policiais no pescoço e berraram de 
    prazer nos carros de presos por não terem cometido 
    outro crime a não ser sua transação pederástica e tóxica,
que uivaram de joelhos no metrô e foram arrancados do 
    telhado sacudindo genitais e manuscritos,
...
que adoçaram as trepadas de um milhão de garotas
    trêmulas ao anoitecer, acordaram de olhos vermelhos
    no dia seguinte mesmo assim prontos
    para adoçar trepadas na aurora, bundas luminosas 
    nos celeiros e nus no lago,”
Só para dar um exemplo.
Já em Almoço Nu, Cronemberg nem precisa de muito para interpretar o texto altamente lisérgico e biográfico que Burroughs já havia escrito. O método de Burroughs era ainda mais controvertido pois deixava que o fluxo de consciência viesse à tona sob efeito de drogas alucinógenas, o que dava, digamos, um colorido especial. Esse método, no entanto, não é novo. Aldous Huxley do cultuado Admirável Mundo Novo, por exemplo, descreve em As Portas da Percepção, de 1954, suas impressões num experimento empírico sob efeito de mescalina, LSD e outras drogas. Porém, com Burroughs, em vez de descrever as sensações efeito da droga, ele inventa histórias e cria sob essa névoa, o que mistura fatos marcantes de sua biografia, como o assassinato de sua mulher Joan por ele mesmo durante uma brincadeira de Guilherme Tell com uma pistola calibre 32, com viagens insólitas como as máquinas de escrever que se transformam em insetos paranóicos, numa viagem kafkiana como ele mesmo qualifica.
Os dois filmes dão idéia da ânsia por liberdade, da necessidade de expressão e da vontade de pertencimento que os anos 50 criaram nos EUA ainda feridos da Segunda Guerra. Pelo que pude perceber do trailer, Na Estrada tem menos referências a drogas e homossexualismo do que Almoço Nu e O Uivo, respectivamente, o que o torna talvez mais palatável ao expectador comum, que pode ir ao cinema esperando algo parecido com Central do Brasil ou Diários de Motocicleta, dirigidos pelo mesmo Salles, cada vez mais especializado em road movies. 
Minha conclusão é que os beatniks foram os pais dos hippies, avós dos yuppies, bisavós da nossa geração e um passado já distante da geração Y ou @ ou qualquer outro símbolo que a caracterize, descrevendo uma evolução que vai da necessidade de libertação da alma presa pelas limitações do corpo à necessidade de construção de apetrechos físicos que estendam os limites dessa prisão corporal. O jovem dos anos cinquenta ouvia Jazz e escrevia sua liberdade individual viajando e deixando correr sem amarras o fluxo de sua consciência; o jovem dos anos sessenta e setenta ouvia rock e panfletava a paz e o amor querendo transformar não só a sua vida, mas a sociedade mais livre; o dos anos oitenta perde esse romantismo e é mais pragmático, tomando consciência de que liberdade se conquista mesmo é com dinheiro no bolso, liberdade para ele é poder; já o dos anos noventa começa a rever esse conceito e experimenta a liberdade virtualmente, porém preso em sua cadeira mas com a janela da internet lhe abrindo cada vez mais os horizontes; e isso se consolida nos anos 2000 quando liberdade é expressar-se livremente, criar, compartilhar, rir e chorar publicamente na web. Já que não deu pra ter liberdade nessa sociedade careta, que tal um novo ambiente onde podemos colocá-la em prática? 
Viva os beatniks cujos ideais, em última análise, inspiraram a liberdade que temos hoje com a internet!

25 de abril de 2012

Blues da Colisão

Dois carros, contra-mão
Nenhum guarda na esquina
Farol alto, solidão
Cegos de nossa própria sina

Até que veio a colisão
O vidro todo espatifado
Sangue para todo lado
E curiosos de plantão
Condenado à eternidade
À morrer só de saudade
Sufocando o coração

Deixando a rua engarrafada
Não podemos fazer nada
Contra essa confusão
Seguindo nos atropelando
Odiando e nos amando
Até o próximo esbarrão

Mas alguém tem que dar um jeito
Sei que não vai ser perfeito
Puxo o freio de mão
Te deixo ir com nosso amor
E vejo no retrovisor
Você sumir na contra-mão

19 de abril de 2012

O Mágico


A vida que ensina é a mesma que cobra
Fatura esquecida, de juros se dobra
E se na bolsa sem soldo, vive a mosca a zumbir
Senão escorpião com ferrão a brandir
Pagamos o preço a peso de lágrima
Com a vida que sobra depois de cair

Foi assim com o mágico, há muito aplaudido
Visitando as cidades de segredos munido
Arranca risada, bochecha rosada
Um susto e mil gargalhadas
Ficou famosa a carreira e muito espantou
Que belo espetáculo, que grande alarido

Montava palco e tenda na praça
Cartola crivada, cheio de graça
Bigodes em cera, fraque imponente
Alçado mais alto do que toda a gente
Vinham-se todos assistir à grandeza
Vendia-se refresco e muita aguardente

Coelhos surgiam e pombas voavam
Cartas sumiam e lenços dançavam
Não se queimava em vela ou em pira
E boquiaberta a audiência assistira
O brotar do buquê entre dedos trementes
Que olhos notavam a linda mentira?

Que povo iludido, querendo mais
Pensava o mágico, artista em cartaz
Se com engodo sou-lhes deidade
Imagine se lhes trouxer a verdade
E antes do gran finale
Revelou o truque sagaz
para espanto de todos naquela cidade

Pateta, sorriu do palco esperando
A chuva de palmas, o riso ou o pranto
Mas o que se ouviu foi puro silêncio
A platéia abalada em grave consenso
De que o mágico prestara mau serviço
Era melhor velando, diria o bom senso

Cigarras cantaram, mugiu uma vaca
Numa obra bem longe batiam estaca
Enquanto a platéia em silêncio indagava
Então era isso, só mais um embuste
Charlatão, gritou um, cafajeste
Perdemos tempo com essa bobagem
E uma faca voou girando na haste

E era afiada, a maldita lâmina
Pregou-se à barriga, sangue a verter
Morreu o pobre mágico, estripado
Por ter simplesmente revelado
O que ninguém queria saber
Por trás da pantomima do defunto estatelado

E como deixei lá em cima uma pista
Poderia ter feito uma lista
Das coisas que a vida me fez entender
E outras que à morte irei esquecer
Que se morre o artista por mostrar a verdade
Desviam a vista despreparados para ver

E as vacas seguem mugindo
E as estacas seguem batendo
Enquanto morrem lindos mentirosos
E outros novos vão nascendo
Até que os peguem na verdade
Porque deles só mentira se espera
A platéia feroz, aturdida
A platéia feliz iludida