31 de julho de 2012

Carta para mim no futuro

Rio, 25 de Julho de 2012, 23:59

De: Fabio de 2012
Para: Fabio de 2022

Fala, cara. Tudo bem?
Estou aqui no último minuto dos nossos 33 anos e me lembrei de você.

Espero que tudo esteja bem e que as escolhas que fiz tenham sido proveitosas para você aí no futuro. É pelo que eu sinceramente torço uma vez que fazê-las hoje me custaram mais dos poucos cabelos que tu sabes tão bem quanto eu como são raros, se é que aí daqui a 10 anos ainda restam.

Aqui, com 33 para 34 anos, acho que já vivi metade de nossa vida. Deixo aqui então um apelo para que tente tão arduamente viver bem a metade final quanto eu venho tentando viver a inicial. Você vai ver que não será fácil, mas acho que você consegue, uma vez que já será mais vivido que eu, mais experiente e mais preparado para todas as preocupações que eu deixei aí para você.

Tenho certeza que agora vem a metade mais complicada da nossa vida. A primeira foi moleza, teve a infância que consumiu boa parte dela e, da juventude, deixo para você belas lembranças que deverão ser o combustível e o equilíbrio que você vai precisar nos momentos mais difíceis que certamente virão. E quando vierem, lembre-se das pitombas, das pitangas e da cana-de-açúcar lá em Vila Valqueire. De catar a bola com nojo de dentro do rio no Grajaú, da manga atirada pelo primo que abriu o lábio e sangramos feio pela primeira vez. Das tardes sobre as pedras em Guarapari e das madrugadas sobre as dunas de Cabo Frio. Daquela noite no Bairro Peixoto. Daquela tarde que estabeleceria os quinze anos seguintes ou daquele momento que parou no tempo em que soube a importância da diferença entre um e dois traços azuis num pedaço de plástico.

Tomara que ainda estejam aí contigo nosso pai e nossa mãe pois foi  por causa deles que tudo isso aconteceu. Sem o amor deles nem eu nem você poderíamos estar agora nos correspondendo. E se acaso não estejam, estarão certamente em lugar melhor do que eu e você estamos. Mas nunca os deixe fora da sua vida como eu muitas vezes fiz por imaturidade, orgulho e essa necessidade urgente de liberdade que, sabes bem, acalentamos no fundo do peito e tatuei no alto das costas.

E que vontade de saber como anda a nossa filha aí no futuro. Quatorze anos. Em breve debutará. O que ela quer de presente? Uma viagem? Dançar contigo a valsa como dançou tantas vezes comigo nos quatro anos que vivemos juntos? Dê dois beijos nela, um por mim e outro por ti aí no futuro e não descanse no cuidado, na atenção e no carinho dedicado a ela pois foi o que fiz até hoje. Não tenho dúvidas que está sendo bem cuidada pois, se tudo continuar como está hoje, não lhe faltará amor de quem quer que seja.

Deixei para ti uma dúzia de bons amigos em quem você pode confiar. Não deixe eles de lado e dedique-se a eles como eles se dedicaram a mim durante esses 33 para 34 anos. Dê-lhes a sua atenção e compartilhe com eles seus problemas, beba umas com eles de vez em quando. Confia em mim, a conta do bar é mais barata que a da terapia.

Tenha paciência, mais paciência com as coisas do que tive eu até hoje. Escute nossa intuição. Não sei de onde ela vem e, se descobrir, não a largue de mão. E, principalmente, não se violente. Saiba onde estão os limites que tanto ralei para descobrir. Não gostaria de saber que você aí do futuro ainda desrespeita as fronteiras que com tanto esforço lutei para estabelecer.

E, por fim, aproveito para te fazer um pedido. Perdoa. Perdoa todos aqueles de quem trago mágoas e não fui forte o suficiente para perdoar. Mas principalmente, perdoa a ti mesmo, ou a mim, já que a maioria dos erros cometidos em nossa vida fui eu quem os cometi. Então, perdoa a mim e estará perdoando a ti mesmo. E com o perdão desses erros você estará livre para tentar acertar um pouco mais. 

Uma pena você não poder daí do futuro me mandar uma mensagem para o passado e aplacar a ansiedade que tenho de confirmação ou não do bom ou mau trabalho que fiz até hoje.

Espero que esteja bem, saudável e feliz.

Um abraço.

Fabio


25 de julho de 2012

Efeitos do Silêncio

O sol entrou pela fresta da cortina dissipando a escuridão que envolvia Plínio no sono em que estava desde cedo da noite anterior. Aos poucos a nesga arrastou-se dos pés à cabeceira da cama demorando-se cruelmente sobre as pálpebras fechadas. No sonho, a tradução era um flash idílico de um momento inesquecível que se eternizava em fotografia, despertando-o no momento do clique.
Acordado, virou-se de lado ainda sem abrir os olhos preferindo feri-los não com a natural luz solar mas com a de led de seu aparelho celular pousado na mesa de cabeceira onde checou as horas. Era cedo ainda. Procurou mensagens, e-mails e outras tantas formas de interação possíveis daquele dispositivo e não achou nenhuma.

Levantou-se enfim e, passando pela sala, tocou de leve o botão da secretária eletrônica que nada lhe respondera. Suspirou continuando em frente até a cozinha onde aproveitaria o tempo de que ainda dispunha para um café-da-manhã tranquilo, coisa que não fazia há tempos. Tirou algumas frutas da geladeira e preparou-as para batê-las no liquidificador. Hesitou por um segundo antes de ligar o aparelho, como era cedo ainda, não gostaria de acordar todos os vizinhos que estariam certamente dormindo àquela hora, mas passado o breve lapso de humanidade e esfomeado pelo longo período de jejum, Plínio largou o dedo no nível máximo chegando a fechar os olhos antecipando a dor que o barulho indesejável causaria aos seus ouvidos. Foi abrindo os olhos devagar surpreso ao sentir o aparelho entrar em funcionamento apenas pela forma como vibrava nas suas mãos sem barulho algum. Chegou a bater com força para ver se o aparelho gritava como era de se esperar, mas ele continuava apenas a tremer, talvez de medo de apanhar mais, enquanto transformava as frutas na vitamina matinal de Plínio.

Como a sonolência e a fome superavam naquele momento a curiosidade e a surpresa, Plínio desligou o motor convencido de que deveria comprar outro, afinal liquidificador que não faz barulho não funciona adequadamente. Com o copo alto cheio até a boca da grossa vitamina, preferiu não ligar a TV e, em vez disso, sentou-se na confortável poltrona de vime que tinha na varanda onde leria as notícias do jornal do dia. Em dias calmos, Plínio ali relaxava observando os passarinhos sob as copas das árvores que filtravam a manhã no chão do promontório. Aquela natural algazarra, junto com uma ou outra freada brusca ou buzina estridente, ônus de se morar em qualquer cidade grande, contribuía para dar a tranquilidade procurada por Plínio nesses momentos.

Sentou-se e descansou o copo sobre a mesa auxiliar enquanto desdobrava o jornal até sua coluna preferida quando estranhou todo aquele silêncio. Onde estavam os pássaros neste dia ensolarado? Seria feriado? Onde estavam os sons do trânsito? Nem a vassoura do porteiro a varrer as folhas na calçada ele ouvia.

Levantou-se e se debruçou sobre a grade da varanda para ver se a rua estava mesmo deserta como esperava pela ausência dos peculiares ruídos, mas teve outra surpresa. Estava tudo lá: o engarrafamento, o motorista com metade do corpo para fora da janela gesticulando feroz, o vendedor de balas no sinal abrindo e fechando a boca e, prestes a voltar à poltrona, ainda viu aquele carro vermelho bater na traseira do ônibus parado no ponto.

Arregalou os olhos menos para compensar a percepção sonora que acabava de descobrir perdida e mais pelo espanto de que era acometido por perdê-la e, antes de voltar a sentar-se, correu de volta para dentro e ligou a TV. A TV lhe salvaria. Atrapalhando-se com o controle remoto acabou colocando num canal sem sinal e com chuviscos. Tentou ouvir algum chiado mas era comum a TV não emitir som algum naquelas sintonias. Apertou então na sequencia correta os botões e chegou a um programa que não assitia há anos, impressionado por redescobri-lo ainda no ar. Na tela, uma grande plantação de soja sacolejava ao vento sem emitir nenhum som.

Plínio olhou no controle o botão do volume. Olhou a TV e mirou o controle em sua direção. Seria o derradeiro teste. Devagar, correu o dedo até o lado do botão que exibia o sinal de + e, de olhos cerrados, apertou. O som permaneceu ausente enquanto o rapaz abria os seus incrédulos olhos vendo a barra azul que significava o nível do volume chegar ao limite na tela.

Entrou em pânico. Ligou o chuveiro e não ouviu o espargir da água. Amassou o jornal e não ouviu seu ruído seco, espatifou o copo cheio de vitamina na parede branca da varanda e não ouviu nem estalido do vidro nem o tilintar de seus cacos sobre o chão de cerâmica amarela.

Deixou-se cair sobre o sofá em desespero, mãos à cabeça e, berrando, sentia a garganta arder. Tossiu de tanto berrar, quase vomitou e não ouviu sequer um gorgolejo disso tudo. Descabelado e de olhos vermelhos afundou o rosto entre as almofadas coloridas quando sentiu um toque suave sobre seus ombros.

Virou-se e, sob a cortina de lágrimas, viu Marta que entrara propositalmente em silêncio pois, pela hora, adivinhava Plínio ainda na cama, preguiçoso que era, sempre demorando alguns minutos antes de deixá-la pelo banho. As mãos de Marta deixaram suas costas e agora seguravam seu rosto como quem segura um cálice, ambas as mãos sob os maxilares. Ela então entreabriu os lábios prestes a pronunciar alguma coisa.

Plínio tremeu pela possibilidade de também deixar de ouvi-la. Sentiu-se à beira da morte quando, em câmera lenta, via os pulmões de Marta encherem-se em sua inspiração preparando-se para falar. Como de costume, Plínio fechou os olhos e encolheu-se.

- Calma, eu estou aqui. Vou cuidar de você - disse Marta e escutou Plínio abrindo os olhos feliz, curado por milagre da inusitada surdez. Ouviu tudo então: os pássaros, os carros, os gritos lá fora e os da TV, o chuveiro e o liquidificador do vizinho. E, mesmo tendo todos esses sons disponíveis aos seus ouvidos ressucitados, preferiu encostá-los no colo de Marta e ouvir o reconfortante bater de seu coração. O calor do abraço e o conforto do colo o fizeram dormir novamente, exausto que estava, e assim ficou até mais tarde. Até o meio-dia porque era mesmo feriado.

19 de julho de 2012

Minha Lua


O inverno chegou e era para sentirmos frio.

No entanto, o vento, as nuvens e as trovoadas que me cercam não conseguem arrefecer o calor que sinto em minha própria estação. Apesar de lá fora chover, aqui é Solstício de Verão e seu eterno dia. 

Apenas minha Lua me faz falta e me concedo o direito de chorar por ela como choram os lobos no frio das estepes, apertando meu coração sob meus próprios caninos.

Minha Lua, minha Lua, que tenho visto com frequencia tão bissexta mas cuja presença invisível paira sempre sobre meu céu, mesmo quase transparente ali ela está, e que se enche nas longas noites desse inverno. Minha Lua que me abraça a cada encontro com sua luz cálida e morna, diastólica. Meu peito relaxa no abraço e volta a comprimir-se na despedida. Minha Lua, minha Lua, que desde então controla a vazante de meus olhos e o preia-mar das minhas alegrias. Que mingua num sorriso puro e se renova a cada ciclo, comigo, comigo. 

Quantas estrelinhas em seu céu! Conto contigo cada uma e nenhuma foge. Há mágica e distância, fé e ignorância, bênção. Queria eu voltar a não saber. Não saber que é inverno lá fora e eu deveria estar com frio. Não saber desses quilômetros que nos afastam, desses anos-luz que meu beijo leva para chegar até você enquanto em segundos molho novamente meu rosto de saudade.

O inverno chegou e não me pegou desprevenido. Aqueço-me sob o cobertor da consciência tranquila, tendo o suficiente de lenha e fé no futuro. Chova o quanto chover, guio minha nau na tempestade que for, tendo minha Lua como Norte, vento nas costas e olhos de águia. Hasteio minha bandeira no frio desse inverno, nesse mar escuro e revolto, para que aos quatro ventos se diga que o homem forte não cai e, se acaso do chão se aproxima, é apenas para tomar novo impulso em direção a sua Lua. 

O inverno chegou e isso é bom. Sinal de que as flores desabrocharão e quente será já o primeiro dia do Verão. Me recomendo,então, à magnânima força que guia minha Lua para que minha estação se mantenha quando ele chegar.

13 de julho de 2012

Contos Corporativos - O Analista Sonhador

Já passava da hora do café quando o assunto que motivou a reunião chegou ao fim, mas antes que todos se levantassem Arlindo trouxe um novo assunto, não era exatamente um assunto novo, mas poderia ter esperado uma outra reunião, afinal, já passava da hora do café.

- Godofredo, dirigiu-se Arlindo ao chefe geral na cabeceira da grande mesa, precisamos achar alguém então para a vaga, lembra?

- Godofredo que fora pego a meio movimento de levantar-se, sentou-se novamente e, suspirando descafeinadamente, respondeu - Qual a sua sugestão?

- Pensei no Gumercindo - apontando com dedo rijo o analista.

- O Gumercindo? Mas o Gumercindo é um errante contumaz - sentenciou Godofredo mirando o próprio como se esperasse dele uma defesa, mas sabendo da quantidade de níveis hierárquicos que os separavam, Gumercindo só se permitiu uma resposta quando Arlindo, seu chefe, cutucou-o com o olhar, apressando a resposta.

- O Godofredo tem razão, Arlindo. Sou mesmo um errante contumaz. Mas também fui até hoje um acertante frequente. Não posso me comprometer a acertar sempre se isso for exigido como competência essencial para a vaga, mas posso dizer que vou morrer tentando. Algumas vezes os erros que cometi no passado evitarão que eu os repita na nova posição, o que faz com que o fato de ser um errante passe a contar a meu favor, mas devido às enormes exigências por inovação pela qual sofre a empresa atualmente e como nem eu nem ninguém pode prever o sucesso ou o fracasso de uma ação, os erros, sem dúvida, acontecerão sendo eu ou qualquer outro a ser empossado na vaga. Se precisarem de alguém que tente e erre querendo muito acertar podem contar comigo pois minha trajetória na empresa mostra que não tenho medo de tentar nem de mudar o que precisa ser mudado na tentativa.

Um silêncio solene pairou sobre a mesa de reunião quando Gumercindo calou-se e foi quebrado apenas quando Godofredo, em dúvida, retorquiu.

- Belo discurso, mas sério, quem a gente coloca na vaga?

5 de julho de 2012

Contos Corporativos - I - Chaves de Fenda


Apresentando o primeiro da série Contos Corporativos.


I - Chaves de Fenda

- Da China!? - exclamou sua pergunta Adalberto, o gerente tributário.

- Exatamente. É de lá que tudo vem hoje. Tá vendo essa caneta? É de lá, tá vendo? - mostrou Simão sacudindo-a no ar - É a mesma fábrica dessa caneca aí na sua mesa. E, se der mole, até a cueca que você está vestindo é de lá.

- Minha cueca é Calvin Klein.

- Então! É tailandesa. É tudo a mesma coisa.

A conversa cessou quando Godofredo entrou na sala de reunião. Havia um clima pesado no ar. As vendas que deveriam estar acima da média estavam abaixo por algum sórdido motivo que ninguém poderia saber. Exceto os clientes, talvez. Com o ar grave que a situação merecia, Godofredo, o gerente geral, deu início à reunião após os litúrgicos dez minutos de atraso.

- Amigos, estamos aqui para discutir soluções para aumentar as vendas. Alguém tem alguma sugestão?

Como não haviam sido informados do assunto da reunião, ninguém se manifestou. Quando a sobrancelha esquerda de Godofredo elevou-se tremulante, sinal de esgotamento de sua paciência, Adalberto tomou a palavra.

- Olha, o Simão aqui - olhando para o colega ao lado - havia sugerido que importássemos uns brindes da China para presentear os clientes.

Simão que havia sido convocado por um descuido da secretária ao digitar o nome da gerente de distribuição Simara, que encontrava-se em licença maternidade, endireitou-se na cadeira e prendeu a respiração, enquanto Adalberto continuava.

- Ele disse que até a sua cueca, Godofredo, deve ter sido fabricada na China. Afinal, a gente sabe que tudo vem de lá. Dessa caneta - disse apontando a caneta de Simão à mesa - até a roupa íntima de todo mundo aqui.

- Como você sabe a procedência de nossas roupas íntimas? - indagou Godofredo agora com as duas sobrancelhas arqueadas.

- Não é bem assim - tentou consertar Simão, engolindo seco - Eu estava comentando com o Adalberto que hoje tudo vem de lá e tal. E já que tudo vem de lá e é tudo meio vagabundinho...menos a sua roupa íntima, claro, essa é de ótima qualidade...a gente podia premiar os clientes que compram mais, os mais fiéis e tal.

- Temos clientes fiéis? - perguntou sem olhar para o Gerente de Informações, Relacionamento, Inteligência e Noções Orientadas (G.I.R.I.N.O) ao que ele respondeu prontamente.

- Certamente, Sr. Godofredo. E muitos. Só não sabemos quantos nem quem são, nem onde se encontram. Mas segundo uma pesquisa recente onde perguntamos aos clientes sobre sua fidelidade, quase cem por cento se disse fiel aos nossos produtos, o que nos dá uma margem de erro de zero ponto sessenta e três por cento de chance de agradá-los com brindes vagabundinhos.

A proposta começava a ganhar envergadura e quando uma proposta agrada o gerente geral ela deixa de ser órfã e acontece uma pouco solene disputa por sua paternidade.

- Inclusive - disse o gerente de marketing - nossos concorrentes nunca fizeram isso. Eu mesmo já havia sondado as agências de publicidade que os atendem sobre...sobre...sobre essa coisa de China e tudo o mais e eles disseram que nunca ninguém comprou nada de lá. Isso nos dá uma vantagem competitiva - completou com o jargão padrão para que todos esquecessem as baboseiras que havia dito e concordassem bovinamente, intenção de todos os diplomados em propaganda.

O gerente de vendas, então o dono do problema, não teve dúvidas - Vamos trazer essas bugingangas então. Simão, quanto custa?

- Bom, pelo que ouvi falar depende do item, da quantidade e das especificações. Mas se estiverem todos de acordo eu posso sondar o fornecedor e...

- Calma aí!! - interrompeu o coordenador de Aquisição de Itens Corporativos Secundários - pode deixar que a minha área concentra as competências necessárias para esse tipo de negociação estratégica. Estamos acostumados a lidar com os chineses e sabemos que sua cultura não aceita diversos cacoetes negociais pelos quais leigos despreparados costumam se deixar levar.

Godofredo parecia satisfeito e levantou-se, mas não sem antes vaticinar como um oráculo em tom ao mesmo tempo desafiador e motivante.

- Se esses itens não estiverem aqui em duas semanas estão todos vocês na rua. E o primeiro da lista é o Simão que deu a idéia.

Era um líder nato.

Então, em uma semana, empurrados por um Simão em desespero, cada um atuou em sua especialidade. A G.I.R.I.N.O conduziu uma pesquisa online com dezessete clientes que aprovaram as cores os formatos e o preço. A G.I.R.I.N.O, porém, não garantia o sucesso da ação, uma vez que a campanha de comunicação, responsabilidade do gerente de marketing, ainda não havia sido finalizada pela agência de publicidade contratada, afinal a agência não estava acostumada a trabalhar com prazos tão curtos e a quantidade de peças encomendadas era enorme, desde outdoors, busdoors, taxidoors e os famosos wooblers que, por mais que explicassem, ninguém do próprio departamento sabia direito para o que servia, sabiam apenas que eram estratégicos.

Enfim a campanha chegou, mas o marketing não garantia o sucesso da ação, uma vez que o fato de serem produtos chineses era uma novidade e ninguém poderia prever a reação dos clientes tão acostumados que estavam com o excelente produto que a empresa lhes oferecia. Um fato a dar mais mistério à livre queda que experimentavam as vendas.

Aprovados os conceitos de comunicação e produto, o coordenador de Aquisição de Itens Corporativos Secundários entrou em contato com o consulado chinês, que o pôs em contato com a câmara de comércio, que os pôs em contato com a associação de produtores chineses do item escolhido, mas era a associação errada e perderam alguns dias até descobrirem o que significava aquele misterioso ideagrama vermelho no alto da folha de apresentação.

Por fim, acharam um fornecedor e marcaram uma reunião. Simão não foi avisado, mas por acaso esbarrou com o grupo pelos corredores da empresa e saudou efusivamente o chinês, morador de Campinas, seu parceiro de ping-pong nos tempos de colégio, atualmente representante da empresa chinesa escolhida.

A reunião aconteceu e o setor de Aquisições emitiu parecer dizendo não poder garantir o sucesso da ação devido ao fato de que o fornecedor não estava cadastrado no sistema, processo que duraria mais ou menos um mês, tempo esse que inviabilizaria a entrega no prazo mesmo que viessem de avião fretado comercial desde Pequim ou Xangai, já não poderiam dizer com certeza. Nenhum deles entendia bem o sotaque campineiro.

Simão tomou para si a responsabilidade, coisa que sabiamente Godofredo já havia lhe imputado, mestre na arte da delegação que era, e colocou seus próprios dados no sistema, o que aceleraria o processo, mesmo sabendo que, à partir daí, estaria devendo à sua própria empresa quase dois milhões de itens vagabundos chineses equivalentes a meios milhão de dólares. O produtos eram realmente baratos. Feito isso, disparou uma mensagem de “ok” para que a agência de publicidade produzisse as peças, inclusive um filme de sessenta segundos para TV que deveria estar no ar naquela noite.

Acompanhando online centímetro a centímetro o avião cruzar o planeta, Simão tinha ainda uma missão a cumprir. Enquanto voavam os itens, Adalberto deveria preencher a papelada da Receita Federal para que a inspeção aduaneira soubesse de antemão o que estava por vir e não criasse caso com a enorme e inusitada carga para um cliente mais inusitado ainda.

- Adalberto, eu sei que já são cinco e quinze, mas antes de você ir embora, será que você poderia me fazer a gentileza de, por favor, preencher a papelada da Receita dos itens que estão vindo da China? - é impressionante como o desespero nos deixa educados.

- Tá vendo aquela caneta ali no chão? - perguntou Adalberto.

- Sim, é a chinesa. O que que tem ela?

- Ela caiu ali eram cinco horas.

- E daí?

- E daí que ela está no chão desde às cinco horas porque à partir das cinco horas eu não trabalho mais.

- E o que você está fazendo na empresa então??

- Estou atualizando meu Facebook.

Vendo a inutilidade de sua permanência ali, Simão catou a papelada da Receita e foi até o Departamento de Notas Fiscais para ver se alguém ali poderia ajudá-lo, mas também foi em vão. Então começou a preencher com o que achava certo. Inseriu um número de CNPJ com vinte e três dígitos, um registro de importador inventado e despachou tudo com um carimbo vermelho escrito PDR, sigla para Produto Defeituoso Reutilizado.

Por algum milagre que só o santo protetor dos processos corporativos poderia ter perpetrado, os itens chegaram no último dia do prazo dado por Godofredo que foi pessoalmente inspecionar as caixas de papelão carimbadas com diversos ideagramas incompreensíveis. Ficou tão satisfeito que chegou até a comentar com sua secretária.

A ação correu na semana seguinte e foi um grande sucesso, como já haviam previsto os especialistas da G.I.R.I.N.O, o marketing e o departamento de Aquisições. E a causas de tanto sucesso eram óbvias: o levantamento acurado das preferências dos cliente, a intocável campanha de comunicação que provavelmente renderia uma indicação a Cannes para a agência e, claro, a perfeita negociação de condições que fizera o departamento de Aquisições com o fornecedor. 

Alguns dias porém após a ação ter acontecido, as vendas que foram levemente elevadas e conferiam ao gráfico uma esperançosa tendência de crescimento, voltou a cair e a proximidade do vermelho no resultado da empresa levou Godofredo a chamar outra reunião quase às nove da noite, mas dessa vez todos sabiam o assunto, apesar de novamente não estar especificado na convocação via email.

Com todos presentes, Godofredo disse.

- Confiei em vocês e as vendas voltaram a cair. Quero que importem mais bugingangas da China, mas dessa vez para essa semana. Vocês são bons e não vão cometer os mesmos erros duas vezes. Já passaram por esse processo e sabem que pontos devem ser revisitados. Uma semana. E se não chegar, Simão, você será demitido.

Sem deixar que Godofredo terminasse a frase, Simão disparou da sala de reunião direto para a baia onde trabalhava Adalberto na esperança de ainda encontrá-lo ali.

- Adalberto, Adalberto! O Godofredo quer mais uma encomenda da China! Preciso correr primeiro com a papelada da Receita. Me ajuda!?

- Bugingangas da China de novo!? Só se fala nisso agora! Quero é saber quando essa empresa vai voltar a vender chaves de fenda.