30 de dezembro de 2011

2012

Amanhecer sobre as dunas, anoitecer na praia. Flanar por Paris.
Ler um livro sob uma palmeira.
Sentir o vento no rosto.
Banho de chuva.
Deixar o pé molhar na água do rio.
Pitanga do pé e lambida de cachorro.
Abraço de mãe, de filho e de amigo.
Primeiro beijo.
Último pedaço.
Andar de mão dada.
Barulho de chuva. Cheiro de terra molhada.
Quando uma música diz o que você sempre quis dizer.
Flerte.
Chopp com amigos sem hora para acabar.
Andar descalço.
Acordar com beijo.
Pular muro. Jogar bola no asfalto.
Marcar um golaço. Defender um pênalti.
Fechar um negócio. Lançar um produto.
Dar presente. Botar a mesa.
Uma guitarra aguda. Um solo de violino.
A introdução da sua música preferida.
Ouvi-la de olhos fechados.
Risada de criança.
Ver seu time campeão no estádio.
Rodinha em show de metaleiro.
Ouvir declarações de amizade de seu amigo bêbado.
Cozinhar. Cheiro de refogado.
Jogar buraco bebendo vinho.
Sair do aeroporto numa cidade desconhecida.
Fazer amigos.
Escutas estórias.
Mudar de idéia. Ser genuinamente convencido.
Lua cheia. Lua minguante.
Identificar constelações.
Lareira e frio. Rimar.
Escrever uma carta a mão. Receber a resposta também a mão.
Picolé de uva. Ejetar do balanço.
Receber um elogio sincero. Abraço apertado.
Chorar de alegria.
Ler no ônibus.
Ouvir música no engarrafamento.
Brigadeiro.
Tirar a gravata.

Você entendeu o que eu quis dizer.

Esses são meus votos a você para o ano de 2012.

29 de dezembro de 2011

NecRomance Parte III - Final


Bailarina e levada para o Caju e, em fuga desesperada, o morto-vivo Zumbi corta as ruas do Rio de Janeiro tentando evitar a triste cremação de sua amada.

Parte III - Final
A única coisa que podia deter um motorista em pânico dirigindo um carro assustador era o trânsito e trânsito melhor não há senão o dos arredores do hotel Copacabana Palace onde o motorista acabou por meter-se. Zumbi, preso no caixão, não fazia idéia de onde estavam e, apesar de ouvir as sirenes lá fora, não adivinhava que seriam a causa de tão potentes manobras no motorista que o jogavam para lá e para cá dentro do porta-malas. Mas a ausência de movimentos bruscos de repente chamou sua sobrenatural atenção. O anda-e-pára do engarrafamento, além de deixá-lo enjoado, fazia-o desconfiar que, ou estariam chegando, ou estariam perdendo tempo. Saiu do caixão com tanta dramaticidade, quebrando e destruindo toda a madeira, que fez desfalecer o pobre motorista cujo coração não agüentou mais tanta emoção. Sem motorista que o guiasse às escondidas, Zumbi decidiu continuar a pé até seu destino, sem saber que estava agora ainda mais longe dele do que quando começou a jornada. O barulho ensurdecedor da buzina do rabecão, ritmada com as tentativas de Zumbi quebrar os ossos do crânio do motorista para comer seu cérebro, não foi sequer notada entre a multidão de outros motoristas que, por quaisquer outros motivos, também buzinavam em frenesi.

De energias renovadas, Zumbi saiu do carro e equilibrou-se como pode nas entranhas do engarrafamento. Ouviu novamente as sirenes e, olhando para trás, viu que a polícia também ficara entupida no meio dos outros carros. Achando que não era a razão pela qual tanta polícia se reunia, Zumbi chegou à calçada onde, por seu aspecto funesto, abriria caminho mais facilmente do que no meio da dureza dos automóveis, como ele, sem alma. Porém, aos sons agudos das sirenes e buzinas, somaram-se os secos estampidos das armas que atiravam em sua direção e explodiam as vitrines das lojas por onde Zumbi passava. Os estilhaços voavam até o corpo dobrado do morto-vivo e os mais pontiagudos varavam sua carne fazendo sangrar o sangue do motorista que corria em suas veias. Não podia ser pego pelos policiais, eles não entenderiam sua condição, não essa de defunto acordado perambulando pelas ruas assustando as pessoas, o que poderia já ser classificado como crime de perturbação à ordem pública, mas aquela de verdadeiramente apaixonado pois, mesmo entre a morte e a vida conforme estava, ainda buscava a eternidade ao lado de sua amada à beira não da morte, pois que até por essa já haviam passado, mas digamos à beira da decomposição definitiva pelas brasas rituais da cremação. Fugiu, então, por uma rua transversal até chegar à praia quando foi surpreendido pela sensação da própria surpresa, que nem ele mesmo achou que fosse capaz de sentir, morto que estava, causada pela chocante concentração de outros mortos-vivos justamente em frente ao referido hotel. Suas figuras desfiguradas, trapos em volta do corpo, sangue escorrendo pelos membros e chagas reluzentes nos rostos, tudo isso muito familiar e, ao mesmo tempo, muito estranho para Zumbi. Mas seu objetivo continuava o mesmo e, valendo-se da boa sorte de ter deparado com uma passeata de zumbis, misturou-se à turba lavada de sangue artificial e perdeu-se da vista dos policiais que o seguiam até ali.

Despertava reações diferentes enquanto passava empurrando os outros com a urgência que levava dentro de si, além dos miolos do motorista. Alguns o parabenizavam pelo realismo, outros pelo cheiro repugnante que exalava. Outros, mesmo vomitando nauseados ainda assim batiam palmas enquanto Zumbi passava tentando alcançar outra rua mais vazia por onde pudesse voltar ao caminho para o Caju. Ignorando todo aquele cortejo, passou por baixo de uma grande faixa branca onde se lia “Zombie Walk RJ” e entrou numa pequena ruela onde um taxi estava parado esperando que um casal caracterizado para a passeata entrasse. Chegou ao carro, abriu a porta da frente e aboletou-se no banco do carona ignorando os insultos que tanto o motorista quanto o homem que ia atrás esbravejavam em sua direção. Tentando manter seu único olho no lugar, encarou a menina que ia atrás em silêncio. Aos poucos, a vivacidade dos tecidos mortos escorrendo pelo seu rosto de Zumbi, a baba negra ressecada nos cantos da boca e aquele odor insuportável convenceram-na de que o que estava ali era além de um homem, sensibilidade que só uma mulher fantasiada de presunto poderia ter. Calmamente ela acariciou o braço rijo de seu acompanhante ultrajado e, numa voz angelical, disse “vamos com ele”, sentenciando o destino de todos. Alguns podem pensar que acontecera aqui um episódio de hipnose ou algo parecido, porém, o que ocorreu foi apenas efeito de uma grande sensibilidade, não aos horrorosos aspectos superficiais que Zumbi representava, mas à brilhante aura de amor que guiava os passos vacilantes daquele morto percebido no coração daquela menina. Vida e morte conversam assim, por detalhes. São irmãs que, ao cruzarem um olhar se entendem. O que conhecemos como morte nada mais é do que o abraço fraterno entre vida e pós-vida, separadas por um gigante de sombras que nós mesmos criamos. Com essas palavras, “vamos com ele”, a menina serenou a tensão que pairava no taxi e até o bruto motorista, de alguma forma impactado por aquela doçura, desligou o taxímetro e pôs pé na tábua na direção do endereço que, por mais amassado, ensangüentado e sujo, permanecia legível na etiqueta de Bailarina.
O taxi seguiu sem percalços até a porta do cemitério. Zumbi já movimentava os ossos aparentes de seus joelhos no movimento para deixar o carro quando o motorista, sem medo ou nojo, tocou seu ombro e, entregando-lhe uma nota de dez reais, disse “compra uma flor e diga a minha Eleonora que sinto saudades”. Sem lágrimas ou emoção para chorar aquele momento, Zumbi deixou o carro e, tropeçando na banca de flores e, catando algumas delas, jogou o dinheiro no chão ainda ouvindo, ao longe, a doce voz da menina que repetia “boa morte, boa sorte” ritmadamente como uma autista. Seguiu pela aléia principal que levava às capelas segurando com dificuldade a montoeira de flores que usava também para disfarçar-se. Viu o rabecão que levou Bailarina parado ao pé das escadas que subiam à ante-sala de onde se chegava às capelas de velório. Sem saber onde encontrar sua amada, perpassou todas até um corredor ao fundo que levava para a capela específica de cremação.
Seu murcho e imóvel coração se contorceu de ansiedade quando viu Bailarina plena do frescor da juventude estampada em um grande pôster circundado por uma guirlanda de flores ao lado da última porta do corredor. Mesmo preferindo a imagem de Bailarina que carregava na podre memória, aquela do encontro arrebatador no necrotério, uma ternura traspassou-lhe a carne putrefata fazendo-o ciente de que não poderia evitar o cruel destino a ela reservado. Parou alguns passos antes de entrar na capela ouvindo os gemidos chorosos da família ou quem mais que lá estivesse sentindo saudades pela passagem prematura da linda moça. Apoiou-se na maçaneta de uma porta ao lado preparando o fôlego da qual não precisaria nunca mais, exceto para encarar este momento, quando viu a placa pregada à porta que indicava ali o caminho para o forno.

Entrou e encontrou lá dentro o caixão aberto e sua amada coberta por um leve filó branco toda pronta para ser posta na esteira que levava ao forno já em chamas. Bailarina, fingindo-se de morta, ou melhor, fingindo não ter dentro de si a fagulha que nos anima à qual chamamos vida, permaneceu imóvel durante os longos segundos que Zumbi levou para aproximar-se dela. Seus olhos haviam sido cobertos por um véu mais espesso para que seus globos oculares não explodissem no processo de cozimento da cremação, nada viu até que a mão esquelética de Zumbi passou livrando-a venda. Como se sentisse não só o cheiro que se fazia quase sólido na sala, Bailarina abriu os olhos a tempo de ver o rosto degradado de seu amado aproximando-se para o beijo que a reanimaria. E ela se deixou beijar, estalando as duras articulações mandibulares e tilintando os dentes aparentes num êxtase de vida e morte, misturando as excrescências de nosso corpo ao fim da vida com a pureza de nosso ser, única coisa que levamos conosco em nossa morte. Deuses e mártires somos todos pois esquecem-se de nossos pecados todos aqueles que permanecem a chorar a nossa falta. A morte é a apoteose de nossa vida e, assim sendo, selado com um beijo escorrido de pus e bile, Zumbi e Bailarina finalmente se reencontraram para morrerem em paz na vida eterna.

Retirando Bailarina do caixão com o pouco cuidado que o corpo endurecido poderia fornecer, Zumbi pegou a mão da morta e saiu da sala. Mas logo voltou para pegar o resto e guiá-la até onde já sabia que poderiam descansar. Bailarina, vestida num branco reluzente que nos faria acreditar que um dos tantos anjos esculpidos expostos no cemitério havia ganhado vida para vingar-nos do pecado original, ainda sentiu um aperto ao ouvir os lamurios vertidos em sua homenagem na capela, mas o futuro à sua frente foi mais forte e decidiu finalmente deixar a vida para trás, apegando-se à morte perfeita para qual Zumbi a levava. Este, ainda levando algumas rosas no bolso do jaleco, desviou o caminho e achou o mausoléu onde repousava Eleonora. Abrindo com facilidade as grades de ferro achou lá dentro, uma sepultura vazia e outra ocupada. Retirou o que restava de ossos, jogou-os com o máximo de solenidade possível para um canto e colocou uma rosa. Cavalheiro, devolveu a mão à Bailarina e, pegando-a com toda a fidalguia, fê-la entrar na cova e com ela entrou, cobrindo-se para todo o sempre com a enorme pedra lápide onde se lia “Quando nasce, o homem é fraco e flexível. Quando morre, o home é forte e rígido. A firmeza e a resistência são sinais de morte. A fraqueza e a flexibilidade, manifestações de vida.”

20 de dezembro de 2011

NecRomance Parte II


Um corpo sem alma volta à vida durante autópsia num necrotério e é atraído pelo cadáver de uma recém-chegada Bailarina.

Parte II

Zumbi ajudou Bailarina a levantar-se da gaveta sentindo todos os centímetros daquele belo corpo esculpido à disciplina da dança indo de encontro ao seu. Seus pés pesaram com a quantidade edemaciada que se desprendia do corpo dela e caía na medida em que roçavam um no outro. A exposição daqueles músculos perfeitos secretos quando em vida, só aumentava a ansiedade de ambos e a vontade possuírem-se mutuamente, seja lá como fariam, vontade não faltava, e uma vez que estavam já nus e havia a maca da autópsia livre, Zumbi deitou ali sobre a bailarina que, num único sinal de aprovação, passou-lhe os braços sobre os ombros e deixou-se levar pelo necrocoito iminente.

O que aconteceu em seguida, para sermos práticos, aconteceria se fossem humanos, símios, marsupiais ou cetáceos. Mas como são zumbis, vale uma descrição mais apurada nem que seja para o exercício da observação e catalogação científica. Não é todo dia que vemos zumbis reproduzindo, ou reproduzindo o ato humano de reproduzir. Chamem a National Geographic. Continuando, o que aconteceu em seguida começou com o estímulo de glândulas, algumas já expostas ao ar de tanto estímulo, outras mesmo ainda secretas, de difícil acesso, tendo Zumbi que jogar de lado algum rim ou pulmão para alcançar. Mãos que corriam ao longo dos corpos de muito, muito pouca pele e apenas alguns tufos de pêlo e cabelo aqui e ali. E, nas mãos, já se viam os ossos das falanges distais e a intrincada combinação de osso e tendões. Felizmente ainda havia línguas, mesmo que enegrecidas e secas, mas suficientemente ágeis para travar aquela guerra de movimentos dentro ou fora da boca e, às vezes, dentro e fora ao mesmo tempo.

Porém, não satisfeita em tê-los deixado, a vida interrompeu-lhes também o coito que sucederia não fosse o barulho de outros passos na direção da sala onde estavam. Pode parecer até que a morte de Zumbi tivesse sido de tuberculose, tamanha era ainda a sensibilidade daqueles tímpanos apodrecidos. O mais rápido que seus membros decrépitos permitiam, saíram os dois de cima da maca, não sem deixar ali pele, sangue, pus e outros humores, restos do encontro de ambos, isso sim uma verdadeira troca de fluidos corporais, e meteram-se cada um em sua respectiva gaveta. Quem entrou na sala não foi o faxineiro, nem aquele há pouco condenado ao hospício, nem o infeliz que o substituíra, mas sim o legista tarado que, dessa vez, não trazia consigo nenhum novo corpo para análise, mas um papel carimbado, um atestado de óbito.

Zumbi apenas acompanhava o movimento com seu ouvido zumbiônico e deu-se à liberdade após uma seqüência de barulhos que identificou como um abrir e fechar de gaveta, um baque metálico de corpo caindo na maca, o som das rodinhas desaparecendo ao longe e o fim do flapflap da porta de plástico grosso. Foi direto até a gaveta onde Bailarina deveria estar e, para sua surpresa, que só olhos bem treinados na identificação de expressividade de zumbis podem perceber, tinha sido justamente ela a ser levada pelo legista. Um surto de raiva tomou o que lhe restava do corpo. Balbuciou impropérios na linguagem gutural que é própria aos mortos-vivos e só não destruiu toda a sala com sua ira com medo de chamar atenção demais. Infelizmente, em seu estado avançado de putrefação, apenas alguns centímetros cúbicos de seu cérebro lhe serviam, e foram justamente os mais aventureiros que foram ativados naquele acesso. Cambaleou até um cabide onde ficavam alguns jalecos e meteu-se num. Achou máscaras, luvas, botas e tudo o mais com o que pudesse ocultar seu real estado e decidiu ir atrás de sua amada Bailarina. E, quando metia a touca por sobre a cabeça meio pelada, seu olho escorreu definitivamente da órbita, indo parar debaixo da mesa do legista. Nós, acostumados com a leveza e fluidez de nossas articulações, não fazemos idéia do esforço que fez Zumbi para recuperar seu globo ocular. Porém, a natureza o faz e recompensou-o, boa que é, com a visão do dedão esquerdo do pé de sua amada onde ainda dependurado num toco de osso, estava a etiqueta com seus dados de entrada e, segundo uma nova norma que sucedera aos acontecimentos trágicos narrados anteriormente, a forma e o local de deposição dos restos mortais, no caso dela, cremação e Cemitério do Caju, respectivamente.

Zumbi arregalou o olho vermelho e inchado que ainda se prendia ao crânio e, agora sabendo exatamente aonde ir, pôs-se em carreira, ou simplesmente em movimento, pois rapidez nenhuma, tampouco agilidade, podemos esperar de alguém em suas condições. Porém, a vontade, a fome e aquilo que há pouco concluímos ser algum tipo de paixão, movia-o mais lepidamente do que faria um defunto comum. Por falar em fome, os tecidos ressequidos precisavam de alguma reidratação e, aproveitando-se de uma distração do, agora sim, novo faxineiro, Zumbi trancou-se com ele no almoxarifado e fez dele sua nova refeição. Não teria sido uma refeição completa, com uma entrada de olhos e língua, seguidos de sopa de rins e fígado e salada de cabelos; o coração como prato principal, o cérebro esfacelado como tira-gosto e um suco de bile para rematar; mas um lanche rápido, cujo tempo levado para deglutir era inversamente proporcional à urgência de reencontrar sua Bailarina.

Saiu do almoxarifado ainda a tempo de ver o rabecão que a levava e, louco de ansiedade, nem se deu conta da figura horrenda que era com aquele jaleco andando pelos corredores, digamos, sociais do instituto. Não demorou muito para que irrompessem os gritos de pavor dos vivos que ali estavam trabalhando ou não, ao depararem-se com Zumbi coxeando pelo saguão principal deixando atrás de si um rastro de sangue e pedaços do seu corpo e do faxineiro.  Abriu as grandes portas de vidro da entrada sem dificuldades e, por algum resquício de humanidade, fez sinal a um taxi que passava na hora. Mas, pela velocidade com que passou, podemos adivinhar que o motorista não tinha condições psicológicas de levar tão inusitado passageiro.

É impressionante a volatilidade das atitudes humanas que levam as pessoas a se aglomerarem curiosos em torno de alguém morto em virtude de algum acidente em via pública e a saírem em disparada ao encararem o mesmo morto, talvez, reanimado. Que curiosidade mórbida nos aproxima dos recém partidos e nos afugenta dos partidos já há algum tempo, como se tempo fosse o grande vilão que transforma a desconhecida vítima em parceira da Morte no ofício de nos levar para o outro lado. Coitado, pensamos do morto que vai e, vade retro para o morto que volta. Mas, contrariando as expectativas, toda a multidão de dentro do prédio e do entorno saiu a acompanhar aquele morto que retornara. Ninguém se atrevia a se aproximar, melhor para ele, mas se quisesse chegar ao Cemitério do Caju a tempo de preservar sua amada da fornalha, teria que conseguir um jeito mais rápido de se locomover pois o rabecão já ia longe.

Seria um exagero dizer que Zumbi estivesse olhando em volta, pois seu olho já perdera o frescor funcional que lhe seria peculiar em vida, mas podemos dizer que, avaliando sua situação e percebendo de alguma forma as coisas que se encontravam ao seu redor, Zumbi arrastou-se como pode até uma funerária ao lado do instituto, fenômeno comum em qualquer cadeia de serviço que se preze, veja se não existem oficinas bem à frente de quebra-molas. Entrou esmurrando a porta e causando grande furor entre os funcionários que, mesmo acostumados a lidar com os trâmites que circundam a morte, nunca estiveram preparados vê-la assim ao vivo, de carne e osso. Uma família que resolvia os últimos detalhes do enterro de um ente querido, não criou empecilhos em ceder o esquife comprado e rabecão alugado para Zumbi que de alguma estranha maneira conseguiu expor claramente através de grunhidos e berros assombrosos as suas intenções.

Preservando sua imagem grotesca da atenção alheia, Zumbi arrastou um dos atendentes em estado de choque da funerária para dirigir enquanto ia escondido dentro do caixão no enorme porta-malas do carro. Com a etiqueta da Bailarina tremulando no espelho retrovisor e defecando-se de medo do conteúdo que levava, o motorista iniciou, ainda que trêmulo, o longo caminho até o cemitério do Caju. Na altura da Avenida Perimetral, o motorista que já estava se acostumando com a missão, quase morreu de susto ao ouvir as sirenes dos inúmeros carros de polícia que vinham acelerados em sua direção. Imediatamente, não com a intenção de fugir dos policiais, mas mais por reflexo, pegou a primeira agulha de saída, em direção à Copacabana, na intenção de despistar a lei que o seguia. O rabecão, mesmo sem sirene, conseguia o respeito dos outros motoristas que, ao verem o reflexo daquele imenso carro preto quase descontrolado, o carro da própria morte, imediatamente abriam caminho para que passasse sem que os levasse consigo.

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13 de dezembro de 2011

NecRomance Parte I


Imagine um lugar quente, onde se trabalha coberto da cabeça aos pés, inclusive com luvas de borracha arrochadas, máscara, touca, botas e jaleco por cima das suas roupas. Agora, imagine que neste lugar não funciona o ar-condicionado e, para piorar, há uma grande quantidade de corpos em decomposição ao seu redor, dentro de gavetas de metal ou simplesmente deitados em macas e cobertos com lençóis cujas cores variam entre o encardido e o encarnado.

Foi neste lugar, mais ou menos na hora do almoço de uma segunda-feira de calor sufocante, que chegou o corpo levando pendurada no dedão do pé uma etiqueta de número 89634. A princípio parecia comum, marcas da violência cotidiana, sem nada superficialmente apavorante. Por isso, ficou na fila. Teria sua vez de passar pela autópsia lá pelo final da tarde. De quinta ou sexta-feira.

Porém, no final da terça, o cheiro começou a chamar muita atenção. Aquela carcaça fedia além do normal. A solução para o problema era uma só: tirar outra carcaça da gaveta e meter ali a fedorenta onde federia menos, ou tanto quanto, porém restrita a um ambiente menor não chegaria a afetar tanto nossas narinas. Desgraçado o papa defunto que teria a sorte de fazer-lhe a autópsia após dias de confinamento. Abrir aquela gaveta seria encarar uma explosão flatulenta de mil megatons. Haja máscara.

E foi mais ou menos isso que aconteceu. Na sexta-feira, o estagiário foi escalado para fazer a autópsia deste corpo que era, provavelmente, de algum mendigo ou outro tipo qualquer de degradado, adivinhavam todos pelo cheiro. Sem saber do que se tratava, o estagiário cumpriu normalmente sua rotina. Saiu da faculdade, onde planejava laurear-se na especialidade de medicina legal e prestar um concurso para algum lugar melhor o mais longe possível daquele, se é que existem lugares melhores onde se pratiquem esse tipo de ofício, e chegou no final da tarde para cumprir seu turno que iria até as seis horas da manhã do dia seguinte. Pela listagem do dia, o 89634 seria o sétimo a ser autopsiado, lá pelas três ou quatro da manhã, pensou o rapaz que, por incrível que pareça, estava extático com o trabalho, pior do que um estagiário, é um estagiário empolgado. Apesar das condições das instalações, sentia-se como o próprio Miguel Ângelo, a dissecar cadáveres longe dos olhos da Igreja Católica. A única diferença entre eles era o que faziam com o conhecimento adquirido, mas não há de ser nada, pensava o rapaz, o mundo verá a perfeição das minhas notas no concurso, cogitava.


Menos à luz de velas e mais à dicróica, o estagiário puxou a gaveta do 89643. Nauseou-se um pouco mais do que o de costume quando inalou a espessa fumaça verde que envolvia o corpo coberto pelo lençol. Comprometido, comprara há alguns dias um ventilador desses portáteis e colocou ao lado, contrariando todas as normas técnicas aprendidas na faculdade. Conseguindo dissipar o cheiro e aproveitando para arejar o pescoço e as axilas, não do morto mas as suas próprias que sofriam com a falta do condicionador de ar, puxou cuidadosamente o lençol de sobre o corpo, iniciando uma observação minunciosa.

Ia anotando enquanto examinava. Homem, caucasiano, olhos verdes, estatura mediana, entre vinte e cinco e trinta anos, dez dedos nas mãos, dez dedos nos pés, cabelos loiros cortados a militar. Inexistência de hematomas, cortes ou fraturas tanto dorsais quanto nos membros inferiores ou superiores. Já aliviado do mau cheiro, o estagiário tomou bisturi à mão e descreveu os cortes necessários para a observação da estrutura interna do cadáver. Uma nova onda de fedor tomou-lhe as narinas logo na primeira incisão mas, na medida em que corria a lâmina, o cheiro amenizava-se encorajando-o a seguir adiante. Toda aquela trabalheira não prometia nenhuma novidade, pensava, quando, examinando a caixa torácica, percebeu que o corpo havia tido as grandes artérias coronarianas cortadas a dentadas, o coração havia sido retirado e atado de volta no lugar com nós de marinheiro. O estagiário achou aquilo tudo muito estranho e olhou em volta na esperança de encontrar algum dos superiores rindo-se da galhofa. Em vão. Não havia ninguém na sala àquela hora da madrugada. Tornou a olhar o coração cercados de trempes e escotas, aproximando-se um pouco por vez até estar a alguns dedos de distância quando a luz, por algum motivo que nunca saberemos, apagou-se e voltou alguns segundos depois. Tentando refazer-se do susto, pois mesmo acostumado ninguém nunca ficará totalmente à vontade numa madrugada remexendo o bucho de um cadáver, o estagiário decidiu fechar o corpo e deixar para pedir orientações no dia seguinte. Pegou a linha de nylon e, quando já se preparava para arrematar a costura, a mão nodosa e inchada do morto tomou a sua com uma força impressionante.

O rosto do estagiário era o que havia de mais branco na sala de autópsia. O morto, para seu espanto, levantava-se da maca e estraçalhava os ossos de seu punho. Seus berros abafados pelas paredes do lugar, não faziam mais do que deixá-lo rouco e surdo. O morto aproximava seu rosto, olhos esbugalhados e sangue a escorrer das narinas, do rosto do estagiário e abria a boca na direção da dele, mostrando seus dentes, todos perfeitos, numa mordida fatal encobrindo boca e nariz e asfixiando o pobre estagiário até sua morte.

Ao perceber o fim da luta, 89643 largou mão e cabeça da vítima e refestelou-se em seus órgãos ainda mornos de vida. Era uma fome nova que sentia, tão natural quanto o ato de respirar e tão renovadora quanto um suco de melancia gelado após um passeio pelo deserto. Chupava o fígado como uma manga recém colhida do pé, estraçalhou o cérebro na tentativa de abrir a caixa craniana no chão de azulejos e degustou os pedaços como pequenos mexilhões a vinagrete. O banquete durou algum tempo e, apesar de morto, o cadáver mostrou ser bem vivo pois, consciente de sua condição atual e, contra todas as expectativas, movido por algum tipo distorcido de instinto de sobrevivência, ou sobremortência, catou os papéis que comprovavam a sua morte de cima da mesa de operação e engoliu-os como a sobremesa deste jantar bizarro e voltou a deitar na gaveta onde o tinham colocado antes que tudo isso tivesse acontecido.
O primeiro a deparar-se com a cena foi o faxineiro. Não conseguindo evitar a reviravolta de seu estômago, largou o café-da-manhã junto com os poucos restos mortais do estagiário que, não fosse a arcada dentária, não teria posterior reconhecimento. Tenso e nauseado, o faxineiro correu a chamar todos que pudesse para verem a cena e disso constitui-se um grande circo. Primeiro os médicos locais, depois enfermeiros, atendentes e as pragas dos repórteres que, tendo suas antenas tão longas, percebem o cheiro de matéria nova onde quer que ela nasça, ou neste caso, morra.

Mas tudo, em seu devido tempo, voltou ao que era antes. Quando se retirou o último cone e quando se expulsou o último vendedor de mate, a vida retomou sua normalidade e o incidente não passou de algumas notas no jornal e diversas seções de terapia para o faxineiro que, após ter sido acusado como responsável pelo indigesto assassinato, pôs-se em defesa alegando insanidade mental, o que não uma inverdade, tamanho foi o efeito da visão horrenda que presenciara. Assim, ficaram todos satisfeitos. Repórteres com suas matérias, polícia com seu culpado, o faxineiro em sua cela especial e redução de pena e o instituto médico legal que angariara alguns fundos a mais após tamanha exposição na mídia.

De todos, o único que não estava bem era 89634, com o estômago ainda embrulhado de tanta papelada que deglutira em sua fuga. Aquela fome estranha voltou com ainda maior força e a claustrofobia que lhe causava a permanência excessiva dentro da gaveta lhe davam uma ansiedade incontrolável de matar novamente, mas só se aventurou a mexer-se quando toda a confusão passou. Meteu os dedos inchados nas frestas da gaveta e já ia forçando-a sobre a corrediça quando escutou o barulho da maca esmurrando as portas de plástico pesado que fechavam a sala. Um novo corpo havia sido deixado e, com ele, um médico já vinha para examiná-lo.

O cadáver era de uma dançarina de seus vinte e poucos anos, coxas grossas, seios firmes e cintura fina. Dessa vez, em vez de o estagiário, todo o corpo médico do instituto se prontificou a examiná-la, o que não deveria causar estranheza sendo o amor, como dizem, universal e a necrofilia um mapeado fenômeno patológico da humanidade.


89634, ou simplesmente Zumbi, chamemo-lo assim daqui para frente, Zumbi aguardou até que ouvisse o barulho da outra gaveta fechando com o novo corpo e saiu quando já não ouvia mais passos no recinto. Tão logo saiu, um novo barulho ecoava abafado, ritmado e metálico. Como se alguém batesse com as mãos naquelas placas de metal de que eram feitas as gavetas. Limpando um resto de sangue e cera que lhe obstruía a orelha carcomida, Zumbi aproximou-se do local de onde vinha e puxou a gaveta. Lá estava a bela bailarina recém autopsiada, só Deus sabe o que mais sofrera aquele corpo nas mãos, língua e, quiçá pênis, do legista, deitada com um grande hematoma na testa, provavelmente causado pelas tentativas de levantar-se dentro da gaveta, explicando assim o barulho que chamara a atenção de Zumbi.

Inexplicável foi a atração que aqueles dois corpos sem alma experimentaram um pelo outro. Talvez tivesse sido a grande fome que ambos sentiam e que, pelo menos Zumbi, sabia como satisfazer. Porém, sabia também que não era aquela fome propriamente dita pois, mesmo com vontade de refazer os caminhos percorridos há pouco pelo legista tarado, não suportaria esquartejá-lo e degluti-lo como fizera ao estagiário. Algum renegado senso de beleza havia permanecido vivo naquela montanha de morte que eram os dois juntos pois, por maior que fosse a ânsia por carne humana, maior ainda era o sentido de preservação da integridade física, ainda que parcial, a integridade e não o sentido de preservação, que tinham um pelo outro. Por falta de termo que explique com maior clareza, uma vez que somos todos ignorantes nas matérias do pós-vida e do pós-morte, chamemos o que aconteceu entre eles de paixão. Como se diz vulgarmente, e nem por isso menos sublimemente, acharam-se. Se passassem mais alguns dias decompondo, poderiamos até se dizer que acharam as suas caras-metade. Mas mesmo um tanto quanto fora de suas órbitas, seus olhos brilharam e suas pernas bambearam, um pouco pela secura dos músculos e pela falta de elasticidade dos tendões, mas certamente era paixão.

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6 de dezembro de 2011

Sopa de passas

Na beira do prato, arrisca-se a mosca
Já sentia no ar o calor. O gosto, imaginava.
Sabia somente que hoje era sopa.

A aba era larga e mesmo em seis patas
suspirava de dor
a mosca, arriscada, a barriga roncava
ansiosa que estava para sentir-lhe o sabor

Seus olhos brilhavam e o nariz palpitante
adivinhava os temperos boiando ali
curcuma, cebola, coentro e passas,
um toque de trufas, seria trés chic

E a mosca abusava da sorte e do dono
que  não despertara ainda do sono
na beira da sopa planejou o pulo
Zumbiu de emoção e deu o mergulho

Nadou sobre o caldo, feliz e contente
e afundou-se no meio da piscina escaldante
submersa entre arroz comeu quanto quis
deixando essa vida contente e feliz 

mas agora, tarde demais, foi-se a mosca ao céu das moscas
ser precisar bater asas, afundou-se sem pressa
fantasiando-se passa, no fundo do prato, no fundo da boca
na boca do estômago do dono da sopa