28 de dezembro de 2004

Um dia sem luz

Um dia eu quis que faltasse luz para que todos pudessem compartilhar de meu tédio e ajudar a transformar meus dias solitários em grandes arroubos de aventuras e amores.
Um dia eu quis que faltasse luz para que todos pudessem compartilhar a minha cegueira ao contemplar o dia seguinte. Para que a dúvida pairasse sobre todos e que eu não me sentisse exclusivo.
Um dia eu quis que faltasse luz e que a praia estivesse de ressaca para que ninguém aproveitasse o sol e a areia convidativa do verão. Queria ter um laptop para não precisar nem da luz nem dessa escrivaninha escravocrata.
Um dia eu quis que faltasse luz para escurecer o futuro de todos e não só o meu. Para que os relógios definitivamente parassem e o cuco morresse sem ar dentro daquela janelinha escura.
Um dia eu quis que faltasse luz para as prostitutas faturarem hora extra. Para que os ladrões se satisfizessem logo e parassem de roubar. Para que houvesse desculpas suficientes para esvaziar os estoques de bebidas geladas.
Um dia eu quis que faltasse luz para que eu visse os sorrisos luminosos a me desejar o melhor. Para que o abraço fosse mais forte e que os trovões não assustassem mais que os relâmpagos.
Um dia eu quis que faltasse luz para que essas máquinas que nos mantêm vivos perdessem a utilidade. Para que pudéssemos viver menos produtivamente, todos nós. Logo eu que não sei mexer com ancinho ou formão.
Ah, se não fosse a luz agora essas palavras não poderiam estar sendo ditas e, na verdade, não o estão pois não sei se alguém as lerá ou dirá.
Por isso eu quis que faltasse luz. Assim talvez minhas palavras tivessem mais sentido.

3 de agosto de 2004

Acordar

Acordo
E ao abrir os olhos
Matutina detrás de olheiras fundas
A menina se debruça
entre o travesseiro e os lençóis

Me remexo lento, preguiçoso
E te alcanço num abraço
percorrendo cada pedaço
do teu corpo em caracóis

Ela desperta doce, embalsamada
sem abrir os olhos sorri meiga, recatada
e suspira um bom dia
mudo a me saudar

E a saudade acaba
pois mesmo lado a lado
a inconsciência é o pecado
que nos isola de nosso par

27 de maio de 2004

...Continuação...

...Continuação...

Fiz com a cabeça como que satisfeito do assunto e voltei meus olhos para o livro, apesar de minha atenção dispersa pela conversa que acabara de escutar. Minutos depois entreguei a tarefa e fui novamente liberado para desfrutar de minhas férias.
Saí correndo da biblioteca em direção ao salão principal onde meu pai e Massif deveriam estar. Lá chegando encontrei o salão vazio e cruzei-o em direção ao promontório de onde meu pai fazia discursos no começo do plantio e no fim das colheitas. De lá se tinha uma bela visão da cidade e da vila. Eu não entendia por que uma cidade próspera e pacífica como a nossa necessitava de muros, ameias e exércitos. Achava que nosso exército simplório, como dizia meu pai, era uma guarda de honra exagerada para as missões diplomáticas da corte. Mesmo assim, os soldados vigiavam dia e noite o portão, as ameias e as passagens que se abriam para o campo, a oeste, e para a vila, a norte e a leste.
Aos poucos minha curiosidade foi se abrandando e a busca por meu pai e Massif pelo castelo tornou-se enfadonha. O dia estava quente e ensolarado, ótimo para um passeio à cavalo pela chapada que abria-se por todo o norte do reino. No meio da chapada havia um pequeno bosque e um enorme carvalho milenar, onde meus antepassados escreviam seus nomes e contavam estórias. Meu avô costumava levar meu irmão até em dias como este e eu sempre ficava no castelo. Por não ser o herdeiro da coroa, as atenções voltadas a mim eram sempre secundárias.
Resolvi então ir até lá, dessa vez para marcar meu nome no carvalho. Já era um jovem e, mesmo não sendo nem querendo a responsabilidade de ser Rei, era membro de uma família, pertencia àquela linhagem e, portanto, meu nome também pertencia ao grande carvalho.
Fui, então até a estebaria escolher um bom cavalo para essa importante missão.
Desci as escadas do castelo até o salão de festas e cruzei o hall até a entrada principal. Desci também a escadaria até o pátio e virei à esquerda brincando em pisar somente nas pedras azuladas que compunham o chão do pátio interno junto com as pretas, amareladas e cinzas.
Sempre olhando para baixo, prestando muita atenção na cor das pedras, percebi de repente uma grande quantidade de caixas à minha direita. Levantei o rosto e vi um grande movimento na estebaria: soldados com pacotes compridos envoltos em grossos panos, empregados levando lenha e roupas, para lá e para cá, pequenos carros trazendo vegetais, pessoas da cidade chegando com galinhas, porcos, cabras e ovelhas...um verdadeiro turbilhão de pessoas.
Fiquei observando de longe os escudeiros selando cada cavalo. Os maiores levavam quatro cestas, duas de cada lado. Os médios eram selados e levavam duas cestas, enquanto os mais leves eram apenas selados e adornados para levarem apenas pessoas. Em meio àquele movimento vislumbrei Massif discutindo com o cozinheiro que, aparentemente, tinha trazido utensílios demais.
- Schillaci!! Não vamos nos mudar! É apenas uma caravana! Largue metade desses ferros por aqui e leve apenas o necessário!
- Signore Massif...a performance de minha arte depende da qualidade de meus utensílio. Portanto, levarei todos que julgar necessário.
- Não vamos a uma competição de tortas, cozinheiro! Leve uma ou duas panelas e algumas conchas! E arrume-se logo.
- Me chamando assim il signore me ofende! Devia ter ficado em Gênova...Chefe Schillaci dei Farfalle.
- Que seja! Arrume suas coisas...- disse Massif cofiando o pequeno bigode e se afastando para cuidar de outras emergências.
Aproximei-me, enfim, da confusão e fui diretamente à direção de Schillaci, que me tratava sempre muito bem. O homem gordo, enormemente redondo, gabava-se de suas orígens italianas e de seu avô ter servido as melhores iguarias de Gênova. Falava muito, é verdade e também reclamava, xingava e blasfemava muito no lido com os empregados, mas comigo, apesar de reclamar, xingar e blasfemar da mesma forma, era sempre atencioso e sincero, me espremendo em troca de um elogio.
- Olá, Lati! Para que tantas panelas? – perguntei tocando seu ponto fraco.
- Dio cane! Só me faltava essa...mais um a intrometer-se na minha especialidade! – disse ele com as mãos estiradas para o alto e olhando como se falasse diretamente com alguma entidade – Não tens nada melhor para fazer do que controlar o número de panelas que coloco em minha mala?!
- Na verdade não... – disse para desconcertá-lo – E as panelas não são suas, são do Reino! – completei abrindo um belo sorriso.
- Per la Madonna! Definitivamente deveria ter ficado em Gênova! – disse me dando um leve cascudo – Dimme, ragazzo! O que queres?
- Para onde estão indo?
- Mas você não está sabendo? – disse ele fechando a fronde.
- O que? – respondi parecendo curiosíssimo.
Sua expressão tornou-se séria demais para a leve conversa que levávamos e sua resposta demorou um pouco para sair de sua boca. Quando respirava para começar a me revelar o que se passava, senti que desviava o olhar e olhava por cima dos meus olhos, como se alguém se aproximasse.
Senti que alguém vinha atrás de mim e virei-me imediatamente. Era Jean-Jacques e meu pai vindos do pátio do castelo. Meu pai trazia no rosto a mesma expressão com que lidava com os mais perigosos bandidos da região, enquanto Jean-Jacques ostentava uma bela escoriação logo abaixo do olho, mas mantinha-se altivo e corajoso como um mártir.
Vi que não deveria estar ali e baixei os olhos já me retirando, mas meu pai aproximou-se e colocou a mão em meu ombro. Agachou-se e olhou-me nos olhos.
- Vá para o seu quarto. Conversaremos em duas horas.
Levantou-se e olhou para Schillaci com aço nos olhos
- Disse alguma coisa ao garoto?
- Não, signore. Absolutamente. – respondeu o cozinheiro tão altivo quanto o próprio rei.
- Ótimo. Vá agora, Rodolpho. – completou sem olhar para mim.
Saí e entrei novamente no castelo. Passei ainda na biblioteca para pegar alguns livros que me ocupassem durante as duas horas de espera até a conversa com meu pai. Lá chegando encontrei novamente Maurice debruçado em sua usual montanha de livros.
- Pensei que estivesse indo para o lago, príncipe – disse ele solene. – Resolveu adiantar-se na leitura?
- Não. Meu pai quer me ver em duas horas no meu quarto. Preciso fazer alguma coisa enquanto espero – respondo desanimado.
- Não fique assim, Rodolpho – disse tentando acalentar-me com suas doces palavras – O Rei teve que tomar uma difícil decisão e é isso que ele quer dividir com você. Ele já o considera um adulto e quer dividir com você suas aflições.
Sem dar muita atenção ao vasto vernáculo que ostentava o meu tutor, peguei um livro qualquer na prateleira e saí da biblioteca, esboçando um breve sorriso em sua direção.
- Leve este exemplar, meu príncipe – disse chamando minha atenção – é o mais novo de todos. Acabei de recebê-lo e ainda não tive a oportunidade de lê-lo. Por que não começa a ler e discutimos os assuntos juntos mais adiante?
Realmente o assunto parecia mais interessante do que o manual de álgebra que tinha escolhido. Voltei até ele, troquei os livros e saí em silêncio.
Cheguei ao quarto e pedi ao pajem que me trouxesse um pouco de queijo e pão para comer enquanto lia as novidades da Alsácia. A única coisa que sabia da região era a qualidade das uvas e dos vinhos que lá se produziam. Lá se plantavam as uvas Gewustraminer que davam um bouquet frutado e doce aos vinhos. E também às tortas e aos pratos que lá se serviam. Para mim, a Alsácia não passava de uma grande uva verde que fazia escorrer seu suco até as ilhas do Sul.
Mas ao começar a ler os escritos daquele livro, alguma coisa no estilo da narrativa me chamou a atenção. Era descritiva demais, detalhista demais e, mais estranho, não tratava nem de vinhos nem de uvas. Interessado, comecei a folhear as páginas e abri em uma página em que se encontrava um mapa, provavelmente da região. O desenho aparecia recortado de setas vermelhas em descendente, como se espadas de sangue caíssem do Norte na direção do continente. Assim que comecei a analisar mais detalhadamente o que as setas indicavam, a porta do quarto se abriu e meu pai entrou, trazendo-me o queijo e o pão que eu havia pedido ao pajem.
- O que estás lendo, filho? – perguntou afável, como sempre.
- Alguma coisa sobre a Alsácia. – respondi fechando o livro e marcando a página do mapa - O que tens de tão urgente que motiva essa viagem, meu pai?
Consternado pela pergunta direta, meu pai falou após um suspiro – Rodolpho,estou mandando Jean-Jacques para a Espanha. Sua infantilidade passou de todos os limites e eu não posso mais me dar ao luxo de esperar que algum juízo cresça na cabeça de seu irmão. Por isso, escalei Massif para chefiar a delegação que levará Jean-Jacques até Toledo.
- Para a Academia Árabe – terminei sua fala.
- Sim. Como sabes?
- Sei que Massif estudou por lá. E seu do apreço que tens por ele e sua família. Apenas juntei as peças – respondi, despistando o fato de Maurice ter me informado.
- Então, se já sabes, já deves saber que vais com ele – disse sentando-se à cama.
- Como?! – solucei, quase engasgando a lasca de pão que mastigava – E Maurice? Não vou mais estudar com ele? Por que vais fazer isso comigo?
- Maurice o acompanhará. Ele continuará sendo o responsável por sua educação, mesmo em Toledo – completou sereno e decidido – Tente entender, filho...preciso de vocês como uma família. Separar você de seu irmão pode causar um rompimento definitivo entre vocês dois. Isso seria ruim para o reino e, principalmente, para mim. Portanto, está decidido. Faça suas malas. Assim que estiverem prontas, chame o pajem e me procure.
Por fim, beijou-me a cabeça e saiu da sala sem olhar para trás. Fiquei ainda um tempo bestificado, olhando para as tapeçarias que mantinham o meu quarto quente durante a noite. Olhei em volta tudo aquilo que parecia dever estar ali para sempre e não quis acreditar que seria exilado de tudo que eu tinha aprendido a amar e respeitar. Ainda mais! Para ir para um lugar onde nunca tinha ido, um lugar totalmente desconhecido e habitado por figuras tão estranhas quanto Massif que, apesar de sua boa postura, era completamente diferente de mim, de nós.
Ainda catatônico, vi a porta anunciar agora Maurice, que entrava com o semblante daquele que já sabia de tudo. Sentou-se à poltrona ao lado da cama e ficou a me olhar um tempo, consternado.
- Não é tão grave assim, meu príncipe... – tentou começar
- Você já sabia, não é mesmo, Maurice? – perguntei cerrando os olhos, inquisidor e Maurice respondeu com um sorriso sem graça – Por isso me falou tanto sobre Massif. Por que não me disse?
- Porque não estava decidido, Rodolpho – respondeu, chegando para frente na poltrona e usando meu nome como para diminuir a subserviência e colocar-se acima de mim – Seu pai já havia me confessado a vontade de internar seu irmão numa instituição de ensino estrangeira e me informou que, quando o momento chegasse, era seu desejo que você fosse com seu irmão. Eu sabia, mas não sabia quando.
Recostou-se novamente na poltrona e me observava as reações com atenção. – O que pensas dessa mudança, meu príncipe? – perguntou me sondando.
- Penso ser uma injustiça! – respondi como discípulo – Penso estar sendo punido pelos erros de meu irmão! Não quero ir para um lugar estranho, longe de tudo que eu prezo e conheço por causa das idiotices de Jean-Jacques! E, por fim, agora não sei se quero viajar com um traidor, como você! – terminei emburrando, cruzando os braços e olhando para o prato vazio em cima da cama.
– Meu príncipe – recomeçou Maurice com um sorriso fraterno – tu me acusas de uma coisa que não sou culpado e sabes disso. Quanto à decisão de seu pai, não tive a menor voz de interferência. Já estava decidido em seu íntimo. Quer um conselho? – disse chegando novamente perto da cama – Encare isso como uma grande viagem. Como se fossem as férias mais longas que você já teve. Prometo que, uma vez em Toledo, vamos amenizar o aprendizado teórico e daremos mais ênfase à prática e à diplomacia! O que achas? – arregalou os olhos e abriu um sorriso sincero, como que para me dar boas esperanças.
Olhei-o de soslaio, como que me protegendo de tamanha boa vontade e pensamento positivo. Mas por fim, descruzei os braços e sorri.
- Oh, Maurice! Se descumprir esta promessa, terei motivos para alcunhar-lhe de traidor para sempre!
- “Maurice, o traidor”. Não me parece que esse nome tenha lugar num livro de História! – Terminou a conversa causando-me gargalhadas.

To be continued...

20 de maio de 2004

Continuação...

- Bem, Rodolpho. Estamos na página 200. Sua tarefa de hoje é copiar até a página 250 e traduzir da página 227 a 234 para o latim. Eu estarei na sala ao lado, caso necessite de ajuda.
Abriu o livro na prancheta de madeira escura e pousou a pena no pequeno recipiente de tinta ao lado. Comecei a leitura e ia bem avançado quando comecei a ouvir sussurros vindos de detrás da estante de livros. A princípio não me perturbavam, acostumado como estava eu em concentrar-me na leitura, mas quando percebi que era a voz de meu pai que ecoava, parei imediatamente o trabalho. Tentei esforçar-me para compreender o que dizia, mas a única coisa que conclui foi que não estava sozinho. Olhei para a porta entreaberta que dava para a sala contígua onde se encontrava Maurice e como um gato, saí da prancheta e em direção à estante. Preocupado em não fazer barulho e atrair a atenção de Maurice, desloquei os livros de onde vinham os sons, mas nada havia atrás deles, nenhum buraco ou brecha. A cada ranger do piso, a cada roçada do couro na prateleira, os pelos de minha nuca se arrepiavam...não podia deixar que Maurice me visse bisbilhotando, ainda mais no meio dos livros. Era capaz de ele me por para copiar uma enciclopédia inteira.
Colei meu ouvido na parte de trás da estante e pude prestar atenção à conversa.
- Mas Majestade...isso são coisas de jovem. Com o tempo ele toma jeito e começa a se interessar por coisas adultas – disse Massif tentando amenizar o humor do Rei.
- Não, amigo. Desta vez você está enganado. É a terceira vez que ele some sem deixar vestígios. Ele tem que aprender a respeitar as regras. Ele será Rei em breve e não pode continuar agindo como uma criança!
- E como pode ter tanta certeza de essa ser mais uma peripécia?
- Eu o conheço, Massif. Chegará aqui com as roupas em frangalhos e hálito de bebida.
- Mesmo assim, Majestade, os novos pupilos só são aceitos na primavera. Seria impossível conseguir-lhe uma vaga em pleno verão. E, mesmo que consiga, Vossa Majestade tem que dispor das quantias relativas à matricula do rapaz. Que não são nada convidativas.
- É o reino que está em jogo aqui, Massif. – disse socando fortemente a mesa que os separava – Se ele não se endireitar, o reino afunda e todo o legado de meus antepassados logo estará como as ruínas dos romanos. Não posso mais me dar ao luxo de relevar suas criancices. Tenho que fazer alguma coisa drástica e acho que essa é a melhor decisão.
- Tem certeza, Majestade?
Após um breve silêncio, um suspiro...
- Sim, Massif. Tome as providências necessárias.
Um estalo atrás de mim e corri de volta para a prancheta. Corri os olhos novamente para a estante para ver se não tinha deixado vestígios de minha bisbilhotice até observar Maurice adentrando a sala, com alguns livros no colo.
Curioso sobre a conversa que acabara de ouvir, comecei a puxar assunto com meu tutor
- De onde vem este Massif, afinal? – perguntei o mais ingenuamente possível.
- Massif é turco, meu rapaz. Um velho amigo de seu pai que veio fiscalizar a chegada das mercadorias do leste. Sendo do leste, ele mesmo poderá verificar a qualidade dos tecidos.
- E como eles se conheceram?
- Nas viagens de seu avô. Por vezes a família de Massif hospedou seu avô e seu pai em suas terras no Oriente. Quando ficou moço, Massif se instalou na corte de seu avô e nos ajudou muito a celebrar acordos comerciais com nossos aliados.
- E como ele aprendeu a nossa língua?
- Estudando, meu príncipe, estudando – disse orgulhoso de suas atribuições – Ele passou sua juventude na Academia Arábica de Toledo.

To be continued...

14 de maio de 2004

Capítulo I

CAP I

- E então você pega essa ponta, passa por trás do cabresto e...pronto! – dizia meu pai sorridente ao ver a minha atenção com as fivelas das armaduras.

Eu tentava copiá-lo em tudo: seu porte altivo, seu jeito carinhoso de se dirigir às pessoas, seu andar calmo com as mãos atrás do corpo como que deixando seu coração ser penetrado por todos que lhe compartilhavam o dia-a-dia.

Era para mim um verdadeiro heróis, adorado por todos, cavalheiro, educado, bonito. Sabia ser severo quando necessário, mas sua severidade era justa como os pratos de uma balança. Fazia as coisas com fervor, apaixonado. Desde um jogo de xadrez à caça costumeira, sempre tinha a intenção da vitória. Sabia que, como Rei, tinha que se esforçar para ser o melhor e fazer o melhor para seus vassalos.
Tratava de todos os assuntos com bom-humor. Recebia mercadores em querela, viúvas necessitadas, jovens casais descuidados, bardos e músicos, mendigos e nobres. E os tratava de igual forma.

Gostava de passar as horas com ele, mas como bom pai, ele preocupava-se com a educação de seus filhos e tínhamos raros momentos a sós. Compartilhava a maioria do meu tempo com Maurice, meu tutor, e Jean-Jacques, meu irmão mais velho. Este último, sim, a preocupação maior de meu pai.

Desde que perdeu sua querida esposa, minha mãe, meu pai resolveu não mais se casar e preparar seus herdeiros para dar continuidade à realeza. Éramos a lembrança viva de nossa mãe para ele. Ele sempre a via no brilho de nossos olhos, escondida num sorriso ou refletida numa lágrima. Seus maiores orgulhos e seus maiores receios recaíam sobre Jean-Jacques.
- Pronto. Agora tome a espada e tente acertar o melão! – disse ele pendurando a fruta amarela num galho mais alto da árvore.
Tentando manter-me em pé e sentindo-me ridículo segurando uma espada de madeira, eu tentava em vão equilibrar-me com a cota pesada presa ao meu corpo. Com um sorriso, meu pai incentivava-me a persistir. Às vezes, declamava salmos que sabia de cor para me motivar. Em quase 60 anos de vida, meu pai deixara de ser simplesmente Gregório, filho do Visconde de Fournay, para se tornar Rei. Sua Majestade Gregório I.
- Mantenha as costas retas, filho...gire a lâmina acima de seu ombro...
- Desista, papai! Rodolpho nasceu para as artes e para a filosofia. – levantou-se Jean-Jacques de debaixo da árvore. Ignorando minhas tentativas, ele desembainhou sua espada e com um golpe só estraçalhou o melão, meu inimigo.
Sorrindo satisfeito, sorriu-me com desprezo, vendo-me limpar o suco que me cobria os cabelos. – Concentre-se nos livros, pirralho. É a sua vocação. – disse saindo do pátio e indo em direção ao castelo.
- Não dê ouvidos a ele, filho. Está chateado pois está de castigo. Vamos, tente novamente...

Os oito anos de idade que me separavam de meu irmão pareciam séculos. Nada lhe agradava tanto quanto atrapalhar meus momentos com papai. Parecia querer chamar-lhe a atenção, mas quando a tinha para si aproveitava-a mal provocando atritos desnecessários e discussões sobre banalidades.

Meu irmão era forte e alto. Parecia um leopardo com olhos sempre prontos para o bote. Nas poucas horas que tinha de folga, organizava caçadas com amigos e sempre voltava com presas demais, bêbado demais, exausto demais. Já passara do tempo de casar-se, mas sua dedicação à farra e aos excessos era tamanha que não deixava espaço em sua vida para preocupações com terras e dotes. Gostava de circular entre a nobreza da corte e seduzia jovens prometendo-lhes maravilhas que somente princesas teriam. Não raro, via-o dar presentes a desconhecidas ou novatas na corte para comprar-lhes os favores em seu quarto. E menos raro ainda, elas aceitavam crédulas de estarem construindo bases sólidas para fisgar um bom partido.

Ele sabia como lidar com bajuladores. Conseguia tudo o que queria. Certa feita, de troça, conseguiu de um conde uma piedade de vidro em que o conde gastara um terço de sua fortuna para encomendar e deu-a a uma meretriz de esquina, após uma noite de algazarras. Apesar de tudo, meu pai se esforçava para integrá-lo nos afazeres e nos acordos reais, mas sua atenção de jovem sempre o voltava para coisas menores e as reuniões acabavam por entediá-lo. Já havia viajado com meu pai para todos os cantos do reino, acompanhando meu pai em excursões comerciais, diplomáticas e festivas. Desnecessário dizer que as festivas eram suas preferidas.

Pus-me de pé mais uma vez e quando me preparava para degolar mais um melão alçado na copa da árvore, Maurice apareceu. Ele vinha da biblioteca, com certeza, pois trazia em seu colo vários tomos e pequenos livros encapados com couro. Apesar de esguio, Maurice tinha força suficiente para carregar todos os livros do mundo, seja nos seus braços ou em sua mente. Tinha os olhos fundos e os dedos grossos, vermelhos e cheios de calos de quem lê e copia incessantemente. Andava sempre com material de escrita em seus bolsos. Era um poeta, um grande sábio apesar da meia idade. Era mais novo que meu pai, mas este confiava em seu trabalho e em sua erudição de tal forma que raramente intervinha em suas aulas e suas exposições.
- Boa tarde, Majestade – disse ele polido e simpático – Desculpe a minha intromissão neste raro momento de reunião familiar, mas acredito que esteja na hora da leitura de nosso pequeno guerreiro. – completou com carinhosa ironia.
- Ainda não, pai! Ainda nem começamos!
- Vá, meu filho. Uma coisa de cada vez. Primeiro a cabeça...depois os braços! – disse passando a mão em meus cabelos.
Ajudou-me a desamarrar a armadura e guardou a espada de madeira. Quando tirava o melão da árvore, virou-se e fez uma última pergunta a Maurice.
- E Jean-Jacques...?
- Foi com amigos até o lago, Majestade.
- E a guarda?
- Logo atrás, Senhor. Os vi saindo pelo portão há algum tempo.
- Obrigado, Maurice. Podem ir agora. – abaixou-se e colocou o melão de volta na cesta com um suspiro.

Já nos afastávamos de meu pai quando um grupo de guardas saiu do castelo em sua direção. Eram guardas da cidade, não portavam armas nem armaduras, somente bastões de madeira.
- Majestade! Majestade! Venha conosco, por favor!!
- Pelo Sangue de Cristo! O que diabos está acontecendo?! – retumbou o Rei, já se pondo de pé.
- Jean-Jacques, Majestade... – disse um dos guardas um pouco embaraçado – Ele desapareceu!
- Mas ele não está no lago?! – disse o Rei, incrédulo – Já o procuraram por lá?
- Sim, Majestade. Não o encontramos, no lago, nem na cidade...acho que ele nos despistou. O grupo tinha sido designado para seguir meu irmão, como castigo por mais uma travessura que aprontara dias atrás.
- E a guarnição que o acompanhava?
- Teve um contratempo com um dos carros de boi que estão vindo do leste, Senhor.
- Mas a caravana tinha ordens para evitar a cidade...
Constrangido, o guarda replicou - Parece que este não sabia...

O Rei respirou fundo tentando acalmar seus nervos e tentando se convencer que isso tudo não era mais uma armação de seu filho.
- Preparem um grupo com cavalos e mande mensageiros até as aduanas nas estradas que saem do retiro. Quero as estradas fechadas até o encontrarmos. Encontre também Massif e diga-lhe que me encontre no salão de jantar em uma hora.

O grupo se dispersou mais que imediatamente e, largando a cesta no chão, o Rei veio a passos largos na direção da porta em que estávamos entrando.

Mesmo no retiro, Maurice me prendia por duas horas todo dia para praticar a escrita. O livro dessa semana era um pequeno compêndio grego sobre botânica o qual já havia copiado mais da metade.

To be continued...

7 de maio de 2004

Experimentos

Tento te ver a ti há tanto tempo
Que paro para pensar profundo
Nas rotas roupas que revestem o réu
O certo seria sobrarmos no céu, mas
Faz tanto frio...e estou tão faminto
Para ver você voar voraz
Matando o imortal mestre extinto
Espécie explorada, extorquida
Morre mais ou menos
No Natal, nesga do nada onde nasci
Cresci e sofri os males do tempo
Que não vivi.

Sem ti

O que mereces de mim
É tudo o que tens
Faz-te feliz sozinha
É tudo que te peço
Mas deixo meu endereço
Pois não posso viver sem ti
Sofro sem teu sorriso
Choro sem ser preciso
Não tenho nada a provar

Vagas palavras

A grande estrada se adianta
Sento e fito o horizonte que a corta
Olho atrás, muito já se passou
Não é hora de desistir
A chuva se aproxima e é melhor correr
Continuar á procura por um lugar
Onde me sinta quente e seguro
Muitas cidades já se passaram
Lugares perfeitos deixados para trás
Não havia mais vagas
Parti então ouvindo vagas palavras
De consolo e encorajamento e agora
Aqui estou eu sozinho
Consolado e encorajado em busca de novo alojamento
A vida é uma eterna procura pelo lugar certo
Longe ou perto ele existe
Só é necessário paciência
A casa da colina cairá com uma simples chuva
Não quero estar lá para ver as conseqüências

Felina

Negra luz alumia negras faces
De ironia
Felina salta de grande
Altitude
Estraçalhando, mudando de
Atitude
Negra luz sombreia meu
Rosto
Negra luz azeda meu
Gosto.

Desculpas pra morrer

Nós não tamo aqui à toa
Tamo procurando uma boa
Desculpa pra morrer
Nos esquecemos na embriaguez
Ao morrermos um pouco por vez
Que a vida é feita pra correr
Temos 50, 30, 16
Passando a noite cercados de morbidez
Com o copo cheio de desculpas pra morrer
Lágrimas secam no rosto pálido da criança
Umedecendo o último fio de esperança
Contorno de sangue sobre sua boca
Demarcando os limites de sua vida louca

Esperando suas lágrimas secarem, ela nos fita
Com seu rosto pálido de criança morta
Agora a ferrugem escorre por seu rosto
A morte metálica apresenta seu gosto

E num instante eterno o Sol nasce no horizonte
E a menina seca os olhos
Me ensurdecendo com seu movimento dissonante.

Sonho Concreto

Concreto sonho que
Sonhei concreto
Concreto sonho que
Sonhei
Concreto sonho que sonhei
Desperto
Desperto sonho que amei.
Ébrio brilho brota
Por entre suas escamas
Que úmidas de lágrimas
E chuva
Fomentam o fruto
Uva que um dia será vinagre
A corrente leva sua semente
Pelas ruelas entorpecentes
Buscando cega o inevitável milagre
A vida
Mesmo do mais obscuro manto
Nas escalas do mais mórbido canto
Renasce puro o broto
Entre o medíocre e o escroto
Habita
Mas é vida, inegável
Irrefutável verdade negra
Cambaleante e ignorada
Rota, feia e desfigurada
Vida podre, mas vida
Poço de nossa mesma energia
Negativo colorido da morte
Presença de todo medo e toda sorte
Entre arrotos e vômitos urbanos
E enquanto os suseranos dormem
A vida-morte vai à caça
Trás desgraça
Para sua própria sobrevivência
A guerra entre a vida e a morte não é semente
Guerra infundada, é a aniquilação de uma pela outra
Em troca de uma só sobrevivente declarada.

Rebento

Fria faca da paixão
Cortou a carne de dentro
Manchou com a negação a redenção deste rebento

Filho do amor
Choro por não ter conhecido
Sua mãe morreu no parto
No quarto antes de ter amanhecido

O espelho d’água reflete
A dor que meus olhos vertem
A fria lâmina da paixão repete
A lenta melodia da negação

Os tambores secos tocam
O ritmo funerário
Entristece aquele lindo sorriso
Enegrece o colorido cenário

E a areia se esvai por entre os dedos
Os papéis guardando seus segredos
Lábios que não posso beijar
O abraço não segura a lembrança
Mas doura a pílula de esperança
De outros lábios encontrar.

Cala-te

Cala-te, feio palhaço presunçoso!
Tira tua máscara de rei e revela-te como és!
Um simplório mamífero de dois pés
Cheio de defeitos como qualquer outro.

As facilidades não te calejam a mão
Num piscar de olhos: um circo, um avião
E o teu suor, palhaço?
Escorrerá branco per tuas têmporas como um leproso a perder a face?

Silêncio e ouça, hiena!
Tu que não escutas com medo de ser convencido
Tu que fala com a mente e mente de coração
Tu, rasteiro, que ama a todos pelo que podem fazer por ti.

Ai daquele que te desaponta
Ai de ti que cobra soberania
Logo tu, tão humano quanto os outros
E talvez até menos humanizado

Então, cala-te, licantropo!
Meio-homem, senta-te!
E escuta o mundo
Usa tuas orelhas em dobro pois lhe sobram
Resigna-te.

Medieval do Século XXI

Um dia que se dorme
É menos um a ser
Aproveitado
Pureza no convívio nada a esconder
Rimas de cor
Novenas à fazer

Uivos no silêncio dos beijos
Estalos solitários na noite
Que só vislumbra o todo
O Som, o Riso, a Taverna

Medieval do Século XXI
Será que além de mim há mais algum?
Me prendo ao amor
Mas tenho saudade de saga

Sou o frio, o sozinho
O hermético filisteu
Crio meus amigos, meus sonhos, minha dor
E não sinto falta de nenhum
Sou medieval do Século XXI

A madeira se fez plástico e as cordas tecla
Perdido na multidão de opções, fez-se só e sem assecla
Perde-se, o sozinho é o Rei
Nu ou vestido, feio ou pobre eu não sei
Me sinto às fronteiras de Cafarnaum
Sou medieval do Século XXI

Não entendo acordes ou poesia concreta
Nada mais me guia: cursor, rato ou seta
Vivemos o tédio e o suspiro
Enquanto flutuo no meio dessa imensidão azul
Sou medieval do Século XXI

Se acendem traços de seios no futuro
Recortes e contornos obscuros
Hoje é o sempre e a eternidade
É o minuto que passou
Feche os olhos e surrealize
Isso te fará mais puro
Uma ilusão, um sonho em comum
Sou medieval do Século XXI

Criador

Criador, crio o frio
Tua túnica mais pesada, veste
Criador, crio a peste
Remédios para viver, tome
Criador, crio a fome
Planta guloseimas no calor
Criador, crio o amor
É a última arma que tenho para acabar contigo.