5 de setembro de 2015

De madrugada

No inverno, teu abraço frio
durante a madrugada morro e crio
sofro sem papel à mão
Não me interrompo, absorvo
a luz, a visão, o sopro
me eleva a alma à inspiração

Rimo solto, conjugo inusitado
mil palavras de mil significados
com as quais sublevaria meu leitor
conclusões, epifanias
uma licidez que tanto abrandaria
meu peito e de tantos ao meu redor

Mas eis que inadvertidamente
invariavelmente
desperto e volto a ser eu
nem uma simples pista
sequer lembrança da conquista
da compreensão que a madrugada me rendeu

4 de setembro de 2015

Não me abandone (Ne me quittes pas - Jacques Brel)

Não me abandone
Você deve esquecer
Tudo se pode esquecer
Tudo o que passou
Esqueça o tempo
de desentendimentos
O tempo perdido, tentando entender
Esqueça os momentos
Que mataram `a força da razão
A felicidade
em nosso coração
Não me abandone, Não me abandone, Não me abandone, Não me abandone

Te ofertarei
Perolas de chuva
Vindas dos lugares
onde nunca chove
Escavarei a terra, até que eu pereça
Para cobrir teu corpo
De ouro e de beleza
Fundarei um império
Onde o amor será Lei
Onde o amor será Rei
E você, Princesa
Não me abandone, Não me abandone , Não me abandone, Não me abandone

Não me abandone
Eu te direi tolices que vais entender
E te contarei
sobre o casal de amantes
A sentir mais de uma vez
Os corações flamejantes
Contarei a historia deste Rei
Morto por não poder
te ter como era antes
Não me abandone, Não me abandone , Não me abandone, Não me abandone

Mas não poucas vezes
Vemos o fogo explodir
de um antigo vulcão
que críamos inativo
E da terra em brasa surgir
O mais puro trigo
Como na melhor estação
E quando a noite chegar
Por um céu em chamas
O vermelho e o negro
Não se esposam jamais
Não me abandone, Não me abandone , Não me abandone, Não me abandone

Não me abandone
Não mais vou chorar
Não mais vou falar
Me esconderei
A te observar
Dançar e sorrir
E a te escutar
A cantar e depois rir
Deixe me tornar
A sombra da tua sombra
A sombra da sua mão
Bicho de estimação

Não me abandone, Não me abandone , Não me abandone, Não me abandone 

21 de março de 2013

Da Natureza das Coisas


o sol queima doloroso
como um tição a marcar o dorso
da rés que rumina o verde pasto
e não somos todos reses
nesse mundo vil e vasto?

a noite traz com a lua fria
a palavra de uma promessa vazia
cravando no peito a verdade absoluta
é da natureza das coisas 
que o vinho se transforme em cicuta?

essa marcha incessante
a passos firmes para um horizonte
que nos conclama à felicidade
sob uma chuva de insatisfações
será ilusão essa nossa verdade?

paro, fecho o guarda-chuva
e me molho e sob a visão turva
me vejo fundido à pastosa vida
entrelaçado por rancores, 
buscando amores sob o pus das feridas

no chão, água e sangue são um só
enquanto me desfaço no pó
das cinzas de alguém que um dia fui
é da natureza das coisas
que seja o pó o mal do mundo, se conclui

e é dessa mistura louca
de sangue, pó e outra coisa pouca
que um dia fomos nós moldados
mas é da natureza das coisas
que todos os erros sejam reparados

o tanto mal que ainda nos resta
e que escorre de nós por cada fresta
levará séculos a ser redimido
pois é da natureza do tempo
fazer com que os desvios sejam corrigidos

o sol imortal então nos dará a certeza
pois é da sua natureza: o fogo tudo renova
queima até que diminua
o mal que se esconde, sorrateiro, no lado escuro de nós
no lado escuro da lua

12 de março de 2013

Essa Raça

Todo escritor é solitário
não por opção mas por hábito
uma fome de palavras e significado
é por isso que faz tudo com zelo
superando cada doce apelo
que vem lhe distrair enquanto concentrado

Todo escritor é meio louco
e berra com a caneta para não ficar rouco
o que prova também não ser burro
é por isso que escuta conselhos
e mesmo se esquivando de espelhos
rima seus reflexos espatifados a murro

Todo escritor é meio santo
procurando abraços e acalanto
enquanto fritam seus neurônios
é por isso que em vez de crescer
deixam  a barba por fazer
e se disfarçam de demônios

Todo escritor fala mesmo ao vento
sem se importar se há ouvido atento
sua experiência não é tátil
é metafísica, extemporânea
e por isso ao organizar sua coletânea
o que procura mesmo é uma alma fértil

Todo escritor é uma bagunça
uma pia a suportar um mês de louça
imagine quanto fedor
é por isso que quando faz sua faxina
se organiza em prosa e rima
depois convida o mundo a ser leitor

7 de dezembro de 2012

O Encontro de Clotilde

Clotilde pediu para sair mais cedo, inventou que precisava levar sua irmão ao médico. A patroa desconfiou da existência de irmã mais misteriosa e não menos misteriosa doença que acometia subitamente requerendo atenção prestativa da ama de tantos anos e confiança.

Clotilde não podia revelar mas tinha planos para aquela noite. Dias atrás renovara o quartilho do perfume favorito, mimo ao qual se reservava apenas no Natal ou, atualmente, no velório de alguma amiga mais próxima cujos quase oitenta nos de vida vinham subtraindo com cada vez mais frequência de seu convívio.

As tantas conduções que tomava até sua casa nem a eternidade do trajeto eram suficientes para esmorecer Clotilde de seu plano. Chegando, calmamente preparou a si e a casa para a ocasião. No banheiro, abriu um sabonete novo e atirou o velho, craquelado de saudade, no lixo. Seu vestido já estava passado desde a noite anterior, assim como a anágua rendada e o lenço de cetim que manteria à mão para o caso de alguma emoção maior derramar-se pelos olhos.

Desistiu das luvas, coisa antiga, pois queria parecer mais jovem e era Dezembro. As várias camadas de roupa lhe dariam calor suficiente para preocupá-la com um possível suadouro incontrolável na hipótese de as coisas realmente esquentarem. Mesmo com oitenta anos experimentava calores súbitos que não eram efeito da menopausa.

Então, antes de rechear todos aqueles panos, Clotilde preparou o jantar. Era uma especialista em agradar e, hoje, queria ser agradável mais do que nunca. Hábil que era na instrumentação cirúrgica da culinária, não tardou para que a carne assasse e ficar pronta ao mesmo tempo que o arroz, o feijão, tudo cronometrado pelos anos de experiência.

Do armário resgatou a toalha de mesa que um dia esteve sob seu bolo de casamento e, noutro, sobre o rosto de seu finado marido. Agora, depois de tanto tempo, não importava mais aquele passado, por mais brilhante que tivesse sido, como também não importava a apagada vida solitária que vivia já há trinta anos. A toalha, uns cinquenta. Talvez mais. Se tivesse tido filhos provavelmente teria mais facilidade, ou vontade, de medir o tempo com maior precisão pois não há relógio tao acurado quanto o que palpita num peito de mãe, dizem.

Toalha à mesa. Louça branca e os melhores talheres. Guardou no fundo da despensa os copos de geléia de mocotó acumulados ao longo dos anos de regozijo com a sobremesa e substitui-os na mesa por duas taças de vinho. Nunca tomara vinho mas sabia que para a ocasião deveria servi-lo. Não era fã de bebidas de qualquer genero, ainda mais tendo elas levado o dito marido com um fígado mais inchado e espumoso do que o normal. Ainda hoje, quando bebia, nenhum gosto era mais forte do que o do finado beijo. A garganta ardia menos que o peito de saudade. Chegou a pensar em abrir uma sidra mas seria espalhafatoso demais e, afinal, não havia ainda o que comemorar. Por isso deixou-a de lado até que o Reveillon chegasse. Não estava longe.

Tudo pronto na cozinha, retirou-se para o banho que poderia ser demorado, minuncioso e relaxante. À falta de um secador em casa, havia passado ante no salão e armado o cabelo num penteado que lhe agradava e que preservou dentro de uma touca sob o chuveiro fraco. Sentou-se à penteadeira enrolada na toalha mais felpuda e sorriu para si mesma no espelho. Tateou sem tirar os olhos do reflexo e levou às orelhas os brincos herdados da avó. Duas pequenas argolas douradas. Simples, mas que contrastavam tão bem com a pele morena de Clotilde que se ela não tivesse olhos brilhantes, chamariam mais atenção.

A noite caía vagarosamente lá fora enquanto Clotilde calçava seus sapatos de salto alto. Certificou-se mais uma vez no espelho se tudo estava no lugar e ajeitou um cílio revolto com a pequena escovinha da máscara. Correu a mão pelos lados do corpo sobre o vestido e se sentiu preparada.

Na sala, faltava um toque final. Pegou a lista telefônica e pôs na cadeira à sua frente do outro lado da mesa. Em cima dela pôs o pequeno televisor e sintonizou o canal da novela, que ainda não tinha começado.

Clotilde teve tempo de servir o seu prato e um prato à frente da TV com quem partilharia, finalmente aquele romântico jantar. Encheu as duas taças de vinho a tempo de brindar um sonoro "tim tim"e suspirou assim que o Tarcísio apareceu na tela.

25 de novembro de 2012

Ipê amarelo

As costas de D. Alba estalaram quando ela levantou-se depois de tanto tempo agachada plantando aquela muda de ipê. O verão ainda não estava no auge e mesmo próximo do meio-dia o calor não sufocava e uma brisa vinda do jardim do outro lado da rua amenizava o sacrifício daquela senhora meticulosa ao pé do canteiro.

Era um ipê, não se sabia de que cor. Um dia ele seria frondoso e debaixo da sua sombra brincariam seus bisnetos que ainda não haviam nascido mas que, ela tinha certeza, estavam a caminho. E a notícia do casamento da primeira neta só aumentava a sua esperança.

Naquele mesmo lugar um outro ipê já vivera por muito tempo e D. Alba, muito antes de seus cabelos tornarem-se plúmbeos, ali descansava e lia suas histórias enquanto seus irmãos brincavam rua acima. Mas os tempos mudaram e a rua foi asfaltada. Os vizinhos se mudaram e os novos não ligavam para a sombra da árvore. Para eles, ela apenas ocupava uma vaga de carro. E mais carros viriam. E com o tempo e com os carros, veio também a gasolina que os vizinhos usaram para regar o grande ipê amarelo e causar-lhe uma dolorosa morte. Dolorosa não mais para a planta do que para Albinha que tanto gostava dela.

A árvore foi rapidamente encolhendo enquanto Alba crescia e as pessoas deixavam para trás o diminutivo de seu nome e ela era então só Alba, o que já era muito. Seus pais já haviam partido e o tronco enegrecido da árvore afogada em gasolina fora enfim retirado por seus filhos que tiveram todo o cuidado em manter um canteiro no lugar, provavelmente a vingança velada ao vizinho e sua pretensão estacionar ali.

Os filhos mesmos gostariam de estacionar seus carros em frente a casa de D. Alba. Isso facilitaria muito o trânsito dos carrinhos de bebê e bolsas de fraldas que agora pululavam pela casa antiga e davam novo ar à vida daquela senhora. Enquanto os netos cresciam, ela mostrava fotos do antigo ipê à frente da casa com uma nostalgia que impressionava as crianças. Ela sempre fora boa em contar histórias e, principalmente, piadas. Era a avó que as crianças mais gostavam e era-lhe natural esse carinho. Não fazia grandes festas nem comprava-lhes com doces ou mimos superficiais.

A primeira neta cresceu e aprendeu com ela a coser, tricotar e cozinhar, cultivando um carinho mútuo e uma confiança com a mesma diligência que tirava as ervas daninhas e as formigas do canteiro. E, no dia do seu casamento, o carro deixou a ela e seu marido, à frente desse canteiro onde a pequena muda de ipê havia sido recém plantada. A casa de D. Alba sempre fora o centro gravitacional da família e incorporava os corpos, celestes ou não, que entravam e saíam dela. Uns rápidos como cometas enquanto outros em órbitas milenares.

A árvore crescia na mesma medida da ansiedade de descobrir a cor de suas flores que D. Alba mantinha dentro de si. Desenvolvia-se saudável, seu caule deixara de ser de um verde frágil e agora ja tinha a casca maleável que precede os grandes troncos. Suas folhas mínimas já dava lugar a línguas largas a pender pesadamente da ponta dos galhinhos mais audaciosos que buscavam o sol.

Por longos anos D. Alba assistiu esperançosa o surgimento dos botões que não se abriam. O clima, quente demais, frio demais, vento demais, sempre explicavam o fato de até agora nenhum botão ter brotado. Até que, num outro verão, o nascimento da primeira bisneta acalentou ainda mais o sonho de ver a cor do ipê, finalmente. Já era hora de crianças voltarem a correr e berrar pelos corredores da casa e  pelas calçadas da rua. Só assim o ipê teria a energia que precisava para enfrentar o clima cruel que matava, ano a ano, suas flores.

Mas, algum tempo depois, o ipê como que parou de crescer, estacionou. Era comum ver cair as folhas verdes, saudáveis de seus curtos galhos. Estava da altura de D. Alba agora e ela podia conversar com ele olho no olho e era com uma reverência que ela se agachava todo dia para regar-lhe as raízes e arear-lhe o solo. Um dia, a situação se agravou e D. Alba viu a casca do tronco do ipê encher-se de um branco não natural, como um pó a cobrir suas rasas reentrâncias de planta jovem.

Foi quando ela soube que o casamento da primeira neta não estava indo bem e a separação era inevitável. D. Alba temeu nunca descobrir de que cor seria o ipê. Gostava de pensar que o redondo do mundo devolveria a ela o ipê amarelo de sua infância e que, daquele passado, reviveria as alegrias sob o frescor de sua sombra com os bisnetos nos braços, ensinando a coser e contando histórias.

O sal de tantas lágrimas fizeram o ipê secar e secar e nem o empenho de D. Alba nem seus inúmeros artifícios fizeram voltar a saúde à planta. Desenganou-se. A desilusão foi como a gasolina e tirou-lhe a vida e D. Alba mesmo foi perdendo o viço. Deixou-se abraçar pelo sofá e a televisão. A correria dos netos e a gritaria dos churrascos não aplacavam a grande perda de seu ipê e, com ela, a certeza de que o passado não volveria e se perderia num olvido gradual e lancinante. Acompanharia a morte da esperança pela janela, folha a folha.

Mas sua rotina de UTI botânica mantinha-se. Não optou por nenhuma ortotanásia e continuou a adubar a terra, regar e retirar as ervas mesmo não cultivando mais sonhos de recuperação. E, neste processo, surpreendeu-lhe um pequeno broto num dia, bem cedo, camuflado por gotículas de orvalho ou da chuva que caíra na noite anterior.

Aproximou-se bem para ver se aquilo era realmente o que pensava ser e teve que entrar em casa para buscar os óculos de perto no intuito de certificar-se. De pertinho, achou que a chuva tinha lavado embora o pó que cobria o tronco e não restava sinal deve na terra aos seus pés. Uma nova faísca incendiou-lhe o peito e veio à superfície traduzido num breve sorriso.

Entrou novamente buscando o telefone mas enquanto ainda procurava no caderninho o número da primeira neta, ele tocou. Era ela própria e queria lhe contar novidades em primeira mão. D. Alba soube, então, que as flores seriam mesmo amarelas.

29 de outubro de 2012

O Vestido

A costureira espetou-se com a agulha enquanto pespontava a última prega bordada do vestido. Sem saber, batizava-o com sangue e iniciava-o para o cumprimento de seu destino.  Afastou-se com o dedo magoado à boca exclamando pelos olhos algo como o "parla" daquele outro grande artista porém mais como uma feiticeira a imputar-lhe propriedades sobrenaturais.

Fora o vestido concebido para gala, seu corte sóbrio desenhado para não chamar nem tanta nem pouca atenção para si mas, sim, para esmeraldas expostas nos colos ou dependuradas nas orelhas de suas futuras donas.

Seu toque era macio e sua cintura drapeada marcando-a conforme a moda. Sua cor neutra era a cúmplice do bem que fazia aos aspectos naturais de quem o usasse. Não havia olhos de quaisquer cor ou cabelos por mais armados ou soltos que fossem que não se dispusessem perfeitamente sobre a cobertura dos ombros e colo expondo a público o que deveria ser mostrado apenas a dois enquanto escondia aspectos mais promissores debaixo de si.

Ele vestia até pouco abaixo dos joelhos com discretos cortes laterais porém tão reveladores durante o movimento que mal se notava a falta de decote. Para compensar essa falta, marcava o volume dos seios com linhas estrategicamente cerzidas a sustentar-lhes sobre a afinação da cintura. O resultado era um glamour pin-up, refinado e espevitado.

Mangas curtíssimas revelavam braços esguios e toques gentis. Fechava-se às costas num longo e lânguido fecho eclair até o coccix apenas torneando a silhueta da curva mais bela de qualquer mulher.

Vesti-lo era uma obrigação, pensou ela naquela noite. O vestido que havia passado de geração a geração insinuou-se de dentro do armário. Tanto tempo após sua concepção. Tantas paixões, ciúmes e suicídios. Ciente de seu poder, ela dispensou as jóias, perfumes, maquiagens e exageros. Seria apenas ela, seu corpo, a ser o foco da mágica. Sua própria beleza a emancipar-se, como se despida de tudo porém sob uma armadura de luz e sombras a mexer com a imaginação de todos, principalmente daquele que a esperava.

E o efeito foi fulminante ao vê-la caminhar a curta distância que os separavam. Ela parecia saltitar, flutuar. Examinar as dobras perfeitas do vestido dançando a cada passo, provocantes em toda a complexa simplicidade com qual uma obra de arte vive e vibra.

Quando se encontraram, o vestido performou sua mágica. Um ímã, uma pederneira a atirar faíscas a cada toque, carinho e beijo até o fecho deslizar por completo e sublimar-se, o vestido, sobre as costas de uma cadeira, a observar sua obra completa, seu dever cumprido. Mais uma paixão cultivada e consumada, sem superfluos, só beleza e mais nada.