13 de agosto de 2012

Ossos


Os ossos quebrados estalavam como bambus vergando sob vento forte. A essa altura não havia mais palavras, sequer os típicos xingamentos. Apenas o som de punhos e unhas violentos encontrando pele, cartilagem e órgãos. Uma pirotecnia de sangue voando pelos ares, pintando pranchas Rorschach pelas paredes.

Ela disse o que tinha que dizer, como sempre, e ele calou-se. Era a estratégia de ambos para opor-se ao sofrimento: atropelamento e fuga, respectivamente. O apartamento ficou pequeno demais para tanta verdade e mágoa contida, a ponto de a ausência causar mais prazer do que dor.

Os olhos azuis dele já não tinham fogo ou paixão e ela tampouco mordia mais os lábios de excitação. Seus toques eram burocráticos, cheios de drible, evitando os pontos que acendiam lembranças e vontades. Seus beijos eram secos e a sede era por uma nascente que não jorrava mais de dentro de nenhum dos dois. Eram desertos no meio de um vasto oásis.

A cotidiana administração da casa tornou-se o alicerce da união e a qualidade do tempo que passavam juntos era um gráfico em queda vertiginosa que daria arrepios a qualquer CEO. Por outro lado, se esquivavam dando asas às suas mais rasas necessidades, compensando a ausência de alma com o excesso de coisas.

Os diálogos rareavam e nem as condições do tempo ajudavam o conteúdo. Cada um nutria sua própria distração independente, cultivando cactos dentro de si. Entorpeciam-se de informação que não trocavam, numa disputa cujo vencedor seria o melhor ator, o que parecesse menos afetado.

Deram um último beijo há algum tempo. Na verdade, desde então se deram vários beijos, mas nenhum deles como esse último, lá atrás. Haviam passado a tarde caminhando pela praia vendo o sol se pôr e tomando água de côco. Pareciam tão felizes com as mãos entrelaçadas contra a brisa úmida que nem imaginavam o potencial destrutivo a fermentar sob os peitos suspirosos e palavras doces.

Aquele mel foi cristalizando na medida em que a brasa da relação esfriava. Quando se encontravam, gaguejavam, tremiam, perdiam o raciocínio no meio das frases, pareciam distraídos um pelo outro. Mesmo com a casa vazia, havia uma aura suave pairando à meia parede, uma atmosfera acolhedora que abraçava a ambos, muito antes de as manchas aparecerem sob suas retinas.

Não se lembravam mais de terem confidenciado amor eterno um ao outro. A primeira vez não tinha mais relevância, não sustentava qualquer sentimento ou memória que levasse sequer à autoindulgência. Quando havia algum sexo, era permeado pelo egoísmo de ambas as partes, pois quando atingiam o êxtase era apenas para se distanciarem ainda mais no instante seguinte. Tomavam banho para tirarem de si qualquer resquício do outro que pudesse incomodar.

Hoje, colhiam os louros de uma escolha apaixonada e precoce. O sangue que escorria na parede e empoçava no chão era o banquete para o qual a vida os convidara e no qual apareceram com os trajes errados. Chegada a hora de despirem-se, souberam que um não tinha fome do outro, ou melhor, jantarem-se não era mais o suficiente.

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