20 de maio de 2011

Babas

O urso magro saía da toca onde passou o inverno. Cansado de tanto dormir, ia equilibrando-se nas agora verdejantes árvores até a beira do rio que lhe chegava às narinas com o odor da vida.
Primeiro bebeu água, muita água, até que a sede morreu e a fome gritou das profundezas vazias do enorme estômago. Seus olhos seguiam a correnteza aflitos, fitando além da superfície. Pata ante pata até o meio do rio, o frio lhe obstando a consciência.
Gigante e frágil, quase vertendo lágrimas irracionais no limite da sobrevivência, o urso joga seu corpo sobre a truta e arranca e sacode no ar, como a comemorar sua conquista.
As escamas da truta brilham sob a baba do urso assim como a almofada escurecia sob a baba do telespectador do outro lado da tela, quase dormindo, minutos antes de trocar de canal.

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