18 de outubro de 2010

Nova Iorque

Participo de um grupo de leitura com o objetivo de mostrar meus textos para um seleto grupo de autores mais experientes do que eu e, com as críticas, torná-los mais palatáveis a vocês, meus três leitores.

A maioria dos partcipantes escreve humor. Não é muito a minha praia, mas imbuído do espírito de colocar minha cara e minha caneta à tapa, escrevi logo para o primeiro encontro do grupo esse breve conto baseado em fatos reais, ou melhor, em uma narrativa de um amigo sobre um episódio que realmente aconteceu. Ele que me perdoe, mas queria muito anexar ao texto as caras que ele faz quando conta essa história. Não dando, aí vai:


Nova Iorque


Blue era a cor da mala que Luis acabara de despachar no check-in do aeroporto. Estava feliz da vida por ter conseguido juntar o dinheiro necessário para embarcar nessa que era a viagem dos seus sonhos: Estados Unidos. Sabia que a viagem seria solitária, mas nada tirava sua empolgação.

Desde sempre tinha curiosidade de conhecer Nova Iorque. Sabia de cor a localização das ruas que eram citadas nos filmes da TV. Tinha um mapa onde apontava os lugares como a Magnólia Bakery, melhor apple pie de NY, lá na Bleecker Street e o DeWitt Clinton Park onde disfrutaria de um passeio sossegado à margem do rio logo ali entre as 52nd e a 54th street. Mas gabava-se mesmo era de seu inglês. Sua meta era falar tão naturalmente que ninguém o identificasse como estrangeiro. Queria ter a fluidez de um cidadão novaiorquino e se esforçava tanto para falar da maneira que lhes é peculiar que chegou a se cadastrar em um desses programas de troca de cartas para se corresponder com um nativo e aprender as gírias e os palavrões diretamente dele. Era encantador ouvi-lo dizer motherfucker.

Quando juntou todo o dinheiro necessário, foi até uma agência de turismo reservar o pacote New York, New York: 4 dias e 3 noites com vista para o rio Hudson. Imperdível. O problema agora era segurar a ansiedade. Ninguém mais agüentava Luis gastando seu inglês com tudo. Não era difícil escutar um amazing quando algo o agradava ou um Oh, my! quando espantado.

Enfim chegou o dia do embarque e, como dito pelo próprio Luis insone, couldn’t sleep at all. O check-in correu bem. O embarque foi ótimo. Luis reservou uma poltrona na janela pois queria ver a cidade se descortinando aos poucos sob as nuvens. Estava absorto nesse pensamento com o avião já no ar quando foi interrompido pela aeromoça:

- Rélougentoumanduiuuantiuaitiuain?

Luis não se fez de rogado e emendou quase instantaneamente, pedindo que a aeromoça repetisse a frase pois não tinha prestado attention:

- Duiu-uanti-uaitiuain?

Nervoso, Luis hesitou um pouco mas pediu novamente que repetisse:

- Duiu-uantuaiti-uain?

E isso ocorreu mais umas duas ou três vezes até que o senhor sentado à poltrona da frente perdeu a paciência e levantando, berrou “PORRA, DO... YOU... WANT... A... WHITE... WINE? WHITE WINE! VINHO BRANCO, ANIMAL! VOCÊ QUER UM VINHO BRANCO?

Um comentário:

Eduardo disse...

Great!!! Eu poderia até imaginar esta cena!!