20 de junho de 2012

Nem por mil palavras

Sou um fã das palavras.
Na infância tinha um dicionário de sinônimos que folheava sempre antes de ir para a escola e escolhia, dentre aquelas várias expressões pouco conhecidas, as que seriam usadas naquele dia. Os sinônimos de bagunça eram investimento certo. Sempre tinha uma oportunidade de usá-los. "Olha a algazarra!" gritava eu no meio da maior fuzarca durante as aulas de Português ganhando pontos com o professor. Uma pena as inúmeras letras da Química ou os caracteres gregos da Física não formarem palavras, pois precisaria mais dos pontos nessas disciplinas.

Esse hábito me acompanha desde então, mas não sou daqueles que pretendem aprender uma palavra nova por dia. No entanto, às vezes invento uma história, um poema ou um verso só para dar asas a uma palavra grudenta que não me sai da cabeça. Se procurarem bem, acharão a palavra "esquife" ou a expressão "para lá e para cá" com certa frequência em alguns períodos por aqui pelo blog. Outras vezes, construo textos só para que uma certa palavra brilhe. Vou polindo as bordas, afiando as pontas, abalroando os engastes até encaixá-la perfeita, translúcida na idéia central.

Por causa desse gosto pelas palavras acabo também gostando de pessoas que inventam palavras. Não raro são indóceis, inconformados, inteligentes e visionários. Não é qualquer um que inventa uma palavra. É preciso coragem e ousadia para expor-se ao ridículo de uma ignorante correção. Digo ignorante não no sentido de falta de conhecimento, o que seria um contra-senso, mas pela falta de educação que é tentar matar a língua que é viva e enjaular a criatividade que voa. Enfim, ignorantes aqueles que não entendem e sufocam um neologismo. Mesmo que já exista um termo etimologicamente correto para uso. Diga ao Menino Maluquinho que "mexedorzinho" é colher e eu digo que és um mequetrefe.

Em sua ansiedade, a pessoa que inventa palavras quer apenas traduzir o que sente, dar forma às ininteligíveis matizes de sua alma. Fazer-se entender, pura e simplesmente. Admiro isso e gostaria de ter esse dom, pois aliviaria, e muito, a minha própria ansiedade.

Mas mesmo sendo o ardoroso fã que sou das palavras, não posso deixar de reconhecer nelas uma falha ou, amenizando, afinal, como fã tenho esse direito, uma limitação. E uma óbvia limitação.

Tente descrever o pôr-do-sol na praia num dia de verão. Já tentei, AQUI, é impossível. Ou a figura de uma noiva sendo abandonada no altar. Também tentei, improvável que alguém adivinhe. Um dia eu incluo nesse blog.

Mas muito pior que descrever situações, é descrever os sentimentos. Tente descrever o que sente quando aquela pessoa mais do que querida passa por você. Difícil. Agora tente traduzir a diferença de quando essa pessoa passa e quando ela passa e realmente olha para você. É sutil e ao mesmo tempo mais complexo. Tem palavra suficiente para isso? E quando suas mãos se tocam sem querer ou aquela troca de olhares antes do primeiro beijo. Como explicar a tremedeira, o suadouro, a garganta seca que são os efeitos físicos dessas situações? Como entender a tremedeira sendo borboletas no estômago, o suadouro sendo humores do amor e a garganta seca, a sede da paixão. Ah, ingênuos poetas, achando que se fazem entender.

A triste conclusão é a de que, por mais palavras que se inventem, nunca conseguiremos traduzir fielmente o que sentimos. A comunicação será sempre limitada e a necessidade por novas palavras sempre infinita. Para um fã de palavras, é um cenário e tanto, mas não troco aquele olhar, aquele toque e aquele beijo nem por mil palavras.

15 de junho de 2012

Jogo do Amor

O neon é clichê e está lá
assim como os dados transparentes
não se aposta dinheiro neste bacará
palavras são ases nas mangas cadentes
não adianta soprar ou torcer
as cartas já estão marcadas
você pisca e adula o crupiê
mas a banca empilha o butim das rodadas
a vida é um cassino brilhante
onde voam pessoas como insetos em flor
até nos queimarmos, incandescentes
todos nós perdedores no jogo do amor
cada um blefa como pode
dissimulados no jogo do amor
quem ganha, bate, pega o morto
tamanha a violência do jogo do amor

30 de maio de 2012

Mesmo Lugar


Mesmo lugar
é luto, é triste
é teu dedo em minha face em riste
sacudido a me reprovar

Salgado gotejar
escorre lento
a semente que seria sustento
nunca chega a germinar

Mesmo lugar
é frio, é pouco
é um grito louco
sufocado e rouco
entre tu e eu a nos afastar

O espaço cresce
enquanto permanece
essa tentativa estranha
entre amor e manha
a nos entrelaçar

Mesmo lugar
uma casa, um cômodo
um leve enjôo e o incômodo
na expectativa de tudo acabar

E assim esperamos
toleramos e amamos
de consciência tranquila
enquanto o olho cintila
vendo o tempo, a suspirar

23 de maio de 2012

Revoada

Às vezes confundo
a terra seca e o chão fecundo
e me ponho a semear
Até me surpreender
ao tempo da colheita
sob o sol, a vista estreita
com o par de asas negras
maduras, prontas para voar
Ainda tento com ancinho
por receita e pergaminho
a erva negra extirpar
mas o campo põe-se em algazarra
como os tambores da fanfarra
um infinito bater-asa
do milho negro a revoar
E no campo ali vazio
ouço apenas o assobio
da negra revoada a se afastar

9 de maio de 2012

Cão Sem Dono

Você tá vendo ali na esquina
bicho lambendo a ferida
querida, esse sou eu
ou o que de mim sobrou

Vou vagando pelos cantos
depois que o nosso desencanto
finalmente se rompeu
e acabou com nosso amor

Em vez de beijos todo dia
vivo em frente à padaria
das sobras que ninguém comeu
mastigando os velhos ossos
desse amor que já foi nosso
e agora já venceu

E quando bate o desespero
me concentro no galeto ou
nesse soneto que é só teu
Vem comprar logo o almoço
e me larga mais um osso
como você prometeu

E deixa o estabelecimento
e nele todo o sentimento
que tivera antes do fim
Vou ficar ali na esquina
te olhando na surdina
até que passes por mim

Então corro ao teu abraço
pra roubar mais um pedaço
da carne boa que comprou
E sob gritos e impropérios
vou me esconder no cemitério
e tu nunca mais me encontrou

Mas sempre fico ali na esquina
a lamber minha ferida
querida, é onde aos poucos eu morro
De vez em quando a velha bruxa
vem me bater com o guarda-chuva
me chamando de cachorro

E me recolho ao meu escuro
na sarjeta ao pé do muro
onde espero amanhecer
Quando tu vens comprar teu pão
e eu com sofreguidão
estendo a língua a te lamber

3 de maio de 2012

A contribuição dos Beatniks


Fiquei curioso quando soube que o diretor brazuca Walter Salles (Central do Brasil, Água Negra e Diários de Motocicleta) estaria à frente da mais nova produção do clássico On the Road (em português, Na Estrada), do célebre autor beatnik Jack Kerouak. Tão logo confirmei a informação corri atrás de outras referências que me pusessem em melhor contato com o clima da época e com os “ideais” beatniks e os achei em outros dois grandes nomes influenciadores do movimento: William S. Burroughs e Allen Ginsberg.
O mundo vivia a ressaca de seriedade do pós-guerra. A juventude, sufocada pelo chamado à pátria e para o cumprimento de responsabilidades para com seu país, vivia agora não mais sob a ameaça flagrante de um novo conflito (que só chegaria, a ameaça e não o conflito em si, anos mais tarde com a bipolarização da Guerra Fria). Viveu-se então um período de grande efervescência cultural.
A geração beat, no meu pretenso entendimento (ai da sociologia e da antropologia) foi o grande estopim da revolução contra-cultural que tomou conta dos EUA até a década de oitenta. É nela que se encontram as sementes do experimentalismo, do livre fluxo de consciência, do contato transcendente e a noção de pertencimento ao cosmo, porém num grau ainda menor do que os hippies dos seventies, por exemplo. Sem falar da grande influência da espontaneidade do Jazz que fazia a trilha sonora da vida na época que seria substituída depois pelo Rock and Roll. Não à toa, esses três nomes citados acima (Kerouak, Ginsberg e Burroughs) são fontes frequentes de inspiração para grandes obras dos anos 60 e 70, tendo estado nas poesias de Jim Morrison, nas músicas de Frank Zappa e até na capa do lisérgico Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band (Burroughs) dos Beatles.
Assisti recentemente a dois filmes que me levaram a entender e vivenciar um pouco desse  imaginário beatnik: “O Uivo” (Howl, 2010) onde James Franco (172 Horas, Homem Aranha, Milk) encarna com louvor o poeta Allen Ginsberg e “Almoço Nu” (Naked Lunch, 1991) baseado na obra homônima de Burroughs e dirigida por ninguém menos que David Cronenberg (A Mosca, Um Método Perigoso).
Em O Uivo, conta-se a vida de Ginsberg em flashbacks enquanto a relevância de seu poema homônimo é julgado num tribunal popular. O caráter autobiográfico do poema é um prato cheio para esse recurso pois mesmo camuflado sob um confuso (e às vezes incompreensível) fluxo de consciência do poema, os personagens principais na vida do autor vão tomando forma. Proibido de circular sob acusação de estimular a promiscuidade e atentar contra a moral, o poema de Ginsberg ganhou notoriedade e correu o mundo após ser sonoramente absolvido de seus supostos pecados. Era de se esperar que a quadrada sociedade americana da época (da época?) se exasperasse ao ler coisas do tipo 

“Eu vi os expoentes da minha geração, destruídos pela 
    loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,
...
que morderam policiais no pescoço e berraram de 
    prazer nos carros de presos por não terem cometido 
    outro crime a não ser sua transação pederástica e tóxica,
que uivaram de joelhos no metrô e foram arrancados do 
    telhado sacudindo genitais e manuscritos,
...
que adoçaram as trepadas de um milhão de garotas
    trêmulas ao anoitecer, acordaram de olhos vermelhos
    no dia seguinte mesmo assim prontos
    para adoçar trepadas na aurora, bundas luminosas 
    nos celeiros e nus no lago,”
Só para dar um exemplo.
Já em Almoço Nu, Cronemberg nem precisa de muito para interpretar o texto altamente lisérgico e biográfico que Burroughs já havia escrito. O método de Burroughs era ainda mais controvertido pois deixava que o fluxo de consciência viesse à tona sob efeito de drogas alucinógenas, o que dava, digamos, um colorido especial. Esse método, no entanto, não é novo. Aldous Huxley do cultuado Admirável Mundo Novo, por exemplo, descreve em As Portas da Percepção, de 1954, suas impressões num experimento empírico sob efeito de mescalina, LSD e outras drogas. Porém, com Burroughs, em vez de descrever as sensações efeito da droga, ele inventa histórias e cria sob essa névoa, o que mistura fatos marcantes de sua biografia, como o assassinato de sua mulher Joan por ele mesmo durante uma brincadeira de Guilherme Tell com uma pistola calibre 32, com viagens insólitas como as máquinas de escrever que se transformam em insetos paranóicos, numa viagem kafkiana como ele mesmo qualifica.
Os dois filmes dão idéia da ânsia por liberdade, da necessidade de expressão e da vontade de pertencimento que os anos 50 criaram nos EUA ainda feridos da Segunda Guerra. Pelo que pude perceber do trailer, Na Estrada tem menos referências a drogas e homossexualismo do que Almoço Nu e O Uivo, respectivamente, o que o torna talvez mais palatável ao expectador comum, que pode ir ao cinema esperando algo parecido com Central do Brasil ou Diários de Motocicleta, dirigidos pelo mesmo Salles, cada vez mais especializado em road movies. 
Minha conclusão é que os beatniks foram os pais dos hippies, avós dos yuppies, bisavós da nossa geração e um passado já distante da geração Y ou @ ou qualquer outro símbolo que a caracterize, descrevendo uma evolução que vai da necessidade de libertação da alma presa pelas limitações do corpo à necessidade de construção de apetrechos físicos que estendam os limites dessa prisão corporal. O jovem dos anos cinquenta ouvia Jazz e escrevia sua liberdade individual viajando e deixando correr sem amarras o fluxo de sua consciência; o jovem dos anos sessenta e setenta ouvia rock e panfletava a paz e o amor querendo transformar não só a sua vida, mas a sociedade mais livre; o dos anos oitenta perde esse romantismo e é mais pragmático, tomando consciência de que liberdade se conquista mesmo é com dinheiro no bolso, liberdade para ele é poder; já o dos anos noventa começa a rever esse conceito e experimenta a liberdade virtualmente, porém preso em sua cadeira mas com a janela da internet lhe abrindo cada vez mais os horizontes; e isso se consolida nos anos 2000 quando liberdade é expressar-se livremente, criar, compartilhar, rir e chorar publicamente na web. Já que não deu pra ter liberdade nessa sociedade careta, que tal um novo ambiente onde podemos colocá-la em prática? 
Viva os beatniks cujos ideais, em última análise, inspiraram a liberdade que temos hoje com a internet!

25 de abril de 2012

Blues da Colisão

Dois carros, contra-mão
Nenhum guarda na esquina
Farol alto, solidão
Cegos de nossa própria sina

Até que veio a colisão
O vidro todo espatifado
Sangue para todo lado
E curiosos de plantão
Condenado à eternidade
À morrer só de saudade
Sufocando o coração

Deixando a rua engarrafada
Não podemos fazer nada
Contra essa confusão
Seguindo nos atropelando
Odiando e nos amando
Até o próximo esbarrão

Mas alguém tem que dar um jeito
Sei que não vai ser perfeito
Puxo o freio de mão
Te deixo ir com nosso amor
E vejo no retrovisor
Você sumir na contra-mão

19 de abril de 2012

O Mágico


A vida que ensina é a mesma que cobra
Fatura esquecida, de juros se dobra
E se na bolsa sem soldo, vive a mosca a zumbir
Senão escorpião com ferrão a brandir
Pagamos o preço a peso de lágrima
Com a vida que sobra depois de cair

Foi assim com o mágico, há muito aplaudido
Visitando as cidades de segredos munido
Arranca risada, bochecha rosada
Um susto e mil gargalhadas
Ficou famosa a carreira e muito espantou
Que belo espetáculo, que grande alarido

Montava palco e tenda na praça
Cartola crivada, cheio de graça
Bigodes em cera, fraque imponente
Alçado mais alto do que toda a gente
Vinham-se todos assistir à grandeza
Vendia-se refresco e muita aguardente

Coelhos surgiam e pombas voavam
Cartas sumiam e lenços dançavam
Não se queimava em vela ou em pira
E boquiaberta a audiência assistira
O brotar do buquê entre dedos trementes
Que olhos notavam a linda mentira?

Que povo iludido, querendo mais
Pensava o mágico, artista em cartaz
Se com engodo sou-lhes deidade
Imagine se lhes trouxer a verdade
E antes do gran finale
Revelou o truque sagaz
para espanto de todos naquela cidade

Pateta, sorriu do palco esperando
A chuva de palmas, o riso ou o pranto
Mas o que se ouviu foi puro silêncio
A platéia abalada em grave consenso
De que o mágico prestara mau serviço
Era melhor velando, diria o bom senso

Cigarras cantaram, mugiu uma vaca
Numa obra bem longe batiam estaca
Enquanto a platéia em silêncio indagava
Então era isso, só mais um embuste
Charlatão, gritou um, cafajeste
Perdemos tempo com essa bobagem
E uma faca voou girando na haste

E era afiada, a maldita lâmina
Pregou-se à barriga, sangue a verter
Morreu o pobre mágico, estripado
Por ter simplesmente revelado
O que ninguém queria saber
Por trás da pantomima do defunto estatelado

E como deixei lá em cima uma pista
Poderia ter feito uma lista
Das coisas que a vida me fez entender
E outras que à morte irei esquecer
Que se morre o artista por mostrar a verdade
Desviam a vista despreparados para ver

E as vacas seguem mugindo
E as estacas seguem batendo
Enquanto morrem lindos mentirosos
E outros novos vão nascendo
Até que os peguem na verdade
Porque deles só mentira se espera
A platéia feroz, aturdida
A platéia feliz iludida

13 de abril de 2012

Bandeja de Prata


A mulher entrou no restaurante e, logo abordada pelo maitre atencioso, pediu uma mesa. Para um, respondeu educadamente à pergunta padrão dos maitres atenciosos. Perto da janela, por favor.

Mal sentou-se e um garçom apareceu trazendo um copo d'água alto e cheio até a metade, ou meio vazio, conforme a preferência do leitor. A mulher, porém, faminta, nem reparou na água nem na rosa branca quase desabrochada e repolhuda que boiava num recipiente, este sim, quase a transbordar no meio da mesa. Esgueirou-se atrás do cardápio cerrando os olhos como uma leoa à caça. Virou e revirou as poucas páginas em dúvida e intimou, Vou querer este.

Poucos minutos depois chega uma grande bandeja de prata coberta por uma cúpula reluzente. Posicionando tudo à frente da mulher o garçom destampa a refeição desejando "Bon appetit".

A mulher, salivando, nem percebe a salada e tudo o mais que é posto à mesa em volta da rosa flutuante. Forra o colo com o guardanapo branco para que o molho ainda morno não lhe macule a roupa e à primeira garfada chama logo o maitre novamente. Está frio. Mil desculpas, diz o maitre exagerando nos floreios e chamando estrepitosamente o garçom, dando-lhe um sermão com os olhos.

Voltando com a refeição, provavelmente uma nova peça dada quantidade de dígitos que custa cada prato daquele restaurante, nunca requentariam, o garçom reposiciona a bandeja e aguarda alguns instantes até que a cliente aprove com algum breve soslaio, um olhar carinhoso ou apenas um menear de cabeça afirmativo. Como nenhum sinal de desaprovação aflorou enquanto observava, o garçom achou desnecessário ali continuar e retirou-se para o atendimento de outra mesa.

Satisfeita, apesar de ter deixado alguns nacos ensanguentados no prato, a mulher põe os talheres de lado e pede a conta. Durante o angustiante silêncio que existe entre a digitação da senha do cartão refeição e a máquina cuspir a confirmação do pagamento a mulher diz: Meus parabéns ao chef. Foi o melhor frais cœur humain sur des plateaux d'argent que já experimentei.

E sai.

4 de abril de 2012

Hoje


Hoje acordei cedo
peguei tua mão e pusemos pés na estrada
o sol saía calmo e lento no horizonte
o dia todo a nossa frente
Tanta coisa a acontecer
eu, tu e o futuro
mesmo de longe consigo ver

Hoje não importa cada passo
e sim a vontade, o caminho a percorrer
agora o sol nos inspira
estará sobre nós ao meio-dia
quanto maior a nossa sombra
mais certa a alegria

não sei bem o que nos espera
mas o que importa?
o caminho que fazemos na Terra
é uma linha reta
mesmo que torta

27 de março de 2012

Regras Básicas

Quando eu te beijar
deixa teu corpo mole
para que eu console
toda sua dor

Quando eu te beijar
deixa a alma leve
e assim se escreve
uma história de amor

Quando eu te beijar
esquece teu passado
e me abrace apertado
sentindo meu calor

Quando eu te beijar
me esquenta teu corpo macio
como na noite de frio
debaixo do cobertor

Quando eu te beijar
abre a porta do coração
tudo o mais é ilusão
não importa o que for
e quando durante o beijo
sentir finalmente o lampejo
de que é para toda vida
não sinta medo e me aperta forte
porque amor desse tamanho
resiste até à morte

Quando eu te beijar
não paremos no meio
quero todo o devaneio
que desprende desse amor

Quando eu te beijar
não pense no futuro
só inspire esse ar puro
que só agora tem valor

Quando eu te beijar
deixa que o peito afrouxe
deixa que desabroche
lento como uma flor

Quando eu te beijar
deixa teu corpo mole
deixe que decole
alto a ver o sol se pôr

Quando eu te beijar
me dá uma abraço brando
deixa seu preto e branco
e venha para minha cor
te quero aos meus braço, lânguida
de olhos fechados, cândida
a sentir a ternura
de nossa música a se compor

E deixe que tudo se exploda
pois ao comemorar a boda
terá valido o nosso amor

20 de março de 2012

O Sábio Esquecido

Há milênios as mentes mais privilegiadas da humanidade se debruçam sobre a vida a tentar tirar-lhe um sentido, alguma lógica concatenação de idéias que nos faça entender o porque acordamos, fazemos coisas e dormimos, não necessariamente nesta ordem, todos os dias. Algo que  nos motive a fazer  coisas e nos alente nos momentos em que não há nada mais em que acreditar.

De Aristóteles a Michel Teló, cavuquei inúmeros pergaminhos e manuscritos de todas as épocas também nesta cruzada por um motivo de existirmos sem perceber que a busca por si só já bastava como resposta. Ainda assim, no porão de uma carvoaria em Smyrna, encontrei um pedação de mogno carbonizado que trazia em seu comprimento sábias palavras iluminantes as quais compartilharei a seguir.

Para o bom entendimento desta descoberta que poderá mudar o curso do pensamento humano antes do final dos tempos anunciado pelos Maias, vale-nos o esforço de conhecer melhor seu autor. Comeceços, então, sem demora, a história merecida.

Muito antes de Confúncio lambrecar-se de nanquim ou Ramsés engasgar-se com areia do Nilo. Antes de Xerxes sonhar em mergulhar das ravinas das Termópilas ou antes de a paloma sobrevoar a Mesopotâmia levando seu ramo de oliveira, viveu um homem sem poderes senão o de bom observador e poeta. Não se tem notícia de mãe ou pai, o que nos leva a crer em seu surgimento espontâneo, criação direta do Criador, um novo Adão enviado dos séculos com o único propósito de esclarecimento e elevação humana. Seu nome era Moab Rivenif.

Suas palavras ecoaram pouco ao longo dos tempos mas seu nome permanece indelével na memória daqueles que já se foram, a quem não podemos mais nada perguntar, nem confirmando nem refutando sua passagem entre nós. Rivenif dedicou sua vida à reflexão profunda sobre a vida, o universo e tudo o mais e, em seus escritos perdidos na história, discorre de maneira a popularizar sua filosofia e aproximar-se do artesão e do campesino, construindo uma retórica de forma a fazer-se entender a um afegão médio.

Basicamente, a filosofia rivenifiana suporta-se sobre a pedra angular da luta contra o Dia do Trabalho. Estabelecia-se assim contra o gameta fundamental da exasperação humana e sua característica propensão à indolência. Pregava o velho Moab a sacralização do Dia do Trabalho trabalhando-se. Deveria ser este o dia em que as jornadas se multiplicariam e os soldos reduziriam-se à metade, motivo pelo qual não era muito querido das populações mais desvalidas, apesar de ter grande entrada nos palácios dos reis e governadores. Mas tudo isso seria em honra da característica que nos diferencia de todos os animais da Terra e nos faz sermos o que somos: o polegar opositor.

Moab defendia o dado dedo com unhas e dentes, acusando irreverentes aqueles que o utilizavam sem pudor esticando-o pelas estradas a pedir carona, caroneiros heréticos. Sua observação era tão clara que em meados do século XVCIII a.c. o termo "caroneiro" em aramaico significava também "aquele cuja alma viaja suja de esterco e merece o açoite fumegante dos deuses mais cruéis". Chamar alguém de caroneiro era intimá-lo à fogueira eterna das expiações datilosas, mas o termo foi perdendo esta conotação ao longo do uso reduzindo-se apenas ao sentido do viajar.

Pouco sabemos da infância de Moab Rivenif dado a sua longínqua e improfícua passagem por este mundo. No entanto, há poucos anos, no leito do hoje quase extinto Mar de Aral, encontrou-se o que seria um brinquedo infantil feito de ossos de porco e pelos de doninha em cujo cabo lias-se a seguinte mensagem: "Asèt nau mond lan se", o que significa "o mundo é dos ascetas" em crioulo haitiano arcaico e constitui-se prova de que o perfil ermitão e reservado de Rivenif já se manifestava desde a mais tenra infância. Acredita-se que Moab deixara sua terra natal bem cedo quando deu-se a grande Praga dos Cabritos, efermidade que causou a morte de oitenta por cento da população de arminhos na Ásia Menor. Foi por conta da grande depressão econômica que se sucedeu devido à escassez da pele do arminho, que forrava indumentárias reais e adornava brasões, mostrando o poder e a riqueza de quem a ostentasse.

Mas isso foi muito depois de Rivenif deixar seu lar e espalhar sua palavra iluminada pelo mundo. Foi na província de Amoz que um dia foi chamada Antióquia, que o filósofo estabeleceu as bases do tratado pelo qual alçou-se à condição de Grande Pensador. Segundo uma antiga lenda que tornou-se um conto de ninar entre as tribos nômades da Mongólia, estava Moab sentado a mendigar na grande praça do mercado de Amoz quando observou um grupo de pescadores entrar pela porta oeste. A princípio estranhou aquela presença inusitada uma vez que o rio mais próximo estava a mil léguas de distância do lago mais próximo e, este, se localizava a quinhentos estádios da praia mais próxima e os estádios só seriam usados como métrica de distância quase dois mil anos depois do tempo em que aconteceu o ocorrido neste relato.

Os pescadores não traziam redes ou cestas com o devido peixe, mas fediam como se com eles embaixo dos sovacos tivessem atravessado o escaldante deserto. Observador que era das almas dos homens, Moab acompanhou o grupo com os olhos até um beco escuro. Lá, viu-os despirem-se e banharem-se com a água que sabe-se lá de onde vinha. Após o asseio, um deles escondeu-se no ponto mais obscuro do beco sumindo na escuridão. Ainda nu, agachou-se a eliminar de si a impureza sólida da qual todos os corpos viventes são fábrica e nos iguala aos mais impudico dos animais, o avestruz. Mas isso explica-se em outra oportunidade. Ao terminar, o pescador então levantou-se e, enquanto vestia-se novamente, deixou cair uma moeda de prata bem no centro do monte de excrementos que produzira. A moeda afundou vagarosamente até sumir das vistas estupefatas dos pescadores que, agora limpos, titubeavam e meter os dedos naquela imundície, contentando-se a esbravejarem impropérios uns aos outros e aos deuses que à época vigiam.

Adivinhando a celeuma, Rivenif aproximou-se e perguntou aos viajantes o que lhes afligia. Diante do que lhe foi exposto, Moab então interpelou-os para que calma tivessem pois a humanidade lhes proibia de gabarem-se por estar diante de tão pura prova da verdade eterna. Os pescadores entenderam pouco da linguagem usada e acreditaram que ele se referia ao monte de estrume humano que ali se encontrava mas convenceram-se de que algo mais importante estava para acontecer pelo tanto que o sábio agora gesticulava e forçava o falsete.

Rivenif esclareceu o porque de o homens serem tão ignóbeis e deu os próprios pescadores como exemplo. Repudiou a atitude vaidosa de evitar exporem-se ao negrume fecal em detrimento de uma situação melhor para a coletividade a qual faziam parte aqueles indivíduos. Criticou o ancião que acompanhava o grupo de cima de uma maca, imóvel das pernas, e quase tirou-o se seu estado vegetativo de coma tão alto gritava seus ensinamentos naqueles moucos ouvidos.

Os pescadores, então, pouco entendendo dessas coisas filosóficas e políticas, começaram a se sentir ultrajados em suas honras e interpelaram Moab para que demonstrasse logo seu ponto sob ameaça de uma sonora surra. O sábio, então, tomou seu alforge e de lá retirou um punhado de moedas de ouro e lançou-as imediatamente sobre o monte de bosta onde deslizaram preguiçosas até sumirem junto com a moeda de prata que lá já estava. Acotovelando-se, os pescadores zuniram em direção a poça de lodo humano no intuito de resgatar aquela pequena fortuna agora curados do pecado da vaidade e lambuzados do pecado da usura. Moab então retirou-se com a sensação de dever cumprido, certo de que seu modelo de sapiência e desapego seria reverberado entre as gerações vindouras. O que não aconteceu.

Assim foi, então, que Moab Rivenif convenceu-se de que seria inútil qualquer tentativa de elevação moral da humanidade e retirou-se em auto-exílio nas montanhas do Sudão onde permaneceria até fenecer de frio, fome e febre aftosa. Mas, a esta altura, seu nome já se avantajava entre os povos e, na primeira oportunidade, os mais fervorosos lhes descobriram o paradeiro e até o Sudão o foram buscar em sacra peregrinação não encontrando nada exceto os despojos de seu corpo esquálido, sem vida, muito além da figura austral que um dia fora.

Seus devotos levaram consigo o corpo e lhes fizeram a inumação honrosa que merecia descansando-o sobre uma pedra num riacho para que sua sabedoria pudesse frutificar os campos e, enfim, desembocar no mar sem fim, de onde seria levada aos confins do planeta em glória à elevação dos tempos. E enquanto seu corpo apodrecia, ou melhor, era devolvido à poeira original, a temperatura diminuiu bruscamente congelando todo o riacho apenas para descongelar novamente e, numa grande enchente, esconder o corpo por milênios, o que foi considerado um milagre póstumo de assombrosas consequências.

Hoje, com nossa tecnologia avançadíssima e tendo acesso a uma quantidade de informações que, naquela época, um espião levaria toda a vida para acumular, pudemos resgatar do esquecimento este formidável e olvidável iniciado. Que tornemos, então, pública a figura deste mestre, que o mundo saiba quem foi Moab Rivenif e se enrusbesça com seu legado. E contribua com apenas noventa e nove centavos em homenagem à memória dos pescadores convertidos.

E para provar que todas as doações que recebemos dos quatro cantos do mundo, pois convencíveis estão por toda a parte, basta que tenhamos os argumentos certos, para provar que tiveram aplicação prática e relevante é que apresentamos neste trabalho nossa mais recente descoberta. Se não fosse o caráter lógico e humanista de toda obra revenifanista, poderíamos considerar esta uma relíquia, digna de fazer o mais sedentário acólito sair de sua cadeira e encarar a pé qualquer distância para contemplá-la pessoalmente, onde quer que estivesse.

Então, como prometido, apresentamos neste trabalho um breve relato dos acontecimentos importantes que baseara, até agora, a noção que temos dos divinos ensinamentos de Moab Rivenif. Digo até agora pois o teor iniciático do achado é tão denso que poderá abalar as crenças que tínhamos e fazer cumprirem-se algumas leis há muito esquecidas que só existem hoje sobre os papéis timbrados e nas rachas das línguas maledicentes.

Sem mais delongas, eis ipis litteris o que nos foi revelado no Mogno de Smyrna.

Sob a máscara macambúzia
Desses homens que me rodeiam
Há os que me idolatram
Há os que me odeiam
E há ainda os que me ignoram
E o mesmo fazem com a Verdade
Então ouçam-me, pastores
Envoltos em mantos de Vaidade
A obra do Homem ainda está por vir
E à grandeza do Homem abjeto
falta-lhe muito e não encontrarás
Salvação em amuleto ou objeto
Glorifica teus Polegares se os tem
Se teve-Os decepados, dignifica-Os em altar
Mesmo que fiquem pretos e apodrecidos
São Eles que nos fazem criaturas sem par
Nessa Natureza que tanto criou e fez
Nada chega aos pés do que o Polegar fará
Ouçam-me, pobres pastores
E preservem seus Polegares pois o dia chegará
Despoja-te de tudo, até tuas roupas
Mas põe tuas mãos a trabalhar
Pois produto comum entre Homens e moscas
Só as fezes de ambos a defecar
Mete tua cabeça sobre os ombros
E não mais contempla o chão
O horizonte se abre e tudo pode
Para o Polegar que está grudado numa mão
Imaginem segurar mulher ou copo
Com a delicadeza que requer cada ação
Imaginem César poupar Gladiador
Sem um Polegar em cada mão
Vos digo, em verdade, que vosso único apego
Deve ser a este soldado desconhecido
Que nos ajuda, alimenta e coça
Quando dele assim é requerido
Enfim um viva ao nosso protetor
Glorifiquemos o seu poder que abona
Recomendemo-Lo aos nossos mais queridos
E nunca, nunca mesmo, peçam carona.

A.

13 de março de 2012

Transformação

Eu não sei se é lua cheia
ou terremoto no Japão
cometa que se aproxima
ou atividade de vulcão

só tenho essa certeza
que há algo na natureza
em plena transformação

vejo nos transeuntes
em meus sonhos conscientes
como o cheiro de terra molhada
antes da tempestade iminente
dói o calo no pé
e estalo os dedos de ansiedade
coça a cicatriz antiga
avisando o fim de alguma validade

não li no sol
ou nas estrelas que formam desenhos
nem nas mãos dos pedestres
nem nas sementes de jalapeño
não precisei abrir camundongos
nem encarcerei macacos
para ver as partes desse todo
ajuntando seus pedaços
sinto um cheiro estranho
e movimentos no soslaio
como o gato pressente o trovão
antes de cair o raio
não sei se são borbulhas
da minha imaginação
ou um gêiser febril
aguardando a explosão

só tenho essa certeza
que há algo na natureza
em plena transformação

não sei se será dilúvio
ou chuva de verão
uma brisa refrescante
ou violento furacão
não sei se será passeata
ou sanguinária revolução
execuções em praça pública
ou organizada eleição

só tenho essa certeza
que há algo na natureza
em plena transformação

não sei se é em mim ou no mundo
nas cabeças dos homens
ou no meu coração
por isso procuro tua mão atento
pois ninguém daqui será isento
dessa transformação

6 de janeiro de 2012

Reminiscências do Ano Velho - 2011



Mais uma vez o ano acaba e, com ele, o prazo de validade das resoluções que fizemos no Reveillon passado. Então, se em 2011, você se comprometeu a emagrecer, parar de fumar, casar ou comprar uma bicicleta, é hora de renovar essas promessas vazias e começar 2012 com o pé direito na bicicleta, o anelar direito envolto em aliança e a banda direita do seu glúteo rija.

E como eu também resolvi que continuaria a série anual de Reminiscências do Ano Velho, promessa que, diferente de muitas outras que fiz durante ao ano para mim e para tanta gente que também esqueceu de me cobrar, vingará a partir de agora nas linhas que seguem, assim como as anteriores que podem ser encontradas AQUI e AQUI.

Bom, 2011 começou com a magnífica posse de Dilma na Presidência da República. Segundo informações oficiais, é a primeira mulher a chefiar o Estado brasileiro. Digo oficiais pois tenho algumas certezas quanto ao nível de influência das esposas dos nossos ex-presidentes em suas vidas públicas, uma vez provada a veia romântica de muitos deles em diversos livros e discursos, duvido que algum desvio aqui ou ali não foram só uma prova de amor à suas musas. E que mulher não gosta de ganhar uma rosa roubada. Se for um roseiral inteiro ou uma conta robusta na Suíça, tanto faz.

Fato é que, em meio a um pranto duvidoso de júbilo ou desespero, os céus tanto choraram a posse de Dilma que a Região Serrana do Rio quase desabou por inteiro. Se bem que pode ter sido também de emoção pela chegada de Ronaldinho Gaúcho à Gavea. Essa sim uma posse de peso. Não tanto pelo talento do atleta que se provou importante, sim, para o orgulhoso quarto lugar no campeonato nacional, mas mais por estar fora de forma. A vinda de R10 para o Rio esquentou tanto a sociedade carioca que os barracões das escolas de samba não agüentaram e lamberam em chamas, causando um prejuízo assustador às agremiações e tendo conseqüências inimagináveis na festa mais linda do mundo, fazendo com que esse ano, muito parecido com alguns movimentos nos campeonatos de futebol, numa grande virada de mesa, nenhuma escola foi rebaixada. Pior para as do segundo grupo, pois nenhuma delas também foi alçada ao grupo principal.

Mas se o Brasil fosse só samba, futebol e sacanagem, a posse de Dilma, a posse de R10 e a tosse dos chamuscados no incêndio nos barracões poderiam decretar o fim de 2011 com louvor. Porém, muita coisa ainda viria a acontecer nos longos meses a seguir. E muita coisa importante com conseqüências internacionais como os movimentos libertários do Oriente Médio que degolaram alguns dos eternos ditadores da região, sendo o mais famoso Muamar Khadafi.

Desde que me conheço por gente Khadafi manda por aquelas bandas. Sempre citado como um potencial inimigo número um do mundo ocidental, o sheik – ou sei lá como se escreve o cargo dele – aparecia sempre muito saudável e disposto nos encontros internacionais, inclusive naquele onde foi fotografado abraçando meigamente nosso ex-presidente Lula. Que inveja de suas relações. E, não por acaso, o povo que aqui tanto lutou para colocar nosso Lula no poder, lá fez o contrário e foi às ruas, não batendo panelas como fizeram os argentinos quando do calote no FMI, mas abatendo os militares do exército libanês. Por fim, a literal queda do ditador manchou de sangue as ruas de Trípoli e as telas de TVs, computadores e celulares ao redor do mundo.

Foi impressionante a rapidez com que as imagens e notícias das tragédias correram em 2011. Sentados no conforto de nossas casas pudemos quase molhar os pés na grande onda que quase afundou o Japão no Índico, cerrar os olhos sob o borrifo das chuvas que quase afundaram dona e cão em Petrópolis ou sentir os cheiros cadavéricos de nosso ex-vice José Alencar e Elizabeth Taylor ambos coincidentemente nascidos e falecidos no mesmo ano.

Mas nem tudo foi tragédia em 2011. Foi também polêmica. Sandy, por exemplo, propalou sua pretensa devassidão ao associar-se a uma marca de cerveja. Criou polêmica, com certeza, mas não chegou a realizar os sonhos, esses sim devassos, dos consumidores da dita cerveja de vê-la nua seja lá onde for. No final das contas, concluiu-se que a devassidão de Sandy é proporcional à qualidade da cerveja por ela defendida. Um brinde à obviedade ululante. E, em se tratando de devassidão, a cervejaria deveria ter contratado logo o Jair Bolsonaro, tão esperto em devassidão quanto em física quântica, para defender a sua marca, já que defender os interesses das minorias não é exatamente a sua vocação. Se bem que, hoje em dia, minoria mesmo é quem acredita que exista essa tal família e os bons costumes que diz ele defender. Vai saber.

Por outro lado, alheios a todas as polêmicas e pouco se importando com Sandys, Bolsonaros ou muito menos marcas de cerveja, que lá o que se toma mesmo é chá, casaram-se William e Kate numa cerimônia estonteante. Bilhões de pessoas acompanharam tudo pela TV e milhares compraram no camelódromo do Rio a réplica do anel de casamento da noiva. Nessa história, não sei quem tirou a sorte grande. Se foi Kate, pois herdará duas coroas, a avó de William e a da corte inglesa, ou se foi o próprio William, pois Kate bota a Sandy no chinelo. Nesse quesito, os devassos ingleses tem sonhos muito melhores.

Pode parecer que os anos estão se padronizando. Começa com fortes chuvas, um terremoto, um famoso morre, um ditador cai, mais terremotos e, finalmente, o show do Roberto Carlos. E, se de reprises são feitos todos esses eventos, o do Rei tinha que ser o da Terra Santa, enquanto Berlusconi repetia as suas picardias bem debaixo dos olhos da Igreja, na Itália. Seguindo o bom exemplo de líderes anteriores como Nero e Calígula, Berlusconi só não botou fogo em Roma nem nomeu seu cavalo senador. Fora isso, tudo fez, se é que as orgias dos anteriores se comparam às suas. Seguindo essa linha, recomendaria o Rafinha Bastos à presidência da Itália. Pelo menos ele, que foi eleito a personalidade mais influente do Twitter, nunca renunciaria ao seu cargo por ser acusado de participar de orgias, mesmo com grávidas, só para dar um exemplo pior do que a conduta do italiano.

E enquanto todos cantam e fornicam, o mundo chega a seus sete bilhões de habitantes, provando que o Brasil, reconhecidamente talentoso nessas artes do samba e da sacanagem já citados, está entre as potencias do futuro. Mas enquanto nascem tantos, alguns poucos que morrem tem sua ausência sentida. Foi o caso de Steve Jobs, gênio da tecnologia que, como citei nas reminiscências do ano de 2010, consegue fazer dinheiro inventando coisas que ninguém sabe para o que usar. E não foi diferente em sua morte, na medida em que sua biografia, apesar de ninguém saber muito bem para o que serve, foi um estouro de vendas ao redor do mundo. Outras mortes porém passaram despercebidas ou alguém se lembra que o R.E.M. se separou em Setembro? Pois é, separou-se no mesmo período em que acontecia no Rio o Rock in Rio. É mais ou menos como morrer no meio de um funeral, estando o festival assim bem moribundo.

Mas isso de nascer e morrer é uma grande incerteza, nunca sabemos quando iremos nascer nem onde bateremos as botas. Líquido e certo é que o Vasco da Gama chegará em segundo. Sempre. E sempre estaremos, nós, a antecipar o que virá e explicar porque não veio, se não veio mesmo, ou vindo diferente, explicaremos o porquê das diferenças, pois de visionários e videntes o mundo está cheio, assim como o inferno de boas intenções e o céu de espaços vazios, e os esforços de todos nessas instâncias é o mesmo, contar os dias, os mortos e os pecados até o dia em que daremos ou não razão aos Maias e seu calendário apocalíptico. Até lá, vamos segurando-nos cada um em seu santo.

30 de dezembro de 2011

2012

Amanhecer sobre as dunas, anoitecer na praia. Flanar por Paris.
Ler um livro sob uma palmeira.
Sentir o vento no rosto.
Banho de chuva.
Deixar o pé molhar na água do rio.
Pitanga do pé e lambida de cachorro.
Abraço de mãe, de filho e de amigo.
Primeiro beijo.
Último pedaço.
Andar de mão dada.
Barulho de chuva. Cheiro de terra molhada.
Quando uma música diz o que você sempre quis dizer.
Flerte.
Chopp com amigos sem hora para acabar.
Andar descalço.
Acordar com beijo.
Pular muro. Jogar bola no asfalto.
Marcar um golaço. Defender um pênalti.
Fechar um negócio. Lançar um produto.
Dar presente. Botar a mesa.
Uma guitarra aguda. Um solo de violino.
A introdução da sua música preferida.
Ouvi-la de olhos fechados.
Risada de criança.
Ver seu time campeão no estádio.
Rodinha em show de metaleiro.
Ouvir declarações de amizade de seu amigo bêbado.
Cozinhar. Cheiro de refogado.
Jogar buraco bebendo vinho.
Sair do aeroporto numa cidade desconhecida.
Fazer amigos.
Escutas estórias.
Mudar de idéia. Ser genuinamente convencido.
Lua cheia. Lua minguante.
Identificar constelações.
Lareira e frio. Rimar.
Escrever uma carta a mão. Receber a resposta também a mão.
Picolé de uva. Ejetar do balanço.
Receber um elogio sincero. Abraço apertado.
Chorar de alegria.
Ler no ônibus.
Ouvir música no engarrafamento.
Brigadeiro.
Tirar a gravata.

Você entendeu o que eu quis dizer.

Esses são meus votos a você para o ano de 2012.

6 de dezembro de 2011

Sopa de passas

Na beira do prato, arrisca-se a mosca
Já sentia no ar o calor. O gosto, imaginava.
Sabia somente que hoje era sopa.

A aba era larga e mesmo em seis patas
suspirava de dor
a mosca, arriscada, a barriga roncava
ansiosa que estava para sentir-lhe o sabor

Seus olhos brilhavam e o nariz palpitante
adivinhava os temperos boiando ali
curcuma, cebola, coentro e passas,
um toque de trufas, seria trés chic

E a mosca abusava da sorte e do dono
que  não despertara ainda do sono
na beira da sopa planejou o pulo
Zumbiu de emoção e deu o mergulho

Nadou sobre o caldo, feliz e contente
e afundou-se no meio da piscina escaldante
submersa entre arroz comeu quanto quis
deixando essa vida contente e feliz 

mas agora, tarde demais, foi-se a mosca ao céu das moscas
ser precisar bater asas, afundou-se sem pressa
fantasiando-se passa, no fundo do prato, no fundo da boca
na boca do estômago do dono da sopa

28 de novembro de 2011

Fundo de mim


Um prado verde, uma campina
o vento e seu olhar de menina
cabelos em trança para não embaraçar

Corre, liberta, vestindo carmim
babados de renda
colar de jasmim

Fizeste um presente
e me deste sorrindo
suas mãos que tocaram no fundo de mim

Fita vermelha, papel colorido
caixinha com seda, anel de rubi
Abre um sorriso e foge do beijo
olhos que viram no fundo de mim

Me pede um abraço, caindo no chão
confusa em meus braços, o sim e o não
suspira baixinho, me dá um carinho
descobre um cadinho no fundo de mim

22 de novembro de 2011

Uma Grande Surpresa

A barriga vazia retorcia-se sob a camisa de Jairo. A tentação do furto era cada vez mais sufocante. Com frequência se deixava convencer da facilidade dessa escolha e da insensibilidade da vítima de dar-se conta da perda. Afinal, espírito virtuoso que sempre fora, escolheria algum lugar de extrema abundância para praticar o delito, justificando-se  no fato de que em lugar que muito há, o pouco que falta não se fará notar.

Protegida a alma sob o escudo da auto-sugestão, lá se foi Jairo emboscar sua presa. Perambulou pela cidade por algumas horas dando uma última chance à caridade humana, ainda lutando intimamente para não sucumbir à sua condição de faminto e, por conseguinte, desesperado, o que só lhe traria confusão ao raciocínio e risco às suas já fragilizadas integridades física e moral.

Como sempre, rumou para o bairro rico repetindo seu lema como um mantra, adepto que era desse tipo de prática zen. Era hora do almoço e o ar recendia à mistura de temperos, carnes e cozidos. Foi um duro golpe à pétrea força de vontade de Jairo que decidiu, então, entocar-se ao lado de uma reluzente garagem e, como uma serpente, esperar a hora certa do bote. Agachado na relva milimetricamente alinhada, Jairo escutou até que o tilintar dos talheres e o gorgolejar dos refrescos carbonatados terminasse, sinal claro de que os moradores já se haviam satisfeito. Movendo-se silenciosamente, entrou por um basculante e encontrou-se no banheiro social da casa. Aproveitou para tirar de si a sujeira, pelo menos aquela que levava às mãos, já que, além da confissão seguida de prece, ainda não inventaram canos e muito menos água, seja ela qual for, e não se deixem enganar pela benta, que leve consigo a sujeira da alma.

Com a confiança e o espírito renovados como só um borrifo de água gelada o faz, saiu do banheiro e andou pelo térreo agora vazio. Era comum naquele bairro que as famílias tirassem a sesta, ainda mais àquela época do ano quando o calor requer um par a mais de horas antes de ser encarado. Portanto, foi Jairo até a cozinha e, das baixelas que descansavam sobre a bancada de mármore posicionada como uma ilha de prazeres no meio da cozinha, fez-se um prato.

Comeu rápido e lambuzou-se. Satisfeito, lavou educadamente a louça sob um fio estreito de água da pia,  evitando que o barulho da ação afetasse a inação dos habitantes do lugar e começou a perambular pela casa vazia. Mexeu nos porta-retratos, cogitou ligar a TV, mas apenas experimentou o poder de ter os controles-remotos nas mãos enquanto espreguiçava na poltrona, folheou as revistas e desmarcou a Bíblia recostada no altar. Era hora de partir, pensou. O ajuste entre excesso e falta havia sido consumado, vingou-se intimamente da sociedade. Voltou então ao banheiro para completar o processo e usar uma das escovas elétricas que la havia junto com o dentifrício que prometia brancos absolutos, mas, como um leão que se joga à savana após encher de zebra ou gazela o bucho, entregando-se a uma indolência que só o poder de seu urro lhe confirma, Jairo aboletou-se ao trono que havia no pequeno banheiro e reinou, não como citado rei dos animais, mas como um homem no máximo de sua própria auto-proclamada majestade.

E ser rei nessas situações requer muito cuidado pois mesmo os órgãos internos podem amotinar-se. E foi o que aconteceu a Jairo, uma vez que ao ver-se naquela situação pretensamente segura mas, no fundo, imensamente delicada ouviu a sirene da revolução soando alto de dentro de seu ventre. E tão fortes retumbavam os tambores lá dentro que despertou a família lá no andar de cima que, prevenida na arte de manter o que lhes era posse, reuniu-se ao topo da escada com as melhores armas que puderam escolher entre as roupas de cama e as meias das gavetas. O mais novo, pela sua própria natureza, era o mais bem equipado levando aberta consigo a lâmina do canivete suíço. Pé ante pé, a família pôs-se escada abaixo numa proximidade corporal só comparável `as falanges espartanas ou aos abraços de Natal, todos ouvindo o gorgolejo gutural que vinha do banheiro de baixo.

Jairo não ouviu nada, preocupado que estava com o próprio estalar de tripas, e nem viu quando a família abria inadvertidamente a porta do banheiro onde, agora, além de ruídos, cheiros indesejáveis também ajudavam a gravar para sempre na memória o espetáculo dantesco que era Jairo, calças aos joelhos, meio corpo para fora, tentando fugir, do banheiro e da vergonha, pelo basculante.

14 de novembro de 2011

Centésimo post

O céu estava encoberto há dias, porém num abafamento digno de microondas. Até que numa quinta-feira, depois da novela, choveu.

Choveu como não chovia há tempos. Quando nos acostumamos às coisas de um jeito, fica difícil imaginar como precederíamos se fossem diferentes. Foi exatamente por isso que, por anos, meus pais postergavam a limpeza da calha de chuva da casa. Tudo bem, não os culpo, tarefa chata que é e que só percebemos bem sua importância no momento em que não podemos mais contar com ela. E não somos assim mesmo com tudo?

Pois bem, nessa chuvosa quinta-feira os céus decidiram mandar água além da conta da já comprometida capacidade da tal calha, o que levou a um transbordamento e, por fim, lagoas dentro dos cômodos da casa. No meu quarto o estrago foi grande. Móveis, carpete e roupas. Porém o maior dano e talvez o único irreparável tenha sido a pasta onde eu guardava o que escrevera até então ainda nos originais à mão em papel.

Comecei a escrever bem jovem como uma válvula de escape e um porto seguro, inseguro e ansioso que era (era?). E ali, naquela pasta, estavam relatos, rimas e estórias que não só mostravam a evolução de meu estilo (estilo?) mas (e muito mais) a minha própria.

Senti um aperto no peito ao ver as páginas - caderno, folhas sem pauta e guardanapos - chorando azul e borrando idéias, sentimentos e paisagens tão importantes para mim quanto a própria memória delas mesmas. Salvando o que podia, meti tudo num lugar seco e decidi que não perderia mais nada que escrevesse, por mais duvidosa que fosse a sua qualidade.

E foi então que surgiu a necessidade de guardar tudo fora do papel. Primeiro num lugar que fosse só meu, como merecem as coisas muito pessoais. Mas, aos poucos fui vencendo o pior dos críticos, eu mesmo, e abri acesso a quem quisesse poder navegar não por tudo, mas por onde o tempo já houvesse consolidado e pouca diferença faria a opinião dos outros.

Numa primavera há sete anos incluí os primeiros textos (textos?) - não sem um imenso crivo - e para comemorar o centésimo post deste espaço, tiro-lhes o pó e reapresento-os como os pioneiros e desbravadores deste Império das Letras.

Boa leitura.



18 de outubro de 2011

Os bêbados da destilaria

A destilaria ficava fechada com cadeado durante a noite para evitar que os bêbados da região a tomassem de assalto. O mestre-cachaceiro fora segurança de boate e levava ao coldre uma colt .45 com balas suficientes para escrever seu nome e sobrenome numa parede.


Propositalmente localizada no alto de uma montanha de difícil acesso, a destilaria funcionava a pleno vapor, enquanto brilhasse a luz do sol, compensando, numa produção acelerada, a falta do turno da noite. Como o almirante de um transatlântico, o mestre dava ordens e mexia manivelas controlando os fluxos e afluxos dos líquidos que perambulavam pelos tubos de cobre e vidro por todo o galpão como uma cama-de-gato.

O mestre-cachaceiro era o único que arriscava a pele passando a madrugada dentro da fábrica. Cansado sob o fuzil que levava às costas, fazia tudo com a atenção redobrada, pois àquelas horas podia ouvir ao longe o movimento dos bêbados sob a colina vomitando, maldizendo a vida e declamando poesias. Aqueles barulhos lhe causavam arrepios mesmo depois das dezenas de anos à frente da destilaria.

Na medida em que o sol subia os ajudantes se anunciavam batendo com a pesada aldrava de ferro nas grossas portas de madeira que o mestre abria remotamente com um clique no porteiro-eletrônico. Assim que chegavam, vestiam seus aventais. Só ali tinham coragem suficiente para envergá-los. Se fossem vistos em qualquer outro lugar, despertariam inveja e cobiça. Ali estavam seguros, suas identidades mantidas em segredo e seu trabalho minucioso muito bem recompensado.

Perto do final do expediente a tensão invariavelmente tomava conta do estabelecimento. Desligavam as máquinas e só se ouvia o leve borbulhar do suco nos latões. Lavavam o chão para que o odor não atraísse a praga trôpega e, antes de liberar os ajudantes, o mestre-cachaceiro reunia a todos em sua sala de troféus e dava as instruções da saída: lavar os aventais e os instrumentos de trabalho, jurar confidencialidade sobre o ofício que praticavam e nunca trocarem palavras ou olhares sequer entre si fora da fábrica. Era lei.

A sala era decorada com as carcaças empalhadas dos bêbados que haviam atentado contra a integridade da destilaria e do próprio mestre-cachaceiro. Sua colt e seu fuzil haviam abatido mais de duzentos bêbados e, naquela sala, alguns davam um silencioso testemunho dessa bravura.

Quando o sol se punha a um palmo do horizonte, os ajudantes eram liberados um a um. Cada qual tomava seu rumo de volta para casa e para suas mentiras: um era padeiro, o outro marceneiro. Evitavam colocar suas famílias em risco poupando seus queridos da preocupação e a si próprios da possibilidade de darem com a língua nos dentes. O destino de um ajudante descoberto poderia ser fatal.

Ao deixar o último ajudante sair, o mestre-cachaceiro fazia a ronda pela planta baixa verificando cada válvula e conta-gotas. Depois ia com seu armamento para a gávea no alto da torre de onde monitorava os bêbados que subiam a colina.

Mesmo parecendo inofensivos, os bêbados babavam por todo o pátio da destilaria e urravam cada vez mais forte ao verem o velho mestre longe do alcance. Juntando-se em grupos de cinco ou seis, os bêbados cheiravam o vão por baixo da porta e lambiam o tapete onde se via escrito “Bem-vindo”, obviamente não para eles. Não raro tentavam remover o pesado cadeado usando força bruta, seus dentes ou suas roupas. Batiam-se contra as paredes de pedra e amaldiçoavam o velho que permanecia inabalável por trás de seu pequeno arsenal.

Aos poucos, os bêbados que não ficavam por ali mesmo em coma alcoólico, desciam pela estrada íngreme de volta ao pé da colina e à difícil ressaca e amnésia do dia seguinte. O mestre, do alto da gávea e de sua sabedoria, não fazia juízos das pobres almas possuídas que se dispersavam. Apenas aguardava o movimento cessar para poder descansar. Um cochilo breve o bastava.

Ao primeiro canto de galo, o mestre despertava e recomeçava, com uma longa talagada do manjar não obsequiado aos bêbados na noite anterior, o dia ainda escuro.