26 de setembro de 2019

Nada muda nessa quarta-feira

Com uma carta, de peito partido
não se adivinhou o que vinha à esteira
daquelas lágrimas de crocodilo,
dos dentes descansando à cabeceira,
dedos agudos trêmulos de ansiedade
não escondiam o tom de brincadeira.
Ex-amigos ao redor do ataúde,
enquanto o velho sentava à cadeira,
"um novo futuro desaponta"
bradavam coçando a algibeira
de olho no soldo na conta

nada muda nessa quarta-feira

O vento do leste espalhou papeis os sobre a mesa.
Alguém correu à janela para ver a quebradeira
 e o que manteve a vela acesa
virou bode e expiou rolando a ladeira.
Nem adiantou a tristeza
pois que as ruas já eram caldeira
 sangrando sob a histórica firmeza,
entre gás e pau e o abismo à beira,
entregou ao capataz a mão da princesa,
derrotou-se o suor, nossa canseira
matou o passado, a bondade e a beleza
e enterrou seus mortos no barro da atoleira.
A pátria, cambaleante e já ciente da aspereza,
foi chão com o escuro à dianteira.
E o fim vestiu-se de começo, um novo ciclo de torpeza
com discursos de insulto e asneira
sequestrou a esperança e, com destreza,
trouxe consigo os baixos, iludidos de terceira
retirou-se do sábado a singeleza
e nada muda nessa quarta-feira.

Quedou-se o mundo estupefato:
escorregava nosso chão pela estribeira
o colosso perdido coberto de mato
filial agora da matriz norteira
roçando-lhe a perna como um gato
caíra na lábia lisonjeira.
E ainda será o primeiro ato
em que se locupleta essa fauna rasteira
não haverá motivo por estar-lhes grato
enquanto queimarem nosso lenho à lareira.
 
Quando houver novamente sol alto
por mais que ainda haja peneira
me acorde então pois não falto
ao som da criança trigueira
ao terceiro sinal do teatro
dando adeus à farsa caseira
no calor de um domingo de asfalto
pois nada muda numa quarta-feira

12 de abril de 2018

Truman Capote, o escritor horizontal

Abril chegou e com ele nos aventuramos a falar sobre mais uma grande estrela da constelação literária. Dessa vez seguiremos a trilha de Truman Streckfus Persons ou, como ficou mundialmente conhecido por suas matérias jornalisticas, roteiros, ensaios, pecas de teatro, contos e romances, Truman Capote.

Americano New Orleans, começou a escrever aos onze anos em 1944. Com dezenove anos, ganhou o Prêmio O. Henry com o conto "Miriam", posteriormente editado na coletânea 20 Contos, da Cia das Letras (tambem disponível no blog Quinta do Conto) e voltou a ganhar o mesmo prêmio em 1949, dessa vez com "Fechar a Ultima Porta". Mas em 1948 ele já chamava atenção após o lançamento de seu primeiro romance "Other Voices, Other Rooms". Talvez seu romance mais célebre seja "Bonequinha de Luxo", que, em 1961, virou filme estrelado pela namoradinha dos Estados Unidos, Audrey Hapburn, mas a obra que alçou-o ao estrelato literário foi "A Sangue Frio", um livro que reconstitui de forma documental o assassinato de uma família em Kansas. Este livro foi revolucionário pois inaugurou uma nova categoria: o jornalismo literário.

Antes mesmo de se dar conta de que seria um escritor, Capote escrevia para participar nos concursos do jornal Mobile Press Register que aconteciam aos sábados num clube próximo ao seu dentista, sempre regados a muito refrigerante grátis. Se inscreveu pela primeira vez com o conto, "Old Mr. Busybody", um roman a clef baseado em um escândalo local. Logicamente, após terem lido e ficarem cientes do que se tratava, não foi premiado. Porém não desistiu e, com apoio e incentivo de sua professora de inglês do ginásio, seguiu escrevendo.

Somente aos quinze anos percebeu que queria ser escritor e começou a enviar contos para revistas e publicações trimestrais. Aos dezessete, seus primeiros três trabalhos foram aceitos, o que o deixou "tonto de excitação". Iniciou,  portanto, escrevendo contos e, sobre eles, sua opinião era semelhante a Faulkner e outros.

O conto parece ser a mais difícil e disciplinadora forma de prosa que existe.

Sua apurada técnica deveu-se muito `a pratica desse formato e concluiu que, para se chegar `a forma natural de uma história, o autor deve se perguntar se há outras formas de imagina-la, se aquela é realmente a sua forma absoluta e final. Para melhorar a técnica, Capote não tem dúvidas.

O trabalho é o único expediente que conheço.

E acrescenta, comparando a escrita com a pintura e a música.

A arte de escrever possui leis de perspectiva, luz e sombra. Se a gente nasce conhecendo-as, ótimo. Se não, devemos aprende-las.

Mais tarde outras figuras seguiram a estimulá-lo, como foi o caso da editora de ficção da revista Mademoiselle, a editora da Random House e da Harper`s Bazaar, todas publicações para as quais Capote contribuiu. Escrevia e era pago por seus textos. Por isso, escrevia com extrema diligência.

A minha mente zumbia todas as noites, a noite toda, e não creio que eu haja realmente dormido durante vários dias.

E, para manter o ritmo, recorria a doses de bourbon e uísque, cujas garrafas mantinha escondidas numa maleta enfiada no armário. Quando dava a hora do jantar, mastigava algumas pastilhas para disfarçar o hálito e se juntava aos parentes `a mesa. Porém, seus silêncios e olhos embaciados acabaram por acusar-lhe e, apos um pequeno desastre, terminou por suspender este subterfúgio ou, ao menos, diminuir a frequência com que dele se valia.

Mas todo esse esforço era recompensado pelos pagamentos que recebia.

Sou, com efeito, incapaz de escrever coisa alguma que eu não ache que me sera paga.

E não negava gostar da pressão do prazo de entrega de seus originais, o que lhe fazia bem.

Capote, como dito, criou a Jornalismo Literário, seu estilo característico. Mas bebeu de fontes comuns a outros escritores. Entre suas influencias estão Flaubert, Maupassant, Mansfield, Proust, Chekhov, Wolfe e Dickens. Porem, creditava sua construção `a sua própria imaginação, um estado em que chegava depois de colocar para fora tudo o que tinha.

Meu método de ficção é igualmente imparcial: emocionalmente, faz-me perder o controle de escrever; tenho que exaurir a emoção antes de de sentir-me em estado clinico que me permita analisar bastante o estilo e planeja-lo e, quanto ao que me diz respeito, essa constitui uma das normas para se conseguir uma técnica verdadeira. Se minha técnica parece mais pessoal é porque depende da area mais pessoal e reveladora do artista: a alma."

Para Capote, o estilo é o espelho da sensibilidade do artista muito mais do que o conteúdo de sua obra. No entanto, a posse ou a construção desse estilo, não raro, é um desafio, podendo se tornar um estorvo, uma forca mais negativa do que positiva a restringir a forma ou adaptar o conteúdo `a forma. No fundo, apenas o estilo não faz de alguém um grande escritor.

Seu processo criativo, no entanto, era bem peculiar. Sua primeira missão era escrever um rascunho em papel `a lápis. Depois, revia o rascunho e, a partir dele, rascunhava uma segunda versão também `a lápis, mas em papel amarelo, dessa vez. Com o segundo rascunho em mãos, costumava deitar-se na cama e, equilibrando sua maquina de escrever sobre os joelhos, datilografava um terceiro rascunho, dessa vez em um outro tipo mais especial de papel, também amarelo. Afirmava datilografar 100 palavras por minuto.

Sou um autor completamente horizontal. Não consigo pensar a menos que esteja deitado, na cama ou num sofa, com cigarros e cafe ao alcance da mão. Na medida em que a tarde avança, passo do cafe para chá de hortelã, de xerez para martinis. Não, não uso maquina de escrever. Pelo menos no começo. 

Com o terceiro rascunho datilografado e pronto, deixava-o de lado por alguns dias e retomava-lo em uma leitura a mais fria possível, de preferencia em voz alta. Testava o rascunho compartilhando com amigos próximos para colher algumas opiniões de pessoas confiáveis. Por fim, feitas as ultimas alterações, este último rascunho vira o texto definitivo novamente na maquina de escrever, dessa vez sobre papel branco.

Segundo o autor, a historia nunca estava completamente pronta na cabeça ao início da escrita, ao contrário, via tudo de relance. Para ele, o desenrolar de uma historia, seu principio, meio e fim ocorria simultaneamente em sua cabeça e gostava das surpresas e reviravoltas com as quais se deparava ao escrever.

Graças a Deus, devido `as surpresas, aos volteios, a frase que surge, do nada, no momento exato, constitui os dividendos inesperados, aquele pequeno e deleitoso empurrão que faz com que o escritor prossiga.

Sobre criticas, Capote aceitava as de pessoas próximas cuja opinião prezava. Se mantinha alheio `a critica literária, porem acompanhava as que eram positivas. Nunca se rebaixar respondendo a um critico era uma das muitas coisas que não se permitia fazer, talvez uma das mais sensatas entre tantas outras um tanto quanto curiosas.

Jamais telefono porque o numero de seus telefones multiplicados, formam algarismos que não dão sorte. Ou então não aceitarei um quarto de hotel por essa mesma razão. Não suporto a presença de rosas amarelas - o que é  triste pois são as minhas favoritas. Não permito três guimbas de cigarro no mesmo cinzeiro. Não viajarei num avião em que haja duas freiras. Não começo nem termino nada numa sexta-feira. É  infindável o numero de coisas que não posso fazer e que não faço. 

Capote faleceu em 1984 nos deixando dois romances inacabados. O primeiro, Answered Prayers - an unfinished story, fez parte de um contrato com a editora Random House, em 1966, no qual Capote comprometeu-se em escrever em dois anos, mas ate a sua morte ainda não havia sido finalizado. O livro foi finalmente publicado em 1986. O segundo, um romance sobre uma garota rica de Nova Iorque que se apaixona por um manobrista de estacionamento, foi descartado pelo autor em 1940. Um dos empregados da casa onde morava ficou com os papeis que, depois de sua morte, foram descobertos e publicados sob o titulo de Travessia de Verão, em 2005.

Para os que não conhecem a bibliografia de Capote, recomendo os livro abaixo e que também assistam o filme lançado em 2005, estrado pelo excelente Philip Seymour Hoffman.

20 Contos de Truman Capote - coletania do estilo que mais o desafiava, incluindo o conto Miriam, seu primeiro texto premiado - https://amzn.to/2EFuQGH

A Sangue Frio - sua obra de referência cuja estrutura e estilo o catapultaram ao estrelato literário - https://amzn.to/2IPf9Pw

Bonequinha de Luxo - a vida da magnata ingênua Holly Golightly, interpretada no cinema por Audrey Hepburn - https://amzn.to/2qspYiQ

Travessia de Verão -  último livro publicado do autor, porem um dos primeiros romances por ele escritos - https://amzn.to/2GXimjm

22 de fevereiro de 2018

Faulkner e a ocupação de Escritor

Neste post vamos falas sobre William Faulkner (1897 - 1962). Confesso uma ponta de orgulho para tratar desse autor de máxima envergadura literária, um dos pontos mais brilhantes da constelação de estrelas que paira sobre o Império das Letras.

Comecemos pelo óbvio. Faulkner ganhou um Nobel de Literatura (1949), dois Pulitzer de Ficção (1955 e 1962) e dois National Book Awards (1951 e 1955). Com essas credenciais e já estabelecido como grande escritor, foi entrevistado em 1956 pela revista Paris Review sobre sua rotina na literatura, como concebia seus romances e personagens e o que poderia dizer a novos escritores.

Faulkner era um sujeito tímido e introspectivo oriundo do Sul dos Estados Unidos e que preferia a companhia dos simples `a das rodas de literatos que um dia começou a frequentar. Se dizia um poeta fracassado, o que levou-o a escrever romances. Sua obra, apesar de muito elogiada pela critica, não teve tanto sucesso com o publico geral. No entanto, nunca deu importância `a critica.

A unica responsabilidade de um escritor é com a sua própria arte. O artista não tem tempo para dar ouvidos aos críticos. os que desejam ser escritores leem os críticos, os que querem escrever não os leem. O artista esta um furo acima do critico, pois o artista esta escrevendo algo que fara o critico funcionar. O critico esta escrevendo algo que afetara todo mundo, menos o artista.

Segundo o autor, a energia de um escritor deveria ser completamente direcionada `a escrita, levando a pratica `a perfeição. Não raro reescrevia completamente seus livros depois de escritos, levava-se ao extremo da técnica, sempre sabendo que poderia escrever melhor do que já havia escrito, tentando achar seu limite. Reescreveu seu grande romance Som e Fúria (1929) cinco vezes, cada uma abordando o olhar de um personagem sobre a mesma historia. O autor diz ter chegado `a versão definitiva apenas apos o livro já ter sido publicado.

Sobre seu processo de criação, dizia "O trovejar e a musica da prosa se processam no silencio. E dava especial atenção a sua técnica, afirmando que "Não havia atalhos". Procurava criar personagens verossímeis em situaçoes tocantes e criveis, da maneira mais viva que fosse possível. Ao escritor, afirmava que deveria possuir três coisas: Experiência, Observação e Imaginação. Mas que possuindo duas dessas características, ou as vezes apenas uma, poderia suprir a falta das demais.

Para ele, a maior qualidade que um artista deve possuir é a objetividade para julgar o seu trabalho, alem da honestidade e da coragem de não enganar a si próprio a respeito dele. Para Faulkner, escrever era tao importante e necessitava de tanta dedicação quanto qualquer outra profissão, seja de cirurgião ou pedreiro e dizia julgar seus trabalhos baseados na angustia e sofrimento que o causaram, já que nenhum deles atingiu os padrões que ele mesmo havia estabelecido.

Um tanto quanto perfeccionista, Faulkner teve como grande incentivador Sherwood Anderson e escreveu utilizando a técnica de fluxo de consciência, inaugurada por Proust e utilizada também por James Joyce e Ezra Pound. Posteriormente essa técnica foi levada `a poesia pela Geração Beatnik de Allen Ginsberg e Jack Kerouak. Dizia não sair de casa sem uma copia de Shakespeare num bolso e do Velho Testamento noutro e dizia não ler os seus contemporâneos, mas Charles Dickens, Flaubert, Balzac, Cervantes, os russos Dostoiévski e Tolstói, e, claro, Shakespeare. Este ultimo considerado a grande referencia, cuja obra superou seu próprio nome.

Se eu não tivesse existido, algum outro teria escrito meus livros: Hemingway, Dostoiévski, todos nos. A prova disso é que ha cerca de três candidatos para a autoria das pecas de Shakespeare. Mas o que é importante é Hamlet e Sonho de Uma Noite de Verão: não quem escreveu, mas o fato de alguém o ter feito. O artista não tem importância. Só é importante o que ele cria, já que não existe nada de novo para ser dito. Shakespeare, Homero, Balzac, todos escreveram acerca das mesmas coisas e, se eles tivessem vivido mil ou dois mil anos, os editores não teriam, desde então, necessidade de mais ninguém.

Afirmava que não apenas cada livro deveria ter um propósito, mas que toda a soma do trabalho de um artista também deveria tê-lo. E, para finalizar, William Faulkner nos brinda com seu conselho aos aspirantes a escritores.

Sempre sonhe e aspire a mais do que aquilo que sabe que pode fazer. Procure sempre ser melhor do que você mesmo; não se preocupe com seus contemporâneos ou seus antecessores. (...) O que eu escrevo tem que agradar-me. Se não me agrada, falar sobre isso não o melhorara em nada. A unica coisa que fara melhorar o que escrevo é trabalhar ele um pouco mais. Não sou literato, sou apenas escritor.

A obra de Faulkner muitas vezes foi adaptada para o cinema e, recentemente, seu grande livro Som e Fúria (1929) foi adaptado pelo ator e diretor James Franco. Para conhecer mais a obra do autor, seguem abaixo algumas referências.

Toda a Saga Yoknapatawpha:
- Sartoris (1929) - http://amzn.to/2ojjLpf
- Som e Fúria (1929) - http://amzn.to/2HF1RFF
- Absalão, Absalão (1936) - http://amzn.to/2HD3sM7
- Os Invictos (1938) - http://amzn.to/2EJUC1c
- Desça, Moises (1942) - http://amzn.to/2EWChxg
- Requiem para uma Freira (1951) - inédito no Brasil

E a Trilogia Snopes
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19 de fevereiro de 2018

Os 4 estágios da escrita

Se existiu alguém que conviveu de perto com grandes escritores, seu nome é Malcolm Cowley. Ele foi editor da renomada Paris Review e coordenador de diversas edições com entrevistas e conversas com escritores do calibre de Hemingway, Faulkner, Ezra Pound e muitos outros.

Decantando todas as metodologias que levantara desse convívio, nosso amigo Cowley nos presenteou com esse resumo que ele chamou de 4 Estágios da Escrita. Vamos a eles:

1 - CONCEPÇÃO: O gérmen da história nasce de um flash, um momento a primeira vista sem importância que, de alguma forma, se instala no subconsciente. No momento em que reconhecemos esse flash, temos a sensação de que poderíamos escrever uma história sobre ele. Um momento fugaz, uma singeleza que nos capta atenção e se encasula em nossa mente.

2 - INCUBAÇÃO: É o tempo do qual aquele flash precisa para se desenvolver, tempo de meditar sobre ele mesmo inconscientemente, um período gestatório em que nos distanciamos e voltamos ao tema durante outra atividades corriqueiras. Durante esse período, o escritor se pergunta quais as características dos personagens, como abordar o inicio da historia, como chegar ao seu clímax, como desenhar seu desfecho. É um processo ao mesmo tempo consciente e inconsciente como se um grito das profundezas do sono pudesse ter seu eco ouvido e revisto durante a vigília.

3 - PRIMEIRO RASCUNHO: A primeira versão da história geralmente é escrita em alta velocidade, é o melhor jeito de escreve-la. Nesse momento não importa a forma, a grafia, a pontuação, tudo sai de forma espontânea, qualquer coisa vale! Alguns autores tem métodos mais sofisticados, conseguem uma versão quase completa já no primeiro rascunho, mas usualmente, o primeiro texto é um diamante bruto.

4 - REVISÃO, REVISÃO, REVISÃO: Se há um consenso entre todos os escritores é sobre a importância da revisão. Alguns gastam pouco tempo, outros continuam revisando e escrevendo mesmo depois de o livro ser impresso. O trabalho de burilamento do texto é importante para celebrar a função de cada palavra e cada frase, ter certeza de que estão posicionadas de forma a gerar o resultado que o autor deseja.

E então? Preparado para colocar no papel suas inspirações?
Não esqueça de compartilhar conosco. Esperamos ansiosos sua contribuição!

2 de fevereiro de 2018

François Mauriac e o êxito em ser escritor

François Mauriac foi escritor, cronista, jornalista e poeta francês premiado com o Nobel de Literatura em 1952. Segundo Otto Maria Carpeaux "o maior representante do romance psicológico da tradição francesa". Segundo o próprio Mauriac: "um metafisico que trabalha com o concreto".

Escreveu dez romances entre 1920 e 1932, entre os mais celebres estão Le Baiser au Lepreux (1922), Genitrix (1923), Therese Desqueyroux (1927) e Le Noed de Viperes (1952) e também sobre as vidas de Racine (1928) e Jesus (1936).

Mauriac foi entrevistado para a revista The Paris Review onde compartilhou um pouco de sua técnica e sugestões para escrever romances e outras obras. Sua maior contribuição foi em relação a técnica, a qual legava a cada escritor a aventura de descobrir ou inventar a sua própria, e disse:

"Todo romancista deve inventar sua própria técnica (...). Cada romance digno de tal nome é como outro planeta, que seja grande ou pequeno, com suas próprias leis, assim como possui suam flora e sua fauna. Assim, a técnica de Faulkner é certamente melhor para pintar o mundo de Faulkner, sendo que o pesadelo de Kafka criou seus próprios mitos, que o tornam comunicável."

Assim, trata-se de o escritor criar ou descrever um universo próprio onde a ação de seu romance transcorre, seja ele próximo ou não da realidade como a conhecemos. O importante seria criar um estilo próprio, uma forma individual para contar a sua história, pois só o escritor pode saber o que e como tudo acontece, por isso recai sobre ele a responsabilidade de criar, executar e destruir conforme a história a ser contada.

Como criador deste universo que existe em cada romance, a tentação de interferir diretamente nos destinos dos personagens é constante. Porém, o desenrolar natural da história deve ser considerado para dar-lhe certa legitimidade com a realidade, pelo menos o que se considera real no universo criado pelo autor. Mauriac escrevia espontaneamente ou, segundo ele "com completa naiveté" - deixando-se livre de qualquer ideia pré-concebida do que se pode ou não fazer.

"Quando começo a escrever não me detenho a refletir se estou interferindo demais diretamente na historia, se sei demais a respeito de meus personagens e se deveria ou não julga-los.(...) Em geral, quando começo a escrever, nem todos os pontos importantes do enredo estão estabelecidos."

Mauriac aponta que experiencia de vida é fundamental para a escrita de qualidade. Observar os acontecimentos da própria vida com certa distancia faz com que o escritor tenha bagagem para utilizar em seus textos e dar a eles mais veracidade e credibilidade. De muitas formas, o autor é em parte o personagem, seja o protagonista ou o vilão, até mesmo um secundário que leva uma característica peculiar. Os ambientes, tendem a ser ambientes já conhecidos, consolidados na memoria. Essas "lembranças do passado" como se refere o autor, dão profundidade ao texto e levam o leitor a viver junto com o autor os sentimentos descritos. Por isso, Mauriac diz que o autor jovem, exceto poucas exceções, "quase não tem possibilidades de escrever com exito a cerca de qualquer outro período de sua vida a não ser sua infância e adolescência". Mas termina, do alto de sua experiência e gloria dizendo que todos os seus romances "tem lugar no período de minha adolescência e juventude, são `lembranças de coisas passadas".

Sobre a escrita em si, Mauriac nos urge a sermos nos mesmos e nos darmos com afinco a nossa obra a ponto de tornar as demais e anteriores obsoletas, desnecessárias.

"O primeiro dever de um escritor é ser ele próprio. O esforço de auto-expressão deveria afetar sua maneira de expressão. Jamais comecei um romance sem que esperasse que ele tornaria todos os outros desnecessários. Minha obra-prima saria sempre o romance que estou trabalhando agora".

Isso levaria ao grande êxito do escritor e a coisa mais rara na literatura: "quando o autor desaparece e sua obra permanece."

Mauriac em sua prosa refinada, nos deixou grandes lições e romances.
E para nosso deleite, uma das poucas obras traduzidas para o português do autor para que nunca esqueçamos de seu esforço tão bem recompensado.

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10 de janeiro de 2018

Cony nos deixa

Esta semana perdemos um dos mais prolíficos e competentes escritores nacionais, Carlos Heitor Cony não nos faz mais companhia, mas nos deixa um legado de romances, cronicas e contos que ficaram indeléveis na memória deste Império das Letras.

Nos idos de 1998, quando a própria Internet dava seus primeiros passos, Cony participou de um chat no UOL, coisa das mais inovadoras na época. Funcionava como uma roda de conversa, onde cada um postava sua pergunta e o convidado escolhia as que mais lhe interessavam para responder.

Comparado ao dinamismo das trocas de mensagens atuais, o chat do UOL pode ser considerado já um dinossauro, porém Cony, em sua egrégia humildade, fez o melhor que pode para responder a quem lá esteve. Vários assuntos foram abordados como politica, religião, literatura e até setters irlandeses, sua raça de cães preferida. Mas, dentre os assuntos por ele abordados, pinçamos as respostas mais importantes para nós, iniciantes nas Letras.

Perguntado sobre poesia, Cony responde:

"Num panorama geral, incluindo nacionais e estrangeiros, Machado de Assis, Sartre, Dostoiévski, Goethe, Dante, e os latinos, quase todos, poetas e prosadores."

"Aprendi a gostar dos poetas latinos (Horácio e Ovídio, principalmente) o que me levou a admirar os clássicos. Dante, Camões, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Verlaine, estes estão entre os meus preferidos."

Perguntado sobre a Paixão e ate que ponto suas narrativas são autobiográficas, eis sua resposta:

"Evidente que todas as paixões e quebrações de cara dos meus livros tiveram equivalências na minha vida pessoal. Acredito que a paixão é o câncer do amor, ou seja, explode desordenadamente dentro da gente e não controlada, provoca metástase que nos leva à destruição."


"No meu primeiro livro, "O Ventre", o pai era um corno que termina louco de dor. Em "Matéria de Memória", o pai é um vilão que termina leproso e amaldiçoado pelos filhos. Em "Pessach: A Travessia", o pai é um judeu covarde que se suicida com medo de viver. Como vc pode notar, nenhum destes pais pode ser o meu. Em todo caso, isso não significa que o pai de "Quase Memória" seja exatamente o meu."

E também falou sobre a melancolia de seus personagens:

"...é muito comum os autores de romances, novelas e teatro matarem seus personagens principais, Considero isso uma solução fácil e banal. Por isso mesmo, condeno meus personagens à melancolia que eu acho muito mais humana e verdadeira do que a morte. É uma escolha pessoal minha. Agora mesmo,ao terminar meu último romance, tudo me levava a matá-lo. Ele era velho, doente, desencantado. Se eu o matasse, seria misericordioso demais. Deixando-o viver, acredito que melhor retratei a sua solidão e a sua tristeza."

Mais a frente, perguntado sobre que assuntos escrever que possam gerar interesse, Cony responde:


"...há uma frase muito citada de Tchecov: escreva sobre a tua aldeia e descreverás o mundo. (...) Encontre o seu espaço e entre firme no assunto."

E, finalmente, Cony é questionado sobre sua forma de motivar-se em um cenário em que pouco se lê. O que o incentiva a escrever tanto? Ao que ele responde:

"...escrever é um ato pessoal e solitário. A gente escreve por uma necessidade interior que independe do consumo. Passei 23 anos sem escrever e confesso que a literatura não me fez falta. Agora, nunca penso no leitor nem em ninguém quando estou fazendo um romance. No jornalismo, ao contrário, o leitor sempre está presente de uma forma ou outra naquilo que escrevo."

Sempre é triste perder uma voz tão ativa e delicada. Ainda bem que Cony nos deixa uma grande obra que pode ser sempre revisitada. Abaixo seguem alguns de seus trabalhos mais icônicos, para quem ainda não conhece e para aqueles que, na lembrança, possam matar a saudade. O autor nos deixa, fisicamente. Mas também nos deixa muito para que possamos nos deliciar.

O Ventre - primeiro romance do autor, publicado em 1955 - http://amzn.to/2qUmedI

Quase Memoria - Publicado em 1995 e ganhador do Premio Jabuti - http://amzn.to/2CYNLjF

Pilatos - publicado em 1973, uma critica satirizada da ditadura militar - http://amzn.to/2mingu6

Romance sem Palavras - obra que rendeu ao autor outro Premio Jabuti, em 2000 - http://amzn.to/2FlN41r

A Casa do Poeta Tragico - mais um romance a lhe render um Premio Jabuti - http://amzn.to/2FnOFDH

15 de dezembro de 2017

Dicas valiosas de uma ganhadora do Pulitzer

A escritora americana Jennifer Egan ganhou o premio Pulitzer na categoria ficção em 2011 pelo livro "A Visita Cruel do Tempo". Ela esta na lista de autores entrevistados por Meredith Maran, que inclui ainda outros grandes nomes como Isabel Allende, Mary Karr e Walter Mosley, entre outros,  para o excelente livro Why We Write e nos brinda com algumas sugestões para autores iniciantes. Entre elas:

- Leia ao nível que deseja escrever. A leitura é a nutrição que alimenta o tipo de escrita que você deseja criar. Se você gosta muito de Y, provavelmente sera difícil escrever sobre X.

- Fazer exercícios é uma boa analogia para a escrita. Se você não esta acostumado a exercitar-se, você sempre da um jeito de evitar. Se esta acostumado, lhe parece estanho e desconfortável quando não se exercita. Não importa onde você esta em sua carreira, o mesmo vale para a escrita. Mesmo quinze minutos por dia o manterão no habito.

- Você só poderá escrever regularmente se estiver disposto a escrever mal. Não é possível escrever regularmente bem. Você deve aceitar a escrita ruim como um aquecimento que o tornara apto a escrever bem.

Em resumo, escreva sempre que puder, pelo tempo que puder. Com o habito, vamos nos tornando melhores.

Para o livro premiado A Visita Cruel do Tempo, clique aqui http://amzn.to/2CAPx6u
E para a excelente coletânea de entrevistas com grandes autores Why We Write por Meredith Maran (infelizmente ainda não disponível em Português), clique aqui http://amzn.to/2j4QTy0

11 de dezembro de 2017

Receitas de Umberto Eco para a escrita criativa

Quando é a hora certa de começar a escrever? Em seu livro "Confissões de um jovem romancista" o grande filosofo e ensaísta italiano Umberto Eco nos brinda com inúmeras observações importantes para nós  que estamos dando os primeiros passos no Império das Letras.

Para ele, a motivação em escrever um romance pode ser nenhuma e que isso já é um motivo razoável. Basta querer e você pode ser um escritor. Para ele, essa vontade surgiu depois dos 65 anos, já um consolidado acadêmico mas que nunca havia escrito um texto "criativo". A própria definição de texto nessa ambivalência "criativo" versus "cientifico" não existe, segundo Eco. Para ele, não ha como negar a criatividade nos textos de Galileu, por exemplo, usado nas escolas da Italia exatamente como exemplos de criatividade.

Seu primeiro romance, O Nome da Rosa, foi fustigado pela critica que, entre outras maliciosas afirmações, sugeriu que o livro so teve tamanho sucesso por ter sido feito por um computador. Eco, claro, tomou a pena mais uma vez e, em resposta a esse infeliz comentário, escreveu abaixo, com a ironia que lhe é peculiar, uma receita para o uso do computados para se escrever um best seller.

Em primeiro lugar, claro, urge ter um computador, uma máquina inteligente que pensa por você – o que é uma clara vantagem para muita gente. Basta um programa de poucas linhas; até mesmo uma criança pode fazer isso. Então, alimente o computador com o conteúdo de uns cem romances, obras científicas, a Bíblia, o Corão e um monte de listas telefônicas (muito úteis para os nomes dos personagens). Digamos, algo em torno de 120 mil páginas. Depois disso, usando outro programa, você os randomiza; em outras palavras, combina todos os textos, fazendo alguns ajustes – por exemplo, eliminando todos os “e”s – de modo a não obter apenas um romance, mas um lipograma à George Perec. Então você clica
em “Imprimir” e, já que pediu para eliminar todos os “e”s, o resultado será algo mais curto que 120 mil páginas. Depois de lê-las com cuidado várias vezes, sublinhando todas as passagens mais significativas, você as joga no incinerador. Então simplesmente se senta embaixo de uma árvore, com um pedaço de carvão e um papel de desenho de boa qualidade, e, deixando a mente divagar, escreve dois versos: “A lua está alta no céu/ O bosque sussurra”. Pode ser que não surja logo um romance, mas um haicai japonês. Entretanto, o importante é começar.

Não poderia ser mais claro. O importante é começar. Em algum momento aquele começo se fara desenrolar em um historia digna de ser contada e lida. Não tenha medo de dar o primeiro passo, ouvir sugestões e acatar somente aquelas que realmente ache relevantes.

Para mais sobre Umberto Eco:

Seu primeiro romance O Nome da Rosa - http://amzn.to/2Bc27eM
E este que referencio Confissões de um Jovem Romancista - http://amzn.to/2kZ8ETM

7 de dezembro de 2017

Novo dia do mesmo

Esse silêncio natural
de quem sabe o que faz
a ilusão de controle
o peito se debate inteiro
e só sossega em devaneio
com o frio que a noite traz

Tua luz sumindo aos poucos
teus olhos, teu pescoço
toda tua tenra pele
vira pó com a distância
e eu, por pura ignorância,
ainda torço que me leve

E tu, tão bem postada
tão feliz e bem amada
não me lembro o que quis de mim
Agora sofro de mão atadas
convencido, não há mais nada
que me desvie desse fim

Me conformo, pois a vida
pune com amor sincero
as palavras que escrevo
E, enfim, aprendo de saída
que acima das coisas que quero
estão as coisas que devo

6 de dezembro de 2017

Antes da minha morte

Como pode esse vazio entre tantas coisas a pensar
Me parecem mais desvios
tudo isso a me ocupar

A premissa de ter ofusca o ser
ou talvez, ao meu redor, ninguém tenha mais esse afã
já estão todos sublimados, engoliram a maçã

Acho tudo tão normal, monotonia me entedia
é tanta coisa no meu dia que me pego volta e meia
a me pensar em outro mundo, onde o que hoje me rodeia
não seja mais que ócio, criativo, não o tédio, essa teia!

Outro mundo onde a tinta, que rabisca nesse branco
flua em total sintonia, com o que escuto pelos cantos
pelos desterros da minha mente, essa bagunça sem primor
e que tudo acabe em versos, vindos d`alma com amor

Pois que entre tudo do meu dia, apenas isso ponho a parte
como se fosse dispensável alguém de nós viver sem arte
e eu mesmo vou me flagelando, empurrando para o lado
algo meu, fundamental, e que devia ser falado

E é com esforço, quase forçado, que me meto a escrever
apenas para que a pressão interna possa se restabelecer
São apenas balbucios, mas, diligente, ainda procuro
um momento iluminado donde me saia algo de puro

Até lá vomito incoerências, sou eu na carne
rabiscando a confusão que fez casa no meu cerne
Alguma hora algo palpita e, com sorte,
encontro o que valha a pena ser dito antes da minha morte

Quem publica no Brasil?

O Império das Letras, em sua atribuição de incentivar novos autores e vozes ainda não ouvidas, publica abaixo seu primeiro censo. Um esclarecimento deve ser feito, antes de prosseguirmos: a pesquisa cujos dados serão apresentados abaixo são fruto de um estudo realizado com maestria pela Universidade de Brasilia (UNB) em 2015 e coordenado pela Doutora em Teoria Literária Dra. Regina Dalcastagnè com o objetivo de traçar os perfis de autores, personagens e enredos de romances publicados de autores nacionais. Logo, não é efetivamente um estudo patrocinado pelo Império das Letras, coisa que teríamos muito orgulho e satisfação em ter feito.

Sem mais delongas, vamos `as descobertas.

Quem é o autor brasileiro publicado?

É um homem! 70%-30%
É um homem branco! 90% (publicou-se mais negros durante a Ditadura Militar do que após a Redemocratização!)

Sobre o que escreve?
 Escreve predominantemente sobre homens heterossexuais, mas também sobre mulheres, contemporâneos (pós-1985) de classe média (60%) no contexto de uma grande cidade (86%).

Apesar de cruelmente restrita, a produção literária do Brasil é plural e rica de vozes diferentes e dissonantes do que vem sendo publicado. O Império das Letras se imbui de um papel de criador de relevância dessas vozes inauditas, contribuindo para a representação da diversidade e, no fim, para que o retrato do escritor brasileiro seja mais fiel a sua face real.

Para gráficos detalhados da pesquisa, acessem o Metropoles, aqui:
https://www.metropoles.com/entretenimento/literatura/pesquisa-da-unb-perfil-do-escritor-brasileiro-nao-muda-desde-1965/amp

E aqui para o texto publicado pela Dra. Regina Dalcastagnè: https://docs.wixstatic.com/ugd/d35737_86153db12c474ea6b059742881576ea5.pdf


4 de dezembro de 2017

Carta de Scott Fitzgerald a um jovem escritor

O Império das Letras tem como missão incentivar novos autores a escrever e todos aqueles que já escrevem, mas que não se consideram autores, a tirarem suas histórias da gaveta.

Sabemos que os primeiros passos nas searas deste Império são duras, cruéis e inseguras. Por isso, sempre que podemos, publicamos sugestões, dicas e experiências de autores já consagrados que possam orientar os novos.

Foi isso o que fez F. Scott Fitzgerald, autor de clássicos como O Grande Gatsby e O Curioso Caso de Benjamin Button, em 1938, quando recebeu por correio um conto de Frances Turnbull, seu amigo há muito distante, que lhe pedia uma opinião sobre a qualidade do escrito. Fitzgerald, além de responder-lhe com sinceridade sobre o texto, lhe escreveu linhas as mais inspiradas sobre o início da profissão, as quais reproduzo abaixo:

9 de Novembro, 1938
Querida Frances:

Eu li a história com carinho e, Frances, receio que o preço de fazer um trabalho profissional é bem maior do que você está preparada para apresentar. Você tem que vender seu coração, suas reações mais fortes, não as pequenas coisas que só te tocam levemente, as experiências que você está disposta a contar no jantar. Isso é especialmente verdadeiro quando você começa a escrever, quando você ainda não desenvolveu os truques de pessoas interessantes no papel, quando você não tem a técnica que leva tempo para aprender. Em suma, quando você só tem as emoções para vender.

Todos os escritores passam por isso. Foi preciso que Dickens colocasse em Oliver Twist o seu ressentimento passional de abuso e fome que o assombrou por toda a infância. As primeiras histórias de  Ernest Hemingway mergulharam no fundo de tudo o que ele sentira e conhecera. Em, “Este lado do paraíso”, eu falo sobre um amor que ainda sangrava como a ferida na pele de um hemofílico.

O amador, vendo como o profissional que já aprendeu tudo sobre a escrita pode transformar algo trivial como reações superficiais de três garotas comuns e transformá-las em algo sagaz e charmoso – o amador acha que ele ou ela pode fazer o mesmo . Mas o amador pode apenas transferir suas emoções para outra pessoa num expediente desesperado e radical como derramas sua primeira história de amor trágico do seu coração e o colocar nas páginas para o mundo ver.

Este é, de qualquer maneira, o preço da entrada. Quando você estiver preparado para pagar, ou quando ele coincidir ou conflitar com sua opinião sobre o que é “bom” cabe a você decidir. Mas, literatura, mesmo literatura leve, não aceitará menos de um neófito. É uma dessas profissões que exige “trabalho”. Você não estaria interessada em um soldado que é só um pouco corajoso.

À luz destes fatos, não me parece válido analisar porque esta história não é vendável, mas eu gosto demais de você para não levá-la a sério, como pessoas da minha idade o fariam. Se você um dia decidir contar histórias, ninguém estaria mais interessado que

Seu velho amigo,
F. Scott Fitzgerald

P.S. Eu devo dizer que a escrita é suave e agradável e algumas páginas são bem aptas e envolventes. Você tem talento  — o que é o equivalente a um soldado ter as qualificações físicas adequadas para entrar em West Point.

Você estaria preparado para uma crítica assim?

A carta foi publicada em Uma Vida em Cartas, ainda inédito em Português mas disponível aqui: http://amzn.to/2ifG2Rr

Para os clássicos de F. Scott Fitzgerald:
- O Grande Gatsby - http://amzn.to/2jKrPMI
- O Curioso Caso de Benjamin Button - http://amzn.to/2AtjPHV
- Este Lado do Paraíso - http://amzn.to/2jLS7xX
- Suave é a Noite - http://amzn.to/2AsBgZ1

F. Scott Fitzgerald fez parte da chamada "Geração Perdida" de escritores americanos que migraram para Paris para escrever e usufruir da vida boêmia que a cidade-luz oferecia. Ficou rico e famoso, mas perdeu toda a fortuna tendo morrido sem nenhum dinheiro, com sua mulher internada num manicômio. Deixou uma filha, Frances Scott Fitzgerald, jornalista e também escritora.

2 de dezembro de 2017

Uma rede entre Aristóteles e Zizek

Não é fácil navegar pelo Império das Letras sozinho. Ele é vasto e profícuo em atalhos, bifurcações e becos sem saída.

Por isso, uma boa cartografia faz-se necessária para a boa orientação. Com isso em mente, pesquisadores da Universidade da Califórnia desenvolveram um portal de navegação pela filosofia. Trata-se de uma catalogação de todos os filósofos, apresentada de maneira fácil de se observar as ligações e influências entre eles. Uma ferramenta genial para quem deseja dar seus primeiros passos na seara filosófica, tão importantes como base da seara literária que procuramos incentivar em nosso Império.

E para quem deseja se aventurar e conhecer os caminhos iniciais da filosofia, alguns volumes podem ajudar.

O Mundo de Sofia - um brilhante romance de Jostein Gaartner que nos narra as peripécias de Sofia Amundsen pela historia da filosofia - http://amzn.to/2iaDS5B
Filosofia: os autores, as obras - traz um balanco didático das abordagens dos filósofos mais influentes - http://amzn.to/2i8Wfrv
Historia da Filosofia Ocidental - um compendio fundamental escrito por Bertrand Russel acerca dos pensadores mais discutidos da história divididos em três volumes - http://amzn.to/2jEBzbb

A primeira romancista brasileira

Excelentíssima Senhora Dona Maria Firmina dos Reis.
Assim foi anunciada a autora do romance Ursula em 1860 nas páginas do jornal A Moderação, de São Luis, Maranhão.

Pelos predicados poderíamos pensar que a tal excelentíssima senhora tratava-se de uma mulher nobre, esposa de um senhor de engenho, talvez. Mas não. Dona Maria Firmina era negra, filha de mãe branca e pai negro, autodidata, professora e abolicionista. Seu romance Ursula versa sobre a questão abolicionista quase trinta anos antes de sua efetivação pela Lei Áurea.

Começou a ter contato com a literatura ainda moça sob os auspícios de uma tia de melhores condições financeiras e outros parentes, como Sotero dos Reis, tio e famoso gramático da época. Suas obra, no entanto, não ficou circunscrita ao romance. Além de Ursula (1859), publicou também o romance Gupeva (1862/1862), diversos poemas em vários jornais da época e um livro de poesias Cantos `a Beira Mar (1871) e compos diversas musicas, inclusive uma para a Valsa de Gonçalves Dias. Em 1887 publica seu conto A Escrava, uma critica aberta ao regime escravistas, posição que manteve e teve tanto destaque a ponto de compor um Hino `a Libertação dos Escravos, em 1888.

Uma excelente referencia sobre a escrita de Maria Firmina encontra-se no excelente A Escrita de Maria Firmina dos Reis na Literatura Afrodescendente Brasileira, (http://amzn.to/2khyFx2) de Algemira de Macedo, Doutora em Letras da PUCRS.

Para os novos e futuros autores que estão dando seus primeiros passos nas estradas desse Império das Letras, vale a pena conhecer os primeiros passos do romance no Brasil através da obra da Excelentíssima Senhora Dona Maria Firmina dos Reis.

28 de novembro de 2017

A coragem criativa

Uma das muitas ansiedades daqueles engajados em um trabalho criativo é a originalidade. Nos perguntamos: será que o que estou fazendo já foi feito? Tudo o que deveria ser escrito já o foi antes de mim? Que abordagem posso ter para que o que tenho a dizer seja interessante e único?

Diferente do que muitos pensam, o trabalho criativo não se resume a um estado contemplativo onde se espera a queda incondicional de uma inspiração ou um momento Eureka! Muito ao contrário, o trabalho criativo dá-se em meio ao caos. A confusão de influências, ideias, experiências e dúvidas que se embaralham de tal forma que, não raro, torna-se hercúlea a tarefa de criar algo realmente relevante. E é nesse turbilhão em que se encontra a tal inspiração, ou melhor, um fio solto que, quando puxado, por vezes encontramos uma história que valha a pena ser contada.

Já que, portanto, esse trabalho inclui a navegação sem GPS dentro de nossas influências e referências, trazer algo que já foi escrito ou uma forma de se expressar que já foi usada é totalmente válido. Aliás, o grande trabalho criativo inicia-se com a análise de tudo o que se possa analisar do que já foi escrito ou dito sobre o tema abordado. Saber o ponto onde se encontra a discussão é o pontapé inicial para ter sobre ela a sua própria abordagem.

Oliver Sacks em seu ensaio "O Eu Criativo", publicado na coletânea "O Rio da Consciência" aponta que muitos escritores, sejam eles literários ou científicos, escolhem não dar aquele salto de criatividade, aquilo que Schopenhauer aponta como a diferença entre o talento e a genialidade, preferindo permanecer no ápice do domínio da arte, ao invés de aventurar-se em busca de uma expressão realmente única. No livro, Sacks se pergunta "Por que dentre as centenas de alunos do Instituto Julliard de música ou tantos cientistas brilhantes sob os auspícios de excelentes professores, apenas alguns poucos comporão sinfonias memoráveis ou farão descobertas de maior importância? Sera que `a maioria, apesar de seus dons, ainda lhes falta alguma centelha criativa maior? Será que lhes faltam alguma característica além da criatividade que seja essencial para a realização criativa - como ousadia, auto-confiança, independência de pensamento?"

Dessa forma, não se preocupe se achar que lendo Saramago, você se veja propenso a uma prosa sem pontuação. Ou tendo lido Kerouac, esteja dando muitas voltas e digressões em vez de ater-se puramente a argumentação ou até mesmo aquele excesso descritivo que veio, com certeza, da leitura de Victor Hugo. É fato que nos influenciamos, não podemos negar isso. Então, que tenhamos a coragem de fazer dessa influência algo novo, algo que deixe orgulhosos aqueles que nos influenciaram, sem nos preocuparmos com as críticas, pois elas virão e pode ser que os críticos não entendam de primeira nossa proposta e que, só com o tempo, possamos realmente ser reconhecidos.


27 de novembro de 2017

Queda Livre

Quanta confusão
um turbilhão e tudo acontecendo
nos calores da emoção
percebo o mundo se movendo

E, de repente, o vazio
o silêncio que invade tudo
no fundo do peito aquele frio
cala sob sangue um grito agudo

Querendo e não querendo
mover-se é se manter parado
com a língua já ardendo
se convencendo de estar errado

21 de novembro de 2017

Minha pequenez

Dos teus olhos tiro a ternura
nos teus braços, proteção
me encontro da procura
que me aperta o coração

Dos teus lábios, teu sorriso
mesmo raro, hoje em dia
ele é meu combustível
a gerar tua alegria

Em ti há algo inexplicável
que me arrebata como um transe
já lutei, mas implacável
é a natureza do romance

Vejo em ti minha pequenez
o quanto tenho a evoluir
e ao teu beijo, quando em vez
sinto alma e corpo se fundir

E vejo a minha natureza
o mal e o bem que trago em mim
me curo em tua beleza
quero ser teu trampolim

Ver-te voar em salto ornamental
é o que me foi escrito
e abraçando essa vontade universal
me restauro o peito aflito

E se Hemingway te desse algumas dicas?

Em 1934, o aspirante a escritor Arnold Samuelson deixou a pacata Minnesota, nos EUA, e pegou carona até Key West para encontrar-se com o, na época, já aclamado escritor Ernest Hemingway. Samuelson recusou-se a pagar os U$ 5,00 de seu diploma em jornalismo e pegou a estrada acreditando que seria mais proveitoso para sua carreira literária estar com um grande escritor.
Sua viagem foi proveitosa e se frutificou no livro "With Hemingway - a year in Key West and Cuba". No livro durante um ano entre os EUA e Cuba, ainda inédito no Brasil, Samuelson conta como foram seus dias e seu aprendizado ao lado do escritor.
Hemingway, por fim, presenteou Samuelson com uma lista de 10 livros imprescindíveis para quem deseja ser um escritor de qualidade. Abaixo segue a lista e a imagem do papel onde o próprio Hemingway anotou, como um presente para Samuelson.
The Blue Hotel - Stephen Crane (ainda inédito no Brasil)
The Open Boat - Stephen Crane (ainda inédito no Brasil)
Madame Bovary - Gustave Flaubert
Dublinenses - James Joyce
Servidão Humana - W. Somerset Maugham
Anna Karenina - Leon Tolstoi
Guerra e Paz - Leon Tosltoi
Os Buddenbrook - Thomas Mann
Hail and Farewell - George Moore (ainda inédito no Brasil)
Irmãos Karamazov - Dostoiévski
O Livro de Versos Ingleses de Oxford (ainda inédito no Brasil)
The Enormous Room - E. E. Cummings (ainda inédito no Brasil)
Longe e Há Muito Tempo - W. H. Hudson
The American - Henry James (ainda inédito no Brasil)
Além desses, Hemingway indica também, fora da lista mas durante as conversas com Samuelson, As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain.
Preparado para pegar carona também nessas dicas de Hemingway?
Para se iniciar no próprio Hemingway, recomendo "O Velho e o Mar" e "Por Quem os Sinos Dobram".

9 de novembro de 2017

Império em Expansão

Queridos quinze seguidores,
chegou a hora de modernizar o Império. 

Este endereço serviu ao seu proposito e continuará aqui, porem não será mais capital do Império das Letras. Aqui permanecerão as ruínas para nos lembrar de onde viemos e por que caminhos percorremos.
A nova capital do Império das Letras se encontra agora modernizada, planejada e com outro propósito: o de se tornar cosmopolita. Lá, novos textos próprios e de novos autores serão bem-vindos e, com esse afluxo de culturas, espero transformar o lugar em um ponto de referencia para os iniciantes que querem dar seus primeiros passos em direção a publicação e também aqueles que desejam incentivar a produção desses novos autores.

Então convido a todos a seguirem, a partir de hoje, o endereço

https://www.facebook.com/imperiodasletras/

Ate la.

5 de setembro de 2015

De madrugada

No inverno, teu abraço frio
durante a madrugada morro e crio
sofro sem papel à mão
Não me interrompo, absorvo
a luz, a visão, o sopro
me eleva a alma à inspiração

Rimo solto, conjugo inusitado
mil palavras de mil significados
com as quais sublevaria meu leitor
conclusões, epifanias
uma licidez que tanto abrandaria
meu peito e de tantos ao meu redor

Mas eis que inadvertidamente
invariavelmente
desperto e volto a ser eu
nem uma simples pista
sequer lembrança da conquista
da compreensão que a madrugada me rendeu