18 de outubro de 2011

Os bêbados da destilaria

A destilaria ficava fechada com cadeado durante a noite para evitar que os bêbados da região a tomassem de assalto. O mestre-cachaceiro fora segurança de boate e levava ao coldre uma colt .45 com balas suficientes para escrever seu nome e sobrenome numa parede.


Propositalmente localizada no alto de uma montanha de difícil acesso, a destilaria funcionava a pleno vapor, enquanto brilhasse a luz do sol, compensando, numa produção acelerada, a falta do turno da noite. Como o almirante de um transatlântico, o mestre dava ordens e mexia manivelas controlando os fluxos e afluxos dos líquidos que perambulavam pelos tubos de cobre e vidro por todo o galpão como uma cama-de-gato.

O mestre-cachaceiro era o único que arriscava a pele passando a madrugada dentro da fábrica. Cansado sob o fuzil que levava às costas, fazia tudo com a atenção redobrada, pois àquelas horas podia ouvir ao longe o movimento dos bêbados sob a colina vomitando, maldizendo a vida e declamando poesias. Aqueles barulhos lhe causavam arrepios mesmo depois das dezenas de anos à frente da destilaria.

Na medida em que o sol subia os ajudantes se anunciavam batendo com a pesada aldrava de ferro nas grossas portas de madeira que o mestre abria remotamente com um clique no porteiro-eletrônico. Assim que chegavam, vestiam seus aventais. Só ali tinham coragem suficiente para envergá-los. Se fossem vistos em qualquer outro lugar, despertariam inveja e cobiça. Ali estavam seguros, suas identidades mantidas em segredo e seu trabalho minucioso muito bem recompensado.

Perto do final do expediente a tensão invariavelmente tomava conta do estabelecimento. Desligavam as máquinas e só se ouvia o leve borbulhar do suco nos latões. Lavavam o chão para que o odor não atraísse a praga trôpega e, antes de liberar os ajudantes, o mestre-cachaceiro reunia a todos em sua sala de troféus e dava as instruções da saída: lavar os aventais e os instrumentos de trabalho, jurar confidencialidade sobre o ofício que praticavam e nunca trocarem palavras ou olhares sequer entre si fora da fábrica. Era lei.

A sala era decorada com as carcaças empalhadas dos bêbados que haviam atentado contra a integridade da destilaria e do próprio mestre-cachaceiro. Sua colt e seu fuzil haviam abatido mais de duzentos bêbados e, naquela sala, alguns davam um silencioso testemunho dessa bravura.

Quando o sol se punha a um palmo do horizonte, os ajudantes eram liberados um a um. Cada qual tomava seu rumo de volta para casa e para suas mentiras: um era padeiro, o outro marceneiro. Evitavam colocar suas famílias em risco poupando seus queridos da preocupação e a si próprios da possibilidade de darem com a língua nos dentes. O destino de um ajudante descoberto poderia ser fatal.

Ao deixar o último ajudante sair, o mestre-cachaceiro fazia a ronda pela planta baixa verificando cada válvula e conta-gotas. Depois ia com seu armamento para a gávea no alto da torre de onde monitorava os bêbados que subiam a colina.

Mesmo parecendo inofensivos, os bêbados babavam por todo o pátio da destilaria e urravam cada vez mais forte ao verem o velho mestre longe do alcance. Juntando-se em grupos de cinco ou seis, os bêbados cheiravam o vão por baixo da porta e lambiam o tapete onde se via escrito “Bem-vindo”, obviamente não para eles. Não raro tentavam remover o pesado cadeado usando força bruta, seus dentes ou suas roupas. Batiam-se contra as paredes de pedra e amaldiçoavam o velho que permanecia inabalável por trás de seu pequeno arsenal.

Aos poucos, os bêbados que não ficavam por ali mesmo em coma alcoólico, desciam pela estrada íngreme de volta ao pé da colina e à difícil ressaca e amnésia do dia seguinte. O mestre, do alto da gávea e de sua sabedoria, não fazia juízos das pobres almas possuídas que se dispersavam. Apenas aguardava o movimento cessar para poder descansar. Um cochilo breve o bastava.

Ao primeiro canto de galo, o mestre despertava e recomeçava, com uma longa talagada do manjar não obsequiado aos bêbados na noite anterior, o dia ainda escuro.

9 de setembro de 2011

Não estava de férias

Queridos oito leitores.
Parece que foi em Agosto. Teias de aranha e estalactites nos posts desse blog. Porém, contra todas as percepções, entro de férias somente agora em Setembro.
Será mais doloroso para mim deixá-los órfãos do que para vocês deixarem-me não-lido.
E é exatamente por causa disso que eu saio prometendo voltar com a verve ficcionista que vocês querem ver (informação sem relevância estatística) ainda mais presente. Para que a saudade, combustível do reencontro, supere a dor da separação.

Até breve.

29 de julho de 2011

Je suis né il ya 10.000 ans

“Como alguém com mais de trinta, pretenso admirador da cultura dos anos 60 e 70 nunca tinha ouvido falar de Serge Gainsbourg!?”

“Como alguém cujos ídolos sempre foram figuras conturbadas, ambíguas e malditas nunca ouviu falar de Serge Gainsbourg!?”

“Como alguém que gosta de música, cinema e animação nunca tinha ouvido falar do filme Serge Gainsbourg – Vie Heroique (2010)!?”

Estas frases flanavam (para usar o termo francês) na minha cabeça enquanto saía do cinema. Minha ignorância sobre o protagonista teve a ajuda dos subtítulos um tanto quanto mercadológicos do filme tanto na versão em francês (“vida heróica”), que se apropria da infância do cantor na Paris ocupada pelos nazistas, apenas cerca de dez ou doze dos primeiros minutos; como na versão em português (“o homem que amava as mulheres”), talvez numa tentativa de surfar uma onda de um outro filme baseado numa trilogia editorial de sucesso. Confesso que imaginei uma ficção sobre um pianista maldito, numa Paris noir com pitadas daquele humor ácido francês e acabamento de quadrinhos em cores pastel, outra especialidade francesa. Enfim, me preparei para cento e vinte minutos de clichês.

E tal não foi minha surpresa ao deparar-me com a biografia de uma pessoa impressionante. Uma alma contorcida. Um artista fervoroso, de verve e presença inusitada. De postura agitadora, crítica e vanguardista, ansioso de rompimento com óbvio, do estático e do comum. Enfim, um provocador. Enquanto Jim Morrison agitava Los Angeles e morria em 1971, Serge Gainsbourg agitava a França e seguiu agitando até bem depois da década de 70, tendo deixado esta vida em 1981. E como as semelhanças não são apenas coincidências, ambos jazem eternamente no Pére Lachaise, em Paris.

O filme inicia-se mesmo com a infância, a iniciação na música através do pai, sua relação com as irmãs e o aspecto provocador que já dava o ar da graça, exemplificado na conversa dele, aos dez anos, com o chefe da polícia nazista que distribuía as estrelas amarelas aos judeus. Um pequeno manipulador. Impagável. Além de sua veia artística expressada pela pintura e a criação de personagens que, aliás, perfazem sua existência, inclinando-o uma hora para a vida reta e outra para a torta. Menção honrosa aqui para as animações e suas versões “reais” que o acompanham nos momentos-chave da sua vida/filme.

Afora os aspectos técnicos, Serge é interpretado por um efetivo sósia: Eric Elmosnino. Perfeito no papel. Feio, bruto, machista e ao mesmo tempo frágil, encantador e apaixonado. Consegue transparecer aquele ar blasé e constantemente irritado com seus olhos esbugalhados e orelhas de abano.

Brigitte Bardot também é bem representada por Laetitia Casta, mas não empolga. Quem empolga é Lucy Gordon e sua interpretação de Jane Birkin. Contundente em sua beleza frágil. Firme e doce ao mesmo tempo. Não fosse seu falecimento precoce (Lucy foi encontrada morta em seu apartamento em 2009), ela poderia estar figurando suas feições élficas outras estrelas de grande magnitude.

Por fim, Serge é como um Raul Seixas francês. Precursor de um estilo de vida rock’n’roll, easy rider sem sair do lugar, levando as relações e as sensações ao limite, mas com o atenuante de não estar envolvido com nenhuma seita oculta ou irmandade secreta: seus demônios eram seus próprios e sua salvação era a música, o excesso e os amores.

Numa França não muito amiga de filmes biográficos de suas grandes personalidades, Vie Heroique vem para juntar-se a outro clássico biográfico, Piaf, e continuar a formação da constelação francesa nesse universo essencialmente hollywoodiano.

6 de julho de 2011

Textos soltos

Às vezes uma idéia sorrateira passa tão rápido que a gente sente o cheiro, mas não consegue achar o rastro. Abaixo seguem os cheiros de algumas cujo rastro eu nunca mais achei.

***

Ela era uma bomba de efeito retardado. Suas palavras eram o pavio incendiário que percorria a distância que os separava. Quando estavam juntos, tudo explodia. Ela era fogo e ele pólvora.


***

Ele era tão bom com as metáforas que transformou sua própria vida em uma. Enxertava sonho nas situações reais como se romanceando fatos históricos. Deixava que a força das personagens tomasse conta da narrativa de sua vida pintando cútis pérsicas de sonho sobre as rugas e cicatrizes da realidade. Enganava-se de todas as maneiras possíveis.

***

Minguante ou crescente
o importante
é essa lua sorrindo pra gente

***

Imolo em liturgia minhas asas
Este sangue que escorre é para ti
Abro a boca e o sânscrito fala
Encapsulada, minha alma é para ti
Terás minha carne e minha presença
Por certo tema não esteja ali
Estarei divagando em eterno poema
À deriva em palavras que não são para ti

7 de junho de 2011

Poesia 14

Se matar é não morrer
e manter-se sob o malho
a alma incandescente
cospe faíscas no assoalho

Ao fazer de mim espada
na moldagem dura e seca
a vida que assopra o fogo
me obriga a amolecer

Deus é um ferreiro
dando fio a armas de guerra
cada anjo nos leva na aljava
e prende o Diabo debaixo da terra.

1 de junho de 2011

Poesia 13

Fecha o olho e vê
o que brilha nesse espaço
uma sombra e silhueta
refletores no palhaço

Cortina sobe, bordada e vermelha
um tropeço no picadero
a lágrima tatuada no rosto
cai contínua o ano inteiro

Travessuras e bobagens
fazem rir toda platéia
fecha o olho e vê
que o lobo em si é alcatéia

Abre o olho de vez
e apaga-se toda luz
uma penumbra fosca
fumaça e pólvora, prego e cruz

Nada mais há de se ver
quando a queda o corpo finaliza
estendido sob o coreto
o rosto pintado seca à brisa

24 de maio de 2011

Esperança

“Vamos dar o nosso sangue para salvar a menina Esperança”

“Curti” – pensou Gonzalo ao clicar no botão respectivo daquela rede social. A mensagem era dolorosa: uma escola havia sido invadida por um psicopata que se matou após alvejar treze crianças. Mas a sociedade se organizava para doar sangue aos feridos e principalmente à pequena Esperança, jovem matriculada na quarta série que, entre a vida e a morte, necessitava de sangue na UTI. Ela virou a imagem da tragédia.

Gonzalo, preparando-se para dormir, fechou o laptop decidido a ir até o instituto médico onde a menina estava internada. Após um período turbulento em sua vida, agora tentava colocar a cabeça no lugar e a ação voluntária parecia fazer sentido na lista de atitudes que passaria a ter daqui para frente.

Na manhã seguinte, Gonzalo cumpriu sua rotina: acordou, tomou café, banho, masturbou-se, escovou os dentes, vestiu-se e saiu à prática recém adotada do voluntariado. Como ainda era cedo, não pegou fila e foi encaminhado prontamente à sala de coleta.

Sentou-se e aguardou alguns minutos até que uma moça de seus vinte e poucos anos, jaleco branco e olhos amendoados entrou na sala com um sorriso. Gonzalo se ajeitou na cadeira desconfortável e respirou fundo valorizando o tórax e lendo no crachá dela “Enfermeira Lea”.

Lea deu um bom dia educado e foi descrevendo automática o procedimento enquanto arrumava o material necessário em cima da mesa. Gonzalo não prestou atenção em nada além do discreto decote que prometia seios proporcionais á estatura baixa e compleição justa da menina, pelo menos até ela perguntar seu nome.

Nesse instante, Gonzalo levantou os olhos mirando nos dela e embalou a resposta com seu sorriso mais comprido. A moça sorriu de volta e continuou:

- Sr. Gonzalo, vou fazer algumas perguntas para saber se o senhor esta apto a doar sangue para o nosso banco. Posso?

Instintivamente, Gonzalo responderia um lânguido “pode tudo”, mas limitou-se a dizer um “sim” cortês.

- Peso.

- 75kg

- Altura.

- 1,78cm

- Alergias?

- Não.

- Doença crônica?

- Não.

- Toma alguma medicação de uso constante?

- Não – mentiu lembrando-se da crescente freqüência com que agora consumia vaso-dilatadores.

- Tem alguma tatuagem?

- Não.

- Se masturba mais de uma vez por dia?


Gonzalo arregalou os olhos e demorou longos segundos para decidir o que responder. Por um lado queria muito cultivar o civismo e fazer sua parte na comoção social pela trágica situação da menina internada e não tinha noção se muito é bom ou ruim nesse caso. Por outro, não queria expor aquele hábito incompreendido àquela linda moça que, até onde sua percepção podia alcançar, havia respondido positivamente a seus flertes.
Mas ainda havia uma terceira alternativa:

- Hoje em dia, não – respondeu confiante e foi a vez de Lea desamendoar os olhos, arregalando-os.

- Desculpe. Não entendi – desconversou a menina e perguntou novamente – o que disse?

- Hoje em dia, não. Já houve épocas em que me masturbava três vezes ao dia. Mas me expunha a muitos riscos com a vespertina. Hoje faço uso desse artifício somente quando estou na dúvida se quero ou não sair com uma menina. Se após umazinha ainda estiver a fim de sair com ela, eu saio. Se não, fico em casa mesmo. Não troco uma boa descascada por qualquer mulher – terminou passando um dos braços por cima do encosto da cadeira sentindo-se mais à vontade, afinal era expert no assunto.

Sem saber como reagir, Lea só conseguiu ruborizar e quando já formulava uma resposta qualquer para fugir do assunto, um outro enfermeiro abriu a porta com tristeza e desolação no semblante pesado:

- Lea, suspende as coletas que a Esperança acabou de falecer.

A notícia pegou Gonzalo de calças arriadas. Literalmente. Uma vez que já se preparava para decidir se sairia ou não com Lea.

20 de maio de 2011

Babas

O urso magro saía da toca onde passou o inverno. Cansado de tanto dormir, ia equilibrando-se nas agora verdejantes árvores até a beira do rio que lhe chegava às narinas com o odor da vida.
Primeiro bebeu água, muita água, até que a sede morreu e a fome gritou das profundezas vazias do enorme estômago. Seus olhos seguiam a correnteza aflitos, fitando além da superfície. Pata ante pata até o meio do rio, o frio lhe obstando a consciência.
Gigante e frágil, quase vertendo lágrimas irracionais no limite da sobrevivência, o urso joga seu corpo sobre a truta e arranca e sacode no ar, como a comemorar sua conquista.
As escamas da truta brilham sob a baba do urso assim como a almofada escurecia sob a baba do telespectador do outro lado da tela, quase dormindo, minutos antes de trocar de canal.

18 de maio de 2011

A experiência de voar

Recentemente vi uma entrevista de um americano que atentava para a maravilha de voar. Ele apontava a grandiosidade de colocar um avião de toneladas de peso no ar e mante-lo seguramente lá durante todo o percurso, seja ele curto como uma ponte-aérea, seja longo como Rio-Hong Kong.


Concordei com ele na hora. É impressionante como a genialidade humana desafia as leis naturais e, para o bem do progresso, diminui as distancias amentando as velocidades valendo-se de se próprio intelecto. Por esse prisma, preocupar-se com o assento curto que mal cabem as pernas, as refeições de isopor e a falta de conforto nas classes mais comuns, perde todo o sentido. Palmas a esse americano ufanista.

Realmente a experiência de voar é quase magica. E é ela que compensa toda a complicação de se garantir um lugar dentro do vôo. Não há estresse maior do que a fila de check-in em uma grande cidade brasileira. A desorganização é geral. As empresas se esforçam e colocam à disposição opções pelo celular e pela internet, porém nenhum deles parece evitar esse fenômeno brasileiro chamado fila.

Se voce chega no aeroporto e ainda não comprou seu bilhete, enfrenta fila no balcão e no guichê. Se você já comprou seu bilhete, fica na fila do guichê. Se você já se adantou e fez o check-in pela internet ou pelo telefone, fica na fila de qualquer maneira daquela maquininha que emite o bilhete.

Isso só para garantir se lugar. Depois é fila pra ter a bagagem examinada pelo raio x, fila para embarcar, fila para desembarcar, fila para pegar a bagagem.

Eu queria saber onde esta a genialidade humana nessas horas. Se o homem consegue fazer voar uma estrutura de mais de vinte toneladas durante horas e horas, porque diabos não consegue fazer as filas desaparecerem? Ou pelo menos evitar que elas aconteçam.

Talvez o grande trunfo das empresas aéreas, o que encombre sua incompetência generalizada no atendimento a seus clientes antes do vôo, seja essa magia incompreendida da qual se valem na comunicação do seu serviço. No final, a experiência metafísica de voar acaba nos fazendo esquecer a estressante experiência de estar no solo dependendo delas para chega onde precisa. Pelo menos até o próximo embarque.

1 de abril de 2011

Manias

Eu não agüento quando escuto alguém dizer que todo mundo tem mania. Só porque o sujeito tem problemas quer colocar todo mundo no mesmo saco. Comigo não. Eu não tenho mania.

Eu tenho sim é pouca paciência para certas coisas. Certas coisas me irritam. Manias dos outros, por exemplo, me irritam.

Deixar a tampa da pasta de dente aberta me irrita. Me diz porque o sujeito fecha a torneira, mas não fecha a tampa da pasta de dente? Fecha a tampa do vaso, mas não fecha a tampa da pasta de dente. Fecha até a escova toda naquela caixinha de plástico, compridinha, sabe qual é? Para proteger dos germes. E não fecha a tampa da pasta de dente.

Não estou dizendo que eu fico irritado porque os germes vão entrar na pasta e infectar a tudo, não é isso, nem sou tão afrescalhado assim. Até porque isso, sim, seria mania: mania de limpeza, mania de achar que vai ficar doente, o que por si só, já é uma doença.Hipocondria.

Simplesmente me irrita chegar no banheiro e ver o tubo da pasta ali usado...largado...explorado e deixado de lado como uma casca de banana. E a tampinha, coitada, ouço até ela gritando “mamãe, mamãe, socorro!” desesperada.

Numa boa, não fico pensando que a pasta vai ressecar, empedrar...até porque, se empedrar, aperta mais forte um pouquinho e ela sai melhor. Ou então aperta no meio do tubo logo. Sabia que tem gente que não agüenta ver o tubo apertado no meio. Vai correndo atrás de um pente pra passar o cabo e empurrar a pasta toda pra frente. Pelo amor de Deus. Se forem contar comigo pra achar esse pente, estão ferrados!

Eu não estou nem aí para isso. Aperto onde pegar primeiro. Agora, imagina você pegando a pasta que passou, sei lá, três dias aberta. Você faz a força normal e nada. Aperta um pouco mais forte e ploft!, a pasta desentope de repente e suja tudo...lambuza a pia, tua camisa passada que você vestiu para trabalhar, a maior cagada. O que dá vontade de fazer é pegar a pasta e escrever no espelho do banheiro: NÃO ESQUEÇA DE FECHAR A PASTA DE DENTE SENÃO SUJA O BANHEIRO TODOOOOO!!!

Banheiro é o único cômodo da casa onde a pessoa pode ser ela mesma, sem pudor. O espelho não julga se você tá gordo demais, careca demais, feio demais, com aquela cara amarrotada que você acorda...o banheiro sempre te recebe de braços abertos.

A merda é que, se você mora com mais alguém, tem sempre um rastro de outra pessoa naquele seu santuário. Tem sempre uma memória de que alguém passou por ali enquanto você está querendo se expandir todo.

E isso é fato, as pessoas tem conceitos diferentes do que é e o que não é importante. Papel higiênico, por exemplo, tem gente que não pensa na próxima vez que vai precisar dele. Vai lá na hora do aperto, tum, tum, tum, usa a o rolo todo e não coloca outro no lugar quando acaba. E eu me pergunto: PORQUE? Será pensando que, por ser de papel, feito de árvore, a coisa vai crescer de novo ali, enroladinha? NÃO VAI!

Eu realmente não sei. Só sei que a gente só pensa mesmo no papel higiênico depois que já fez o que tinha que fazer. Ninguém já com o Mandela na porta de saída vai antes até o banheiro checar se tem papel e, não tendo, vai até o armário da área, retira o rolo da embalagem, descola a ponta e encaixa ele no lugar. Esquece! Mesmo que você ache que dá tempo, não vai dar.



E quando o papel fica dentro daquela portinha de metal do lado do vaso? Você que já está achando que o pior passou...já se aliviou da urgência e olha para a portinha fechada. Amigo, na hora de abrir aquela portinha é sempre tenso. Tu pensa “Ai Jesus...se estiver vazia, lá vou eu ter que ir até o armário da área com a calça no joelho e as pernas abertas, ridículo, para substituir...e se alguma coisa cair no chão no caminho? Putz...ainda vou ter que limpar a sala!”. Aí você vai, estende a mão, tremendo: ”Será que tem, será que não tem?” Danou-se! Desiste no meio. Já começa a procurar alternativas. Olha para a duchinha...paro o bidê...a toalha de rosto...mas só de pensar que vai ter que levantar naquela situação já dá uma angústia. Dá uma dor de barriga...você até decide ficar um pouco mais tempo sentado: ”Não, vai sair mais...não preciso do papel agora!” Mentira! Tudo para não abrir a portinha e ver o rolinho de papelão vazio pendendo lá dentro. Usado, explorado e largado como a pasta de dente. A diferença é que não dá para escrever no espelho NÃO ESQUEÇA DE TROCAR O PAPEL HIGIÊNICO SENÃO SUJA O BANHEIRO TODOOOO! com a sujeira que você ia limpar com o papel higiênico.

17 de março de 2011

Poesia 12

Canto meu coração neste poema
e não sem dor contraio a palma
papel picado, o risco e o destrato
enquanto me maltrato, reciclo minha alma

Simulo um belo conceito
e o escondo em palavras sem jeito
onde foi parar o sujeito
tão bom nas coisas da alma?

Seguro do mal neste escafandro
mergulho ereto na fenda abissal
Tateando como um cristo, cego e braços abertos
procurando as flores entre sarça e coral

De lá trarei o caule da ficção
dos poemas e versos que me escorrem com calma
E se todo esforço for vão
e as mudas não vingam e morrem
Poderei descer novamente
seguro ao escuro
onde mora minha alma

23 de fevereiro de 2011

Concurso de Poesia

Descobri que a Sociedade Bíblica Brasileira abriu um concurso de poesia com o tema A Bíblia e a Natureza - Falando de Deus com Arte. Apesar de ser um tema meio distante do meu repertório, encarei o desafio e me inscrevi com o texto abaixo. Como nunca soube o resultado do concurso (sinal claro da qualidade questionável do texto e que confirma minha distância do tema) publico agora sem medo de ser punido no Purgatório pelo sofrimento que venha a causar a você, leitor.


Na penumbra, tinha uma vaga idéia de Ti
Lá fora, a iluminar meus olhos
Mesmo por trás das pálpebras cerradas.
Nossas pegadas lado a lado, leves na areia
Transformaram-se em apenas duas, suas, mais pesadas.

Nos sons da Natureza se fizeram Teu sussurro
E me entreguei submisso à Tua verdade
Como a árvore missionária sustenta em papel Tuas palavras
Serei a concha com água às bocas sedentas de Divindade.

Essa água que é chuva, flocos de vida nova
Reluzentes lágrimas de alegria vindas do alto
Derrama qual cachoeira sobre o regato de minha alma.
Protege com Tua mão invisível meu caminho
E confirma o que em caverna já foi escrito
Convida o coração aflito à calma.

E escavam os rios os sorrisos da Tua glória
A alegria de fazer parte da História
A buscar a paz coletiva de um mar.
Nosso envolvimento gera o compromisso, nossa paixão é nossa entrega
Paciente, nos conduz qual gente cega
Transformando-nos na mudança que queremos perpetrar.

18 de fevereiro de 2011

Cavalos selvagens

Subi a ravina, perscrutei a campo aberto com as mãos sobre os olhos e lá estava ele. Minha vontade era pular no vazio do abismo que nos separava e agarrar-lhe a crina à unha. Mas, ansioso, dei as costas e desci na intenção de finalmente domar o animal. Conhecendo seu comportamento, dirigi-me ao lago onde, sabia, ele estacionaria quando o sol lhe fustigasse suficientemente o lombo. No caminho, apalpava os bolsos conferindo se tinha todas as ferramentas necessárias para o momento do encontro.

Um dia se passou antes que ele aparecesse. Ouvi seus cascos ao amanhecer, vinha levantando poeira atrás de si e mesmo antes que eu pudesse vê-lo, ele já havia me avistado e vinha arisco, marinado numa noite de receios.

Não me movi enquanto ele se aproximava do espelho d’água arruinando o encontro de lua e sol ao matar sua sede. Num dado momento, moviam-se apenas os astros e aquele pescoço sedento e musculoso.

Fiz menção de mover-me apenas quando percebi que ele estava saciado, mas, como se adivinhasse, levantou as orelhas e bufando deu alguns passos atrás. Levantei-me e ele marchou para mais longe e ficou de lá a fitar-me. Depois de tanto tempo observando-o ao largo e me aproximando aos poucos estava acostumando-o a dividir seu espaço comigo. Já o havia visto pastar, nadar e procriar. Dormir com fome e refestelar-se em forragem. Nesse convívio forçado, abri à fórceps um canto em sua vida, uma presença que começou no canto do seu olho e agora via-me todo e de frente. Ainda sim seu instinto mantinha-o afastado.

Não me importei com seu pinote assim que dei o primeiro passo em sua direção. Nem me assustei quando relinchou alto quando entendeu que eu não pararia. Escolhi aquele momento como derradeiro. Não deixaria aquela besta à solta nem mais um dia. Usaria aquela rebeldia e força a meu favor. Montaria sua velocidade, condicionaria sua potência, regozijaria sua liberdade.

Perto o suficiente, vi em seus olhos mistos de curiosidade e medo minha própria face refletida. Por um instante aquelas órbitas negras e profundas tinham alma e personalidade. Como o sol e a lua enamorando-se sobre o espelho d’água, nossos espíritos deram as mãos quando entreolhamo-nos. Suávamos. Eu por temer não conseguir domá-lo e ele por temer perder sua liberdade. Ainda assim avancei mais um pouco e quanto mais próximos maior o magnetismo.

Estendi a mão e senti sua pulsação ao tocar o focinho áspero. Dei-lhe um carinho e ele carinhosamente quis recebê-lo.

Conhecemos-nos durante a manhã e só quando o sol ia alto no céu eu pude oferecer-lhe freio e cela cuja aceitação foi dócil apesar da desconfiança inicial. Consegui montá-lo muito após o mergulho do sol no horizonte. Não foi fácil para ele acostumar-se com meu peso sobre si, com alguém a guiar-lhe o olhar e os passos; nem para mim conter sua força e vontade, aquele ímpeto de correr e sumir, de fazer o que lhe conviesse a qualquer instante.
Vinha a lua na metade de sua descida, já preparando sua despedida às estrelas quando meus braços perderam o tônus e minhas pernas fraquejaram. Num balanço brusco, mas já não tão brusco quanto os anteriores, caí sobre meu corpo exausto. Ferido, olhei-o imponente, esperando sua fuga. Mas ele permaneceu. Desceu o nariz ofegante e cheirou-me como se a certificar-se de minha vida ou minha morte. Sossegou quando levantei e, naquele instante em que nem sol nem lua dominam o céu, mas o compartilham, montei-o pela segunda vez e, dessa vez, acostumamo-nos. Ele mesmo freando suas vontades e eu gentil no direcionamento.

Combinamos, então, tacitamente, respeito mútuo e, em momentos específicos, nos permitimos deixar-se guiar, da parte dele, ou deixar-se seguir, de minha parte, enquanto o céu se permitia ostentar dois astros simultânea e harmoniosamente.

23 de dezembro de 2010

Próspero Natal e Feliz Ano Novo

Nunca entendi por que só o Natal, que dura algumas horas, deveria ser feliz enquanto o Ano Novo, 365 dias, deveria ser próspero. Não que desejasse o contrário, ou seja, um Natal infeliz e um Ano Novo de cinto apertado. Mas gostaria que me desejassem ao inverso.

Por isso, faço dessas linhas meu desejo para você, leitor, esperando que, ato-contínuo, possa me desejar tudo de volta.

Desejo a você um próspero Natal. Uma mesa farta, repleta de pessoas que você ama alegres pelo fato simples fato de estarem juntas e pelo consumo leve de bebidas alcoólicas, pois, se bem me lembro, o primeiro milagre daquele cujo nascimento comemoramos no Natal, foi exatamente transformar água em vinho (e, como diz um amigo meu, “ainda bem que transformou em vinho porque se tivesse transformado em vodka, ninguém lembraria do milagre”).

Desejo que você possa presentear aqueles que você acha que merecem um reconhecimento pela proximidade, mesmo que esse presente seja um abraço, um beijo ou um aperto de mão vigoroso. Desejo que não lhe faltem recursos para que, nesta data, você possa demonstrar a sua afeição por todos que, de alguma forma, contribuem ou contribuíram para que você seja uma pessoa melhor ou diferente.

Quanto ao Ano Novo, desejo-o, sim, feliz. Mesmo que não seja um ano de prosperidade, mesmo sem aquele carro novo ou o apartamento de três quartos. Mesmo sem aquele aumento de salário ou mudança de emprego. Mas que a cada dia as angústias diminuam, as ansiedades abrandem, as preocupações atenuem enquanto as possibilidades aumentam, as vontades aqueçam, os amores floresçam e as certezas fortaleçam.

Desejo a você um ano feliz, o que é uma coisa muito pessoal. Desejo a você que o ano aconteça sem sustos, mas se os houver que sejam aqueles em que se grita “surpresa” e acaba com você cheio de presentes. Desejo a você uma mão firme na qual você segure quando sentir medo ou solidão. Desejo que você tenha um ano de bons sentimentos e não de boas coisas, pois as coisas, mesmo as melhores, apodrecem, quebram ou enferrujam enquanto os sentimentos ficam dourados com o passar do tempo.

Desejo, por fim, que no Natal do ano que vem você releia essas linhas e que elas sejam tão atuais quanto são hoje, pois, tenho certeza, serão tão ou mais sinceras.

21 de dezembro de 2010

Reminiscências do Ano Velho - 2010

Mantendo a jovem tradição das Reminiscências do Ano Velho, primeiramente publicada AQUI no final de 2009, volto à prancheta para desenhar com palavras o perfil de 2010 através dos fatos que nos tiraram o sono, do sério e da cadeira.

O ano de 2010 começou com o trágico prenúncio de que o planeta começaria a segunda década do terceiro milênio cobrando as faturas dos últimos duzentos mil anos de presença humana a detonar a Terra e, provando que não faz distinção de nossas classes sociais em sua ira, resolveu dar exemplo em Angra dos Reis, balneário carioca reduto de veraneio dos cheios da grana, e no Morro do Bumba, comunidade carente de Niterói que só conseguiu ver água encanada quando as águas do dilúvio correram por entre suas vielas. Mas a desforra natural não privilegiou do Brasil. A Terra sacudiu-se toda no Chile, no Haiti e em um monte de outros lugares como se quisesse se livrar de nós, suas eternas pulgas, como um cão que já cansou de se coçar.

Nossa sorte foi que achamos outro cão para sugar, ou melhor, outro planeja onde morar. Trata-se de uma descoberta fenomenal: um planeta com as condições muito similares às da Terra na constelação de Libra, logo ali a 20,3 anos-luz, com vista para um sol vermelho, a Gliese 581. O planeta é perfeito: tem água nos três estados, ciclos freqüentes de calor e frio e, o melhor, não tem nenhum ser humano lá e levaria mais ou menos 780 anos para um ônibus espacial chegar lá saindo de Cabo Canaveral, mais tranqüilo do que sair da Barra da Tijuca em direção ao Centro. Nesse prazo dá até tempo de a esperança morrer.

Mas enquanto a esperança definha, testemunhamos o processo eleitoral mais desacreditado da história do Brasil. Como diria nosso presidente, nunca na história desse país votamos tanto em pessoas tão despudoradamente despreparadas. Aliás, tornou-se um diferencial eleitoral a imbecilidade.

E para não falarem que não falei do Tiririca, permanecerei em silêncio de oração.

Eleições em ano de Copa tem dessas coisas, o eleitor acaba esquecendo o que tem que fazer e elege para o Congresso e para a Câmara aqueles que gostariam de enviar para disputar o título mundial de futebol. E o resultado é que conseguimos eleger, com uma votação recorde, um plantel de dar inveja: Romário, Bebeto, Danrlei (ele mesmo, goleiro do Grêmio), Marques (craque no Atlético-MG). E, no banco, ainda ficaram Marcelinho Carioca, Vampeta, Dinei...assim, as coisas acabariam em pelada com churrasco em vez de pizza em Brasília. E, falando em futebol, a derrota do Brasil na Copa só não foi uma decepção pior do que o episódio final de LOST.

Mas já que não conquistamos a África, pelo menos conquistamos o Alemão e a Vila Cruzeiro. Num exemplo de organização que não víamos desde a Guerra do Paraguai, polícias e exército juntaram-se para cercar e tomar o maior reduto e centro de distribuição de drogas do estado. Insuflados pelo sucesso de Tropa de Elite 2, filme que deu voz à vontade da classe média de explodir tudo e começar de novo, o BOPE voltou à moda e empatou com Fiuk e Restart o título de artista do ano.

O ano em que se lembrou os trinta anos da morte de John Lennon também nos levou o gênio José Saramago, mas não sem deixar-nos uma linda despedida com o filme José & Pilar, do diretor português Miguel Gonçalves Mendes. Uma história de amor digna de ser cinematografada. Não tão inusitada quanto a do mineiro chileno resgatado e esperado na superfície pela mulher e pela amante. Aliás, esses mineiros foram as verdadeiras celebridades de 2010: 33 pessoas soterradas resgatadas após 17 dias com direito a cobertura ao vivo da Rede Globo, Kibe Loco, tweets e posts das diversas redes sociais com IBOPE maior do que o BBB. Um mega evento de proporções gigantescas, só faltou patrocinadores e merchandising. O Sebastian Piñera está estudando afundar um submarino no ano que vem. Conversas estão quentes com os russos do Kursk.

Mas 2010 também nos reservou gratas surpresas. Uma delas foi o iPad, produto revolucionário da Apple que é tudo e não é nada ao mesmo tempo. Vai entender a cabeça do Steve Jobs. Ele consegue desenvolver um produto que serve para um monte de coisas que ainda não existem e consegue mobilizar um monte de gente para criar coisas para que seu produto tenha uma utilidade. Genial. Palmas para ele.

E já no final do ano, descobrimos mais um maluco ganhando dinheiro com coisas aparentemente sem valor: Julian Assange e seu WikiLeaks. O site de vazamento de informações confidenciais funciona desde 2006, mas só conseguiu realmente incomodar e ganhar a devida notoriedade esse ano com o vazamento do que foi chamado Cablegate, o escândalo dos cabos, onde mostra através de inúmeros documentos o posicionamento dos EUA em suas relações internacionais desde 1966, com pareceres sobre líderes, governos e movimentos ao redor do mundo.

Sobre o Brasil, o WikiLeaks revelou diversos relatórios americanos definindo questões culturais, a aproximação entre Lula e Sarkozy e, finalmente, sobre Dilma Roussef, nossa futura nova presidenta. Nos documentos, os EUA não colocavam fé na eleição da ex-guerrilheira, mas mesmo assim ela ganhou. E, como para ratificar a alegria com sua nova líder, o Legislativo aprovou um belo presente de Natal para ela e para si mesmos: um aumento de salário de mais de 130%. Em 2011, o cargo de presidente da república deixa de pagar R$ 10,7 mil por mês e passa a pagar R$ 26,7 mil por mês.

E é com esse soldo mensal no bolso que Dilma inaugurará uma nova era na história do Brasil. Ela, uma mulher, uma combatente, uma mãe, uma ex-guerrilheira, ex-sequestradora, ex-assaltante de banco, ex-ministra, ex-presidiária e tudo isso sem ter sido eleita uma vez sequer. Parabéns a Dilma e sucesso, muito sucesso e sorte para essa p... não virar até 2014, porque não vai dar para ter Copa num Brasil pior do que o de hoje.

20 de dezembro de 2010

Próxima sessão


Rapaz entra na sala de cinema quase lotada para a próxima sessão e em vez de subir e escolher um dos lugares vai para frente da tela e, resfolegando, pede a atenção de todos.

“Por favor, alguém aí achou um coração caído pelo chão?”

O povo se remexe tentando enxergar embaixo das poltronas. Celulares viram lanternas, idosos se agacham com dificuldade e, de repente, uma menina lá do outro lado da sala grita:

“Achei!”

O povo automaticamente pára e olha para a menina estendendo o coração ensangüentado e pulsante no ar. Rapaz, derrubando sacos de pipoca e canudinhos, corre em direção à menina. Ele a abraça em agradecimento enquanto pipocam as palmas dos espectadores. Para esses já valeu o ingresso.

Rapaz agradece pela ajuda. “Principalmente a sua” diz numa última olhada à menina. E sai da sala. Ela se senta toda toda em sua poltrona com um indisfarçável sorriso nos lábios até que, já na penumbra dos trailers, ela começa a apalpar os bolsos, remexer na bolsa e, lançando um olhar comprido para a porta de saída, se dá conta:

“Ih! Acho que perdi meu coração.” 

13 de dezembro de 2010

Maldita Felicidade

Em 2002 o filme “Jornada da Alma” (The Soul Keeper) contou a história de Sabina Spielerein, russa histérica internada num manicômio em Zurique onde o Dr. Carl Jung começava a colocar em prática as teorias psicanalíticas que desenvolvia juntamente com outro grande doutor e seu mestre, Sigmund Freud.

A Psicologia Analítica elaborada por Jung leva em conta não só aspectos conscientes e seus reflexos na atitude dos pacientes, mas também aspectos do inconsciente como sonhos, intuições e outros fenômenos que nos dão pistas de onde encontrar as causas mais profundas para as diversas psicoses e neuroses que todos nós (sim, todos nós) temos.

Não sou psicólogo e nem tenho a pretensão de, nessas poucas linhas, abordar a densa e profunda obra de Jung, mas, assistindo ao filme, vários aspectos, principalmente o fato de ela ter sido tão revolucionária, me levaram a escrevê-las.

A grande novidade do tratamento proposto por Jung (lembrem-se, segundo essa infidedigna fonte que vos escreve) foi a aproximação entre médico e paciente. Para acessar os arquivos inconscientes de Sabina Spielerein, o Dr. Jung gasta seu tempo, atenção e cuidados com a paciente, até que ela desmonte suas defesas naturais, escaldadas por um histórico de maus tratos e, como o próprio Jung se refere, “métodos medievais” ainda aplicados naquele início de século XX. Em uma inusitada cena, o médico leva sua paciente a um luxuoso restaurante e a alimenta dando-lhe de comer à boca, pois, no hospital, ela se recusava. Nessa busca, o sensível médico acaba por apaixonar-se pela paciente, desenvolvendo um relacionamento irracional e incontrolável por ela.

A grande reviravolta do filme é quando, curada de sua condição de interna de hospício, Sabina, encontrando-se secretamente com o médico que é casado, leva-o a questionar a proximidade com sua própria esposa. Ele se contorce para admitir essa irracionalidade dentro de sua própria vida e corrói-se em dúvida e culpa. Em outra cena brilhante, Jung e Sabina estão numa apresentação de ópera e ele, sem mais nem menos, deixa o teatro em prantos. Ela o segue e pergunta o que há, ao que ele responde debulhando-se em lágrimas “Estou feliz. Maldita felicidade”.
          
Investigando a irracionalidade dos outros, Jung fora pego de surpresa pela sua própria, cheia de complexos e demônios com os quais ele mesmo não sabe lidar. O filme usa a história até certo ponto feliz de Sabina (que, apesar do fim trágico, consegue reerguer-se da condição esquizofrênica e ser respeitada em seu trabalho) para mostrar um Jung doente de frustrações, culpas e medos. Um médico respeitado por fazer seus pacientes lidarem com suas irracionalidades, incentivando-os a expondo-las como diferencial de personalidade, lutando contra a sua própria, negada e reprimida.

Tendo assistido ao filme, é de se concluir que, uma vez sendo nosso inconsciente a verdadeira morada da nossa personalidade, onde estão muitas das nossas feridas, mas que também encerra suas curas, devemos estar mais atentos à maneira como reagimos às situações em que nos metemos para que nossas decisões e atitudes reflitam quem somos, não quem gostaríamos de ser ou quem os outros esperam que sejamos. Mas, se mesmo Jung, dono da idéia e codificador da teoria, pode, como mostra o filme, escorregar e sofrer entre suas vontades e seus compromissos, quem somos nós, pobres mortais, para não escorregar e sofrer?

PS: Para quem gosta, recomendo uma breve leitura sobre a obra de Jung AQUI . Sobre dois poetas russos citados no filme: Vladimir Maiakovsky e Boris Pasternak. E sobre as pinturas de Gustav Klimt AQUI.

10 de dezembro de 2010

Prólogo

Era uma vez um rapaz que queria escrever um romance medieval. Sentou-se e escreveu este prólogo.


O vento soprava frio vindo da janela aberta do quarto. As cortinas de seda flutuavam no escuro como algas brancas no fundo de um lago. Nada daquela noite calma prenunciava o que estava por vir. Se não fossem as luzes brilhantes ao longe, a paisagem seria tão calma e deserta como sempre. A fumaça que subia das fogueiras tremulava rumo à lua e as chamas que iluminavam e aqueciam soldados e mercenários, de longe, pareciam vagalumes num prado alagado.
As sombras dos sitiantes se moviam como um organismo único, não se conseguia distinguir, daquela distância, onde começava e onde acabava o exército. Nesse cenário sombrio, podia localizar somente a tenda vermelha e iluminada do Rei.
Há semanas não havia movimento de qualquer parte. Meus mensageiros, que partiam em segredo levando pedidos de socorro aos aliados, nunca chegavam aos seus destinos e voltavam sempre aos poucos. Suas cabeças sempre primeiro. Meus soldados enclausurados como ratos já podiam pressentir o fim trágico que se desenhava. Ao longe, nosso rebanho agora alimentava o inimigo, que bebia de nossa água e envenenava a corrente do rio que corta a cidade.
Eu me perguntava quanto tempo mais meus homens iriam agüentar. Já estouravam os primeiros motins dentro das guarnições mais baixas. Graças ao Nosso Senhor os superiores abafaram a revolta. Mas até quando também esses agüentariam? Há dias eu rezava para que um milagre acontecesse. Que São Miguel Arcanjo atendesse ao meu clamor e cravasse sua lâmina de fogo no peito de cada inimigo. No entanto, a única coisa que vinha dos céus era uma chuva ocasional para enchermos nossos baldes e cantis.
Saí do meu transe quando um pajem adentrou o quarto.
- Meu Senhor, o Conselho está reunido no salão principal. Estão aguardando Vossa Majestade.
Mirei-o com desânimo – “Que aguardem mais um pouco” - Fechei as grades de madeira da janela e só percebi a inutilidade do meu ato quando vesti a túnica e cheguei ao corredor. Apesar de ricamente decorado, sentia que tapeçarias e pratarias exibiam uma volatilidade e presença desnecessárias. Quantos arqueiros poderia eu manter com o ouro daquele busto? Quantos cavalos eu alimentaria com os fios daquele tapete? Tudo iria queimar no fim.
Entreabri a porta do salão devagar e fui examinando calmamente os presentes. Luc de Gussy não ostentava a barriga dos tempos de paz, a barba de Roberto de Messina crescia volumosa, as roupas do outrora alinhado Conde de Goulac pareciam jogadas sobre seu corpo. E mais ninguém. Que queria eu quando mandei reunir o conselho? Talvez olhar pela última vez nos olhos de meus aliados, mas às vezes perdia a conta dos que ficaram nos campos vermelhos da batalha.
Tomei fôlego e, enfim, abri a porta. A conversa que ia alta cessou automaticamente, enquanto os três marechais tentavam sustentar os olhares em mim. Arrastando o passo, neguei-lhes o cumprimento e joguei-me pesadamente no trono. Após as reverências costumeiras, que agora me entediavam, eles começaram.
– Já faz doze dias, meu Senhor, que as tropas aguardam por ordens. Depois do último motim, os soldados ficam cada vez mais inquietos.
- Mande-os plantar verduras – disse.
Sobressaltado, Roberto de Messina calou-se e olhou surpreso para os outros convivas. Então, o Conde de Goulac tomou a voz.
- Meu Senhor, alguns soldados disseram ter visto mulheres saindo da cidade para terem relações com os inimigos. Alguns de nossos aldeões já juraram fidelidade a ele! Temos que fazer alguma coisa!
- O mesmo, provavelmente – disse eu esticando a mão para o copo de vinho que me era oferecido pelo pajem. – Calem-se – falei sem forças – não vêem que não temos mais alternativas? O inimigo nos cerca há semanas. Que resistência temos a oferecer? Em pouco tempo estaremos queimando as flechas de nossos arqueiros para nos mantermos aquecidos à noite! Na verdade, nem sei por que reuni o Conselho... ou talvez tenha medo de admitir que fomos derrotados...

Ao simples som dessa última palavra, os três guerreiros estremeceram. Eram todos experientes nas batalhas, nos ataques, nos movimentos de defesa e aniquilação. Mas nenhum deles nunca tinha sofrido um cerco. Era de se admirar a coragem desses homens, mas em meu estado de espírito, não me enganava mais com coragem e bravura. Agora não passavam de romance e canções de bardos.
- Talvez o Senhor tenha razão, Majestade – disse Luc de Gussy quebrando o silêncio que se arrastava – Seria melhor entregarmos a cidade e evitarmos o confronto. A superioridade de nosso inimigo é patente! Acredito que já poderiam ter entrado na cidade, se quisessem. Mas a sua crueldade é tanta que preferem degolar-nos magros para que sangremos pouco e rápido.
- Nunca! – Antecipou Roberto – Não podemos nos curvar diante de nosso inimigo! Morreremos de qualquer forma... ou você acha que seríamos libertados para vagar e tentar juntar um outro exército. E mesmo se ficássemos livres, quem se disporia a lutar ao lado de desonrados!? Majestade, – disse ele após engolir seco – já que não temos escolha, devíamos armar nosso exército e atacá-los frontalmente, esta noite! Pelo menos assim nossos nomes não ficariam sujos na memória dos tempos!
- Em verdade... suicídio também é uma opção... – disse eu irônico – Não sou um guerreiro, Roberto. A vitória para mim sempre foi a paz. Agora que não vejo mais saída, minhas energias se esvaem como a areia de uma ampulheta, esperando a hora de cair o último grão.
Tinha vontade de chorar, mas minhas lágrimas secaram há tempos. Tinha medo de morrer, mas alguma coisa me impedia de engolir arsênico ou cravar uma adaga no próprio peito. Se pelo menos meu pai estivesse aqui... – pensei.

Depois escreveu isso AQUI.
Depois isso AQUI.
E, finalmente, porém sem ser o fim, AQUI.
E pediu que não rissem do excesso de reticências e dos erros de português.

8 de dezembro de 2010

Obrigados


Te agradeço a firmeza de propósito
O exemplo cáustico, o abraço tenro
Te agradeço pelo apoio pleno
Teu olhar ingênuo, pelo que foi dito
Te agradeço de todo peito aflito
Do pedestal que desço, o degrau vencido
Te agradeço pela franca estada
E por ter permanecido
Pela lucidez e pelo pranto
Pela dor e o desencanto, pelo sangue invisível
Os cabelos brancos
Por todos esses solavancos do meu ser corruptível
Pelos cristais quebrados que eu pensava diamantes
Pelo peito arfante e encurralado
A mão estendida, a faca e a ferida
Que sangra ainda nesse obrigado

***

Te agradeço pela hora errada
Pelas mil palavras certas
Pela porta cerrada e janelas abertas
Pela suposta ordem e presunçoso equilíbrio
Pelo brilho ainda que fugaz
Pelo caos e a tempestade a se formar
Te agradeço pelo sonho e por antever o caminho
Que mesmo sozinho tenho estado a trilhar
Te agradeço o silêncio
Que nos facilita, verdade infinita a nos amparar
Se me torno eloqüente é como compenso
O vazio de um mundo a se transmutar

***

Te agradeço por ter vindo a mim
Em gritos e impropérios
Num esforço subrenatural
Te agradeço o susto
E as palavras corrosivas do seu ideal
Te agradeço o despertar
Mesmo esse que requer meu suor
O caminho foi escolhido
E os passos que dou para te fazer melhor
Te agradeço a oportunidade
Que tua ira me dá de renovação
Vou pagar meus pecados
Que tu testemunhas a pleno pulmão
Te agradeço menos pela forma e mais pelo conteúdo
Que me deu pistas de como evitar
O mal que se desprende de tudo
Tem tudo em si mesmo para bem terminar

***

Te agradeço o sorriso fácil
Que é meu e que te empresto
Te agradeço as perguntas simples
Cujas respostas não contesto
Te agradeço o olhar entregue
E o murmúrio noturno que me faz insone
As primeiras palavras, não há quem negue
A origem que levas no nome
Te agradeço o abraço frágil no qual não caibo
Do beijo estalado na ponta dos lábios
Ao beiço lacrimoso na hora que dorme
Te agradeço esse amor enorme
Que só desprende de você
Agradeço a bendita hora em que vieste
Na pequenina forma de bebê
E pela magia em torno de ti
De encher meus olhos com água salgada
Te agradeço por ser quem tu és
Sem passado, só presentes e mais nada

6 de dezembro de 2010

Eles não tinham uma música

Eles não sabiam que livros haviam lido em comum muito menos discutido sobre os clássicos. Ela não sabia dos doze níveis do Inferno nem ele conhecia os efeitos do soma. Ele nunca tomou rivotril e ela nunca cheirou loló. Eles não sabiam as bandas preferidas um do outro nem tinham compartilhado um fone de ouvido. Eles não tinham uma música.

Ele nunca soube se o colchão dela era macio ou duro, mas sabia de suas dores nas costas. Ela nunca soube quantas camisas ele tinha, apesar de saber que gostava de usá-las para dentro da calça. Ele nunca soube qual era cor preferida dela, apesar de notar o arco-íris nas suas unhas. Ela nunca soube qual era o nome do perfume dele, apesar das horas perdidas sentido-o exalar de seus antebraços.

Ele nunca soube como ela dirigia, apesar de saber que ela tinha saudades do carro. Ela nunca o vira usando óculos e depois duvidou que seus olhos verdes fossem naturais sob as lentes de contato. Eles nunca pegaram ônibus ou metrô juntos. Ela nunca o viu tomar café. Ele nunca a viu andando de bicicleta.

Eles nunca discutiram um filme que acabaram de assistir nem ela o tinha visto parar o filme chamando atenção para um movimento de câmera. Ele nunca a viu escrever comentários no livro que estava lendo. Ela nunca o viu gritar de dor nem ele a viu chorar de raiva. Eles nunca tinham visto juntos o sol nascer ou se pôr. Nunca tomaram café-da-manhã, nem vinho, nem vodka. Eles nunca tinham dançado nem se jogado no mar vestidos de madrugada. Ele nunca havia pedido trocados a ela para comprar chiclete.

Ela nunca treinou técnicas de pompoar com ele. Ele nunca a tinha feito perder o controle. Ele nunca a tinha visto de cabelos presos ou azuis ou naturais. Ela nunca o tinha visto inventar músicas com seu nome no refrão.

E ainda assim, eles se despediam como se já tivessem descoberto tudo um do outro. E ainda assim eles calavam a dor e seguiam em sentidos opostos fechando as portas atrás de si sem cliques ou rangidos.

Eles não tinham uma música. Talvez por isso tenham se despedido em silêncio.