15 de dezembro de 2017

Dicas valiosas de uma ganhadora do Pulitzer

A escritora americana Jennifer Egan ganhou o premio Pulitzer na categoria ficção em 2011 pelo livro "A Visita Cruel do Tempo". Ela esta na lista de autores entrevistados por Meredith Maran, que inclui ainda outros grandes nomes como Isabel Allende, Mary Karr e Walter Mosley, entre outros,  para o excelente livro Why We Write e nos brinda com algumas sugestões para autores iniciantes. Entre elas:

- Leia ao nível que deseja escrever. A leitura é a nutrição que alimenta o tipo de escrita que você deseja criar. Se você gosta muito de Y, provavelmente sera difícil escrever sobre X.

- Fazer exercícios é uma boa analogia para a escrita. Se você não esta acostumado a exercitar-se, você sempre da um jeito de evitar. Se esta acostumado, lhe parece estanho e desconfortável quando não se exercita. Não importa onde você esta em sua carreira, o mesmo vale para a escrita. Mesmo quinze minutos por dia o manterão no habito.

- Você só poderá escrever regularmente se estiver disposto a escrever mal. Não é possível escrever regularmente bem. Você deve aceitar a escrita ruim como um aquecimento que o tornara apto a escrever bem.

Em resumo, escreva sempre que puder, pelo tempo que puder. Com o habito, vamos nos tornando melhores.

Para o livro premiado A Visita Cruel do Tempo, clique aqui http://amzn.to/2CAPx6u
E para a excelente coletânea de entrevistas com grandes autores Why We Write por Meredith Maran (infelizmente ainda não disponível em Português), clique aqui http://amzn.to/2j4QTy0

11 de dezembro de 2017

Receitas de Umberto Eco para a escrita criativa

Quando é a hora certa de começar a escrever? Em seu livro "Confissões de um jovem romancista" o grande filosofo e ensaísta italiano Umberto Eco nos brinda com inúmeras observações importantes para nós  que estamos dando os primeiros passos no Império das Letras.

Para ele, a motivação em escrever um romance pode ser nenhuma e que isso já é um motivo razoável. Basta querer e você pode ser um escritor. Para ele, essa vontade surgiu depois dos 65 anos, já um consolidado acadêmico mas que nunca havia escrito um texto "criativo". A própria definição de texto nessa ambivalência "criativo" versus "cientifico" não existe, segundo Eco. Para ele, não ha como negar a criatividade nos textos de Galileu, por exemplo, usado nas escolas da Italia exatamente como exemplos de criatividade.

Seu primeiro romance, O Nome da Rosa, foi fustigado pela critica que, entre outras maliciosas afirmações, sugeriu que o livro so teve tamanho sucesso por ter sido feito por um computador. Eco, claro, tomou a pena mais uma vez e, em resposta a esse infeliz comentário, escreveu abaixo, com a ironia que lhe é peculiar, uma receita para o uso do computados para se escrever um best seller.

Em primeiro lugar, claro, urge ter um computador, uma máquina inteligente que pensa por você – o que é uma clara vantagem para muita gente. Basta um programa de poucas linhas; até mesmo uma criança pode fazer isso. Então, alimente o computador com o conteúdo de uns cem romances, obras científicas, a Bíblia, o Corão e um monte de listas telefônicas (muito úteis para os nomes dos personagens). Digamos, algo em torno de 120 mil páginas. Depois disso, usando outro programa, você os randomiza; em outras palavras, combina todos os textos, fazendo alguns ajustes – por exemplo, eliminando todos os “e”s – de modo a não obter apenas um romance, mas um lipograma à George Perec. Então você clica
em “Imprimir” e, já que pediu para eliminar todos os “e”s, o resultado será algo mais curto que 120 mil páginas. Depois de lê-las com cuidado várias vezes, sublinhando todas as passagens mais significativas, você as joga no incinerador. Então simplesmente se senta embaixo de uma árvore, com um pedaço de carvão e um papel de desenho de boa qualidade, e, deixando a mente divagar, escreve dois versos: “A lua está alta no céu/ O bosque sussurra”. Pode ser que não surja logo um romance, mas um haicai japonês. Entretanto, o importante é começar.

Não poderia ser mais claro. O importante é começar. Em algum momento aquele começo se fara desenrolar em um historia digna de ser contada e lida. Não tenha medo de dar o primeiro passo, ouvir sugestões e acatar somente aquelas que realmente ache relevantes.

Para mais sobre Umberto Eco:

Seu primeiro romance O Nome da Rosa - http://amzn.to/2Bc27eM
E este que referencio Confissões de um Jovem Romancista - http://amzn.to/2kZ8ETM

7 de dezembro de 2017

Novo dia do mesmo

Esse silêncio natural
de quem sabe o que faz
a ilusão de controle
o peito se debate inteiro
e só sossega em devaneio
com o frio que a noite traz

Tua luz sumindo aos poucos
teus olhos, teu pescoço
toda tua tenra pele
vira pó com a distância
e eu, por pura ignorância,
ainda torço que me leve

E tu, tão bem postada
tão feliz e bem amada
não me lembro o que quis de mim
Agora sofro de mão atadas
convencido, não há mais nada
que me desvie desse fim

Me conformo, pois a vida
pune com amor sincero
as palavras que escrevo
E, enfim, aprendo de saída
que acima das coisas que quero
estão as coisas que devo

6 de dezembro de 2017

Antes da minha morte

Como pode esse vazio entre tantas coisas a pensar
Me parecem mais desvios
tudo isso a me ocupar

A premissa de ter ofusca o ser
ou talvez, ao meu redor, ninguém tenha mais esse afã
já estão todos sublimados, engoliram a maçã

Acho tudo tão normal, monotonia me entedia
é tanta coisa no meu dia que me pego volta e meia
a me pensar em outro mundo, onde o que hoje me rodeia
não seja mais que ócio, criativo, não o tédio, essa teia!

Outro mundo onde a tinta, que rabisca nesse branco
flua em total sintonia, com o que escuto pelos cantos
pelos desterros da minha mente, essa bagunça sem primor
e que tudo acabe em versos, vindos d`alma com amor

Pois que entre tudo do meu dia, apenas isso ponho a parte
como se fosse dispensável alguém de nós viver sem arte
e eu mesmo vou me flagelando, empurrando para o lado
algo meu, fundamental, e que devia ser falado

E é com esforço, quase forçado, que me meto a escrever
apenas para que a pressão interna possa se restabelecer
São apenas balbucios, mas, diligente, ainda procuro
um momento iluminado donde me saia algo de puro

Até lá vomito incoerências, sou eu na carne
rabiscando a confusão que fez casa no meu cerne
Alguma hora algo palpita e, com sorte,
encontro o que valha a pena ser dito antes da minha morte

Quem publica no Brasil?

O Império das Letras, em sua atribuição de incentivar novos autores e vozes ainda não ouvidas, publica abaixo seu primeiro censo. Um esclarecimento deve ser feito, antes de prosseguirmos: a pesquisa cujos dados serão apresentados abaixo são fruto de um estudo realizado com maestria pela Universidade de Brasilia (UNB) em 2015 e coordenado pela Doutora em Teoria Literária Dra. Regina Dalcastagnè com o objetivo de traçar os perfis de autores, personagens e enredos de romances publicados de autores nacionais. Logo, não é efetivamente um estudo patrocinado pelo Império das Letras, coisa que teríamos muito orgulho e satisfação em ter feito.

Sem mais delongas, vamos `as descobertas.

Quem é o autor brasileiro publicado?

É um homem! 70%-30%
É um homem branco! 90% (publicou-se mais negros durante a Ditadura Militar do que após a Redemocratização!)

Sobre o que escreve?
 Escreve predominantemente sobre homens heterossexuais, mas também sobre mulheres, contemporâneos (pós-1985) de classe média (60%) no contexto de uma grande cidade (86%).

Apesar de cruelmente restrita, a produção literária do Brasil é plural e rica de vozes diferentes e dissonantes do que vem sendo publicado. O Império das Letras se imbui de um papel de criador de relevância dessas vozes inauditas, contribuindo para a representação da diversidade e, no fim, para que o retrato do escritor brasileiro seja mais fiel a sua face real.

Para gráficos detalhados da pesquisa, acessem o Metropoles, aqui:
https://www.metropoles.com/entretenimento/literatura/pesquisa-da-unb-perfil-do-escritor-brasileiro-nao-muda-desde-1965/amp

E aqui para o texto publicado pela Dra. Regina Dalcastagnè: https://docs.wixstatic.com/ugd/d35737_86153db12c474ea6b059742881576ea5.pdf


4 de dezembro de 2017

Carta de Scott Fitzgerald a um jovem escritor

O Império das Letras tem como missão incentivar novos autores a escrever e todos aqueles que já escrevem, mas que não se consideram autores, a tirarem suas histórias da gaveta.

Sabemos que os primeiros passos nas searas deste Império são duras, cruéis e inseguras. Por isso, sempre que podemos, publicamos sugestões, dicas e experiências de autores já consagrados que possam orientar os novos.

Foi isso o que fez F. Scott Fitzgerald, autor de clássicos como O Grande Gatsby e O Curioso Caso de Benjamin Button, em 1938, quando recebeu por correio um conto de Frances Turnbull, seu amigo há muito distante, que lhe pedia uma opinião sobre a qualidade do escrito. Fitzgerald, além de responder-lhe com sinceridade sobre o texto, lhe escreveu linhas as mais inspiradas sobre o início da profissão, as quais reproduzo abaixo:

9 de Novembro, 1938
Querida Frances:

Eu li a história com carinho e, Frances, receio que o preço de fazer um trabalho profissional é bem maior do que você está preparada para apresentar. Você tem que vender seu coração, suas reações mais fortes, não as pequenas coisas que só te tocam levemente, as experiências que você está disposta a contar no jantar. Isso é especialmente verdadeiro quando você começa a escrever, quando você ainda não desenvolveu os truques de pessoas interessantes no papel, quando você não tem a técnica que leva tempo para aprender. Em suma, quando você só tem as emoções para vender.

Todos os escritores passam por isso. Foi preciso que Dickens colocasse em Oliver Twist o seu ressentimento passional de abuso e fome que o assombrou por toda a infância. As primeiras histórias de  Ernest Hemingway mergulharam no fundo de tudo o que ele sentira e conhecera. Em, “Este lado do paraíso”, eu falo sobre um amor que ainda sangrava como a ferida na pele de um hemofílico.

O amador, vendo como o profissional que já aprendeu tudo sobre a escrita pode transformar algo trivial como reações superficiais de três garotas comuns e transformá-las em algo sagaz e charmoso – o amador acha que ele ou ela pode fazer o mesmo . Mas o amador pode apenas transferir suas emoções para outra pessoa num expediente desesperado e radical como derramas sua primeira história de amor trágico do seu coração e o colocar nas páginas para o mundo ver.

Este é, de qualquer maneira, o preço da entrada. Quando você estiver preparado para pagar, ou quando ele coincidir ou conflitar com sua opinião sobre o que é “bom” cabe a você decidir. Mas, literatura, mesmo literatura leve, não aceitará menos de um neófito. É uma dessas profissões que exige “trabalho”. Você não estaria interessada em um soldado que é só um pouco corajoso.

À luz destes fatos, não me parece válido analisar porque esta história não é vendável, mas eu gosto demais de você para não levá-la a sério, como pessoas da minha idade o fariam. Se você um dia decidir contar histórias, ninguém estaria mais interessado que

Seu velho amigo,
F. Scott Fitzgerald

P.S. Eu devo dizer que a escrita é suave e agradável e algumas páginas são bem aptas e envolventes. Você tem talento  — o que é o equivalente a um soldado ter as qualificações físicas adequadas para entrar em West Point.

Você estaria preparado para uma crítica assim?

A carta foi publicada em Uma Vida em Cartas, ainda inédito em Português mas disponível aqui: http://amzn.to/2ifG2Rr

Para os clássicos de F. Scott Fitzgerald:
- O Grande Gatsby - http://amzn.to/2jKrPMI
- O Curioso Caso de Benjamin Button - http://amzn.to/2AtjPHV
- Este Lado do Paraíso - http://amzn.to/2jLS7xX
- Suave é a Noite - http://amzn.to/2AsBgZ1

F. Scott Fitzgerald fez parte da chamada "Geração Perdida" de escritores americanos que migraram para Paris para escrever e usufruir da vida boêmia que a cidade-luz oferecia. Ficou rico e famoso, mas perdeu toda a fortuna tendo morrido sem nenhum dinheiro, com sua mulher internada num manicômio. Deixou uma filha, Frances Scott Fitzgerald, jornalista e também escritora.

2 de dezembro de 2017

Uma rede entre Aristóteles e Zizek

Não é fácil navegar pelo Império das Letras sozinho. Ele é vasto e profícuo em atalhos, bifurcações e becos sem saída.

Por isso, uma boa cartografia faz-se necessária para a boa orientação. Com isso em mente, pesquisadores da Universidade da Califórnia desenvolveram um portal de navegação pela filosofia. Trata-se de uma catalogação de todos os filósofos, apresentada de maneira fácil de se observar as ligações e influências entre eles. Uma ferramenta genial para quem deseja dar seus primeiros passos na seara filosófica, tão importantes como base da seara literária que procuramos incentivar em nosso Império.

E para quem deseja se aventurar e conhecer os caminhos iniciais da filosofia, alguns volumes podem ajudar.

O Mundo de Sofia - um brilhante romance de Jostein Gaartner que nos narra as peripécias de Sofia Amundsen pela historia da filosofia - http://amzn.to/2iaDS5B
Filosofia: os autores, as obras - traz um balanco didático das abordagens dos filósofos mais influentes - http://amzn.to/2i8Wfrv
Historia da Filosofia Ocidental - um compendio fundamental escrito por Bertrand Russel acerca dos pensadores mais discutidos da história divididos em três volumes - http://amzn.to/2jEBzbb

A primeira romancista brasileira

Excelentíssima Senhora Dona Maria Firmina dos Reis.
Assim foi anunciada a autora do romance Ursula em 1860 nas páginas do jornal A Moderação, de São Luis, Maranhão.

Pelos predicados poderíamos pensar que a tal excelentíssima senhora tratava-se de uma mulher nobre, esposa de um senhor de engenho, talvez. Mas não. Dona Maria Firmina era negra, filha de mãe branca e pai negro, autodidata, professora e abolicionista. Seu romance Ursula versa sobre a questão abolicionista quase trinta anos antes de sua efetivação pela Lei Áurea.

Começou a ter contato com a literatura ainda moça sob os auspícios de uma tia de melhores condições financeiras e outros parentes, como Sotero dos Reis, tio e famoso gramático da época. Suas obra, no entanto, não ficou circunscrita ao romance. Além de Ursula (1859), publicou também o romance Gupeva (1862/1862), diversos poemas em vários jornais da época e um livro de poesias Cantos `a Beira Mar (1871) e compos diversas musicas, inclusive uma para a Valsa de Gonçalves Dias. Em 1887 publica seu conto A Escrava, uma critica aberta ao regime escravistas, posição que manteve e teve tanto destaque a ponto de compor um Hino `a Libertação dos Escravos, em 1888.

Uma excelente referencia sobre a escrita de Maria Firmina encontra-se no excelente A Escrita de Maria Firmina dos Reis na Literatura Afrodescendente Brasileira, (http://amzn.to/2khyFx2) de Algemira de Macedo, Doutora em Letras da PUCRS.

Para os novos e futuros autores que estão dando seus primeiros passos nas estradas desse Império das Letras, vale a pena conhecer os primeiros passos do romance no Brasil através da obra da Excelentíssima Senhora Dona Maria Firmina dos Reis.

28 de novembro de 2017

A coragem criativa

Uma das muitas ansiedades daqueles engajados em um trabalho criativo é a originalidade. Nos perguntamos: será que o que estou fazendo já foi feito? Tudo o que deveria ser escrito já o foi antes de mim? Que abordagem posso ter para que o que tenho a dizer seja interessante e único?

Diferente do que muitos pensam, o trabalho criativo não se resume a um estado contemplativo onde se espera a queda incondicional de uma inspiração ou um momento Eureka! Muito ao contrário, o trabalho criativo dá-se em meio ao caos. A confusão de influências, ideias, experiências e dúvidas que se embaralham de tal forma que, não raro, torna-se hercúlea a tarefa de criar algo realmente relevante. E é nesse turbilhão em que se encontra a tal inspiração, ou melhor, um fio solto que, quando puxado, por vezes encontramos uma história que valha a pena ser contada.

Já que, portanto, esse trabalho inclui a navegação sem GPS dentro de nossas influências e referências, trazer algo que já foi escrito ou uma forma de se expressar que já foi usada é totalmente válido. Aliás, o grande trabalho criativo inicia-se com a análise de tudo o que se possa analisar do que já foi escrito ou dito sobre o tema abordado. Saber o ponto onde se encontra a discussão é o pontapé inicial para ter sobre ela a sua própria abordagem.

Oliver Sacks em seu ensaio "O Eu Criativo", publicado na coletânea "O Rio da Consciência" aponta que muitos escritores, sejam eles literários ou científicos, escolhem não dar aquele salto de criatividade, aquilo que Schopenhauer aponta como a diferença entre o talento e a genialidade, preferindo permanecer no ápice do domínio da arte, ao invés de aventurar-se em busca de uma expressão realmente única. No livro, Sacks se pergunta "Por que dentre as centenas de alunos do Instituto Julliard de música ou tantos cientistas brilhantes sob os auspícios de excelentes professores, apenas alguns poucos comporão sinfonias memoráveis ou farão descobertas de maior importância? Sera que `a maioria, apesar de seus dons, ainda lhes falta alguma centelha criativa maior? Será que lhes faltam alguma característica além da criatividade que seja essencial para a realização criativa - como ousadia, auto-confiança, independência de pensamento?"

Dessa forma, não se preocupe se achar que lendo Saramago, você se veja propenso a uma prosa sem pontuação. Ou tendo lido Kerouac, esteja dando muitas voltas e digressões em vez de ater-se puramente a argumentação ou até mesmo aquele excesso descritivo que veio, com certeza, da leitura de Victor Hugo. É fato que nos influenciamos, não podemos negar isso. Então, que tenhamos a coragem de fazer dessa influência algo novo, algo que deixe orgulhosos aqueles que nos influenciaram, sem nos preocuparmos com as críticas, pois elas virão e pode ser que os críticos não entendam de primeira nossa proposta e que, só com o tempo, possamos realmente ser reconhecidos.


27 de novembro de 2017

Queda Livre

Quanta confusão
um turbilhão e tudo acontecendo
nos calores da emoção
percebo o mundo se movendo

E, de repente, o vazio
o silêncio que invade tudo
no fundo do peito aquele frio
cala sob sangue um grito agudo

Querendo e não querendo
mover-se é se manter parado
com a língua já ardendo
se convencendo de estar errado

21 de novembro de 2017

Minha pequenez

Dos teus olhos tiro a ternura
nos teus braços, proteção
me encontro da procura
que me aperta o coração

Dos teus lábios, teu sorriso
mesmo raro, hoje em dia
ele é meu combustível
a gerar tua alegria

Em ti há algo inexplicável
que me arrebata como um transe
já lutei, mas implacável
é a natureza do romance

Vejo em ti minha pequenez
o quanto tenho a evoluir
e ao teu beijo, quando em vez
sinto alma e corpo se fundir

E vejo a minha natureza
o mal e o bem que trago em mim
me curo em tua beleza
quero ser teu trampolim

Ver-te voar em salto ornamental
é o que me foi escrito
e abraçando essa vontade universal
me restauro o peito aflito

E se Hemingway te desse algumas dicas?

Em 1934, o aspirante a escritor Arnold Samuelson deixou a pacata Minnesota, nos EUA, e pegou carona até Key West para encontrar-se com o, na época, já aclamado escritor Ernest Hemingway. Samuelson recusou-se a pagar os U$ 5,00 de seu diploma em jornalismo e pegou a estrada acreditando que seria mais proveitoso para sua carreira literária estar com um grande escritor.
Sua viagem foi proveitosa e se frutificou no livro "With Hemingway - a year in Key West and Cuba". No livro durante um ano entre os EUA e Cuba, ainda inédito no Brasil, Samuelson conta como foram seus dias e seu aprendizado ao lado do escritor.
Hemingway, por fim, presenteou Samuelson com uma lista de 10 livros imprescindíveis para quem deseja ser um escritor de qualidade. Abaixo segue a lista e a imagem do papel onde o próprio Hemingway anotou, como um presente para Samuelson.
The Blue Hotel - Stephen Crane (ainda inédito no Brasil)
The Open Boat - Stephen Crane (ainda inédito no Brasil)
Madame Bovary - Gustave Flaubert
Dublinenses - James Joyce
Servidão Humana - W. Somerset Maugham
Anna Karenina - Leon Tolstoi
Guerra e Paz - Leon Tosltoi
Os Buddenbrook - Thomas Mann
Hail and Farewell - George Moore (ainda inédito no Brasil)
Irmãos Karamazov - Dostoiévski
O Livro de Versos Ingleses de Oxford (ainda inédito no Brasil)
The Enormous Room - E. E. Cummings (ainda inédito no Brasil)
Longe e Há Muito Tempo - W. H. Hudson
The American - Henry James (ainda inédito no Brasil)
Além desses, Hemingway indica também, fora da lista mas durante as conversas com Samuelson, As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain.
Preparado para pegar carona também nessas dicas de Hemingway?
Para se iniciar no próprio Hemingway, recomendo "O Velho e o Mar" e "Por Quem os Sinos Dobram".

9 de novembro de 2017

Império em Expansão

Queridos quinze seguidores,
chegou a hora de modernizar o Império. 

Este endereço serviu ao seu proposito e continuará aqui, porem não será mais capital do Império das Letras. Aqui permanecerão as ruínas para nos lembrar de onde viemos e por que caminhos percorremos.
A nova capital do Império das Letras se encontra agora modernizada, planejada e com outro propósito: o de se tornar cosmopolita. Lá, novos textos próprios e de novos autores serão bem-vindos e, com esse afluxo de culturas, espero transformar o lugar em um ponto de referencia para os iniciantes que querem dar seus primeiros passos em direção a publicação e também aqueles que desejam incentivar a produção desses novos autores.

Então convido a todos a seguirem, a partir de hoje, o endereço

https://www.facebook.com/imperiodasletras/

Ate la.

5 de setembro de 2015

De madrugada

No inverno, teu abraço frio
durante a madrugada morro e crio
sofro sem papel à mão
Não me interrompo, absorvo
a luz, a visão, o sopro
me eleva a alma à inspiração

Rimo solto, conjugo inusitado
mil palavras de mil significados
com as quais sublevaria meu leitor
conclusões, epifanias
uma licidez que tanto abrandaria
meu peito e de tantos ao meu redor

Mas eis que inadvertidamente
invariavelmente
desperto e volto a ser eu
nem uma simples pista
sequer lembrança da conquista
da compreensão que a madrugada me rendeu

4 de setembro de 2015

Não me abandone (Ne me quittes pas - Jacques Brel)

Não me abandone
Você deve esquecer
Tudo se pode esquecer
Tudo o que passou
Esqueça o tempo
de desentendimentos
O tempo perdido, tentando entender
Esqueça os momentos
Que mataram `a força da razão
A felicidade
em nosso coração
Não me abandone, Não me abandone, Não me abandone, Não me abandone

Te ofertarei
Perolas de chuva
Vindas dos lugares
onde nunca chove
Escavarei a terra, até que eu pereça
Para cobrir teu corpo
De ouro e de beleza
Fundarei um império
Onde o amor será Lei
Onde o amor será Rei
E você, Princesa
Não me abandone, Não me abandone , Não me abandone, Não me abandone

Não me abandone
Eu te direi tolices que vais entender
E te contarei
sobre o casal de amantes
A sentir mais de uma vez
Os corações flamejantes
Contarei a historia deste Rei
Morto por não poder
te ter como era antes
Não me abandone, Não me abandone , Não me abandone, Não me abandone

Mas não poucas vezes
Vemos o fogo explodir
de um antigo vulcão
que críamos inativo
E da terra em brasa surgir
O mais puro trigo
Como na melhor estação
E quando a noite chegar
Por um céu em chamas
O vermelho e o negro
Não se esposam jamais
Não me abandone, Não me abandone , Não me abandone, Não me abandone

Não me abandone
Não mais vou chorar
Não mais vou falar
Me esconderei
A te observar
Dançar e sorrir
E a te escutar
A cantar e depois rir
Deixe me tornar
A sombra da tua sombra
A sombra da sua mão
Bicho de estimação

Não me abandone, Não me abandone , Não me abandone, Não me abandone 

21 de março de 2013

Da Natureza das Coisas


o sol queima doloroso
como um tição a marcar o dorso
da rés que rumina o verde pasto
e não somos todos reses
nesse mundo vil e vasto?

a noite traz com a lua fria
a palavra de uma promessa vazia
cravando no peito a verdade absoluta
é da natureza das coisas 
que o vinho se transforme em cicuta?

essa marcha incessante
a passos firmes para um horizonte
que nos conclama à felicidade
sob uma chuva de insatisfações
será ilusão essa nossa verdade?

paro, fecho o guarda-chuva
e me molho e sob a visão turva
me vejo fundido à pastosa vida
entrelaçado por rancores, 
buscando amores sob o pus das feridas

no chão, água e sangue são um só
enquanto me desfaço no pó
das cinzas de alguém que um dia fui
é da natureza das coisas
que seja o pó o mal do mundo, se conclui

e é dessa mistura louca
de sangue, pó e outra coisa pouca
que um dia fomos nós moldados
mas é da natureza das coisas
que todos os erros sejam reparados

o tanto mal que ainda nos resta
e que escorre de nós por cada fresta
levará séculos a ser redimido
pois é da natureza do tempo
fazer com que os desvios sejam corrigidos

o sol imortal então nos dará a certeza
pois é da sua natureza: o fogo tudo renova
queima até que diminua
o mal que se esconde, sorrateiro, no lado escuro de nós
no lado escuro da lua

12 de março de 2013

Essa Raça

Todo escritor é solitário
não por opção mas por hábito
uma fome de palavras e significado
é por isso que faz tudo com zelo
superando cada doce apelo
que vem lhe distrair enquanto concentrado

Todo escritor é meio louco
e berra com a caneta para não ficar rouco
o que prova também não ser burro
é por isso que escuta conselhos
e mesmo se esquivando de espelhos
rima seus reflexos espatifados a murro

Todo escritor é meio santo
procurando abraços e acalanto
enquanto fritam seus neurônios
é por isso que em vez de crescer
deixam  a barba por fazer
e se disfarçam de demônios

Todo escritor fala mesmo ao vento
sem se importar se há ouvido atento
sua experiência não é tátil
é metafísica, extemporânea
e por isso ao organizar sua coletânea
o que procura mesmo é uma alma fértil

Todo escritor é uma bagunça
uma pia a suportar um mês de louça
imagine quanto fedor
é por isso que quando faz sua faxina
se organiza em prosa e rima
depois convida o mundo a ser leitor

19 de outubro de 2012

Mesmos

Mesmo se o céu, mesmo se o mar
Mesmo se um dia tudo mudar
Mesmo se a noite nunca acabar
Mesmo se o sol parar de brilhar
Mesmo se a distância nos separar
E o olho secar e o peito apertar
Mesmo que a vida me force a lutar
Mesmo se a lua não iluminar
E pelas ruas eu continuar
E sentado na esquina eu tiver que esperar
E durante as festas eu me maltratar
Mesmo se palavras eu não encontrar
E mesmo se a música parar de tocar
Mesmo se a lembrança se embaralhar
Mesmo se o mundo parar de girar
Mesmo que as ondas tentem me afogar
Mesmo se a mistura nunca funcionar
Se a cadeira quebrar e a corda arrebentar
Mesmo que não tenha quem me consolar
Ou um copo gelado a me confortar
Mesmo sem colo onde repousar
Mesmo se tudo me condenar
Mesmo se a chuva parar de molhar
Ou se em fogo eu me incinerar
Mesmo se um dia eu esquecer seu olhar
Mesmo se nunca mais voltar
Jogado num canto escuro do bar
Ou ajoelhado na nave a orar
Mesmo que já não sobre lugar
Mesmo que eu tenha que me apertar
Mesmo se a brisa parar de soprar
E o sétimo inferno vier me buscar
Se o paraíso me rechassar
Se meu mais caro amigo me abandonar
Mesmo se um dia eu sofrer sem chorar
Ou mesmo viver sem ninguém magoar
Mesmo se tudo ficar como está
Mesmo se o afeto não impressionar
Se no fundo já esteja farto de esperar
Não se engane, querida, não vou descansar
Enquanto em meus braços não te embalar
E de olhos fechados me ouvir sussurrar
O quanto de amor eu lhe tenho para dar.

19 de setembro de 2012

Quando o dia raiar

Quando o dia raiar, não terás mais tormento
Não terá mais sentido o lamento
o sussurro que me chega do fim
Não abrigarás sentimento
que julgas ora bom ora ruim
Quando o dia raiar, o sol trará grito e aplauso
abraço entremeado de riso
corpos entregues ao mesmo movimento
Lembra que a noite passou num instante
e que, exausta, de peito arfante
ainda via a  beleza daquele momento

Quando o dia raiar te esqueças da dúvida
a se concentre na dádiva
o bem que faz amarmos assim
E quem sabe outra hora, em outro ambiente
num dia que te encontres contente
por receber o tanto de amor que flui de mim
possa enfim libertar o sorriso, espontaneamente
esse lindo sorriso que sob corrente
você guarda fundo dentro de si
Nesse dia, o sol nascerá a pino
e de longe se escutará o sino
solitário anunciando o fim do fim

Quando o dia raiar, terás tudo e de peito leve
e aquilo que tem sido lindo e breve
fará parte do todo que és tu por completo
permanecerá na memória, indelével
resistindo com energia invejável
como a imagem de nós refletida no teto
Corro o risco então da loucura
de mãos dadas num dia e noutro à procura
das tuas palavras que me dão sustento
do teu beijo que me percorre lento
e dissipa a mais profunda amargura
Da nossa sintonia pura que é meu alimento
sobrevivo de ti com toda fartura
enquanto estiver no teu pensamento

11 de setembro de 2012

Saudades 1

No meio do dia tropeço na saudade. Doído, meu peito arde por não sentir-te sobre ele. Tu cabias inteira ali respirando entregue ao sono. Mesmo crescida me confiava em abandono.
Onde estão teus chutes que, mesmo pai, senti à noite. Onde está seu choro ao qual, mesmo insône, socorria-te.
Teu sorriso que é meu. Teu jeito que é meu. Cada dia mais longe e eu, comprimindo a tristeza, a falta, o cinzento do dia que é o dia sem te ver.
Não te esqueças de mim, peço eu ao anjo invisível, desconhecido enquanto escrevo. Tu és a coisa mais importante para mim. Sinto a ausência dos teus pequenos braços, da tua confiança, da tua rebeldia e obediência. Da tua voz gargalhando e chorando, negociando. Seu corpo que eu cuidei tão bem. Estalar seus dedos, secar suas lágrimas, pentear seus cabelos. Rir, correr, cair, brincar. Minha infância é sua. Sua infância é a minha segunda chance.
Se me arrependo de algo é a distância entre nós. Se choro por algo é a falta que você me faz. Se torço por algo é que passe logo e fiques do meu lado uma vez mais, tanto quanto quiser.
Cresça comigo, converse comigo. Sua inocência, suas confidências, seus segredos. Nossas mágicas. Cócegas, café-da-manhã com seus pés sobre minhas pernas. Te lembrarás disso?
Teu carinho, teu abraço. Choro, choro e choro sentindo a sua falta.