Esta noite sonhei com um primeiro beijo. Você vinha longe cercada por uma aura colorida e suave, quase levitando. Seu vestido parecia fluido, tremulando em volta do corpo, escondendo e revelando curvas; às vezes frágeis, às vezes generosas.
Seus olhos – achas ardentes a marcar a face clara e sublimada – deixavam um rastro de minúsculas pedras preciosas como uma corte de fadas seguindo pelo caminho anunciando tua aproximação. Deles partia um olhar infinito, misterioso e corrosivo. Úmido apesar de petrificado no meu e prestes a derramar-se em júbilo.
Vinha com as mãos estendidas como quem distribui dádivas, compartilha calor e abençoa condenados. A sombra dos seios a marcar rijos o caimento do tecido evanescente. Finalmente parou diante de mim colocando-me em estado de epifania. Vi de muito perto a tempestade de cabelos escuros escorrendo em cachoeira sobre os ombros eternos e o colo macio.
Entreabertos como buracos-negros, nossos lábios se atraíram numa gravidade lasciva e o impacto de um milhão de estrelas me cegou. Não fechei os olhos e, mesmo cego, continuei vendo você.
Unimo-nos por um momento que passou longo demais para ser lembrado por inteiro e demasiadamente fugaz para ser aproveitado por completo. Corações pararam. Morri um pouco e renasci acordado, não querendo voltar para o sonho, mas me certificar de que seu primeiro beijo do dia fosse tão intenso e inesquecível quanto fora o meu.
O que lês quando não és forçado determina o que serás quando não tiveres escolha. - Oscar Wilde.
29 de outubro de 2010
25 de outubro de 2010
Celas de Aniversário
Pelas barras das celas do pavilhão cinco já havia corrido sangue demais. No piso de ardósia estavam marcadas como tatuagens de sangue indeléveis as tentativas frustradas de fugas e rebeliões passadas. Ainda era possível encontrar um dente perdido nos cantos dos degraus sob os corrimãos de aço fundido. Não havia cárcere naquele andar que não tivesse presenciado gritos de dor e choros sufocados de ira.
Sob essa atmosfera eram tratadas as tortas índoles daninhas à sociedade: oito detentos cujos crimes expiavam vestindo com o cinza de seus uniformes os longos dias cativos. As refeições frugais evitavam a preguiça, pois suas forças eram usadas para o trabalho na fábrica de tijolos que o presídio mantinha: seus esforços ajudariam a construir a sociedade e não mais destruí-la. Os banhos de sol eram curtos e as visitas escassas. Nesses dias específicos, seus corações empedernidos se amoleciam pela presença de um ente próximo (que poderia ser uma mãe arrependida ou um vizinho apiedado) ou pela simples ausência de alma que os quisesse bem ou mal. A sensação de abandono era trágica e, somada ao discurso dos psicoterapeutas que os acompanhavam, virava argumento motivador de mudanças de hábito, de amizades e de princípios.
O processo de domar essas pessoas com características tão extremas precisava utilizar-se de todas as oportunidades para a construção de símbolos que os fizessem produzir o esforço necessário para a mudança. Se um filme era projetado numa seção de cinema, sua mensagem deveria ter um conteúdo construtivo para o processo. A biblioteca exclusiva do pavilhão cinco encerrava obras de superação e perseverança. Uma orquestrada lavagem cerebral era posta em prática naquele pavilhão com resultados mais do que comprovados.
Nas paredes dos corredores de acesso às celas, rostos expunham esse sucesso. Albely de Souza, condenado a 19 anos de reclusão por tráfico de estupefacientes. Atual proprietário do hotel Alma Peregrina. Caetano Morais, condenado a 16 anos de reclusão por utilização de inimputáveis para prática de homicídio doloso. Atual chef do restaurante Ponte do Amanhã. E muitos, muitos outros exemplos de correção conseguidos pela instituição penal.
Os oito apocalípticos aspirantes a integrados, atuais moradores transitórios do pavilhão cinco, lutavam diariamente contra suas inclinações para, um dia, terem seus retratos pendurados naquelas paredes. Mas um deles pretendia algo diferente. Algo que o elevasse à condição transcendente de messias salvador.
Condenado por formação de quadrilha, uma condenação aparentemente menor em comparação às dos outros detentos, Ramiro foi o responsável pela organização criminal mais longeva e violenta do bairro onde morava. Sob seu comando estiveram onze meliantes responsáveis por crimes das mais diversas naturezas. Era um líder nato e, como tal, tinha a eloqüência necessária para aliciar tanto marginais quanto almas retas para seus esquemas. Conhecia a todos e mantinha-os perto fazendo-os acreditar que eram seus amigos. Era muito bom nisso.
Com sua capacidade ímpar de angariar informações, Ramiro descobriu que haveria algum evento interno daqui a três meses. Seu raciocínio rápido cruzou dois dados importantes que culminariam numa fuga perfeita: distração no mês de seu aniversário. Sairia da cadeia e comemoraria seus vinte e sete anos dentro do seu antigo covil, já preparando o próximo golpe.
Pôs mãos à obra e levantou o necessário: mapas, plantas, bilhetes, favores e concessões, tudo foi feito. Desenhou o plano e o caminho que faria através dos dutos de esgoto, as galerias pluviais e os corredores elétricos por sob a carceragem. Pronto. Precisaria de exatamente oitenta e sete dias entre o início das operações e a saída ao ar livre no dia do seu aniversário.
Apenas os mais confiáveis colegas de presídio sabiam do planejamento. Por mais que se sentisse auto-suficiente, teria que compartilhar algumas informações para conseguir privilégios e, no fundo, se sentir seguro, mas, principalmente, para ter de quem se vingar caso algo saísse do seu controle.
Como um bom gerente de projetos, foi ajustando alguns planos e se colocando algumas metas intermediárias, até que no octogésimo sexto dia, conseguiu chegar à saída de esgoto que precisava. Ela estava lá, disponível e desguarnecida. Apenas um empurrão o separava da sua liberdade. Nesse dia, voltou para dentro de sua cela com um sorriso estampado no rosto. Faria as coisas agora devagar. Sua última refeição em cativeiro a degustaria com calma, como se já estivesse na laje do seu barraco com vista para o mar.
No dia seguinte, com todos os presos em suas devidas celas, viu o movimento dos guardas no horário combinado em direção ao tal evento. Esperou ansioso até que se trancafiasse o último cadeado e engendrou seu plano. Entrou pela privada contorcendo-se pelo sifão, vocês não sabem a bitola dos canos de esgoto dessas instalações hoje em dia e o quanto um perito em fugas pode dobrar-se na direção de seu objetivo. Passou do esgoto para a rede pluvial, desta para as galerias e de lá para os corredores elétricos, como havia pensado. No fim de um corredor, as luzes entravam em fachos redondos por entre os buracos da pesada tampa de aço no teto do corredor. Subiu uma pequena escada e certificando-se que a luz era somente a da lua, forçou o pesado aço com os ombros, deslocando a tampa e, finalmente, fitou a amplitude do céu salpicado de estrelas.
No último impulso, aquele que damos para colocar o corpo todo para fora de um buraco onde não queremos estar, foi surpreendido por uma forte luz. O holofote havia sido ligado. Alguém o tinha delatado. Imóvel, não ouviu sirene, nem gritos de “pare” nem estampido de tiros, mas um coro dissonante de vozes conhecidas cantando “parabéns a você” enquanto as luzes da festa ao ar livre acendiam e revelavam qual era o inusitado evento em que guardas estariam no dia de seu aniversário.
Sob essa atmosfera eram tratadas as tortas índoles daninhas à sociedade: oito detentos cujos crimes expiavam vestindo com o cinza de seus uniformes os longos dias cativos. As refeições frugais evitavam a preguiça, pois suas forças eram usadas para o trabalho na fábrica de tijolos que o presídio mantinha: seus esforços ajudariam a construir a sociedade e não mais destruí-la. Os banhos de sol eram curtos e as visitas escassas. Nesses dias específicos, seus corações empedernidos se amoleciam pela presença de um ente próximo (que poderia ser uma mãe arrependida ou um vizinho apiedado) ou pela simples ausência de alma que os quisesse bem ou mal. A sensação de abandono era trágica e, somada ao discurso dos psicoterapeutas que os acompanhavam, virava argumento motivador de mudanças de hábito, de amizades e de princípios.
O processo de domar essas pessoas com características tão extremas precisava utilizar-se de todas as oportunidades para a construção de símbolos que os fizessem produzir o esforço necessário para a mudança. Se um filme era projetado numa seção de cinema, sua mensagem deveria ter um conteúdo construtivo para o processo. A biblioteca exclusiva do pavilhão cinco encerrava obras de superação e perseverança. Uma orquestrada lavagem cerebral era posta em prática naquele pavilhão com resultados mais do que comprovados.
Nas paredes dos corredores de acesso às celas, rostos expunham esse sucesso. Albely de Souza, condenado a 19 anos de reclusão por tráfico de estupefacientes. Atual proprietário do hotel Alma Peregrina. Caetano Morais, condenado a 16 anos de reclusão por utilização de inimputáveis para prática de homicídio doloso. Atual chef do restaurante Ponte do Amanhã. E muitos, muitos outros exemplos de correção conseguidos pela instituição penal.
Os oito apocalípticos aspirantes a integrados, atuais moradores transitórios do pavilhão cinco, lutavam diariamente contra suas inclinações para, um dia, terem seus retratos pendurados naquelas paredes. Mas um deles pretendia algo diferente. Algo que o elevasse à condição transcendente de messias salvador.
Condenado por formação de quadrilha, uma condenação aparentemente menor em comparação às dos outros detentos, Ramiro foi o responsável pela organização criminal mais longeva e violenta do bairro onde morava. Sob seu comando estiveram onze meliantes responsáveis por crimes das mais diversas naturezas. Era um líder nato e, como tal, tinha a eloqüência necessária para aliciar tanto marginais quanto almas retas para seus esquemas. Conhecia a todos e mantinha-os perto fazendo-os acreditar que eram seus amigos. Era muito bom nisso.
Com sua capacidade ímpar de angariar informações, Ramiro descobriu que haveria algum evento interno daqui a três meses. Seu raciocínio rápido cruzou dois dados importantes que culminariam numa fuga perfeita: distração no mês de seu aniversário. Sairia da cadeia e comemoraria seus vinte e sete anos dentro do seu antigo covil, já preparando o próximo golpe.
Pôs mãos à obra e levantou o necessário: mapas, plantas, bilhetes, favores e concessões, tudo foi feito. Desenhou o plano e o caminho que faria através dos dutos de esgoto, as galerias pluviais e os corredores elétricos por sob a carceragem. Pronto. Precisaria de exatamente oitenta e sete dias entre o início das operações e a saída ao ar livre no dia do seu aniversário.
Apenas os mais confiáveis colegas de presídio sabiam do planejamento. Por mais que se sentisse auto-suficiente, teria que compartilhar algumas informações para conseguir privilégios e, no fundo, se sentir seguro, mas, principalmente, para ter de quem se vingar caso algo saísse do seu controle.
Como um bom gerente de projetos, foi ajustando alguns planos e se colocando algumas metas intermediárias, até que no octogésimo sexto dia, conseguiu chegar à saída de esgoto que precisava. Ela estava lá, disponível e desguarnecida. Apenas um empurrão o separava da sua liberdade. Nesse dia, voltou para dentro de sua cela com um sorriso estampado no rosto. Faria as coisas agora devagar. Sua última refeição em cativeiro a degustaria com calma, como se já estivesse na laje do seu barraco com vista para o mar.
No dia seguinte, com todos os presos em suas devidas celas, viu o movimento dos guardas no horário combinado em direção ao tal evento. Esperou ansioso até que se trancafiasse o último cadeado e engendrou seu plano. Entrou pela privada contorcendo-se pelo sifão, vocês não sabem a bitola dos canos de esgoto dessas instalações hoje em dia e o quanto um perito em fugas pode dobrar-se na direção de seu objetivo. Passou do esgoto para a rede pluvial, desta para as galerias e de lá para os corredores elétricos, como havia pensado. No fim de um corredor, as luzes entravam em fachos redondos por entre os buracos da pesada tampa de aço no teto do corredor. Subiu uma pequena escada e certificando-se que a luz era somente a da lua, forçou o pesado aço com os ombros, deslocando a tampa e, finalmente, fitou a amplitude do céu salpicado de estrelas.
No último impulso, aquele que damos para colocar o corpo todo para fora de um buraco onde não queremos estar, foi surpreendido por uma forte luz. O holofote havia sido ligado. Alguém o tinha delatado. Imóvel, não ouviu sirene, nem gritos de “pare” nem estampido de tiros, mas um coro dissonante de vozes conhecidas cantando “parabéns a você” enquanto as luzes da festa ao ar livre acendiam e revelavam qual era o inusitado evento em que guardas estariam no dia de seu aniversário.
21 de outubro de 2010
Verdades
Venho revirando minha vida à procura de verdades e a única que encontrei até agora é que, por mais eternas que possam parecer, as verdades são mesmo é transitórias.
São transitórias porque nós não somos sempre os mesmos. Enganamo-nos querendo que as verdades se mantenham as mesmas tentando buscar uma coerência que a vida em si não tem. Teimamos em acreditar nelas mesmo quando elas zombam da gente já dentro do túmulo, mortas e enterradas.
Minhas verdades hoje são mais reflexo do que eu sinto do que dos meus pensamentos racionais. Se sentir raiva, essa é verdadeira. Quando passa a raiva e sinto afeto, esse é verdadeiro. Verdades absolutas são colunas dóricas em ruínas. Lindas e nos fazem refletir sobre o passado, mas são vítimas de uma tirânica obsolescência.
Verdade, verdade mesmo, é o que nos move a fazer coisas. Por isso, verdade é sentimento. Verdade se manifesta no tremor nas pernas e na contração no abdome. Quase podemos tocar a tensão no ar.
A coerência da vida ou esse prolongamento da vida útil de uma verdade só é possível com a manutenção do sentimento. O silêncio é árido e só espinho se cria nesse ambiente. Fazer uma verdade florescer diversas vezes ao longo da vida é uma questão de regar o sentimento que a sustenta. Essa água pode ser feita de saliva ou lágrimas, mas o importante é que esteja sempre fresca. Cabe-nos escolher quais verdades valem à pena serem regadas e quais devem secar e dar lugar a novas.
São transitórias porque nós não somos sempre os mesmos. Enganamo-nos querendo que as verdades se mantenham as mesmas tentando buscar uma coerência que a vida em si não tem. Teimamos em acreditar nelas mesmo quando elas zombam da gente já dentro do túmulo, mortas e enterradas.
Minhas verdades hoje são mais reflexo do que eu sinto do que dos meus pensamentos racionais. Se sentir raiva, essa é verdadeira. Quando passa a raiva e sinto afeto, esse é verdadeiro. Verdades absolutas são colunas dóricas em ruínas. Lindas e nos fazem refletir sobre o passado, mas são vítimas de uma tirânica obsolescência.
Verdade, verdade mesmo, é o que nos move a fazer coisas. Por isso, verdade é sentimento. Verdade se manifesta no tremor nas pernas e na contração no abdome. Quase podemos tocar a tensão no ar.
A coerência da vida ou esse prolongamento da vida útil de uma verdade só é possível com a manutenção do sentimento. O silêncio é árido e só espinho se cria nesse ambiente. Fazer uma verdade florescer diversas vezes ao longo da vida é uma questão de regar o sentimento que a sustenta. Essa água pode ser feita de saliva ou lágrimas, mas o importante é que esteja sempre fresca. Cabe-nos escolher quais verdades valem à pena serem regadas e quais devem secar e dar lugar a novas.
18 de outubro de 2010
Nova Iorque
Participo de um grupo de leitura com o objetivo de mostrar meus textos para um seleto grupo de autores mais experientes do que eu e, com as críticas, torná-los mais palatáveis a vocês, meus três leitores.
A maioria dos partcipantes escreve humor. Não é muito a minha praia, mas imbuído do espírito de colocar minha cara e minha caneta à tapa, escrevi logo para o primeiro encontro do grupo esse breve conto baseado em fatos reais, ou melhor, em uma narrativa de um amigo sobre um episódio que realmente aconteceu. Ele que me perdoe, mas queria muito anexar ao texto as caras que ele faz quando conta essa história. Não dando, aí vai:
Nova Iorque
Blue era a cor da mala que Luis acabara de despachar no check-in do aeroporto. Estava feliz da vida por ter conseguido juntar o dinheiro necessário para embarcar nessa que era a viagem dos seus sonhos: Estados Unidos. Sabia que a viagem seria solitária, mas nada tirava sua empolgação.
Desde sempre tinha curiosidade de conhecer Nova Iorque. Sabia de cor a localização das ruas que eram citadas nos filmes da TV. Tinha um mapa onde apontava os lugares como a Magnólia Bakery, melhor apple pie de NY, lá na Bleecker Street e o DeWitt Clinton Park onde disfrutaria de um passeio sossegado à margem do rio logo ali entre as 52nd e a 54th street. Mas gabava-se mesmo era de seu inglês. Sua meta era falar tão naturalmente que ninguém o identificasse como estrangeiro. Queria ter a fluidez de um cidadão novaiorquino e se esforçava tanto para falar da maneira que lhes é peculiar que chegou a se cadastrar em um desses programas de troca de cartas para se corresponder com um nativo e aprender as gírias e os palavrões diretamente dele. Era encantador ouvi-lo dizer motherfucker.
Quando juntou todo o dinheiro necessário, foi até uma agência de turismo reservar o pacote New York, New York: 4 dias e 3 noites com vista para o rio Hudson. Imperdível. O problema agora era segurar a ansiedade. Ninguém mais agüentava Luis gastando seu inglês com tudo. Não era difícil escutar um amazing quando algo o agradava ou um Oh, my! quando espantado.
Enfim chegou o dia do embarque e, como dito pelo próprio Luis insone, couldn’t sleep at all. O check-in correu bem. O embarque foi ótimo. Luis reservou uma poltrona na janela pois queria ver a cidade se descortinando aos poucos sob as nuvens. Estava absorto nesse pensamento com o avião já no ar quando foi interrompido pela aeromoça:
- Rélougentoumanduiuuantiuaitiuain?
Luis não se fez de rogado e emendou quase instantaneamente, pedindo que a aeromoça repetisse a frase pois não tinha prestado attention:
- Duiu-uanti-uaitiuain?
Nervoso, Luis hesitou um pouco mas pediu novamente que repetisse:
- Duiu-uantuaiti-uain?
A maioria dos partcipantes escreve humor. Não é muito a minha praia, mas imbuído do espírito de colocar minha cara e minha caneta à tapa, escrevi logo para o primeiro encontro do grupo esse breve conto baseado em fatos reais, ou melhor, em uma narrativa de um amigo sobre um episódio que realmente aconteceu. Ele que me perdoe, mas queria muito anexar ao texto as caras que ele faz quando conta essa história. Não dando, aí vai:
Nova Iorque
Blue era a cor da mala que Luis acabara de despachar no check-in do aeroporto. Estava feliz da vida por ter conseguido juntar o dinheiro necessário para embarcar nessa que era a viagem dos seus sonhos: Estados Unidos. Sabia que a viagem seria solitária, mas nada tirava sua empolgação.
Desde sempre tinha curiosidade de conhecer Nova Iorque. Sabia de cor a localização das ruas que eram citadas nos filmes da TV. Tinha um mapa onde apontava os lugares como a Magnólia Bakery, melhor apple pie de NY, lá na Bleecker Street e o DeWitt Clinton Park onde disfrutaria de um passeio sossegado à margem do rio logo ali entre as 52nd e a 54th street. Mas gabava-se mesmo era de seu inglês. Sua meta era falar tão naturalmente que ninguém o identificasse como estrangeiro. Queria ter a fluidez de um cidadão novaiorquino e se esforçava tanto para falar da maneira que lhes é peculiar que chegou a se cadastrar em um desses programas de troca de cartas para se corresponder com um nativo e aprender as gírias e os palavrões diretamente dele. Era encantador ouvi-lo dizer motherfucker.
Quando juntou todo o dinheiro necessário, foi até uma agência de turismo reservar o pacote New York, New York: 4 dias e 3 noites com vista para o rio Hudson. Imperdível. O problema agora era segurar a ansiedade. Ninguém mais agüentava Luis gastando seu inglês com tudo. Não era difícil escutar um amazing quando algo o agradava ou um Oh, my! quando espantado.
Enfim chegou o dia do embarque e, como dito pelo próprio Luis insone, couldn’t sleep at all. O check-in correu bem. O embarque foi ótimo. Luis reservou uma poltrona na janela pois queria ver a cidade se descortinando aos poucos sob as nuvens. Estava absorto nesse pensamento com o avião já no ar quando foi interrompido pela aeromoça:
- Rélougentoumanduiuuantiuaitiuain?
Luis não se fez de rogado e emendou quase instantaneamente, pedindo que a aeromoça repetisse a frase pois não tinha prestado attention:
- Duiu-uanti-uaitiuain?
Nervoso, Luis hesitou um pouco mas pediu novamente que repetisse:
- Duiu-uantuaiti-uain?
E isso ocorreu mais umas duas ou três vezes até que o senhor sentado à poltrona da frente perdeu a paciência e levantando, berrou “PORRA, DO... YOU... WANT... A... WHITE... WINE? WHITE WINE! VINHO BRANCO, ANIMAL! VOCÊ QUER UM VINHO BRANCO?
6 de outubro de 2010
Ainda bem que não tenho herpes
Ainda bem que não tenho herpes. Acho uma efermidae cruel. Ainda mais aquelas que se manifestam devido a algum desequilíbrio emocional momentâneo. Explode sobre os lábios como sirenes de emergência denunciando o momento difícil de seu portador.
Se fosse comigo, minha boca seria uma eterna chaga, um alarme como esses das garagens dos prédios que disparam à noite e não param mais de tocar. Sou grato aos deuses que me ungiram com a bênção da calvície, já que todos devem carregar algum gatilho metabólico congênito e vitalício.
Nos piores momentos, então, posso, como dizem uns, "olear os cabelos e levantar a fronte". Bem, olear os cabelos nem tanto, mas posso recolher-me ao meu sofrimento e compartilhá-lo somente quem eu quiser. Ainda bem que não tenho herpes. Tenho privacidade.
Se fosse comigo, minha boca seria uma eterna chaga, um alarme como esses das garagens dos prédios que disparam à noite e não param mais de tocar. Sou grato aos deuses que me ungiram com a bênção da calvície, já que todos devem carregar algum gatilho metabólico congênito e vitalício.
Nos piores momentos, então, posso, como dizem uns, "olear os cabelos e levantar a fronte". Bem, olear os cabelos nem tanto, mas posso recolher-me ao meu sofrimento e compartilhá-lo somente quem eu quiser. Ainda bem que não tenho herpes. Tenho privacidade.
4 de outubro de 2010
Vi o amor em José & Pilar
Minha segunda incursão no Festival do Rio foi bem melhor do que a primeira. Fui assistir José & Pilar, documentário que mostra o relacionamento do português José Saramago, prêmio Nobel de Literatura, com a jornalista e ativista espanhola Pilar del Río. E as primeiras impressões acontecerem mesmo antes de começar a ser projetado: 160 pessoas na sala (aliás, belo lugar o Cine Glória) entre senhorinhas, jovens moderninhos, filósofos, patricinhas e gente normal que nem eu (ou não). Achei a frequencia bem eclética, o que nos dá uma pista sobre a abrangência da obra do Saramago, as boas críticas que vem tendo e a qualidade do filme em si.
Antes de falar sobre esse filme, devo contar sobre a primeira incursão no Festival. O filme: Atrações Perigosas, dirigido e estrelado por Ben Affleck. Ok, ok...eu sabia que era estrelado mas não sabia que era dirigido. E foi exatamente esse o pior erro do filme que conta a história de uma gang de Boston especializada em assaltos a bancos e carros-forte. O protagonista vive uma crise existencial e decide parar depois do próximo golpe. Algo dá errado, a gang tem que seqüestrar a gerente do banco (coisa que nunca fizeram) e a gerente do banco mora no mesmo bairro que eles. Encurtando a estória, mocinho e mocinha se apaixonam, mocinha descobre que mocinho é do mal, mocinho tenta se desvencilhar das más amizades e não consegue, mata todo mundo, foge e deixa a grana do assalto pra mocinha fazer caridade. Fim. É isso. Apesar do bom argumento, é chato, bobo e mal interpretado.
Bem, voltando ao que interessa, José & Pilar consegue captar uma conexão que só uma relação de amor constrói. Quando pensamos num escritor, tendemos a imaginar uma vida apaixonante, criativa, sem rotinas e completamente entregue aos devaneios que, devidamente burilados, viram frases inesquecíveis. Pois o filme mostra uma vida literária atribulada, cheia de compromissos chatos, longos e aborrecidos. Viagens longas, doença, família e tudo o que há de mais comum na sua e na minha vida. A diferença é que essa vida é retratada sendo vivida por um dos personagens mais lúcidos da história mundial e uma mulher ativa, perseverante e amorosa do lado dele.
Saramago é uma figura icônica. Jornalista, ateu convicto e comunista, viveu sua vida sob esses conceitos e é totalmente compreensível que só se tenha libertado para o amor com a aproximação da morte. E, resultado dessa lucidez ímpar, seu amor é de uma entrega que não compromete suas convicções e, resultado talvez da idade, maduro o suficiente para não ser baseado simplesmente na paixão. Pilar, nessa história, vive uma paixão amorosa. A paixão que se traduz no fazer, no construir, no levar o marido que ama aos píncaros do reconhecimento por seu trabalho. É também uma entrega, mas feita como a tradução da sua própria personalidade e extrema capacidade de realização.
O documentário em si é pura poesia. Mesmo os momentos mais severos são tratados com leveza e, no fim das contas, traduzem um sentido como o próprio discurso do Saramago que não tenta convencer, mas apresenta argumentos sustentados e fortes o suficiente para tanto. A dinâmica do filme nos mostra o equilíbrio entre o plácido desvelar de verdades seguras e, de certa forma, melancólicas do escritor e a vitalidade, o trabalho duro e o idealismo da jornalista, mesmo sob todas as críticas de oportunismo que ela sofre. Em um dado momento, ocorre uma discussão entre os dois sobre a eleição de Obama (que ele defende e ela critica, apoiando Hillary Clinton como representando dos direitos e davida da mulher). Impagável.
Fica então a dica para quem não assistiu. Parece que o filme entrará em cartaz no grande circuito. Mais uma prova de que, mesmo sendo documentário, o longa é de interesse geral e irrestrito. E, para completar, segua um link para um curta de animação baseado na obra A Maior Flor do Mundo.
Antes de falar sobre esse filme, devo contar sobre a primeira incursão no Festival. O filme: Atrações Perigosas, dirigido e estrelado por Ben Affleck. Ok, ok...eu sabia que era estrelado mas não sabia que era dirigido. E foi exatamente esse o pior erro do filme que conta a história de uma gang de Boston especializada em assaltos a bancos e carros-forte. O protagonista vive uma crise existencial e decide parar depois do próximo golpe. Algo dá errado, a gang tem que seqüestrar a gerente do banco (coisa que nunca fizeram) e a gerente do banco mora no mesmo bairro que eles. Encurtando a estória, mocinho e mocinha se apaixonam, mocinha descobre que mocinho é do mal, mocinho tenta se desvencilhar das más amizades e não consegue, mata todo mundo, foge e deixa a grana do assalto pra mocinha fazer caridade. Fim. É isso. Apesar do bom argumento, é chato, bobo e mal interpretado.
Bem, voltando ao que interessa, José & Pilar consegue captar uma conexão que só uma relação de amor constrói. Quando pensamos num escritor, tendemos a imaginar uma vida apaixonante, criativa, sem rotinas e completamente entregue aos devaneios que, devidamente burilados, viram frases inesquecíveis. Pois o filme mostra uma vida literária atribulada, cheia de compromissos chatos, longos e aborrecidos. Viagens longas, doença, família e tudo o que há de mais comum na sua e na minha vida. A diferença é que essa vida é retratada sendo vivida por um dos personagens mais lúcidos da história mundial e uma mulher ativa, perseverante e amorosa do lado dele.
Saramago é uma figura icônica. Jornalista, ateu convicto e comunista, viveu sua vida sob esses conceitos e é totalmente compreensível que só se tenha libertado para o amor com a aproximação da morte. E, resultado dessa lucidez ímpar, seu amor é de uma entrega que não compromete suas convicções e, resultado talvez da idade, maduro o suficiente para não ser baseado simplesmente na paixão. Pilar, nessa história, vive uma paixão amorosa. A paixão que se traduz no fazer, no construir, no levar o marido que ama aos píncaros do reconhecimento por seu trabalho. É também uma entrega, mas feita como a tradução da sua própria personalidade e extrema capacidade de realização.
O documentário em si é pura poesia. Mesmo os momentos mais severos são tratados com leveza e, no fim das contas, traduzem um sentido como o próprio discurso do Saramago que não tenta convencer, mas apresenta argumentos sustentados e fortes o suficiente para tanto. A dinâmica do filme nos mostra o equilíbrio entre o plácido desvelar de verdades seguras e, de certa forma, melancólicas do escritor e a vitalidade, o trabalho duro e o idealismo da jornalista, mesmo sob todas as críticas de oportunismo que ela sofre. Em um dado momento, ocorre uma discussão entre os dois sobre a eleição de Obama (que ele defende e ela critica, apoiando Hillary Clinton como representando dos direitos e davida da mulher). Impagável.
Fica então a dica para quem não assistiu. Parece que o filme entrará em cartaz no grande circuito. Mais uma prova de que, mesmo sendo documentário, o longa é de interesse geral e irrestrito. E, para completar, segua um link para um curta de animação baseado na obra A Maior Flor do Mundo.
1 de outubro de 2010
A última gota
Na última vez que estive aqui, lembro-me, também não havia ninguém. Ouvia, vindo de algum lugar, um triste murmúrio que, agora pensando melhor, poderia estar vindo de mim mesmo. Não foi fácil chegar aqui novamente, pois muito tempo já se passara desde a última visita e a paisagem parecia mais desolada e mais árida, sem muitos pontos de referência. Vi ao longe minha consciência sob a forma de minha própria silhueta, uma sombra de mim mesmo me guiando para onde deveria ir e fui.
Vendo-me aproximar, pegou na enxada e começou a cavar. Apesar do frio, o vulto pingava de suor sobre a terra ressecada. Era um esforço revolver aquele chão e a poeira subia fazendo-me apertar os olhos e liberar as lágrimas. Às vezes tossia sem saber se a causa era a poeira ou o choro.
Quando o buraco já estava na altura dos joelhos ouvimos o barulho que se faz quando se bate em algo oco. Ele ergueu-se, secou a testa com as costas das mãos e foi retirando o pouco da terra que cobria o baú de madeira a cinco palmos abaixo de onde eu estava.
Com dificuldade, nos ajudamos a parir da terra seca o grande caixote. Nós éramos as parteiras, mas gritávamos a dor das mães. As ripas enegrecidas pelo tempo ainda se mantinham invioladas tamanho cuidado que tive em fechar qualquer fresta. Aos poucos e depois, eu mesmo me lembraria de como passei anos trabalhando nesse esquife, cada prego e cada entalhe exatamente onde deveriam estar.
O homem comigo me estendeu um pé-de-cabra. Ele já tinha trabalhado e sofrido demais, era eu quem deveria me sujar e suar a partir de agora. Com dificuldade fui empurrando a dura língua bifurcada do artefato contra o baú. A madeira estalava e reverberava como se meus fossem meus próprios ossos estalando.
Por fim, abri-o todo e lá estava eu, deitado de olhos fechados, braços cruzados e mãos espalmadas sobre o peito. Não era exatamente a fisionomia mais jovem que vira da última vez que fechei antes de deixá-lo, mas era como se me visse num espelho agora. E quando o ar se sugeriu sobre as narinas do eu deitado, ele tossiu e uma grande nuvem cinza subiu crescendo e tomando todo o céu com a própria revolução.
Eu-deitado então abriu os olhos verdes piscando várias vezes sob os cílios esbranquiçados de pó. Não agüentou a forte luminosidade e, levantando-se, se manteve também com os olhos cerrados. Um silêncio imóvel seguiu-se, como um segundo antes de o maestro ordenar o primeiro movimento de uma sinfonia.
Agora éramos três: eu, eu-deitado agora de pé e minha consciência sem mais ferramentas. Não nos preocupamos em tapar o buraco, assim como não catam os abutres os restos das carcaças que comem. Sabem que a natureza agirá e, em algum momento, a chuva cairá ou a terra sacudirá o terreno sozinha. Por isso lá deixamos buraco e caixão aberto como provas de que ali houve uma exumação. Nos demos os braços caminhando de volta para o lugar de onde viemos já sentindo os primeiros pingos daquela nuvem carregada que agora nos cobria, anunciando o fim de um ciclo. Era só esperar que a última gota caísse para que se iniciasse o próximo.
Vendo-me aproximar, pegou na enxada e começou a cavar. Apesar do frio, o vulto pingava de suor sobre a terra ressecada. Era um esforço revolver aquele chão e a poeira subia fazendo-me apertar os olhos e liberar as lágrimas. Às vezes tossia sem saber se a causa era a poeira ou o choro.
Quando o buraco já estava na altura dos joelhos ouvimos o barulho que se faz quando se bate em algo oco. Ele ergueu-se, secou a testa com as costas das mãos e foi retirando o pouco da terra que cobria o baú de madeira a cinco palmos abaixo de onde eu estava.
Com dificuldade, nos ajudamos a parir da terra seca o grande caixote. Nós éramos as parteiras, mas gritávamos a dor das mães. As ripas enegrecidas pelo tempo ainda se mantinham invioladas tamanho cuidado que tive em fechar qualquer fresta. Aos poucos e depois, eu mesmo me lembraria de como passei anos trabalhando nesse esquife, cada prego e cada entalhe exatamente onde deveriam estar.
O homem comigo me estendeu um pé-de-cabra. Ele já tinha trabalhado e sofrido demais, era eu quem deveria me sujar e suar a partir de agora. Com dificuldade fui empurrando a dura língua bifurcada do artefato contra o baú. A madeira estalava e reverberava como se meus fossem meus próprios ossos estalando.
Por fim, abri-o todo e lá estava eu, deitado de olhos fechados, braços cruzados e mãos espalmadas sobre o peito. Não era exatamente a fisionomia mais jovem que vira da última vez que fechei antes de deixá-lo, mas era como se me visse num espelho agora. E quando o ar se sugeriu sobre as narinas do eu deitado, ele tossiu e uma grande nuvem cinza subiu crescendo e tomando todo o céu com a própria revolução.
Eu-deitado então abriu os olhos verdes piscando várias vezes sob os cílios esbranquiçados de pó. Não agüentou a forte luminosidade e, levantando-se, se manteve também com os olhos cerrados. Um silêncio imóvel seguiu-se, como um segundo antes de o maestro ordenar o primeiro movimento de uma sinfonia.
Agora éramos três: eu, eu-deitado agora de pé e minha consciência sem mais ferramentas. Não nos preocupamos em tapar o buraco, assim como não catam os abutres os restos das carcaças que comem. Sabem que a natureza agirá e, em algum momento, a chuva cairá ou a terra sacudirá o terreno sozinha. Por isso lá deixamos buraco e caixão aberto como provas de que ali houve uma exumação. Nos demos os braços caminhando de volta para o lugar de onde viemos já sentindo os primeiros pingos daquela nuvem carregada que agora nos cobria, anunciando o fim de um ciclo. Era só esperar que a última gota caísse para que se iniciasse o próximo.
24 de setembro de 2010
Quando a gente morre, a gente vai pro futuro.
Assisti nesse final de semana o blockbuster brasileiro Nosso Lar. Baseado no livro homônimo de Chico Xavier, o filme conta a história de André Luiz, médico que desencarna e passa por um purgatório antes de chegar à colônia astral de recuperação de espíritos recém-desencarnados chamada Nosso Lar.
Viagem à parte, o filme é muito bom tecnicamente: figurino new-age intrincado, cenários terrenos caprichadíssimos (destaque para a sala de cirurgia ainda na Terra onde o protagonista morre), efeitos especiais que criam um clima futurista e, acima de tudo, é bem fiel ao livro. Muito denso de ensinamentos e doutrina, o livro constitui um enorme desafio ao ser adaptado para o cinema. O critério utilizado de focar mais no crescimento moral do protagonista do que nas numerosas armadilhas que poderiam levar a uma descrição prolixa do ambiente de Nosso Lar que não agregariam nada, a meu ver, foi um acerto. O ponto negativo, por outro lado, ficou para a interpretação dos atores. Os diálogos duros pareceram-me os de um filme bíblico da década de sessenta. A má interpretação pode ter sido resultado da própria linguagem do livro, antiga e rebuscada demais para os dias de hoje.
Sou um curioso pelo tema e já li alguns livros espíritas. De longe Nosso Lar foi o melhor, seguido bem de perto por Há Dois Mil Anos (esse vale uma resenha só para ele e, quiçá, um filme). Além da reencarnação, característica diferencial do Espiritismo, um grande conceito bem aproveitado pelo filme é de que as coisas na Terra são reflexos das coisas de Nosso Lar. Ouvi um comentário interessante: “Engraçado, a gente morre e não vai pro Céu. Vai pro futuro”. Parece que Nosso Lar funciona como Matrix: a realidade da nossa vida terrena é um reflexo da tecnologia e da vida levada em Nosso Lar. A tecnologia e a vida na Terra são a tecnologia e a vida do Céu, só que limitada pela matéria e pelo esquecimento que a reencarnação causa. Não quero aqui abrir discussões teológicas, mas literariamente essa é uma boa idéia. Outro comentário: “O Céu é um saco, tem ministério disso, ministério daquilo! Para isso eu fico aqui mesmo. O Inferno deve ser mais interessante”. Novamente, cada um com seus conceitos.

Como um fenômeno mercadológico, o filme sem dúvidas surpreende. Nosso Lar já foi visto por mais de 1,6 milhão de pessoas (até 13/09) e está na frente de grandes lançamentos como Karatê Kid, Meu Malvado Favorito e A Origem.O filme de Chico Xavier já havia sugerido que o tema iria pegar: conquistou o título de maior bilheteria nacional no final de semana de lançamento dos últimos 20 anos. E, na minha opinião, abriu um novo filão: o do filme espírita. Preparem-se para ver outros lançamentos em breve pois há uma infinidade de livros (desde doutrinários a romances épicos) que podem virar bons roteiros, ainda mais se as apostas de que Nosso Lar será o representante do Brasil na próxima disputa do Oscar se concretizarem. Eu, particularmente, acho muito difícil. O tema é restrito, o americano não se encanta com essas coisas, os efeitos são arcaicos em comparação aos utilizados por lá e, apesar de ter grande bilheteria no currículo, terá de concorrer com produções mais elaboradas e com temas mais abrangentes das outras produções estrangeiras.
No final das contas, Nosso Lar é isso: um bom filme, mas com vários pontos fracos. Mais ou menos como o próprio Espiritismo: uma doutrina sólida e consolidada, mas ainda com muitos preceitos a serem entendidos.
Viagem à parte, o filme é muito bom tecnicamente: figurino new-age intrincado, cenários terrenos caprichadíssimos (destaque para a sala de cirurgia ainda na Terra onde o protagonista morre), efeitos especiais que criam um clima futurista e, acima de tudo, é bem fiel ao livro. Muito denso de ensinamentos e doutrina, o livro constitui um enorme desafio ao ser adaptado para o cinema. O critério utilizado de focar mais no crescimento moral do protagonista do que nas numerosas armadilhas que poderiam levar a uma descrição prolixa do ambiente de Nosso Lar que não agregariam nada, a meu ver, foi um acerto. O ponto negativo, por outro lado, ficou para a interpretação dos atores. Os diálogos duros pareceram-me os de um filme bíblico da década de sessenta. A má interpretação pode ter sido resultado da própria linguagem do livro, antiga e rebuscada demais para os dias de hoje.
Sou um curioso pelo tema e já li alguns livros espíritas. De longe Nosso Lar foi o melhor, seguido bem de perto por Há Dois Mil Anos (esse vale uma resenha só para ele e, quiçá, um filme). Além da reencarnação, característica diferencial do Espiritismo, um grande conceito bem aproveitado pelo filme é de que as coisas na Terra são reflexos das coisas de Nosso Lar. Ouvi um comentário interessante: “Engraçado, a gente morre e não vai pro Céu. Vai pro futuro”. Parece que Nosso Lar funciona como Matrix: a realidade da nossa vida terrena é um reflexo da tecnologia e da vida levada em Nosso Lar. A tecnologia e a vida na Terra são a tecnologia e a vida do Céu, só que limitada pela matéria e pelo esquecimento que a reencarnação causa. Não quero aqui abrir discussões teológicas, mas literariamente essa é uma boa idéia. Outro comentário: “O Céu é um saco, tem ministério disso, ministério daquilo! Para isso eu fico aqui mesmo. O Inferno deve ser mais interessante”. Novamente, cada um com seus conceitos.

Como um fenômeno mercadológico, o filme sem dúvidas surpreende. Nosso Lar já foi visto por mais de 1,6 milhão de pessoas (até 13/09) e está na frente de grandes lançamentos como Karatê Kid, Meu Malvado Favorito e A Origem.O filme de Chico Xavier já havia sugerido que o tema iria pegar: conquistou o título de maior bilheteria nacional no final de semana de lançamento dos últimos 20 anos. E, na minha opinião, abriu um novo filão: o do filme espírita. Preparem-se para ver outros lançamentos em breve pois há uma infinidade de livros (desde doutrinários a romances épicos) que podem virar bons roteiros, ainda mais se as apostas de que Nosso Lar será o representante do Brasil na próxima disputa do Oscar se concretizarem. Eu, particularmente, acho muito difícil. O tema é restrito, o americano não se encanta com essas coisas, os efeitos são arcaicos em comparação aos utilizados por lá e, apesar de ter grande bilheteria no currículo, terá de concorrer com produções mais elaboradas e com temas mais abrangentes das outras produções estrangeiras.
No final das contas, Nosso Lar é isso: um bom filme, mas com vários pontos fracos. Mais ou menos como o próprio Espiritismo: uma doutrina sólida e consolidada, mas ainda com muitos preceitos a serem entendidos.
8 de setembro de 2010
O gerúndio do caminho
Vi há pouco tempo a mini-série Os Pilares da Terra, baseada na obra homônima de Ken Follett. São apenas oito episódios que, como o livro, contam a história da sucessão do Rei William da Inglaterra, usurpador do trono, pela Rainha Matilde, legítima herdeira, nos idos do Séc.XII através da estória da família de um pedreiro contratado para a construção da catedral de Kingsbridge.
O livro, desnecessário dizer, é muito melhor que a série, mesmo produzida por ninguém menos que Ridley Scott e recheada de grandes nomes no elenco como Donald Sutherland (o pai real do protagonista da série 24 Horas) e Michael MacFadyen (o Mr. Darcy de Orgulho e Preconceito). A série não chega a empolgar apesar da grandiosidade da produção sem dúvida monumental desde os cenários (principalmente nos primeiros episódios) ao figurino.
Independente disso tudo, o personagem principal da trama, Jack Jackson, filho adotado pelo mestre de obras da catedral, impressiona. É um rapaz de uma sensibilidade tamanha que beira a loucura dos gênios. Numa passagem ele diz ouvir os sussurros da pedra dizendo para ele onde bater seu formão para fazer as lindas gárgulas das quais é responsável. E é essa sensibilidade que o diferencia dos outros personagens no que diz respeito às suas motivações.
Jack vive num mundo só dele, conversando com os sussurros que ouve. Como um cão, ama e odeia intensamente e chega a (cuidado, spoiler!) pôr fogo numa igreja para que seu pai adotivo seja contratado para os reparos. Gosto dessa intensidade desmedida, dessa paixão distorcida. Não que me identifique nelas (tudo bem, um pouco) mas é um traço que gosto de ver nas pessoas, um brilho nos olhos de fazer o que gosta, mesmo que o gosto seja duvidoso. A persistência em algo que se acredita é gratificante.
E não precisamos ser necessariamente artistas para chegar nessa sensibilidade. Paixão se esconde nos mais estranhos lugares. Há quem se perca descrevendo suas sensações enquanto pesca ou dirige em alta velocidade. Dá pra notar num sorriso, num olhar quando alguém está satisfeito com o que faz e isso faz toda a diferença na qualidade do que se quer ver realizado. Gosto de me cercar de pessoas assim, pois também sou um pouco assim. Gosto do mergulho, do aprendizado e da entrega que se faz às paixões. Não raro busco apaixonar-me por alguma coisa, como um livro ou um tema que preciso me aprofundar mais para algum trabalho qualquer ou uma idéia que precise ser melhor desenvolvida.
O problema das paixões é que elas tendem a morrer uma vez que o objetivo é atingido. Há um momento do seriado em que uma suposta bruxa amaldiçoa um líder religioso usando a seguinte frase: “tu vais subir bem alto em suas ambições tão somente para cair”. De tanto lutarmos sufocados por nossos ideais, obnubilamos o fato de que, uma vez conquistados, esses ideais servirão apenas como enfeites na nossa memória. Fotografias encardidas e poeirentas de uma apoteose que já não nos tira o traseiro da poltrona. O melhor a fazer, então, é viver a antítese: desejar sempre e nunca alcançar. Conscientemente. Sem o sofrimento que o inalcançável (com o próprio agravante de ser paixão) pode causar, mas com esforço. Uma vez ouvi a expressão pleasure delayer no filme Vanilla Sky. Não acho que essa seja a solução, uma vez que o caminho é o prazer e não o destino em si. Talvez devêssemos abrir os olhos para o valor dessa busca, baixando um pouco a bola do seu encontro. É preciso sensibilidade para isso. Não essa louca como a de Jack Jackson, mas uma lúcida, que enxerga no gerúndio do processo a afirmativa de sua conclusão.
Por isso assisti Os Pilares da Terra. Com a intenção de percorrer um caminho prazeroso que me fizesse apaixonar novamente pela obra de Ken Follett. Não consegui, mas certamente alguns momentos entre os oito episódios fizeram alguns pêlos eriçarem-se.
O livro, desnecessário dizer, é muito melhor que a série, mesmo produzida por ninguém menos que Ridley Scott e recheada de grandes nomes no elenco como Donald Sutherland (o pai real do protagonista da série 24 Horas) e Michael MacFadyen (o Mr. Darcy de Orgulho e Preconceito). A série não chega a empolgar apesar da grandiosidade da produção sem dúvida monumental desde os cenários (principalmente nos primeiros episódios) ao figurino.
Independente disso tudo, o personagem principal da trama, Jack Jackson, filho adotado pelo mestre de obras da catedral, impressiona. É um rapaz de uma sensibilidade tamanha que beira a loucura dos gênios. Numa passagem ele diz ouvir os sussurros da pedra dizendo para ele onde bater seu formão para fazer as lindas gárgulas das quais é responsável. E é essa sensibilidade que o diferencia dos outros personagens no que diz respeito às suas motivações.
Jack vive num mundo só dele, conversando com os sussurros que ouve. Como um cão, ama e odeia intensamente e chega a (cuidado, spoiler!) pôr fogo numa igreja para que seu pai adotivo seja contratado para os reparos. Gosto dessa intensidade desmedida, dessa paixão distorcida. Não que me identifique nelas (tudo bem, um pouco) mas é um traço que gosto de ver nas pessoas, um brilho nos olhos de fazer o que gosta, mesmo que o gosto seja duvidoso. A persistência em algo que se acredita é gratificante.
E não precisamos ser necessariamente artistas para chegar nessa sensibilidade. Paixão se esconde nos mais estranhos lugares. Há quem se perca descrevendo suas sensações enquanto pesca ou dirige em alta velocidade. Dá pra notar num sorriso, num olhar quando alguém está satisfeito com o que faz e isso faz toda a diferença na qualidade do que se quer ver realizado. Gosto de me cercar de pessoas assim, pois também sou um pouco assim. Gosto do mergulho, do aprendizado e da entrega que se faz às paixões. Não raro busco apaixonar-me por alguma coisa, como um livro ou um tema que preciso me aprofundar mais para algum trabalho qualquer ou uma idéia que precise ser melhor desenvolvida.
O problema das paixões é que elas tendem a morrer uma vez que o objetivo é atingido. Há um momento do seriado em que uma suposta bruxa amaldiçoa um líder religioso usando a seguinte frase: “tu vais subir bem alto em suas ambições tão somente para cair”. De tanto lutarmos sufocados por nossos ideais, obnubilamos o fato de que, uma vez conquistados, esses ideais servirão apenas como enfeites na nossa memória. Fotografias encardidas e poeirentas de uma apoteose que já não nos tira o traseiro da poltrona. O melhor a fazer, então, é viver a antítese: desejar sempre e nunca alcançar. Conscientemente. Sem o sofrimento que o inalcançável (com o próprio agravante de ser paixão) pode causar, mas com esforço. Uma vez ouvi a expressão pleasure delayer no filme Vanilla Sky. Não acho que essa seja a solução, uma vez que o caminho é o prazer e não o destino em si. Talvez devêssemos abrir os olhos para o valor dessa busca, baixando um pouco a bola do seu encontro. É preciso sensibilidade para isso. Não essa louca como a de Jack Jackson, mas uma lúcida, que enxerga no gerúndio do processo a afirmativa de sua conclusão.
Por isso assisti Os Pilares da Terra. Com a intenção de percorrer um caminho prazeroso que me fizesse apaixonar novamente pela obra de Ken Follett. Não consegui, mas certamente alguns momentos entre os oito episódios fizeram alguns pêlos eriçarem-se.
3 de setembro de 2010
Presença
Tenho certeza que já estive com a morte. Não a vi, na verdade, mas estou certo que ela já me viu e consultou seus alfarrábios infinitos sobre minha posição na lista de reservas no Descanso Eterno.
A primeira vez que compartilhamos o mesmo recinto foi lá em casa. Eu não a convidei, ela apareceu de surpresa. Tinha um compromisso marcado já há algum tempo com a minha avó, que não conseguiu nos avisar com antecedência devido às seqüelas de um derrame. Eu ainda era criança, uns seis ou sete anos e estava dormindo na hora que ela chegou. É certo que me viu pois o caminho da porta de entrada lá de casa até o quarto da vovó passava necessariamente pelo meu. Eu, que sempre dormi de porta aberta até chegar à adolescência, não devo ter despertado seu interesse na época. Ela tinha coisas mais urgentes para resolver. No dia seguinte, e ainda ignorante do acontecido, fui para a escola me sentindo mal com dor de barriga. Pedi à professora para ir embora e ela me levou à coordenação de onde ligaram para a minha casa. Meus pais atenderam e disseram que não poderiam me pegar naquele momento, certamente atabalhoados com as providências necessárias para completar o trabalho começado pela funesta visita. No fim das contas, a passagem dela, mesmo que só resvalando na minha existência, já me causou complicações.
Certamente estive próximo dela outras vezes em situações associadas a meus avós. Todos bem longevos, freqüentavam assiduamente hospitais. Algumas vezes em urgência, outras apenas corriqueiramente. Nesses hospitais, eu não podia deixar de sentir a presença dela passando pra lá e para cá, como uma formiga diligente. Não chegava a vê-la ainda cara-a-cara, mas percebia o final das barras de seu manto surrado quando virava corredores ou entrava por entre as grandes portas amarelas da UTI.
Numa dessas visitas hospitalares à minha outra avó, entrei no quarto junto com algumas tias barulhentas demais para o recinto e a ocasião. Tinha uns dezoito anos e essa era a avó com que mais compartilhei bons momentos de infância. Ela, deitada na cama, havia feito há pouco um exame onde lhe introduziram um tipo de contraste no sangue para identificar as máculas do fígado. Ironicamente, o próprio contraste causou uma insuficiência no fígado que a levou de nós. Minhas tias disputavam sobre qual filho era mais bem sucedido em sua carreira enquanto minha avó olhava para mim com olhos estranhamente lúcidos e sorria, como a zombar das tias mesquinhas em querela. Não entendi na hora, mas o que ela me disse naquele olhar era “estou indo embora para cima e elas aqui de cabeça baixa”. Peguei na sua mão com a força que merece um abraço de despedida e ela se foi.
Quase caí no chão por conta do esbarrão que a morte me deu ao sair do quarto. Mal-educada, nem pediu desculpas. Mas não tomei pelo lado pessoal e até, mais tarde, relevei a rudeza pois a cerimônia de inumação foi de tanta suavidade que me levou ás lágrimas. Ainda tenho na memória a lembrança de minha sobrinha, aquele anjo de 3 anos jogando pétalas de rosas sobre o esquife que descia em meio a cânticos de esperança entoados pelos presentes.
Antes desse primeiro contato físico, já havia experimentado a brisa fria que seu manto causa quando passa por nós com pressa. Ela vivia correndo atrás de meu pai e ele, por algum tipo de característica que até hoje desconheço, sempre se desviou, como um toureiro evita a estocada do chifre taurino. Meu pai, fumante, boêmio, sedentário, estressado, cinco filhos, introvertido, mas de uma presença e bom-humor inigualáveis, tinha alguma leveza ou flexibilidade que driblava a morte como ninguém. Mas não sem sustos. Passou um período de mais de um ano recebendo periódicas visitas da morte que nunca conseguia levá-lo além dos hospitais coronarianos. Até que, miraculosamente após uma cirurgia dupla de safena, ela desistiu. Ele havia ido para São Paulo, de ônibus, para consultar um médico referência no tipo de mal que o afligia. Ao chegar ao consultório e após as primeiras perguntas da anamnese, o próprio médico, incrédulo, indagou: “Como o senhor conseguiu chegar vivo até aqui!? E de ônibus!? Vou interná-lo agora mesmo!” E assim foi. Internou-o, trocou alguns tubos de irrigação velhos por outros mais novos e pronto. Meu pai voltou para casa são. Hoje, continua boêmio, com cinco filhos, estressado e introvertido, mas parou de fumar, como uma afronta a morte que desistiu de agarrá-lo.
Apesar de acompanhar seus feitos através dos jornais quase que diariamente, a última chance que tivemos de nos encontrar em público foi na despedida da mãe de um grande amigo. Acho que a morte gosta dessas cerimônias que fazemos em homenagem aos finados. Parece-me que ela toma-as para si, como a apoteose de sua conquista. De certa forma, honrar a pessoa que se vai é lembrar-se daquela que a levou. O que muda é a polaridade desses sentimentos dentro de cada um de nós.
Essa proximidade que construímos ao longo do tempo fez-me crer que a morte, apesar de ser comprometida e trabalhadora, é também vaidosa e megalomaníaca. Principalmente entre povos que não dão muito crédito de que ela seja o fim de tudo, a morte tenta marcar fundo sua presença, arrebatando vidas em grandes quantidades a cada ceifada. É comum vermos acidentes na China e na Índia, nações cuja filosofia há muito descobriu a relatividade da morte, em que almas são levadas aos milhares. Um esforço prático para marcar sua importância.
E sua vaidade confirmo no fato de senti-la neste momento, suspirando onipresente por trás de meus ombros, lendo essas linhas e esperando que eu acabe este texto com alguma exortação ou declaração de amor. Cuidadoso que sou, termino o texto agora mesmo abençoando-a com a ignorância sobre minhas intenções. Se gosta ou não, se me leva ou não, não importa. Fato é que, mais cedo ou mais tarde, estaremos juntos com um propósito real. Mas até lá, prefiro acompanhá-la ao largo e me refestelar nas experiências que sua irmã Vida tem a me oferecer.
A primeira vez que compartilhamos o mesmo recinto foi lá em casa. Eu não a convidei, ela apareceu de surpresa. Tinha um compromisso marcado já há algum tempo com a minha avó, que não conseguiu nos avisar com antecedência devido às seqüelas de um derrame. Eu ainda era criança, uns seis ou sete anos e estava dormindo na hora que ela chegou. É certo que me viu pois o caminho da porta de entrada lá de casa até o quarto da vovó passava necessariamente pelo meu. Eu, que sempre dormi de porta aberta até chegar à adolescência, não devo ter despertado seu interesse na época. Ela tinha coisas mais urgentes para resolver. No dia seguinte, e ainda ignorante do acontecido, fui para a escola me sentindo mal com dor de barriga. Pedi à professora para ir embora e ela me levou à coordenação de onde ligaram para a minha casa. Meus pais atenderam e disseram que não poderiam me pegar naquele momento, certamente atabalhoados com as providências necessárias para completar o trabalho começado pela funesta visita. No fim das contas, a passagem dela, mesmo que só resvalando na minha existência, já me causou complicações.
Certamente estive próximo dela outras vezes em situações associadas a meus avós. Todos bem longevos, freqüentavam assiduamente hospitais. Algumas vezes em urgência, outras apenas corriqueiramente. Nesses hospitais, eu não podia deixar de sentir a presença dela passando pra lá e para cá, como uma formiga diligente. Não chegava a vê-la ainda cara-a-cara, mas percebia o final das barras de seu manto surrado quando virava corredores ou entrava por entre as grandes portas amarelas da UTI.
Numa dessas visitas hospitalares à minha outra avó, entrei no quarto junto com algumas tias barulhentas demais para o recinto e a ocasião. Tinha uns dezoito anos e essa era a avó com que mais compartilhei bons momentos de infância. Ela, deitada na cama, havia feito há pouco um exame onde lhe introduziram um tipo de contraste no sangue para identificar as máculas do fígado. Ironicamente, o próprio contraste causou uma insuficiência no fígado que a levou de nós. Minhas tias disputavam sobre qual filho era mais bem sucedido em sua carreira enquanto minha avó olhava para mim com olhos estranhamente lúcidos e sorria, como a zombar das tias mesquinhas em querela. Não entendi na hora, mas o que ela me disse naquele olhar era “estou indo embora para cima e elas aqui de cabeça baixa”. Peguei na sua mão com a força que merece um abraço de despedida e ela se foi.
Quase caí no chão por conta do esbarrão que a morte me deu ao sair do quarto. Mal-educada, nem pediu desculpas. Mas não tomei pelo lado pessoal e até, mais tarde, relevei a rudeza pois a cerimônia de inumação foi de tanta suavidade que me levou ás lágrimas. Ainda tenho na memória a lembrança de minha sobrinha, aquele anjo de 3 anos jogando pétalas de rosas sobre o esquife que descia em meio a cânticos de esperança entoados pelos presentes.
Antes desse primeiro contato físico, já havia experimentado a brisa fria que seu manto causa quando passa por nós com pressa. Ela vivia correndo atrás de meu pai e ele, por algum tipo de característica que até hoje desconheço, sempre se desviou, como um toureiro evita a estocada do chifre taurino. Meu pai, fumante, boêmio, sedentário, estressado, cinco filhos, introvertido, mas de uma presença e bom-humor inigualáveis, tinha alguma leveza ou flexibilidade que driblava a morte como ninguém. Mas não sem sustos. Passou um período de mais de um ano recebendo periódicas visitas da morte que nunca conseguia levá-lo além dos hospitais coronarianos. Até que, miraculosamente após uma cirurgia dupla de safena, ela desistiu. Ele havia ido para São Paulo, de ônibus, para consultar um médico referência no tipo de mal que o afligia. Ao chegar ao consultório e após as primeiras perguntas da anamnese, o próprio médico, incrédulo, indagou: “Como o senhor conseguiu chegar vivo até aqui!? E de ônibus!? Vou interná-lo agora mesmo!” E assim foi. Internou-o, trocou alguns tubos de irrigação velhos por outros mais novos e pronto. Meu pai voltou para casa são. Hoje, continua boêmio, com cinco filhos, estressado e introvertido, mas parou de fumar, como uma afronta a morte que desistiu de agarrá-lo.
Apesar de acompanhar seus feitos através dos jornais quase que diariamente, a última chance que tivemos de nos encontrar em público foi na despedida da mãe de um grande amigo. Acho que a morte gosta dessas cerimônias que fazemos em homenagem aos finados. Parece-me que ela toma-as para si, como a apoteose de sua conquista. De certa forma, honrar a pessoa que se vai é lembrar-se daquela que a levou. O que muda é a polaridade desses sentimentos dentro de cada um de nós.
Essa proximidade que construímos ao longo do tempo fez-me crer que a morte, apesar de ser comprometida e trabalhadora, é também vaidosa e megalomaníaca. Principalmente entre povos que não dão muito crédito de que ela seja o fim de tudo, a morte tenta marcar fundo sua presença, arrebatando vidas em grandes quantidades a cada ceifada. É comum vermos acidentes na China e na Índia, nações cuja filosofia há muito descobriu a relatividade da morte, em que almas são levadas aos milhares. Um esforço prático para marcar sua importância.
E sua vaidade confirmo no fato de senti-la neste momento, suspirando onipresente por trás de meus ombros, lendo essas linhas e esperando que eu acabe este texto com alguma exortação ou declaração de amor. Cuidadoso que sou, termino o texto agora mesmo abençoando-a com a ignorância sobre minhas intenções. Se gosta ou não, se me leva ou não, não importa. Fato é que, mais cedo ou mais tarde, estaremos juntos com um propósito real. Mas até lá, prefiro acompanhá-la ao largo e me refestelar nas experiências que sua irmã Vida tem a me oferecer.
12 de agosto de 2010
Noite
Quero arrancar o coração do peito e carimbar sua impressão digital nessas linhas. Com ele, meu pulmão e minhas vísceras coloridas de verde e roxo, caleidoscópicos, contrastando com meu pálido exterior cujas pistas distribuem meus olhos vermelhos de raiva e choro, embotados e insones.
A noite febril desmoronou meu mundo e dos escombros de mim hão de nascer as flores mais bonitas. Das cinzas do meu corpo surgirão titãs de argila negra e se erguerão sobre as muralhas da alma como a reconquistá-la, exilados de uma pátria agora sem fronteiras, difusa.
Sou a raiz da mandrágora a me espalhar no solo fecundado, artista moldado em forja e marreta nessa fôrma que me comprime as asas.
A noite febril desmoronou meu mundo e dos escombros de mim hão de nascer as flores mais bonitas. Das cinzas do meu corpo surgirão titãs de argila negra e se erguerão sobre as muralhas da alma como a reconquistá-la, exilados de uma pátria agora sem fronteiras, difusa.
Sou a raiz da mandrágora a me espalhar no solo fecundado, artista moldado em forja e marreta nessa fôrma que me comprime as asas.
19 de julho de 2010
Filhos
Não é meu, é do Khalil Gibran.
“Teus filhos não são teus filhos.
São filhos e filhas da Vida, anelando por si própria.
Vêm através de ti, mas não de ti,
E embora estejam contigo, a ti não pertencem.
Podes dar-lhes teu amor, mas não teus pensamentos,
Pois que eles têm seus pensamento próprios.
Podes abrigar seus corpos, mas não suas almas,
Pois que suas almas residem na casa do amanhã,
Que não podes visitar sequer em sonhos.
Podes esforçar-te por te parecer com eles,
Mas não procures fazê-los semelhantes a ti,
Pois a vida não recua, e não se retarda no ontem.
Tu és o arco do qual teus filhos, como flechas vivas,
São disparados.
...................................................
Que a tua inclinação, na mão do arqueiro,
Seja para a alegria”
“Teus filhos não são teus filhos.
São filhos e filhas da Vida, anelando por si própria.
Vêm através de ti, mas não de ti,
E embora estejam contigo, a ti não pertencem.
Podes dar-lhes teu amor, mas não teus pensamentos,
Pois que eles têm seus pensamento próprios.
Podes abrigar seus corpos, mas não suas almas,
Pois que suas almas residem na casa do amanhã,
Que não podes visitar sequer em sonhos.
Podes esforçar-te por te parecer com eles,
Mas não procures fazê-los semelhantes a ti,
Pois a vida não recua, e não se retarda no ontem.
Tu és o arco do qual teus filhos, como flechas vivas,
São disparados.
...................................................
Que a tua inclinação, na mão do arqueiro,
Seja para a alegria”
27 de maio de 2010
Enfim, Lost. Ou carta aberta aos produtores.
Prezado J.J. Abrams e demais roteiristas e produtores de LOST.
Sou cliente LOST desde 2008 e venho por meio desta documentar minha insatisfação com o serviço prestado pela série.
Longe de mim duvidar dos bons escrúpulos e boa-vontade dos senhores e das empresas do grupo prestadoras diretas ou indiretas do serviço a qual essa reclamação de dirige. Simplesmente gostaria de dar voz a minha consciência que, nesse momento, encontra-se aviltada pelo conteúdo a mim ofertado.
Eximirei de comentários negativos as 4 primeiras temporadas pois tendo-as baixado gratuitamente de sites da internet, não me vejo no direito de pedir maiores explicações sobre ursos polares, árvores arrancadas pelas raízes e demais tripulantes coadjuvantes do Oceanic original.
Porém, uma vez tendo-me associado à TV por assinatura pela qual chega a mim o conteúdo dos senhores, e, por conseguinte estando em dia com os todos os pagamentos devidos aos senhores pelos direitos e royalties cobrados, sinto-me na obrigação de aventar minha insatisfação quanto ao serviço prestado pelas temporadas 5 e 6 oferecidas pelos senhores e contratadas por mim a partir de 2008, ano já citado anteriormente.
Recuso-me a acreditar que os senhores, profissionais que são, tenham escrito o episódio final da série como se escreve uma listas de compras, dez minutos antes de sair de casa, uma vez que a complexidade da relação de vários acontecimentos descritos nas trama anterior e a necessidade de solução de todos os mistérios, devam exigir um acompanhamento tão árduo como o trabalho do continuista na produção da série.
Mas foi essa a sensação que tive quando vi o Jack, após ter restituído a misteriosa rolha que fazia jorrar a água dourada, sozinho perambulando na floresta antes de morrer. Pensei “Peraí, pra descer foi mó perrengue...mas pra subir a água dourada ajuda? Como assim?!”. Aliás, não entendi nada quando o Desmond tirou a rolha e a água parou de jorrar. Devia jorrar com mais força, não? Pelo menos é isso que acontece na minha banheira quando tiro abro o ralo...mas vai entender os mistérios que rondam essa ilha.
Aliás, a ilha escolhe seus campeões de forma muito estranha. Tudo bem o Locke ter voltado a andar quando caiu na ilha...a ilha o escolheu. E pra manter a coerência, a ilha escolheu o rolo de silvertape que o japa que ouve os mortos usou para consertar a hidráulica do avião. Mais sagaz que o McGaiver, o cara conserta um avião que caiu numa ilha apenas com a santa silvertape. Na boa, ela é tão messiânica que o próprio japa desabafa algo do tipo “In silvertape we trust”. Aliás, esse japa é um iluminado mesmo pois esta sempre na hora certa, no lugar certo e encontra a pessoa certa pra levar pro lugar mais importante do momento. Afinal, foi ele que achou o Lapidus boiando no mar quando ia em direção ao avião...mas vai entender os mistérios que rondam essa ilha.
Outra coisa, a ilha também escolhe um de Cristo pra zoar. A meu ver foi a Claire. Coitada da menina, primeiro que já chegou grávida, depois que ficou com o hobbit que acabou morrendo no meio do caminho (o que não deixa de ser bom pra ela), brigou com a protagonista, destruiu seu cabelo loiro escorrido, lá pelas tantas o filho sumiu...Deus me livre, a ilha poderia ter aliviado a barra dela. E no final, só de sacanagem, ela volta a ficar com o hobbit para toda a eternidade...que karma!
Mas sacanagem mesmo eu achei que foi com o Rodrigo Santoro. A performance do cara foi como a do Brasil na Copa de 82: no papel era imbatível, tinha apoio da massa, todo mundo achava q ia longe mas foi desclassificado logo logo. Até aí, tudo bem. Entendo que foi uma forma de criar audiência num público internacional pra render alguns trocados no começo da descida da ladeira da série. O pior é que ele não foi nem convidado pra festa final na igreja, ala final de novela da Globo: todo mundo reunido, feliz, se abraçando...e apesar de também ter sido dentro de uma igreja, faltou um casamento coletivo. Aliás, perdeu uma boa oportunidade de agradar o público brasileiro que já antevia isso e uma cena final do Ben internado num manicômio.
E , por fim, o que me deixou mais indignado foi quando caiu a ficha que o resto não tinha mesmo explicação. Venho tentando achar um porque para todas as informações dos flashbacks, das realidades paralelas, da metafísica e só consigo chegar a uma explicação plausível: a existência deles na ilha era um reflexo do ego individual em uma superposição alusiva ás suas realidades correntes e contemporâneas, desembocando um fluxo imaterial de dissoluções e ressoluções de realidade, em cuja aplicabilidade das leis da natureza reverte e reverbera em sintonia com um plano mental intermediário onde a realidade se molda frente a um esforço de vontade e que liga todos os personagens num vértice meta-esquizofrênico.
Quando cheguei a essa conclusão, percebi que todo o objetivo da série já estava contido no próprio título e foi o que entregou no final: enfim, Lost.
Após todas as razões acima descritas, gostaria de informar que estou descontinuando minha assiduidade á série Fashfoward, também de autoria dos senhores e que, por vias secindárias, já fui informado que vão deixar no meio do caminho e que, aguardo ansiosamente que o Spielberg ensine a vocês como contar uma história até o fim, já que é com ele a vossa mais nova incursão no meio áudio-visual no filme “Super 8”.
Sem mais, subscrevo-me.
Fabio Minervini
Sou cliente LOST desde 2008 e venho por meio desta documentar minha insatisfação com o serviço prestado pela série.
Longe de mim duvidar dos bons escrúpulos e boa-vontade dos senhores e das empresas do grupo prestadoras diretas ou indiretas do serviço a qual essa reclamação de dirige. Simplesmente gostaria de dar voz a minha consciência que, nesse momento, encontra-se aviltada pelo conteúdo a mim ofertado.
Eximirei de comentários negativos as 4 primeiras temporadas pois tendo-as baixado gratuitamente de sites da internet, não me vejo no direito de pedir maiores explicações sobre ursos polares, árvores arrancadas pelas raízes e demais tripulantes coadjuvantes do Oceanic original.
Porém, uma vez tendo-me associado à TV por assinatura pela qual chega a mim o conteúdo dos senhores, e, por conseguinte estando em dia com os todos os pagamentos devidos aos senhores pelos direitos e royalties cobrados, sinto-me na obrigação de aventar minha insatisfação quanto ao serviço prestado pelas temporadas 5 e 6 oferecidas pelos senhores e contratadas por mim a partir de 2008, ano já citado anteriormente.
Recuso-me a acreditar que os senhores, profissionais que são, tenham escrito o episódio final da série como se escreve uma listas de compras, dez minutos antes de sair de casa, uma vez que a complexidade da relação de vários acontecimentos descritos nas trama anterior e a necessidade de solução de todos os mistérios, devam exigir um acompanhamento tão árduo como o trabalho do continuista na produção da série.
Mas foi essa a sensação que tive quando vi o Jack, após ter restituído a misteriosa rolha que fazia jorrar a água dourada, sozinho perambulando na floresta antes de morrer. Pensei “Peraí, pra descer foi mó perrengue...mas pra subir a água dourada ajuda? Como assim?!”. Aliás, não entendi nada quando o Desmond tirou a rolha e a água parou de jorrar. Devia jorrar com mais força, não? Pelo menos é isso que acontece na minha banheira quando tiro abro o ralo...mas vai entender os mistérios que rondam essa ilha.
Aliás, a ilha escolhe seus campeões de forma muito estranha. Tudo bem o Locke ter voltado a andar quando caiu na ilha...a ilha o escolheu. E pra manter a coerência, a ilha escolheu o rolo de silvertape que o japa que ouve os mortos usou para consertar a hidráulica do avião. Mais sagaz que o McGaiver, o cara conserta um avião que caiu numa ilha apenas com a santa silvertape. Na boa, ela é tão messiânica que o próprio japa desabafa algo do tipo “In silvertape we trust”. Aliás, esse japa é um iluminado mesmo pois esta sempre na hora certa, no lugar certo e encontra a pessoa certa pra levar pro lugar mais importante do momento. Afinal, foi ele que achou o Lapidus boiando no mar quando ia em direção ao avião...mas vai entender os mistérios que rondam essa ilha.
Outra coisa, a ilha também escolhe um de Cristo pra zoar. A meu ver foi a Claire. Coitada da menina, primeiro que já chegou grávida, depois que ficou com o hobbit que acabou morrendo no meio do caminho (o que não deixa de ser bom pra ela), brigou com a protagonista, destruiu seu cabelo loiro escorrido, lá pelas tantas o filho sumiu...Deus me livre, a ilha poderia ter aliviado a barra dela. E no final, só de sacanagem, ela volta a ficar com o hobbit para toda a eternidade...que karma!
Mas sacanagem mesmo eu achei que foi com o Rodrigo Santoro. A performance do cara foi como a do Brasil na Copa de 82: no papel era imbatível, tinha apoio da massa, todo mundo achava q ia longe mas foi desclassificado logo logo. Até aí, tudo bem. Entendo que foi uma forma de criar audiência num público internacional pra render alguns trocados no começo da descida da ladeira da série. O pior é que ele não foi nem convidado pra festa final na igreja, ala final de novela da Globo: todo mundo reunido, feliz, se abraçando...e apesar de também ter sido dentro de uma igreja, faltou um casamento coletivo. Aliás, perdeu uma boa oportunidade de agradar o público brasileiro que já antevia isso e uma cena final do Ben internado num manicômio.
E , por fim, o que me deixou mais indignado foi quando caiu a ficha que o resto não tinha mesmo explicação. Venho tentando achar um porque para todas as informações dos flashbacks, das realidades paralelas, da metafísica e só consigo chegar a uma explicação plausível: a existência deles na ilha era um reflexo do ego individual em uma superposição alusiva ás suas realidades correntes e contemporâneas, desembocando um fluxo imaterial de dissoluções e ressoluções de realidade, em cuja aplicabilidade das leis da natureza reverte e reverbera em sintonia com um plano mental intermediário onde a realidade se molda frente a um esforço de vontade e que liga todos os personagens num vértice meta-esquizofrênico.
Quando cheguei a essa conclusão, percebi que todo o objetivo da série já estava contido no próprio título e foi o que entregou no final: enfim, Lost.
Após todas as razões acima descritas, gostaria de informar que estou descontinuando minha assiduidade á série Fashfoward, também de autoria dos senhores e que, por vias secindárias, já fui informado que vão deixar no meio do caminho e que, aguardo ansiosamente que o Spielberg ensine a vocês como contar uma história até o fim, já que é com ele a vossa mais nova incursão no meio áudio-visual no filme “Super 8”.
Sem mais, subscrevo-me.
Fabio Minervini
13 de maio de 2010
Desculpa
Me desculpa se pareço torto
ou de modo estranho ajo assim incerto
ou quando perto sempre me acanho
escondo o rosto ou olho pro teto
Me desculpa se desvio o olho
e sorrio contido quando me destraio
ou sempre que ensaio, sempre que escolho
as palavras somem, se perdem, me traem
Me desculpa se de repente me calo
desapareço, me encolho ou talvez
não há sentido naquilo que falo
quem consegue só amar uma vez?
Me desculpa quando não sou claro
ou por palavras tortas tento ser sincero
invento maneiras e não me desmascaro
evito a chance de te dizer "te quero"
Me desculpa se o medo transforma em balbucio
o segredo que levo e te diz respeito
e se dentro do peito sufoco esse grito
que tenho vontade mas não tenho direito
Me desculpa se não jogo tudo pro alto
e te convido numa nova aventura
é que, a essa altura, tomada de assalto
a vida uma hora cobra a fatura
E se o peito se quebra na única chance
não sei se aguento tamanho desgaste
romance privado de todo disfarce
diamante alterado não cabe no engaste
E por mais que me goste, perdoa
coração que trato tão mal
E por mais que me doa essa dúvida
me desculpa a tragédia moral
E releva quando me perceber,
olhar brilhante, chegando ao teu lado
sem assunto, palhaço, sonhando acordado
quieto, calado, só pra te ver.
ou de modo estranho ajo assim incerto
ou quando perto sempre me acanho
escondo o rosto ou olho pro teto
Me desculpa se desvio o olho
e sorrio contido quando me destraio
ou sempre que ensaio, sempre que escolho
as palavras somem, se perdem, me traem
Me desculpa se de repente me calo
desapareço, me encolho ou talvez
não há sentido naquilo que falo
quem consegue só amar uma vez?
Me desculpa quando não sou claro
ou por palavras tortas tento ser sincero
invento maneiras e não me desmascaro
evito a chance de te dizer "te quero"
Me desculpa se o medo transforma em balbucio
o segredo que levo e te diz respeito
e se dentro do peito sufoco esse grito
que tenho vontade mas não tenho direito
Me desculpa se não jogo tudo pro alto
e te convido numa nova aventura
é que, a essa altura, tomada de assalto
a vida uma hora cobra a fatura
E se o peito se quebra na única chance
não sei se aguento tamanho desgaste
romance privado de todo disfarce
diamante alterado não cabe no engaste
E por mais que me goste, perdoa
coração que trato tão mal
E por mais que me doa essa dúvida
me desculpa a tragédia moral
E releva quando me perceber,
olhar brilhante, chegando ao teu lado
sem assunto, palhaço, sonhando acordado
quieto, calado, só pra te ver.
27 de abril de 2010
A vida é um filme
O tempo hesita, desiste de correr
Afrouxa a corda tensa
A câmera é lenta para que as horas sejam plenas de sua presença
Teus cílios longos dão o corte
Edita lento, suave movimento de luz e sombra
Vida e morte
Sou platéia, o primeiro da fila
a contemplar cada lenta década dos teus passos
E me levanto aplaudindo, a cada despedida
nossos olhares trocados num abraço
Afrouxa a corda tensa
A câmera é lenta para que as horas sejam plenas de sua presença
Teus cílios longos dão o corte
Edita lento, suave movimento de luz e sombra
Vida e morte
Sou platéia, o primeiro da fila
a contemplar cada lenta década dos teus passos
E me levanto aplaudindo, a cada despedida
nossos olhares trocados num abraço
Progresso e prosperidade
De que adiantam esses passos firmes se o coração sibila a cada batimento? Treme o peito ao acrodar de manhã estapeado pelo solque nos impõe realidade.
O suspiro e o olhar baixo. As mãos às têmporas apenas tentam esconder o que, lá no fundo de mim, fervilha e enlouquece. Ah, que vontade de destruir. De desconstruir, de reler minha própria história de trás pra frente.
Haja coragem para sacrificar essa persona que não cabe mais à face. Retirá-la é assinar um atertado de loucura, é assumir a condição marginal, vesti-me de mim mesmo e aceitar os dedos em riste à minha direção. Ah, os olhares estupefatos que virão. Arregalados todos ao se perceberem engessados e solitários. E eu, deixando a crisálida, bato forte as asas para algures. Não mais temente ao sol, não mais preso ao chão, mas refém de minha própria liberdade.
Coragem para impor a mim mesmo essa escolha. Pois bravo é o guerreiro que larga as armas quando não vê mais sentido na guerra.Bravo é o guerreiro cuja luta trava dentro de si. Cuja vitória e sobre a própria consciência. E cua apoteose é solitária e interna.
E assim continuo repetindo esse mantra, essas palavras valorosas no intuito de que elas me inspirem a coragem necessária, pois quando olhamos o precipício, ele também olha no fundo de nós.
Vencer o medo é a própria motriz do progresso. Empurro-me hoje na direção contrária à prosperidade, mas quero acelerar minha alma na direção desse progresso.
O suspiro e o olhar baixo. As mãos às têmporas apenas tentam esconder o que, lá no fundo de mim, fervilha e enlouquece. Ah, que vontade de destruir. De desconstruir, de reler minha própria história de trás pra frente.
Haja coragem para sacrificar essa persona que não cabe mais à face. Retirá-la é assinar um atertado de loucura, é assumir a condição marginal, vesti-me de mim mesmo e aceitar os dedos em riste à minha direção. Ah, os olhares estupefatos que virão. Arregalados todos ao se perceberem engessados e solitários. E eu, deixando a crisálida, bato forte as asas para algures. Não mais temente ao sol, não mais preso ao chão, mas refém de minha própria liberdade.
Coragem para impor a mim mesmo essa escolha. Pois bravo é o guerreiro que larga as armas quando não vê mais sentido na guerra.Bravo é o guerreiro cuja luta trava dentro de si. Cuja vitória e sobre a própria consciência. E cua apoteose é solitária e interna.
E assim continuo repetindo esse mantra, essas palavras valorosas no intuito de que elas me inspirem a coragem necessária, pois quando olhamos o precipício, ele também olha no fundo de nós.
Vencer o medo é a própria motriz do progresso. Empurro-me hoje na direção contrária à prosperidade, mas quero acelerar minha alma na direção desse progresso.
Cada escolha pressupõe uma perda
A cada momento que nos deparamos com a difícil tarefa de abrir mão de alguma coisa em prol de outra nosso pobre coração vacila. E é exatamente essa característica que nos diferencia dos outros seres vivos que nos causa mais sofrimento. A nossa consciência treinada pelo tempo a acumular e ter, se contorce toda vez que nos é imposta uma decisão. Evitamos a escolha na medida em que a decisão pressupõe uma perda. E o peso da perda nos angustia e assombra.
Curioso que exatamente essa nossa função (ou ilusão, como alguns preferem) é ao mesmo tempo nossa cruz e nossa redenção. A mesma consciência que nos estimula ao racional, ao cartesiano, a concreto, também nos impõe a projeção, a possibilidade, o abstrato. Somos os únicos na Terra que precisam justificar suas escolhas e aceitar suas consequencias. As opções nos torturam. Não há sofrimento na rosa cuja missão é perfumar nosso jardim. O peixe não sofre em sua submissa entrega ao anzol. Não ha angústia nas árvores ao produzirem suas sobras e frutos. Qual a nossa missão?
Por outro lado, precisamos a todo momento achar algo superior ou mais importante que justifique nossas escolhas e nos amenize o sofrimento causado pelas perdas que elas pressupõem. Nesse quesito, cada um tem para si critérios específicos. Mas para todos pesa a responsabilidade inerente a cada mudança de curso e, dessa forma, pode-se escolher a a semeadura, mas a colheita é obrigatória. Talvez seja esse mais um motivo que nos afaste delas. A vida sempre é mais simples sem elas. Se podemos ter tudo, o que há para sofrer?
Nossa conscência, então, nos empurra no caminho inverso e sofremos pela impossibilidade, por nossa peuliar pequenez. Queremos abraçar o mundo, mas somos formigas abraçando sequóias. E a consciência dessa pequenez nos dói e, mais uma vez, nos empurra na direção oposta.
Hoje ainda mais, diante de tantas opções, decidir é perder cada vez mais. Neste exato momento, pensem a infinidade de coisas perddas enquanto você lê este texto. Espero ter valido à pena.
Curioso que exatamente essa nossa função (ou ilusão, como alguns preferem) é ao mesmo tempo nossa cruz e nossa redenção. A mesma consciência que nos estimula ao racional, ao cartesiano, a concreto, também nos impõe a projeção, a possibilidade, o abstrato. Somos os únicos na Terra que precisam justificar suas escolhas e aceitar suas consequencias. As opções nos torturam. Não há sofrimento na rosa cuja missão é perfumar nosso jardim. O peixe não sofre em sua submissa entrega ao anzol. Não ha angústia nas árvores ao produzirem suas sobras e frutos. Qual a nossa missão?
Por outro lado, precisamos a todo momento achar algo superior ou mais importante que justifique nossas escolhas e nos amenize o sofrimento causado pelas perdas que elas pressupõem. Nesse quesito, cada um tem para si critérios específicos. Mas para todos pesa a responsabilidade inerente a cada mudança de curso e, dessa forma, pode-se escolher a a semeadura, mas a colheita é obrigatória. Talvez seja esse mais um motivo que nos afaste delas. A vida sempre é mais simples sem elas. Se podemos ter tudo, o que há para sofrer?
Nossa conscência, então, nos empurra no caminho inverso e sofremos pela impossibilidade, por nossa peuliar pequenez. Queremos abraçar o mundo, mas somos formigas abraçando sequóias. E a consciência dessa pequenez nos dói e, mais uma vez, nos empurra na direção oposta.
Hoje ainda mais, diante de tantas opções, decidir é perder cada vez mais. Neste exato momento, pensem a infinidade de coisas perddas enquanto você lê este texto. Espero ter valido à pena.
25 de setembro de 2009
Punho fechado
Punho fechado
Espero sentado
o céu ocupado em amanhecer
A cara sofrida
o pus na ferida
a tez colorida a adoecer
Obstáculo à frente
a perna dormente
o corpo doente a estremecer
O sol que levanta coragem é tanta
daninha é a planta a lhe corroer
O passo incerto
caos sempre por perto
coração aberto com sangue a verter
És minha senhora
de hoje e agora
de dentro pra fora a me encolher
Espero sentado
o céu ocupado em amanhecer
A cara sofrida
o pus na ferida
a tez colorida a adoecer
Obstáculo à frente
a perna dormente
o corpo doente a estremecer
O sol que levanta coragem é tanta
daninha é a planta a lhe corroer
O passo incerto
caos sempre por perto
coração aberto com sangue a verter
És minha senhora
de hoje e agora
de dentro pra fora a me encolher
10 de setembro de 2008
Epitáfio da Infância
Qual a primeira palavra que se pronuncia depois de acordar? Quem consegue um tratado antropológico ao abrir os olhos depois de uma noite reconfortante?
Putaquepariu, talvez seja um bom exemplo. A perplexidade de se acordar só se traduz nessa palavra-frase, palavra-chave.
Estou vivo...deitado...o teto é branco...a chuva cai...há algo de mais excitante do que chegar à conclusão que toda aquela ação que se passou em um segundo e durou as horas da noite não passam de sinapses desconexas?
Difícil é começar a discorrer sobre amizade, passado, lágrimas e alegrias de uma vida assim...acabando de acordar. Mas agora, desperto e consciente, escrevo essas linhas de memória, insuflado pelo prolixo que me antecedeu.
Passei. Passei bem colocado, à frente de uma tal Adriana que acompanharia inexorável minha infância naquela instituição. Quem era? Quem é? Não importa. Só importa seu nome abaixo do meu na lista de nomes pretos fixada na parede de ladrilhos verde-escuros no grande pátio coberto daquele prédio. Aquele prédio que presenciaria tantas filas, formas, areia, dentes e sangues.
Não imaginava que ali faria rios na terra e passearia junto às galinhas num criadouro de almas independente de sua espécie. Assim fui criando-me, com professores da vida, quadros que caem, risos e jogos de futebol. "Campeones...olê, olê, olê", gritávamos todos, vencedores e perdedores, abraçados em direção ás escadas de nossos primeiros degraus pessoais e profissionais.
Pés, pernas e virilhas ao vento. Cresci com imagens inimagináveis, felizes retratos tortos na parede da minha memória. Andares mal-assombrados, elevadores amaldiçoados, mãos e línguas entrelaçando-se na mais pueril inocência. Gostava mais de estar ali do que em qualquer outro lugar. Ejetar de balanços e guerrear com almofadas nos recantos culturais mais férteis. Os primeiros acordes da minha infância soaram como metades de cocochocando-se umas contras as outras, atabaques e bongôs em roda. Triângulos dissonantes ainda ressoam nos meus ouvidos marcados por letras fortes e avançadas para minha mente...me pedindo consideração por mulheres alteradas e rosas inválidas.
E as cambalhotas salientes nos mini colchões azuis que brotavam das paredes proibidas. Essas mesmas paredes que enceravam, após a hora de aprendizado, todos os prazeres que o corpo de criança precisava para transcender. Na falta deles, qualquer objeto virava diversão. Carteirobol. Fui campeão, acertei olhos e narizes. Porradobol, idem.
E os amores? Amava sem preconceito. Amava a alegria de amar, de conviver, de tocar, cheirar, sentir pulsar o primeiro sintomas que hoje me fazem sonhar. O amor desta época é meu para eternidade. Todos os olhos azuis, verdes, brilhantes ou opacos, perversos ou lascivos. Todos corpos, desajeitados ou potentes, imprevisiveis ou expostos. Que grandes surpresas esses corpos me prepararam. E o meu próprio, levado ao limite em todas as situações. Suava e gargalhava como se morresse se não o fizesse até o último instante.
E hoje vejo todos aqueles rostos resplandecentes atrás dessa tela branca, leitosa...imprecisa. Vejo os cabelos negros do Milho, a envergadura plácida do Bernardo, as bochechas rosadas da Fernanda, as madeixas em caracóis da Helena, a tez de opala da Rosana.
Quem eram? Quem são? Não importa. Vale que existem como são em minha mente até a hora de acordar.
Minerva
Putaquepariu, talvez seja um bom exemplo. A perplexidade de se acordar só se traduz nessa palavra-frase, palavra-chave.
Estou vivo...deitado...o teto é branco...a chuva cai...há algo de mais excitante do que chegar à conclusão que toda aquela ação que se passou em um segundo e durou as horas da noite não passam de sinapses desconexas?
Difícil é começar a discorrer sobre amizade, passado, lágrimas e alegrias de uma vida assim...acabando de acordar. Mas agora, desperto e consciente, escrevo essas linhas de memória, insuflado pelo prolixo que me antecedeu.
Passei. Passei bem colocado, à frente de uma tal Adriana que acompanharia inexorável minha infância naquela instituição. Quem era? Quem é? Não importa. Só importa seu nome abaixo do meu na lista de nomes pretos fixada na parede de ladrilhos verde-escuros no grande pátio coberto daquele prédio. Aquele prédio que presenciaria tantas filas, formas, areia, dentes e sangues.
Não imaginava que ali faria rios na terra e passearia junto às galinhas num criadouro de almas independente de sua espécie. Assim fui criando-me, com professores da vida, quadros que caem, risos e jogos de futebol. "Campeones...olê, olê, olê", gritávamos todos, vencedores e perdedores, abraçados em direção ás escadas de nossos primeiros degraus pessoais e profissionais.
Pés, pernas e virilhas ao vento. Cresci com imagens inimagináveis, felizes retratos tortos na parede da minha memória. Andares mal-assombrados, elevadores amaldiçoados, mãos e línguas entrelaçando-se na mais pueril inocência. Gostava mais de estar ali do que em qualquer outro lugar. Ejetar de balanços e guerrear com almofadas nos recantos culturais mais férteis. Os primeiros acordes da minha infância soaram como metades de cocochocando-se umas contras as outras, atabaques e bongôs em roda. Triângulos dissonantes ainda ressoam nos meus ouvidos marcados por letras fortes e avançadas para minha mente...me pedindo consideração por mulheres alteradas e rosas inválidas.
E as cambalhotas salientes nos mini colchões azuis que brotavam das paredes proibidas. Essas mesmas paredes que enceravam, após a hora de aprendizado, todos os prazeres que o corpo de criança precisava para transcender. Na falta deles, qualquer objeto virava diversão. Carteirobol. Fui campeão, acertei olhos e narizes. Porradobol, idem.
E os amores? Amava sem preconceito. Amava a alegria de amar, de conviver, de tocar, cheirar, sentir pulsar o primeiro sintomas que hoje me fazem sonhar. O amor desta época é meu para eternidade. Todos os olhos azuis, verdes, brilhantes ou opacos, perversos ou lascivos. Todos corpos, desajeitados ou potentes, imprevisiveis ou expostos. Que grandes surpresas esses corpos me prepararam. E o meu próprio, levado ao limite em todas as situações. Suava e gargalhava como se morresse se não o fizesse até o último instante.
E hoje vejo todos aqueles rostos resplandecentes atrás dessa tela branca, leitosa...imprecisa. Vejo os cabelos negros do Milho, a envergadura plácida do Bernardo, as bochechas rosadas da Fernanda, as madeixas em caracóis da Helena, a tez de opala da Rosana.
Quem eram? Quem são? Não importa. Vale que existem como são em minha mente até a hora de acordar.
Minerva
29 de abril de 2008
A persistência do sorriso
Homúnculo assoberbado
Refém fiel de peito encaixotado
Companhia de quimeras
Pesadelo nas horas vagas
Espreme a angústia que te espeta
Dor lacinante do esteta
Perfeição ao seu lado inabalável
Imóvel e fria criação inalcançável
Briga em mim em veia e músculo
A esperança vã inesgotável
De acordar à aurora com teu ósculo
E dormir em teus braços no crepúsculo
E sonhar uma vida de cores
Tomando sua nuca de flores
Com mão firme a carne fria
E tua brutalidade macia
Pisoteia a esperança vazia
Flecha dura em dissabores
mas teus olhos que se esquivam
Tua armadura invisível
Hão um dia de se abrir
Pois não há medo que perdure
Nem solidão que se mature
Na persistência do sorriso
Refém fiel de peito encaixotado
Companhia de quimeras
Pesadelo nas horas vagas
Espreme a angústia que te espeta
Dor lacinante do esteta
Perfeição ao seu lado inabalável
Imóvel e fria criação inalcançável
Briga em mim em veia e músculo
A esperança vã inesgotável
De acordar à aurora com teu ósculo
E dormir em teus braços no crepúsculo
E sonhar uma vida de cores
Tomando sua nuca de flores
Com mão firme a carne fria
E tua brutalidade macia
Pisoteia a esperança vazia
Flecha dura em dissabores
mas teus olhos que se esquivam
Tua armadura invisível
Hão um dia de se abrir
Pois não há medo que perdure
Nem solidão que se mature
Na persistência do sorriso
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