24 de maio de 2011

Esperança

“Vamos dar o nosso sangue para salvar a menina Esperança”

“Curti” – pensou Gonzalo ao clicar no botão respectivo daquela rede social. A mensagem era dolorosa: uma escola havia sido invadida por um psicopata que se matou após alvejar treze crianças. Mas a sociedade se organizava para doar sangue aos feridos e principalmente à pequena Esperança, jovem matriculada na quarta série que, entre a vida e a morte, necessitava de sangue na UTI. Ela virou a imagem da tragédia.

Gonzalo, preparando-se para dormir, fechou o laptop decidido a ir até o instituto médico onde a menina estava internada. Após um período turbulento em sua vida, agora tentava colocar a cabeça no lugar e a ação voluntária parecia fazer sentido na lista de atitudes que passaria a ter daqui para frente.

Na manhã seguinte, Gonzalo cumpriu sua rotina: acordou, tomou café, banho, masturbou-se, escovou os dentes, vestiu-se e saiu à prática recém adotada do voluntariado. Como ainda era cedo, não pegou fila e foi encaminhado prontamente à sala de coleta.

Sentou-se e aguardou alguns minutos até que uma moça de seus vinte e poucos anos, jaleco branco e olhos amendoados entrou na sala com um sorriso. Gonzalo se ajeitou na cadeira desconfortável e respirou fundo valorizando o tórax e lendo no crachá dela “Enfermeira Lea”.

Lea deu um bom dia educado e foi descrevendo automática o procedimento enquanto arrumava o material necessário em cima da mesa. Gonzalo não prestou atenção em nada além do discreto decote que prometia seios proporcionais á estatura baixa e compleição justa da menina, pelo menos até ela perguntar seu nome.

Nesse instante, Gonzalo levantou os olhos mirando nos dela e embalou a resposta com seu sorriso mais comprido. A moça sorriu de volta e continuou:

- Sr. Gonzalo, vou fazer algumas perguntas para saber se o senhor esta apto a doar sangue para o nosso banco. Posso?

Instintivamente, Gonzalo responderia um lânguido “pode tudo”, mas limitou-se a dizer um “sim” cortês.

- Peso.

- 75kg

- Altura.

- 1,78cm

- Alergias?

- Não.

- Doença crônica?

- Não.

- Toma alguma medicação de uso constante?

- Não – mentiu lembrando-se da crescente freqüência com que agora consumia vaso-dilatadores.

- Tem alguma tatuagem?

- Não.

- Se masturba mais de uma vez por dia?


Gonzalo arregalou os olhos e demorou longos segundos para decidir o que responder. Por um lado queria muito cultivar o civismo e fazer sua parte na comoção social pela trágica situação da menina internada e não tinha noção se muito é bom ou ruim nesse caso. Por outro, não queria expor aquele hábito incompreendido àquela linda moça que, até onde sua percepção podia alcançar, havia respondido positivamente a seus flertes.
Mas ainda havia uma terceira alternativa:

- Hoje em dia, não – respondeu confiante e foi a vez de Lea desamendoar os olhos, arregalando-os.

- Desculpe. Não entendi – desconversou a menina e perguntou novamente – o que disse?

- Hoje em dia, não. Já houve épocas em que me masturbava três vezes ao dia. Mas me expunha a muitos riscos com a vespertina. Hoje faço uso desse artifício somente quando estou na dúvida se quero ou não sair com uma menina. Se após umazinha ainda estiver a fim de sair com ela, eu saio. Se não, fico em casa mesmo. Não troco uma boa descascada por qualquer mulher – terminou passando um dos braços por cima do encosto da cadeira sentindo-se mais à vontade, afinal era expert no assunto.

Sem saber como reagir, Lea só conseguiu ruborizar e quando já formulava uma resposta qualquer para fugir do assunto, um outro enfermeiro abriu a porta com tristeza e desolação no semblante pesado:

- Lea, suspende as coletas que a Esperança acabou de falecer.

A notícia pegou Gonzalo de calças arriadas. Literalmente. Uma vez que já se preparava para decidir se sairia ou não com Lea.

20 de maio de 2011

Babas

O urso magro saía da toca onde passou o inverno. Cansado de tanto dormir, ia equilibrando-se nas agora verdejantes árvores até a beira do rio que lhe chegava às narinas com o odor da vida.
Primeiro bebeu água, muita água, até que a sede morreu e a fome gritou das profundezas vazias do enorme estômago. Seus olhos seguiam a correnteza aflitos, fitando além da superfície. Pata ante pata até o meio do rio, o frio lhe obstando a consciência.
Gigante e frágil, quase vertendo lágrimas irracionais no limite da sobrevivência, o urso joga seu corpo sobre a truta e arranca e sacode no ar, como a comemorar sua conquista.
As escamas da truta brilham sob a baba do urso assim como a almofada escurecia sob a baba do telespectador do outro lado da tela, quase dormindo, minutos antes de trocar de canal.

18 de maio de 2011

A experiência de voar

Recentemente vi uma entrevista de um americano que atentava para a maravilha de voar. Ele apontava a grandiosidade de colocar um avião de toneladas de peso no ar e mante-lo seguramente lá durante todo o percurso, seja ele curto como uma ponte-aérea, seja longo como Rio-Hong Kong.


Concordei com ele na hora. É impressionante como a genialidade humana desafia as leis naturais e, para o bem do progresso, diminui as distancias amentando as velocidades valendo-se de se próprio intelecto. Por esse prisma, preocupar-se com o assento curto que mal cabem as pernas, as refeições de isopor e a falta de conforto nas classes mais comuns, perde todo o sentido. Palmas a esse americano ufanista.

Realmente a experiência de voar é quase magica. E é ela que compensa toda a complicação de se garantir um lugar dentro do vôo. Não há estresse maior do que a fila de check-in em uma grande cidade brasileira. A desorganização é geral. As empresas se esforçam e colocam à disposição opções pelo celular e pela internet, porém nenhum deles parece evitar esse fenômeno brasileiro chamado fila.

Se voce chega no aeroporto e ainda não comprou seu bilhete, enfrenta fila no balcão e no guichê. Se você já comprou seu bilhete, fica na fila do guichê. Se você já se adantou e fez o check-in pela internet ou pelo telefone, fica na fila de qualquer maneira daquela maquininha que emite o bilhete.

Isso só para garantir se lugar. Depois é fila pra ter a bagagem examinada pelo raio x, fila para embarcar, fila para desembarcar, fila para pegar a bagagem.

Eu queria saber onde esta a genialidade humana nessas horas. Se o homem consegue fazer voar uma estrutura de mais de vinte toneladas durante horas e horas, porque diabos não consegue fazer as filas desaparecerem? Ou pelo menos evitar que elas aconteçam.

Talvez o grande trunfo das empresas aéreas, o que encombre sua incompetência generalizada no atendimento a seus clientes antes do vôo, seja essa magia incompreendida da qual se valem na comunicação do seu serviço. No final, a experiência metafísica de voar acaba nos fazendo esquecer a estressante experiência de estar no solo dependendo delas para chega onde precisa. Pelo menos até o próximo embarque.

1 de abril de 2011

Manias

Eu não agüento quando escuto alguém dizer que todo mundo tem mania. Só porque o sujeito tem problemas quer colocar todo mundo no mesmo saco. Comigo não. Eu não tenho mania.

Eu tenho sim é pouca paciência para certas coisas. Certas coisas me irritam. Manias dos outros, por exemplo, me irritam.

Deixar a tampa da pasta de dente aberta me irrita. Me diz porque o sujeito fecha a torneira, mas não fecha a tampa da pasta de dente? Fecha a tampa do vaso, mas não fecha a tampa da pasta de dente. Fecha até a escova toda naquela caixinha de plástico, compridinha, sabe qual é? Para proteger dos germes. E não fecha a tampa da pasta de dente.

Não estou dizendo que eu fico irritado porque os germes vão entrar na pasta e infectar a tudo, não é isso, nem sou tão afrescalhado assim. Até porque isso, sim, seria mania: mania de limpeza, mania de achar que vai ficar doente, o que por si só, já é uma doença.Hipocondria.

Simplesmente me irrita chegar no banheiro e ver o tubo da pasta ali usado...largado...explorado e deixado de lado como uma casca de banana. E a tampinha, coitada, ouço até ela gritando “mamãe, mamãe, socorro!” desesperada.

Numa boa, não fico pensando que a pasta vai ressecar, empedrar...até porque, se empedrar, aperta mais forte um pouquinho e ela sai melhor. Ou então aperta no meio do tubo logo. Sabia que tem gente que não agüenta ver o tubo apertado no meio. Vai correndo atrás de um pente pra passar o cabo e empurrar a pasta toda pra frente. Pelo amor de Deus. Se forem contar comigo pra achar esse pente, estão ferrados!

Eu não estou nem aí para isso. Aperto onde pegar primeiro. Agora, imagina você pegando a pasta que passou, sei lá, três dias aberta. Você faz a força normal e nada. Aperta um pouco mais forte e ploft!, a pasta desentope de repente e suja tudo...lambuza a pia, tua camisa passada que você vestiu para trabalhar, a maior cagada. O que dá vontade de fazer é pegar a pasta e escrever no espelho do banheiro: NÃO ESQUEÇA DE FECHAR A PASTA DE DENTE SENÃO SUJA O BANHEIRO TODOOOOO!!!

Banheiro é o único cômodo da casa onde a pessoa pode ser ela mesma, sem pudor. O espelho não julga se você tá gordo demais, careca demais, feio demais, com aquela cara amarrotada que você acorda...o banheiro sempre te recebe de braços abertos.

A merda é que, se você mora com mais alguém, tem sempre um rastro de outra pessoa naquele seu santuário. Tem sempre uma memória de que alguém passou por ali enquanto você está querendo se expandir todo.

E isso é fato, as pessoas tem conceitos diferentes do que é e o que não é importante. Papel higiênico, por exemplo, tem gente que não pensa na próxima vez que vai precisar dele. Vai lá na hora do aperto, tum, tum, tum, usa a o rolo todo e não coloca outro no lugar quando acaba. E eu me pergunto: PORQUE? Será pensando que, por ser de papel, feito de árvore, a coisa vai crescer de novo ali, enroladinha? NÃO VAI!

Eu realmente não sei. Só sei que a gente só pensa mesmo no papel higiênico depois que já fez o que tinha que fazer. Ninguém já com o Mandela na porta de saída vai antes até o banheiro checar se tem papel e, não tendo, vai até o armário da área, retira o rolo da embalagem, descola a ponta e encaixa ele no lugar. Esquece! Mesmo que você ache que dá tempo, não vai dar.



E quando o papel fica dentro daquela portinha de metal do lado do vaso? Você que já está achando que o pior passou...já se aliviou da urgência e olha para a portinha fechada. Amigo, na hora de abrir aquela portinha é sempre tenso. Tu pensa “Ai Jesus...se estiver vazia, lá vou eu ter que ir até o armário da área com a calça no joelho e as pernas abertas, ridículo, para substituir...e se alguma coisa cair no chão no caminho? Putz...ainda vou ter que limpar a sala!”. Aí você vai, estende a mão, tremendo: ”Será que tem, será que não tem?” Danou-se! Desiste no meio. Já começa a procurar alternativas. Olha para a duchinha...paro o bidê...a toalha de rosto...mas só de pensar que vai ter que levantar naquela situação já dá uma angústia. Dá uma dor de barriga...você até decide ficar um pouco mais tempo sentado: ”Não, vai sair mais...não preciso do papel agora!” Mentira! Tudo para não abrir a portinha e ver o rolinho de papelão vazio pendendo lá dentro. Usado, explorado e largado como a pasta de dente. A diferença é que não dá para escrever no espelho NÃO ESQUEÇA DE TROCAR O PAPEL HIGIÊNICO SENÃO SUJA O BANHEIRO TODOOOO! com a sujeira que você ia limpar com o papel higiênico.

17 de março de 2011

Poesia 12

Canto meu coração neste poema
e não sem dor contraio a palma
papel picado, o risco e o destrato
enquanto me maltrato, reciclo minha alma

Simulo um belo conceito
e o escondo em palavras sem jeito
onde foi parar o sujeito
tão bom nas coisas da alma?

Seguro do mal neste escafandro
mergulho ereto na fenda abissal
Tateando como um cristo, cego e braços abertos
procurando as flores entre sarça e coral

De lá trarei o caule da ficção
dos poemas e versos que me escorrem com calma
E se todo esforço for vão
e as mudas não vingam e morrem
Poderei descer novamente
seguro ao escuro
onde mora minha alma

23 de fevereiro de 2011

Concurso de Poesia

Descobri que a Sociedade Bíblica Brasileira abriu um concurso de poesia com o tema A Bíblia e a Natureza - Falando de Deus com Arte. Apesar de ser um tema meio distante do meu repertório, encarei o desafio e me inscrevi com o texto abaixo. Como nunca soube o resultado do concurso (sinal claro da qualidade questionável do texto e que confirma minha distância do tema) publico agora sem medo de ser punido no Purgatório pelo sofrimento que venha a causar a você, leitor.


Na penumbra, tinha uma vaga idéia de Ti
Lá fora, a iluminar meus olhos
Mesmo por trás das pálpebras cerradas.
Nossas pegadas lado a lado, leves na areia
Transformaram-se em apenas duas, suas, mais pesadas.

Nos sons da Natureza se fizeram Teu sussurro
E me entreguei submisso à Tua verdade
Como a árvore missionária sustenta em papel Tuas palavras
Serei a concha com água às bocas sedentas de Divindade.

Essa água que é chuva, flocos de vida nova
Reluzentes lágrimas de alegria vindas do alto
Derrama qual cachoeira sobre o regato de minha alma.
Protege com Tua mão invisível meu caminho
E confirma o que em caverna já foi escrito
Convida o coração aflito à calma.

E escavam os rios os sorrisos da Tua glória
A alegria de fazer parte da História
A buscar a paz coletiva de um mar.
Nosso envolvimento gera o compromisso, nossa paixão é nossa entrega
Paciente, nos conduz qual gente cega
Transformando-nos na mudança que queremos perpetrar.

18 de fevereiro de 2011

Cavalos selvagens

Subi a ravina, perscrutei a campo aberto com as mãos sobre os olhos e lá estava ele. Minha vontade era pular no vazio do abismo que nos separava e agarrar-lhe a crina à unha. Mas, ansioso, dei as costas e desci na intenção de finalmente domar o animal. Conhecendo seu comportamento, dirigi-me ao lago onde, sabia, ele estacionaria quando o sol lhe fustigasse suficientemente o lombo. No caminho, apalpava os bolsos conferindo se tinha todas as ferramentas necessárias para o momento do encontro.

Um dia se passou antes que ele aparecesse. Ouvi seus cascos ao amanhecer, vinha levantando poeira atrás de si e mesmo antes que eu pudesse vê-lo, ele já havia me avistado e vinha arisco, marinado numa noite de receios.

Não me movi enquanto ele se aproximava do espelho d’água arruinando o encontro de lua e sol ao matar sua sede. Num dado momento, moviam-se apenas os astros e aquele pescoço sedento e musculoso.

Fiz menção de mover-me apenas quando percebi que ele estava saciado, mas, como se adivinhasse, levantou as orelhas e bufando deu alguns passos atrás. Levantei-me e ele marchou para mais longe e ficou de lá a fitar-me. Depois de tanto tempo observando-o ao largo e me aproximando aos poucos estava acostumando-o a dividir seu espaço comigo. Já o havia visto pastar, nadar e procriar. Dormir com fome e refestelar-se em forragem. Nesse convívio forçado, abri à fórceps um canto em sua vida, uma presença que começou no canto do seu olho e agora via-me todo e de frente. Ainda sim seu instinto mantinha-o afastado.

Não me importei com seu pinote assim que dei o primeiro passo em sua direção. Nem me assustei quando relinchou alto quando entendeu que eu não pararia. Escolhi aquele momento como derradeiro. Não deixaria aquela besta à solta nem mais um dia. Usaria aquela rebeldia e força a meu favor. Montaria sua velocidade, condicionaria sua potência, regozijaria sua liberdade.

Perto o suficiente, vi em seus olhos mistos de curiosidade e medo minha própria face refletida. Por um instante aquelas órbitas negras e profundas tinham alma e personalidade. Como o sol e a lua enamorando-se sobre o espelho d’água, nossos espíritos deram as mãos quando entreolhamo-nos. Suávamos. Eu por temer não conseguir domá-lo e ele por temer perder sua liberdade. Ainda assim avancei mais um pouco e quanto mais próximos maior o magnetismo.

Estendi a mão e senti sua pulsação ao tocar o focinho áspero. Dei-lhe um carinho e ele carinhosamente quis recebê-lo.

Conhecemos-nos durante a manhã e só quando o sol ia alto no céu eu pude oferecer-lhe freio e cela cuja aceitação foi dócil apesar da desconfiança inicial. Consegui montá-lo muito após o mergulho do sol no horizonte. Não foi fácil para ele acostumar-se com meu peso sobre si, com alguém a guiar-lhe o olhar e os passos; nem para mim conter sua força e vontade, aquele ímpeto de correr e sumir, de fazer o que lhe conviesse a qualquer instante.
Vinha a lua na metade de sua descida, já preparando sua despedida às estrelas quando meus braços perderam o tônus e minhas pernas fraquejaram. Num balanço brusco, mas já não tão brusco quanto os anteriores, caí sobre meu corpo exausto. Ferido, olhei-o imponente, esperando sua fuga. Mas ele permaneceu. Desceu o nariz ofegante e cheirou-me como se a certificar-se de minha vida ou minha morte. Sossegou quando levantei e, naquele instante em que nem sol nem lua dominam o céu, mas o compartilham, montei-o pela segunda vez e, dessa vez, acostumamo-nos. Ele mesmo freando suas vontades e eu gentil no direcionamento.

Combinamos, então, tacitamente, respeito mútuo e, em momentos específicos, nos permitimos deixar-se guiar, da parte dele, ou deixar-se seguir, de minha parte, enquanto o céu se permitia ostentar dois astros simultânea e harmoniosamente.

23 de dezembro de 2010

Próspero Natal e Feliz Ano Novo

Nunca entendi por que só o Natal, que dura algumas horas, deveria ser feliz enquanto o Ano Novo, 365 dias, deveria ser próspero. Não que desejasse o contrário, ou seja, um Natal infeliz e um Ano Novo de cinto apertado. Mas gostaria que me desejassem ao inverso.

Por isso, faço dessas linhas meu desejo para você, leitor, esperando que, ato-contínuo, possa me desejar tudo de volta.

Desejo a você um próspero Natal. Uma mesa farta, repleta de pessoas que você ama alegres pelo fato simples fato de estarem juntas e pelo consumo leve de bebidas alcoólicas, pois, se bem me lembro, o primeiro milagre daquele cujo nascimento comemoramos no Natal, foi exatamente transformar água em vinho (e, como diz um amigo meu, “ainda bem que transformou em vinho porque se tivesse transformado em vodka, ninguém lembraria do milagre”).

Desejo que você possa presentear aqueles que você acha que merecem um reconhecimento pela proximidade, mesmo que esse presente seja um abraço, um beijo ou um aperto de mão vigoroso. Desejo que não lhe faltem recursos para que, nesta data, você possa demonstrar a sua afeição por todos que, de alguma forma, contribuem ou contribuíram para que você seja uma pessoa melhor ou diferente.

Quanto ao Ano Novo, desejo-o, sim, feliz. Mesmo que não seja um ano de prosperidade, mesmo sem aquele carro novo ou o apartamento de três quartos. Mesmo sem aquele aumento de salário ou mudança de emprego. Mas que a cada dia as angústias diminuam, as ansiedades abrandem, as preocupações atenuem enquanto as possibilidades aumentam, as vontades aqueçam, os amores floresçam e as certezas fortaleçam.

Desejo a você um ano feliz, o que é uma coisa muito pessoal. Desejo a você que o ano aconteça sem sustos, mas se os houver que sejam aqueles em que se grita “surpresa” e acaba com você cheio de presentes. Desejo a você uma mão firme na qual você segure quando sentir medo ou solidão. Desejo que você tenha um ano de bons sentimentos e não de boas coisas, pois as coisas, mesmo as melhores, apodrecem, quebram ou enferrujam enquanto os sentimentos ficam dourados com o passar do tempo.

Desejo, por fim, que no Natal do ano que vem você releia essas linhas e que elas sejam tão atuais quanto são hoje, pois, tenho certeza, serão tão ou mais sinceras.

21 de dezembro de 2010

Reminiscências do Ano Velho - 2010

Mantendo a jovem tradição das Reminiscências do Ano Velho, primeiramente publicada AQUI no final de 2009, volto à prancheta para desenhar com palavras o perfil de 2010 através dos fatos que nos tiraram o sono, do sério e da cadeira.

O ano de 2010 começou com o trágico prenúncio de que o planeta começaria a segunda década do terceiro milênio cobrando as faturas dos últimos duzentos mil anos de presença humana a detonar a Terra e, provando que não faz distinção de nossas classes sociais em sua ira, resolveu dar exemplo em Angra dos Reis, balneário carioca reduto de veraneio dos cheios da grana, e no Morro do Bumba, comunidade carente de Niterói que só conseguiu ver água encanada quando as águas do dilúvio correram por entre suas vielas. Mas a desforra natural não privilegiou do Brasil. A Terra sacudiu-se toda no Chile, no Haiti e em um monte de outros lugares como se quisesse se livrar de nós, suas eternas pulgas, como um cão que já cansou de se coçar.

Nossa sorte foi que achamos outro cão para sugar, ou melhor, outro planeja onde morar. Trata-se de uma descoberta fenomenal: um planeta com as condições muito similares às da Terra na constelação de Libra, logo ali a 20,3 anos-luz, com vista para um sol vermelho, a Gliese 581. O planeta é perfeito: tem água nos três estados, ciclos freqüentes de calor e frio e, o melhor, não tem nenhum ser humano lá e levaria mais ou menos 780 anos para um ônibus espacial chegar lá saindo de Cabo Canaveral, mais tranqüilo do que sair da Barra da Tijuca em direção ao Centro. Nesse prazo dá até tempo de a esperança morrer.

Mas enquanto a esperança definha, testemunhamos o processo eleitoral mais desacreditado da história do Brasil. Como diria nosso presidente, nunca na história desse país votamos tanto em pessoas tão despudoradamente despreparadas. Aliás, tornou-se um diferencial eleitoral a imbecilidade.

E para não falarem que não falei do Tiririca, permanecerei em silêncio de oração.

Eleições em ano de Copa tem dessas coisas, o eleitor acaba esquecendo o que tem que fazer e elege para o Congresso e para a Câmara aqueles que gostariam de enviar para disputar o título mundial de futebol. E o resultado é que conseguimos eleger, com uma votação recorde, um plantel de dar inveja: Romário, Bebeto, Danrlei (ele mesmo, goleiro do Grêmio), Marques (craque no Atlético-MG). E, no banco, ainda ficaram Marcelinho Carioca, Vampeta, Dinei...assim, as coisas acabariam em pelada com churrasco em vez de pizza em Brasília. E, falando em futebol, a derrota do Brasil na Copa só não foi uma decepção pior do que o episódio final de LOST.

Mas já que não conquistamos a África, pelo menos conquistamos o Alemão e a Vila Cruzeiro. Num exemplo de organização que não víamos desde a Guerra do Paraguai, polícias e exército juntaram-se para cercar e tomar o maior reduto e centro de distribuição de drogas do estado. Insuflados pelo sucesso de Tropa de Elite 2, filme que deu voz à vontade da classe média de explodir tudo e começar de novo, o BOPE voltou à moda e empatou com Fiuk e Restart o título de artista do ano.

O ano em que se lembrou os trinta anos da morte de John Lennon também nos levou o gênio José Saramago, mas não sem deixar-nos uma linda despedida com o filme José & Pilar, do diretor português Miguel Gonçalves Mendes. Uma história de amor digna de ser cinematografada. Não tão inusitada quanto a do mineiro chileno resgatado e esperado na superfície pela mulher e pela amante. Aliás, esses mineiros foram as verdadeiras celebridades de 2010: 33 pessoas soterradas resgatadas após 17 dias com direito a cobertura ao vivo da Rede Globo, Kibe Loco, tweets e posts das diversas redes sociais com IBOPE maior do que o BBB. Um mega evento de proporções gigantescas, só faltou patrocinadores e merchandising. O Sebastian Piñera está estudando afundar um submarino no ano que vem. Conversas estão quentes com os russos do Kursk.

Mas 2010 também nos reservou gratas surpresas. Uma delas foi o iPad, produto revolucionário da Apple que é tudo e não é nada ao mesmo tempo. Vai entender a cabeça do Steve Jobs. Ele consegue desenvolver um produto que serve para um monte de coisas que ainda não existem e consegue mobilizar um monte de gente para criar coisas para que seu produto tenha uma utilidade. Genial. Palmas para ele.

E já no final do ano, descobrimos mais um maluco ganhando dinheiro com coisas aparentemente sem valor: Julian Assange e seu WikiLeaks. O site de vazamento de informações confidenciais funciona desde 2006, mas só conseguiu realmente incomodar e ganhar a devida notoriedade esse ano com o vazamento do que foi chamado Cablegate, o escândalo dos cabos, onde mostra através de inúmeros documentos o posicionamento dos EUA em suas relações internacionais desde 1966, com pareceres sobre líderes, governos e movimentos ao redor do mundo.

Sobre o Brasil, o WikiLeaks revelou diversos relatórios americanos definindo questões culturais, a aproximação entre Lula e Sarkozy e, finalmente, sobre Dilma Roussef, nossa futura nova presidenta. Nos documentos, os EUA não colocavam fé na eleição da ex-guerrilheira, mas mesmo assim ela ganhou. E, como para ratificar a alegria com sua nova líder, o Legislativo aprovou um belo presente de Natal para ela e para si mesmos: um aumento de salário de mais de 130%. Em 2011, o cargo de presidente da república deixa de pagar R$ 10,7 mil por mês e passa a pagar R$ 26,7 mil por mês.

E é com esse soldo mensal no bolso que Dilma inaugurará uma nova era na história do Brasil. Ela, uma mulher, uma combatente, uma mãe, uma ex-guerrilheira, ex-sequestradora, ex-assaltante de banco, ex-ministra, ex-presidiária e tudo isso sem ter sido eleita uma vez sequer. Parabéns a Dilma e sucesso, muito sucesso e sorte para essa p... não virar até 2014, porque não vai dar para ter Copa num Brasil pior do que o de hoje.

20 de dezembro de 2010

Próxima sessão


Rapaz entra na sala de cinema quase lotada para a próxima sessão e em vez de subir e escolher um dos lugares vai para frente da tela e, resfolegando, pede a atenção de todos.

“Por favor, alguém aí achou um coração caído pelo chão?”

O povo se remexe tentando enxergar embaixo das poltronas. Celulares viram lanternas, idosos se agacham com dificuldade e, de repente, uma menina lá do outro lado da sala grita:

“Achei!”

O povo automaticamente pára e olha para a menina estendendo o coração ensangüentado e pulsante no ar. Rapaz, derrubando sacos de pipoca e canudinhos, corre em direção à menina. Ele a abraça em agradecimento enquanto pipocam as palmas dos espectadores. Para esses já valeu o ingresso.

Rapaz agradece pela ajuda. “Principalmente a sua” diz numa última olhada à menina. E sai da sala. Ela se senta toda toda em sua poltrona com um indisfarçável sorriso nos lábios até que, já na penumbra dos trailers, ela começa a apalpar os bolsos, remexer na bolsa e, lançando um olhar comprido para a porta de saída, se dá conta:

“Ih! Acho que perdi meu coração.” 

13 de dezembro de 2010

Maldita Felicidade

Em 2002 o filme “Jornada da Alma” (The Soul Keeper) contou a história de Sabina Spielerein, russa histérica internada num manicômio em Zurique onde o Dr. Carl Jung começava a colocar em prática as teorias psicanalíticas que desenvolvia juntamente com outro grande doutor e seu mestre, Sigmund Freud.

A Psicologia Analítica elaborada por Jung leva em conta não só aspectos conscientes e seus reflexos na atitude dos pacientes, mas também aspectos do inconsciente como sonhos, intuições e outros fenômenos que nos dão pistas de onde encontrar as causas mais profundas para as diversas psicoses e neuroses que todos nós (sim, todos nós) temos.

Não sou psicólogo e nem tenho a pretensão de, nessas poucas linhas, abordar a densa e profunda obra de Jung, mas, assistindo ao filme, vários aspectos, principalmente o fato de ela ter sido tão revolucionária, me levaram a escrevê-las.

A grande novidade do tratamento proposto por Jung (lembrem-se, segundo essa infidedigna fonte que vos escreve) foi a aproximação entre médico e paciente. Para acessar os arquivos inconscientes de Sabina Spielerein, o Dr. Jung gasta seu tempo, atenção e cuidados com a paciente, até que ela desmonte suas defesas naturais, escaldadas por um histórico de maus tratos e, como o próprio Jung se refere, “métodos medievais” ainda aplicados naquele início de século XX. Em uma inusitada cena, o médico leva sua paciente a um luxuoso restaurante e a alimenta dando-lhe de comer à boca, pois, no hospital, ela se recusava. Nessa busca, o sensível médico acaba por apaixonar-se pela paciente, desenvolvendo um relacionamento irracional e incontrolável por ela.

A grande reviravolta do filme é quando, curada de sua condição de interna de hospício, Sabina, encontrando-se secretamente com o médico que é casado, leva-o a questionar a proximidade com sua própria esposa. Ele se contorce para admitir essa irracionalidade dentro de sua própria vida e corrói-se em dúvida e culpa. Em outra cena brilhante, Jung e Sabina estão numa apresentação de ópera e ele, sem mais nem menos, deixa o teatro em prantos. Ela o segue e pergunta o que há, ao que ele responde debulhando-se em lágrimas “Estou feliz. Maldita felicidade”.
          
Investigando a irracionalidade dos outros, Jung fora pego de surpresa pela sua própria, cheia de complexos e demônios com os quais ele mesmo não sabe lidar. O filme usa a história até certo ponto feliz de Sabina (que, apesar do fim trágico, consegue reerguer-se da condição esquizofrênica e ser respeitada em seu trabalho) para mostrar um Jung doente de frustrações, culpas e medos. Um médico respeitado por fazer seus pacientes lidarem com suas irracionalidades, incentivando-os a expondo-las como diferencial de personalidade, lutando contra a sua própria, negada e reprimida.

Tendo assistido ao filme, é de se concluir que, uma vez sendo nosso inconsciente a verdadeira morada da nossa personalidade, onde estão muitas das nossas feridas, mas que também encerra suas curas, devemos estar mais atentos à maneira como reagimos às situações em que nos metemos para que nossas decisões e atitudes reflitam quem somos, não quem gostaríamos de ser ou quem os outros esperam que sejamos. Mas, se mesmo Jung, dono da idéia e codificador da teoria, pode, como mostra o filme, escorregar e sofrer entre suas vontades e seus compromissos, quem somos nós, pobres mortais, para não escorregar e sofrer?

PS: Para quem gosta, recomendo uma breve leitura sobre a obra de Jung AQUI . Sobre dois poetas russos citados no filme: Vladimir Maiakovsky e Boris Pasternak. E sobre as pinturas de Gustav Klimt AQUI.

10 de dezembro de 2010

Prólogo

Era uma vez um rapaz que queria escrever um romance medieval. Sentou-se e escreveu este prólogo.


O vento soprava frio vindo da janela aberta do quarto. As cortinas de seda flutuavam no escuro como algas brancas no fundo de um lago. Nada daquela noite calma prenunciava o que estava por vir. Se não fossem as luzes brilhantes ao longe, a paisagem seria tão calma e deserta como sempre. A fumaça que subia das fogueiras tremulava rumo à lua e as chamas que iluminavam e aqueciam soldados e mercenários, de longe, pareciam vagalumes num prado alagado.
As sombras dos sitiantes se moviam como um organismo único, não se conseguia distinguir, daquela distância, onde começava e onde acabava o exército. Nesse cenário sombrio, podia localizar somente a tenda vermelha e iluminada do Rei.
Há semanas não havia movimento de qualquer parte. Meus mensageiros, que partiam em segredo levando pedidos de socorro aos aliados, nunca chegavam aos seus destinos e voltavam sempre aos poucos. Suas cabeças sempre primeiro. Meus soldados enclausurados como ratos já podiam pressentir o fim trágico que se desenhava. Ao longe, nosso rebanho agora alimentava o inimigo, que bebia de nossa água e envenenava a corrente do rio que corta a cidade.
Eu me perguntava quanto tempo mais meus homens iriam agüentar. Já estouravam os primeiros motins dentro das guarnições mais baixas. Graças ao Nosso Senhor os superiores abafaram a revolta. Mas até quando também esses agüentariam? Há dias eu rezava para que um milagre acontecesse. Que São Miguel Arcanjo atendesse ao meu clamor e cravasse sua lâmina de fogo no peito de cada inimigo. No entanto, a única coisa que vinha dos céus era uma chuva ocasional para enchermos nossos baldes e cantis.
Saí do meu transe quando um pajem adentrou o quarto.
- Meu Senhor, o Conselho está reunido no salão principal. Estão aguardando Vossa Majestade.
Mirei-o com desânimo – “Que aguardem mais um pouco” - Fechei as grades de madeira da janela e só percebi a inutilidade do meu ato quando vesti a túnica e cheguei ao corredor. Apesar de ricamente decorado, sentia que tapeçarias e pratarias exibiam uma volatilidade e presença desnecessárias. Quantos arqueiros poderia eu manter com o ouro daquele busto? Quantos cavalos eu alimentaria com os fios daquele tapete? Tudo iria queimar no fim.
Entreabri a porta do salão devagar e fui examinando calmamente os presentes. Luc de Gussy não ostentava a barriga dos tempos de paz, a barba de Roberto de Messina crescia volumosa, as roupas do outrora alinhado Conde de Goulac pareciam jogadas sobre seu corpo. E mais ninguém. Que queria eu quando mandei reunir o conselho? Talvez olhar pela última vez nos olhos de meus aliados, mas às vezes perdia a conta dos que ficaram nos campos vermelhos da batalha.
Tomei fôlego e, enfim, abri a porta. A conversa que ia alta cessou automaticamente, enquanto os três marechais tentavam sustentar os olhares em mim. Arrastando o passo, neguei-lhes o cumprimento e joguei-me pesadamente no trono. Após as reverências costumeiras, que agora me entediavam, eles começaram.
– Já faz doze dias, meu Senhor, que as tropas aguardam por ordens. Depois do último motim, os soldados ficam cada vez mais inquietos.
- Mande-os plantar verduras – disse.
Sobressaltado, Roberto de Messina calou-se e olhou surpreso para os outros convivas. Então, o Conde de Goulac tomou a voz.
- Meu Senhor, alguns soldados disseram ter visto mulheres saindo da cidade para terem relações com os inimigos. Alguns de nossos aldeões já juraram fidelidade a ele! Temos que fazer alguma coisa!
- O mesmo, provavelmente – disse eu esticando a mão para o copo de vinho que me era oferecido pelo pajem. – Calem-se – falei sem forças – não vêem que não temos mais alternativas? O inimigo nos cerca há semanas. Que resistência temos a oferecer? Em pouco tempo estaremos queimando as flechas de nossos arqueiros para nos mantermos aquecidos à noite! Na verdade, nem sei por que reuni o Conselho... ou talvez tenha medo de admitir que fomos derrotados...

Ao simples som dessa última palavra, os três guerreiros estremeceram. Eram todos experientes nas batalhas, nos ataques, nos movimentos de defesa e aniquilação. Mas nenhum deles nunca tinha sofrido um cerco. Era de se admirar a coragem desses homens, mas em meu estado de espírito, não me enganava mais com coragem e bravura. Agora não passavam de romance e canções de bardos.
- Talvez o Senhor tenha razão, Majestade – disse Luc de Gussy quebrando o silêncio que se arrastava – Seria melhor entregarmos a cidade e evitarmos o confronto. A superioridade de nosso inimigo é patente! Acredito que já poderiam ter entrado na cidade, se quisessem. Mas a sua crueldade é tanta que preferem degolar-nos magros para que sangremos pouco e rápido.
- Nunca! – Antecipou Roberto – Não podemos nos curvar diante de nosso inimigo! Morreremos de qualquer forma... ou você acha que seríamos libertados para vagar e tentar juntar um outro exército. E mesmo se ficássemos livres, quem se disporia a lutar ao lado de desonrados!? Majestade, – disse ele após engolir seco – já que não temos escolha, devíamos armar nosso exército e atacá-los frontalmente, esta noite! Pelo menos assim nossos nomes não ficariam sujos na memória dos tempos!
- Em verdade... suicídio também é uma opção... – disse eu irônico – Não sou um guerreiro, Roberto. A vitória para mim sempre foi a paz. Agora que não vejo mais saída, minhas energias se esvaem como a areia de uma ampulheta, esperando a hora de cair o último grão.
Tinha vontade de chorar, mas minhas lágrimas secaram há tempos. Tinha medo de morrer, mas alguma coisa me impedia de engolir arsênico ou cravar uma adaga no próprio peito. Se pelo menos meu pai estivesse aqui... – pensei.

Depois escreveu isso AQUI.
Depois isso AQUI.
E, finalmente, porém sem ser o fim, AQUI.
E pediu que não rissem do excesso de reticências e dos erros de português.

8 de dezembro de 2010

Obrigados


Te agradeço a firmeza de propósito
O exemplo cáustico, o abraço tenro
Te agradeço pelo apoio pleno
Teu olhar ingênuo, pelo que foi dito
Te agradeço de todo peito aflito
Do pedestal que desço, o degrau vencido
Te agradeço pela franca estada
E por ter permanecido
Pela lucidez e pelo pranto
Pela dor e o desencanto, pelo sangue invisível
Os cabelos brancos
Por todos esses solavancos do meu ser corruptível
Pelos cristais quebrados que eu pensava diamantes
Pelo peito arfante e encurralado
A mão estendida, a faca e a ferida
Que sangra ainda nesse obrigado

***

Te agradeço pela hora errada
Pelas mil palavras certas
Pela porta cerrada e janelas abertas
Pela suposta ordem e presunçoso equilíbrio
Pelo brilho ainda que fugaz
Pelo caos e a tempestade a se formar
Te agradeço pelo sonho e por antever o caminho
Que mesmo sozinho tenho estado a trilhar
Te agradeço o silêncio
Que nos facilita, verdade infinita a nos amparar
Se me torno eloqüente é como compenso
O vazio de um mundo a se transmutar

***

Te agradeço por ter vindo a mim
Em gritos e impropérios
Num esforço subrenatural
Te agradeço o susto
E as palavras corrosivas do seu ideal
Te agradeço o despertar
Mesmo esse que requer meu suor
O caminho foi escolhido
E os passos que dou para te fazer melhor
Te agradeço a oportunidade
Que tua ira me dá de renovação
Vou pagar meus pecados
Que tu testemunhas a pleno pulmão
Te agradeço menos pela forma e mais pelo conteúdo
Que me deu pistas de como evitar
O mal que se desprende de tudo
Tem tudo em si mesmo para bem terminar

***

Te agradeço o sorriso fácil
Que é meu e que te empresto
Te agradeço as perguntas simples
Cujas respostas não contesto
Te agradeço o olhar entregue
E o murmúrio noturno que me faz insone
As primeiras palavras, não há quem negue
A origem que levas no nome
Te agradeço o abraço frágil no qual não caibo
Do beijo estalado na ponta dos lábios
Ao beiço lacrimoso na hora que dorme
Te agradeço esse amor enorme
Que só desprende de você
Agradeço a bendita hora em que vieste
Na pequenina forma de bebê
E pela magia em torno de ti
De encher meus olhos com água salgada
Te agradeço por ser quem tu és
Sem passado, só presentes e mais nada

6 de dezembro de 2010

Eles não tinham uma música

Eles não sabiam que livros haviam lido em comum muito menos discutido sobre os clássicos. Ela não sabia dos doze níveis do Inferno nem ele conhecia os efeitos do soma. Ele nunca tomou rivotril e ela nunca cheirou loló. Eles não sabiam as bandas preferidas um do outro nem tinham compartilhado um fone de ouvido. Eles não tinham uma música.

Ele nunca soube se o colchão dela era macio ou duro, mas sabia de suas dores nas costas. Ela nunca soube quantas camisas ele tinha, apesar de saber que gostava de usá-las para dentro da calça. Ele nunca soube qual era cor preferida dela, apesar de notar o arco-íris nas suas unhas. Ela nunca soube qual era o nome do perfume dele, apesar das horas perdidas sentido-o exalar de seus antebraços.

Ele nunca soube como ela dirigia, apesar de saber que ela tinha saudades do carro. Ela nunca o vira usando óculos e depois duvidou que seus olhos verdes fossem naturais sob as lentes de contato. Eles nunca pegaram ônibus ou metrô juntos. Ela nunca o viu tomar café. Ele nunca a viu andando de bicicleta.

Eles nunca discutiram um filme que acabaram de assistir nem ela o tinha visto parar o filme chamando atenção para um movimento de câmera. Ele nunca a viu escrever comentários no livro que estava lendo. Ela nunca o viu gritar de dor nem ele a viu chorar de raiva. Eles nunca tinham visto juntos o sol nascer ou se pôr. Nunca tomaram café-da-manhã, nem vinho, nem vodka. Eles nunca tinham dançado nem se jogado no mar vestidos de madrugada. Ele nunca havia pedido trocados a ela para comprar chiclete.

Ela nunca treinou técnicas de pompoar com ele. Ele nunca a tinha feito perder o controle. Ele nunca a tinha visto de cabelos presos ou azuis ou naturais. Ela nunca o tinha visto inventar músicas com seu nome no refrão.

E ainda assim, eles se despediam como se já tivessem descoberto tudo um do outro. E ainda assim eles calavam a dor e seguiam em sentidos opostos fechando as portas atrás de si sem cliques ou rangidos.

Eles não tinham uma música. Talvez por isso tenham se despedido em silêncio.

30 de novembro de 2010

Flor de vaso

Quem te colhe, flor de vaso
que não sangre em teus espinhos
disponíveis, caso a caso
desabrochando-se em carinhos

Sob a nesga do primeiro fogo
colore sonhos de aurora
Estica-se na janela, em gozo
a quem preso a ti, devora

És tudo e nada ao mesmo tempo
de verve e obviedade
adula em seiva rubra o ressentimento
das mais belas crueldades

Fez luz nova brilhar no prado
que expôs em cor e som
aquele velho arroio questionado
sem marcas de mordida ou batom

Uma vez doce e singela
inocula teu veneno em borbotões
teus espinhos, caninos em assalto
vens do alto, vampira de emoções

Eram óbvios os destinos
Teu e meu em paralelos
dos beijos que sacudiram sinos
restam os golpes dos martelos

18 de novembro de 2010

Antes da catraca

Este deveria ter sido o primeiro post deste blog. Mas como eu só escrevi ele ontem, fica hoje o registro.

Antes da catraca

Sempre andei de ônibus e sentava antes da catraca, na época que ainda se entrava nos ônibus pela parte de trás, só para ficar observando as pessoas. Tentava imaginar de onde vinham e pra onde iam. Sentia-me um tipo de Sherlock Holmes adivinhando os pontos aonde cada passageiro saltaria.


Mas isso acabou depois que fui assaltado. Os assaltos a ônibus eram comuns, mas, geralmente, os que sentavam antes da catraca eram poupados. Sentar antes da catraca dava às pessoas um ar de marginalidade, de revolta, o trocador achava que a gente ia dar calote. Essa suposta marginalidade nos aproximava dos verdadeiros marginais em ação catando os pertences dos integrados pagadores de passagem lá na frente. Mas, apesar de ter incorporado essa aura marginal à minha atitude, de nada me valeu nesse dia e, graças a deus, consegui, com o tempo, diminuir minha dependência do transporte público.

Viajar antes da catraca também era o fenótipo de uma característica que carrego em meu DNA: a introspecção. Lá de trás conseguia ver tudo sem ser visto e isso me dá outra característica: a possibilidade de ver em perspectiva. Sou bom em me colocar no lugar dos outros e, talvez pelos dois motivos, seja impelido a escrever.

Por muito tempo preferi a poesia que era a realização do “ver sem ser visto”. Mas, aos poucos, a prosa vem me cativando e, através dos contos, ponho em ação essa veia documental destilada nesses pequenos textos cujo estilo, se tiverem paciência e altruísmo suficientes, constatarão nas descrições, às vezes exageradas, foco principal do meu aprimoramento, e nas metáforas inusitadas.

Não domino técnicas nem trago ainda grande bagagem literária nas costas, mas tenho boas intenções. Espero que, um dia, alguma frase que eu venha a escrever ou tenha já escrito provoque uma lágrima ou um sorriso, um susto ou uma reflexão, enjôo ou júbilo. Mas, enquanto isso não acontece, estarei aqui, atrás da catraca, absorvendo e escrevendo até onde esse ônibus me levar.

15 de novembro de 2010

O comprometimento do salmão

Estava pegando no sono. Meu pé esquerdo sentia o fluxo do rio onde estava pela metade, trazendo da ponta dos dedos uma sensação de pura paz. Não havia barulhos senão o murmurar baixo como um sussurro da água desfazendo-se em espuma contra uma pedra maior e o chacoalhar das copas das árvores tão altas que me desafiavam a visão quase desfalecida.

Acompanhava com olhos semicerrados a água em seu ir sem vir, numa única e decidida direção, para o baixo. Sem sucesso tentava carregar meu pé que, preso a mim, opunha uma resistência desleal. Sucesso, sim, tinha ao levar o leito, as pequenas pedras e os peixes que, dispondo da própria correnteza do rio, deixavam-se levar até não sei onde, o lugar onde os peixes preferem viver.

Porém, perto da outra margem havia um que lutava contra a força do rio. Era um salmão grande e vermelho. Via-se que lutava contra a correnteza sem, no entanto, conseguir sair do lugar. Se os tivesse, trincaria dentes e contrairia a fronte, num daqueles sinais humanos de esforço. Mas como peixe era, denotava outros sinais que qualquer observador, seja acostumado com o fenômeno, seja admirado com o inusitado, entenderia e lhe emprestaria um adjetivo humano qualquer para descrever essa luta, convenhamos desumana.

Acompanhei o peixe até o estertor das forças o que, para minha surpresa, não aconteceu uma, mas três ou quatro vezes. Era persistente, o danado. Quando eu achava que o rio havia vencido, varrendo o peixe para detrás de uma pedra, eis que após alguns minutos de descanso, voltava ele a sacolejar sua espinha rio acima.

Já desfeito de minha intenção de dormir e retirando finalmente meu pé de dentro daquele campo de batalha, fiquei acompanhando rio e peixe a se digladiarem refletindo sobre o que levaria o peixe a subir tamanha correnteza e, pior, o que levaria o rio a dificultar-lhe tanto o trabalho.

Rio e peixe são coisas que, diferente da gente, não se sentam à margem das cidades a refletir sobre as desventuras dos humanos em que nela vivem. Se o fizessem, porém, talvez não tivessem a mesma dificuldade que tive para dormir ao observar esta luta que descrevo.

Pois bem, refletia sobre as dificuldades de um e de outro e me vi sobre a pressão de julgar-lhes não as intenções, pois que são irracionais ambos e delas se privam, pelo menos até onde a ciência contemporânea entende, mas os instintos que a natureza põe em conflito. Mas como o rio em si não encerra, exceto em poesia, nem intenção nem instinto, foquemos no peixe a reflexão e deixemos o rio seguir seu curso.

O peixe sabe que sua cria tem mais chance de sobreviver se estiver numa calma lagoa, cercada como um forte-apache, sem predadores. Por isso, recorre a ela todo ano, pelo menos uma vez por ano, para procriar e, nesse período, se mais uma vez compararmos peixes e homens, o que se viria naquela lagoa seria um grande bacanal. Muitos peixes, machos e fêmeas agrupados num espaço fechado com um simples propósito: fazer com que o esperma de uns chegue e fecunde os ovos das outras. Tirando o fato de que agrupamentos humanos com esse específico propósito não existem, pelo menos não para procriação, tomamos pelo bacanal como a situação que parece ser a mais similar para termos de comparação, pois, mais uma vez, peixes são privados tanto de intenções quanto de responsabilidades e, se assim não fosse, com certeza não estariam os peixes por aí a fecundar qualquer peixa que lhe cruzasse o caminho, ou melhor dizendo, a corrente.

Nessa calma lagoa à qual recorrem tantos peixes e peixas acontece uma algazarra. São muitos indivíduos para um espaço diminuto. Chegam a uma conclusão coletiva: a de que, se permanecerem ali para sempre desfrutando da calma e da segurança, logo não haverá espaço, muito menos alimento, para eles e para a prole que está vindo e que é a razão primeira de eles mesmos estarem ali. Pois eis que, chegando a essa conclusão, os peixes, após certificados de que fizeram o que foram ali para fazer, deixam o local e voltam para o mar. Mas nem todos, há alguns que, exaustos da luta contra a correnteza e da ejaculação constante dos últimos dias, morrem ali mesmo e, religiosamente, dão de seu próprio corpo como alimento ao porvir das gerações.

Talvez mais impressionante do que a luta contra o rio seja o fato de que esses peixes, para procriar, voltem exatamente ao mesmo rio em que foram concebidos. Imaginem um diminuto peixe dentro da imensidão do oceano, sem placas que os orientem ou pontos de referência que os localizem, uma vez que, dentro do mar, qualquer coisa que permaneça imóvel por um longo período é consumido pelas algas, corais e outras coisas do gênero que fazem uma atualização constante da orografia e da decoração do lugar, tentando, após muito tempo e muito nado, voltar exatamente para seu ponto de partida. Talvez essa bússola interna, cujo Norte é seu ponto de partida, seja a compensação que a natureza achou por bem dar ao bicho que, não tendo intenção ou responsabilidade, se comprometeu desde os primórdios dos tempos a ser uma metáfora de completação de ciclos.

Ser concebido, nascer, deixar-se ao sabor do rio que vai e posteriormente ao sabor das marés que vão e vem, voltando, enfim, depois de muito nado, para o lugar onde tudo começou. E a volta é hercúlea, pois parece que nada ajuda o pobre peixe. Não havendo rota definida, uma vez chegando ao rio, este lhe barra o caminho com tanta intensidade que, mesmo que no final das contas chegue ao destino, que era primeiramente o lugar de onde nunca deveria ter saído, não lhe resta lá muito mais senão morrer.


Satisfeito com a definição do destino ictíaco, parei de refletir. Sentei-me e tirei a botina para colocar de novo meu pé esquerdo na água, pois minha intenção é estar com pelo menos metade do pé ao sabor do rio enquanto deixo meu corpo ao sabor do sono.

5 de novembro de 2010

Comendo, rezando e amando o Capitão Nascimento

Nesse feriado aproveitei para colocar em dia minhas responsabilidades cívicas, aquelas que todos temos que cumprir mesmo sem querer. Então, fiz duas coisas: votei e fui ver os filmes mais comentados do momento – Tropa de Elite 2 e Comer, Rezar e Amar.


Peguei uma seção dupla: mais cedo me alistei no BOPE e fui com o agora Tenente Coronel Nascimento atrás do novo inimigo. Ainda com sangue na lapela e com a vista cheia de realidade, jantei um belo arroz de polvo e depois me deixei levar pelos devaneios yuppies da bem sucedida em crise existencial Liz Gilbert. No fim, não resisti à tentação de imaginar o que aconteceria se os dois protagonistas se conhecessem.

Se a viagem da escritora ao exterior motivada por sua busca interior a trouxesse ao Brasil, poderia, gastando menos dólares ter aprendido tudo que aprendeu em um ano de gastança rodando o mundo. Na Bahia, aprenderia um novo idioma, o baiano, se empanturrando de iguarias tão ou mais calóricas que os diversos macarrões italianos. Poderia aprender a humildade sem lavar o chão dos templos hindus, mas pescando com lanças nua em pêlo nas comunidades indígenas no interior no Pará, seria uma bela cena. E, finalmente, encontrar seu guru no Rio de Janeiro – o Tenente Coronel Nascimento – no cubículo mais alto, do prédio mais alto do comando mais alto da inteligência policial carioca.

Obviamente o Coronel Nascimento não tem o charme desdentado do guru original, mas também tem a mesma rude sabedoria cujos preceitos básicos provavelmente levariam Liz às mesmas conclusões sem precisar de tanto tempo e num único lugar.

Seria ele a fazer com que ela superasse a propensão imperialista de todo americano e trocaria o peru da ceia de Ação de Graças pelas delícias de um churrasquinho de esquina em Padre Miguel sob fios de alta tensão apinhados de pombos com as mais poéticas misantropias. Lá se apaixonaria pela malemolência brejeira dos operários do pagode, não sem antes descobrir, em Mesquita, o porquê de a Chatuba ser o bonde dos careca (sic).

Seria ele a aproximá-la da fé mostrando que a entediante meditação poderia ser substituída pela pragmática seção de descarrego no templo maior em Del Castilho onde descobriria que o voto de verborragia tem mais poder sobre os ignorantes que o voto de silêncio e que num auditório com duas mil cadeiras poderiam ser encontrados mais de dois mil encostos.

Seria ele próprio, o Coronel Nascimento, a apresentar à moça o amor. Não esse amor hollywoodiano da qual ela fugiu por descobri-lo vazio, mas um amor com a singeleza do Méier, que a fará sonhar em ser apresentadora de telejornal. Um amor tijucano que se cultiva nas efervescentes beiras de piscina dos clubes e nas reluzentes praças de alimentação dos shoppings. E pegariam juntos o 607 chacoalhando até o ponto final, onde se matariam de amor no escurinho aconchegante do Largo do Estácio.

E, no final, ela encontraria no discurso dele logo após o incidente entre o Capitão Matias e o Beirada durante a ocupação de Bangu 1, aquelas palavras que a traduzirão por completo: você tem que aproveitar as chances que tem, mas lembrando que tem coisas que fazem um furo pequeno na entrada, mas o buraco de saída é do tamanho de uma tangerina.

29 de outubro de 2010

Primeiro Beijo

Esta noite sonhei com um primeiro beijo. Você vinha longe cercada por uma aura colorida e suave, quase levitando. Seu vestido parecia fluido, tremulando em volta do corpo, escondendo e revelando curvas; às vezes frágeis, às vezes generosas.
Seus olhos – achas ardentes a marcar a face clara e sublimada – deixavam um rastro de minúsculas pedras preciosas como uma corte de fadas seguindo pelo caminho anunciando tua aproximação. Deles partia um olhar infinito, misterioso e corrosivo. Úmido apesar de petrificado no meu e prestes a derramar-se em júbilo.

Vinha com as mãos estendidas como quem distribui dádivas, compartilha calor e abençoa condenados. A sombra dos seios a marcar rijos o caimento do tecido evanescente. Finalmente parou diante de mim colocando-me em estado de epifania. Vi de muito perto a tempestade de cabelos escuros escorrendo em cachoeira sobre os ombros eternos e o colo macio.

Entreabertos como buracos-negros, nossos lábios se atraíram numa gravidade lasciva e o impacto de um milhão de estrelas me cegou. Não fechei os olhos e, mesmo cego, continuei vendo você.

Unimo-nos por um momento que passou longo demais para ser lembrado por inteiro e demasiadamente fugaz para ser aproveitado por completo. Corações pararam. Morri um pouco e renasci acordado, não querendo voltar para o sonho, mas me certificar de que seu primeiro beijo do dia fosse tão intenso e inesquecível quanto fora o meu.

25 de outubro de 2010

Celas de Aniversário

Pelas barras das celas do pavilhão cinco já havia corrido sangue demais. No piso de ardósia estavam marcadas como tatuagens de sangue indeléveis as tentativas frustradas de fugas e rebeliões passadas. Ainda era possível encontrar um dente perdido nos cantos dos degraus sob os corrimãos de aço fundido. Não havia cárcere naquele andar que não tivesse presenciado gritos de dor e choros sufocados de ira.


Sob essa atmosfera eram tratadas as tortas índoles daninhas à sociedade: oito detentos cujos crimes expiavam vestindo com o cinza de seus uniformes os longos dias cativos. As refeições frugais evitavam a preguiça, pois suas forças eram usadas para o trabalho na fábrica de tijolos que o presídio mantinha: seus esforços ajudariam a construir a sociedade e não mais destruí-la. Os banhos de sol eram curtos e as visitas escassas. Nesses dias específicos, seus corações empedernidos se amoleciam pela presença de um ente próximo (que poderia ser uma mãe arrependida ou um vizinho apiedado) ou pela simples ausência de alma que os quisesse bem ou mal. A sensação de abandono era trágica e, somada ao discurso dos psicoterapeutas que os acompanhavam, virava argumento motivador de mudanças de hábito, de amizades e de princípios.

O processo de domar essas pessoas com características tão extremas precisava utilizar-se de todas as oportunidades para a construção de símbolos que os fizessem produzir o esforço necessário para a mudança. Se um filme era projetado numa seção de cinema, sua mensagem deveria ter um conteúdo construtivo para o processo. A biblioteca exclusiva do pavilhão cinco encerrava obras de superação e perseverança. Uma orquestrada lavagem cerebral era posta em prática naquele pavilhão com resultados mais do que comprovados.

Nas paredes dos corredores de acesso às celas, rostos expunham esse sucesso. Albely de Souza, condenado a 19 anos de reclusão por tráfico de estupefacientes. Atual proprietário do hotel Alma Peregrina. Caetano Morais, condenado a 16 anos de reclusão por utilização de inimputáveis para prática de homicídio doloso. Atual chef do restaurante Ponte do Amanhã. E muitos, muitos outros exemplos de correção conseguidos pela instituição penal.

Os oito apocalípticos aspirantes a integrados, atuais moradores transitórios do pavilhão cinco, lutavam diariamente contra suas inclinações para, um dia, terem seus retratos pendurados naquelas paredes. Mas um deles pretendia algo diferente. Algo que o elevasse à condição transcendente de messias salvador.

Condenado por formação de quadrilha, uma condenação aparentemente menor em comparação às dos outros detentos, Ramiro foi o responsável pela organização criminal mais longeva e violenta do bairro onde morava. Sob seu comando estiveram onze meliantes responsáveis por crimes das mais diversas naturezas. Era um líder nato e, como tal, tinha a eloqüência necessária para aliciar tanto marginais quanto almas retas para seus esquemas. Conhecia a todos e mantinha-os perto fazendo-os acreditar que eram seus amigos. Era muito bom nisso.

Com sua capacidade ímpar de angariar informações, Ramiro descobriu que haveria algum evento interno daqui a três meses. Seu raciocínio rápido cruzou dois dados importantes que culminariam numa fuga perfeita: distração no mês de seu aniversário. Sairia da cadeia e comemoraria seus vinte e sete anos dentro do seu antigo covil, já preparando o próximo golpe.

Pôs mãos à obra e levantou o necessário: mapas, plantas, bilhetes, favores e concessões, tudo foi feito. Desenhou o plano e o caminho que faria através dos dutos de esgoto, as galerias pluviais e os corredores elétricos por sob a carceragem. Pronto. Precisaria de exatamente oitenta e sete dias entre o início das operações e a saída ao ar livre no dia do seu aniversário.

Apenas os mais confiáveis colegas de presídio sabiam do planejamento. Por mais que se sentisse auto-suficiente, teria que compartilhar algumas informações para conseguir privilégios e, no fundo, se sentir seguro, mas, principalmente, para ter de quem se vingar caso algo saísse do seu controle.

Como um bom gerente de projetos, foi ajustando alguns planos e se colocando algumas metas intermediárias, até que no octogésimo sexto dia, conseguiu chegar à saída de esgoto que precisava. Ela estava lá, disponível e desguarnecida. Apenas um empurrão o separava da sua liberdade. Nesse dia, voltou para dentro de sua cela com um sorriso estampado no rosto. Faria as coisas agora devagar. Sua última refeição em cativeiro a degustaria com calma, como se já estivesse na laje do seu barraco com vista para o mar.

No dia seguinte, com todos os presos em suas devidas celas, viu o movimento dos guardas no horário combinado em direção ao tal evento. Esperou ansioso até que se trancafiasse o último cadeado e engendrou seu plano. Entrou pela privada contorcendo-se pelo sifão, vocês não sabem a bitola dos canos de esgoto dessas instalações hoje em dia e o quanto um perito em fugas pode dobrar-se na direção de seu objetivo. Passou do esgoto para a rede pluvial, desta para as galerias e de lá para os corredores elétricos, como havia pensado. No fim de um corredor, as luzes entravam em fachos redondos por entre os buracos da pesada tampa de aço no teto do corredor. Subiu uma pequena escada e certificando-se que a luz era somente a da lua, forçou o pesado aço com os ombros, deslocando a tampa e, finalmente, fitou a amplitude do céu salpicado de estrelas.

No último impulso, aquele que damos para colocar o corpo todo para fora de um buraco onde não queremos estar, foi surpreendido por uma forte luz. O holofote havia sido ligado. Alguém o tinha delatado. Imóvel, não ouviu sirene, nem gritos de “pare” nem estampido de tiros, mas um coro dissonante de vozes conhecidas cantando “parabéns a você” enquanto as luzes da festa ao ar livre acendiam e revelavam qual era o inusitado evento em que guardas estariam no dia de seu aniversário.